Sinopse
H vrias geraes, terras e ttulos de nobreza foram concedidos  famlia Aincourt pela sua lealdade ao rei. A antiga abadia Darkwater, no entanto, veio com uma
maldio: nenhum Aincourt que a possusse conheceria a felicidade.
Devin Aincourt, conde de Ravenscar, jamais pediu permisso para ser o que  - um verdadeiro libertino. Renegado pelo pai, Devin  feliz em sua existncia amaldioada,
vivendo-a de forma hedonista, gastando todo o dinheiro herdado e no dando a menor ateno  administrao de Darkwater,  beira da runa. At que um dia, sua me
implora para que ele recupere a fortuna e o nome da famlia e se case com uma rica herdeira americana. Acreditando ser apenas uma unio no papel, Devin concorda
em casar-se com Miranda. No entanto, o que ele no imagina  que esta estrangeira decidida e autntica tem seus prprios planos: restaurar Darkwater, tornar a propriedade
rentvel novamente, arrancar o conde das garras da amante e ganhar seu corao. Mesmo que para isso tenha de arriscar a prpria vida diante de um inimigo desconhecido,
sob o risco de se abater tambm sobre ela uma maldio eterna.
Em A manso dos segredos, primeiro livro da Trilogia dos Aincourt, Candace Camp mistura drama e suspense com pitadas de humor e boas doses de paixo, presenteando
o leitor com personagens marcantes em uma histria de amor inesquecvel.
CANDACE CAMP no se lembra de quando esteve alheia  criao de histrias. Nascida em uma famlia ligada aos jornais dirios - a me era reprter, e o pai, gerente
financeiro do jornal texano Amarillo -, Candace comeou a colocar as histrias no papel aos dez anos. Desde ento, escrever passou a ser seu hobby favorito. Hoje,
seus romances so reconhecidos mundialmente. No Brasil, j foram lanados Escndalo e Indiscreta.

Leia tambm:
Escndalo, de Candace Camp e Um romance conveniente, de Stella Cameron
A Manso dos Segredos
Traduo: Renata Pettengill
HARLEQUIN B O O K S
Rio de Janeiro 2006
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Camp, Candace
C193m A manso dos segredos
; traduo de Renata Pettengill. - Rio de Janeiro: HR, 2006. 400p.
Traduo de: So wild a heart Continua com: O castelo das sombras ISBN 85-7687-222-6
1. Romance americano. I. Pettengill, Renata. II. Ttulo. 06-2772
CDD - 813
CDU-821.1 ll(73)-3
Ttulo original norte-americano
SO WILD A HEART Copyright (c) 2002 by
Arte-final de capa: Simone Villas-Boas
Editorao eletrnica: Ventura Artes Grficas Ltda.
Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, sem autorizao prvia por escrito da editora, sejam quais forem os meios empregados.
Todos os personagens neste livro so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.
Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa cedidos pela Harlequin Enterprises II B.V. para EDITORA HR LTDA.
Rua Argentina 171, parte, So Cristvo
Rio de Janeiro, RJ - 20921-380
Impresso no Brasil ISBN 85-7687-222-6
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Captulo 1

Ela tentava alcan-lo, os braos esticados, os olhos arregalados e suplicantes, a boca contorcida em um esgar fatal. Estava plida, a pele alva exibindo um tom
acinzentado, a gua encobrindo sua pele e roupas. Algas marinhas enroscavam-se em seu dorso, parecendo pux-la para baixo em guas turbulentas.
- Devi Ajude-me! Salve-me! - Suas palavras agudas ecoaram pela escurido.
Ele inclinava-se para resgat-la, mas suas mos estavam a alguns centmetros das dela, e no conseguia deslocar-se para a frente. Esticava cada fibra de seu corpo,
mas ela continuava de maneira frustrante fora de alcance.
Ela afundava nas guas escuras, os olhos se fechando.
- No! - gritou ele, tentando resgat-la em vo. - No! Deixe-me ajud-la!
Os olhos de Devin abriram-se bruscamente, a princpio desorientados, mas, aos poucos, adquirindo compreenso. Sonhara mais uma vez com ela.
- Deus! - tremeu, sentindo um calafrio, e olhou em volta. Demorou um instante para que percebesse onde estava. Cedera ao sono sentado em uma cadeira do quarto, vestido
apenas com o robe-de-chambre. Uma garrafa de brandy e uma taa bojuda graciosamente inclinada repousavam na mesinha ao lado da poltrona. Ele serviu-se da bebida,
as mos tremendo
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de tal forma que a garrafa batia na borda da taa, produzindo um som agudo.
Sorveu rapidamente um bom gole, aquecendo-se ao sentir o lquido ardente descer pela garganta e explodir no estmago. Passou a mo pelos cabelos negros e densos
e bebeu outro gole.
- Por que voc no me contou? - murmurou ele. - Eu teria ajudado.
Ele ainda sentia frio, apesar da ajuda do brandy. Levantou-se e caminhou at a cama, um andar levemente instvel. Quanto teria bebido ontem  noite? No conseguia
lembrar-se. Obviamente, fora o suficiente para faz-lo dormir sentado e no percorrer os poucos passos que o separavam da cama. No era para se espantar, pensou,
que tivesse tido pesadelos.
Arrastou-se para a cama, as cobertas caprichosamente arrumadas por seu criado antes de ir embora na noite anterior, e enroscou-se sob elas. Gradativamente, sob o
efeito do brandy e do calor das cobertas, a tremedeira diminuiu, at quase parar. Era junho, nem to frio assim, at para uma pessoa vestida, mas Devin sabia que
esse frio enregelante tinha mais relao com seu pesadelo mais persistente e frustrante do que com a temperatura.
Havia anos. Ele imaginara que o sonho j teria cessado a essa altura. Mas tinha como certa a recorrncia eventual em alguns meses, pelo menos duas ou trs vezes
por ano. Devin fez uma careta. No parecia ser capaz de manter um centavo nos bolsos, mas conseguia prender-se a um mesmo pesadelo por anos.
O tremor cessou de uma vez por todas, e seus olhos acabaram se fechando. Pelo menos, aps todos esses anos, conseguia
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dormir depois do sonho ruim. Quando comeou a t-lo, ficava acordado o resto da noite. O tempo pode no curar todas as feridas, mas, aparentemente, com uma pequena
ajuda de brandy, pode torn-las mais facilmente esquecveis. Com um leve suspiro, caiu no sono.
Vrias horas depois, o sol j no cu h algum tempo, o criado mexeu delicadamente em seu brao e sussurrou:
- Senhor. Senhor. Sinto acord-lo, mas lady Ravenscar e lady Westhampton esto l embaixo, perguntando pelo senhor.
Devin abriu um dos olhos e os revirou para focalizar o criado, com o olhar penetrante e ferino, permanecendo deitado num dos lados da cama.
- V embora - murmurou ele, sem rodeios.
- Sim, meu senhor, compreendo.  terrivelmente cedo. O problema  que sua senhoria est ameaando subir aqui e acord-lo. Acredito ser inapropriado deter sua me
fisicamente.
Devin suspirou, fechando os olhos, e revirou-se, de barriga para cima.
- Ela est lamuriosa ou beligerante?
- No h sinais de lgrimas, senhor - respondeu-lhe o criado, franzindo o cenho ao ponderar. - Diria mais... est determinada. E trouxe lady Westhampton com ela.
- Humm. Tudo fica mais difcil quando minha irm junta foras com ela.
- Certo, senhor. Devo preparar suas roupas?
Devin resmungou. Sentia-se um trapo. A cabea estava latejando, o corpo doa e a boca tinha um odor to desagradvel quanto o de uma lata de lixo.
- Onde estive ontem  noite, Carson?
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- Certamente eu no saberia dizer, senhor - retrucou o criado com neutralidade. - Creio que o sr. Mickleston o acompanhava.
- Stuart? - Devin trouxe  mente a fraca lembrana da visita de seu amigo de longa data. Parecia que Stuart fora atipi-camente generoso. Isso explicava a ressaca.
Eles devem ter visitado metade dos inferninhos de Londres na noite anterior, comemorando sua prosperidade e riqueza, e, sem dvida, gastando pelo menos metade desta.
Ele sentou-se vagarosamente, lanando as pernas para fora da cama, e aguardou a nsia de vmito cessar.
- Est bem, Carson. Prepare minhas roupas e providencie gua para me barbear. Por acaso minha me mencionou o que desejava?
- No, senhor. Falei eu mesmo com ela, que se mostrou bastante reticente sobre o propsito de sua visita. Disse apenas que era imprescindvel que o visse.
- Sem dvida. - Olhou para o criado. - Creio que uma xcara de ch forte me faria bem.
- Certo, senhor. Irei prepar-lo.
Trinta minutos depois, barbeado, impecavelmente vestido com o terno preto liso e a camisa branqussima que favoreciam sua aparncia, o n da gravata cuidadosamente
abaixo do queixo, Devin Aincourt abriu caminho escada abaixo, representando, em cada centmetro do seu ser, sua condio de sexto conde de Ravenscar.
Adentrou a sala de estar, decorada, com bom gosto em tons masculinos de bege e marrom, pela irm que ali estava, agora, sentada. Uma mulher atraente, com quase 30
anos, de cabelos
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pretos, olhos verdes, feies bem-feitas caractersticas da beleza da famlia Aincourt, e ainda possua uma covinha na face. Ela olhou para o irmo e sorriu.
- Dev!
- Rachel. - Ele retribuiu o sorriso, apesar do leve latejar na cabea. Ela era uma das poucas pessoas que lhe eram caras. O sorriso murchou quando se virou para
a me, uma mulher loira e esguia cujo excelente gosto para roupas e carruagens reais elevavam sua aparncia para alm de uma beleza ordinria. Devin inclinou-se
formalmente para cumpriment-la. - Mame. Um prazer inesperado.
- Ravenscar. - A me cumprimentou-o com um gesto de cabea. Ela sempre preferiu a formalidade mesmo no relacionamento com a prpria famlia, acreditando que um comportamento
contrrio iria diminuir-lhe a importncia. E, mesmo levando-se em conta o que acontecera  famlia Aincourt no decorrer dos anos, eles eram importantes.
- Sinto-me aliviada por v-lo vivo. -Lady Ravenscar prosseguiu, secamente. - Dada a reao de seus criados  idia de receber-nos, comecei a imaginar onde estaria.
- Estava dormindo. Meus criados ficam compreensivelmente relutantes em tirar-me da cama.
A me levantou as sobrancelhas.
-  quase uma hora da tarde.
- Exato.
A velha senhora suspirou resignadamente.
- Voc  um selvagem. Mas esta no  a questo agora.
- Presumo que no. Que assunto exatamente a traz a este covil de iniqidade? Deve ser algo de extrema urgncia.
Lady Ravenscar fez um pequeno muxoxo de desagrado.
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- Suponho que esta seja sua idia de gracejo.
- Muito fraca, tenho de admitir - disse Ravenscar, com um tom de voz entediado.
- O que me traz aqui  o seu casamento. As sobrancelhas dele se arquearam.
- Meu casamento? Sinto dizer, mas no estou ciente de qualquer casamento.
- Pois deveria - retrucou a me, secamente. - Voc est precisando desesperadamente de um. J deveria estar selecionando uma garota adequada no decorrer dos ltimos
anos. Mas como no tomou qualquer atitude a esse respeito, eu mesma encontrei uma para voc.
Devin lanou um olhar para a irm e murmurou:
- Et tu, Rachel?
- Dev... - comeou Rachel, com um tom de voz desanimado, parecendo sem jeito.
- No faa graa - interrompeu lady Ravenscar, abruptamente. - Falo srio, Devin. Voc deve se casar, e logo, ou acabar preso por inadimplncia.
- Ainda no estou rastejando - disse ele, calmamente.
- Voc no est longe disso, se  que entendi corretamente essa expresso vulgar. Sua propriedade est em pssimo estado e Darkwater est literalmente caindo sobre
nossas cabeas. Algo de que voc teria conhecimento se fizesse o mnimo esforo para visitar suas terras.
- Ela fica muito distante e no gosto de visitar lugares que esto prestes a cair sobre minha cabea.
- Ah, sim,  fcil para voc fazer piada a respeito - retrucou lady Ravenscar, ressentida. - No  voc quem tem de viver l.
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- Voc no tem de viver l - argumentou ele. - Na verdade, creio que est residindo em Londres no momento, no  mesmo?
- Alugando uma casa para a estao - disse a me, com o tom de quem est sofrendo a mais grave humilhao. -J tivemos uma casa na cidade, um lugar agradvel onde
podamos dar as festas mais elegantes. Agora consigo alugar uma casa por apenas dois meses, e de tal tamanho que mal posso receber oito pessoas para jantar. J no
dou uma festa digna h anos.
- Voc poderia morar comigo - disse-lhe Rachel.
- J vivo o suficiente da caridade de seu marido. Devo a ele e a Richard as roupas que visto. Isso j  o bastante sem que Westhampton ainda tenha de me alojar tambm.
A responsabilidade  de Devin. Ele  o conde de Ravenscar.
- Ento devo me casar para dar a voc uma casa na cidade?
- No seja insensvel, Devin. No combina com voc. Voc tem um dever, comigo e com o seu nome. Com voc mesmo. O que acontecer a Darkwater? E ao nome Aincourt?
 seu dever casar-se e dar-nos herdeiros. De que outra forma poderamos dar seguimento ao nome e ao ttulo? E a casa? Ela existe desde que a rainha Elizabeth era
criana. Voc vai deixar que desmorone em completa runa?
- Tenho certeza de que o ttulo continuar existindo.
- Ah, sim, se voc no se importar que aquele Edward March, com cara de rato, o suceda em seu ttulo. Um primo em terceiro grau. E ele no tem a menor idia de como
conduzir a si mesmo, garanto-lhe.
- Eu achava que voc pensava que eu no tinha a menor idia de como conduzir a mim mesmo.
A me lanou-lhe um olhar direto e demorado.
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- Voc no tem. Mas pelo menos  o seguinte na linha de sucesso. E no se parece com uma doninha. - Ela suspirou.
- Di pensar em um Ravenscar roedor. No importa o que digam por a, pelo menos os condes de Ravenscar sempre foram criaturas belas.
- Ento devo ser o cordeiro sacrificial no altar da famlia,  isso?
- No h necessidade de ser dramtico. No  como se isso no acontecesse todos os dias. Pares amorosos so para as classes menos abastadas. Pessoas como ns fazem
alianas. Foi o que seu pai e eu fizemos. E veja suas irms. Elas se casaram como deveriam. No reclamaram. Simplesmente fizeram algo necessrio para a famlia.
Como chefe da famlia, no vejo como voc poderia agir diferente.
- Ah, mas fazer diferente  algo em que sou notadamente bom.
- Voc no vai desviar minha ateno com suas piadas - disse a me, apontando o indicador na direo dele.
-J percebi - respondeu Devin, enfastiado.
- Voc gastou toda sua herana desde que colocou as mos nela - continuou lady Ravenscar, incansavelmente.
- Como ousa pensar que no deveria ser o responsvel por recuper-la?
- Mame, isso no  justo! - gritou a irm. - Voc sabe que todos os condes de que se tem notcia esbanjaram dinheiro. A culpa no deve ficar apenas nos ombros de
Dev. Se voc bem se lembra, foi papai quem, na verdade, vendeu a casa na cidade.
- Lembro-me bem, obrigada, Rachel. Voc tem razo. Os Aincourt nunca foram bons com dinheiro. E por esse motivo
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sempre se casaram bem. - Tendo dado seu recado, ela pousou as mos no colo e esperou, observando Devin.
Ele massageou a tmpora, onde o latejar havia aumentado tanto em velocidade como em intensidade.
- E quem  essa com quem deseja que me case? No  aquela garota de dentes separados da Winthorpe, espero.
- Vivian Winthorpe! Devo dizer que no. Por ora, o acordo que o pai dela oferece faria pouco mais que pagar suas dvidas. Alm disso, os Winthorpe jamais aceitariam
associar o nome deles ao seu. Eles no toleram escndalo. Dificilmente pode-se esperar que um pai concorde em dar sua filha a um homem que... bem, que tem tido o
tipo de amizades que voc teve por anos. - Os lbios de lady Ravenscar apertaram-se expressivamente.
- Quem, ento? Uma viva, suponho.
- Estou certa de que voc conseguiria envolver uma delas se se empenhasse nisso - concordou a mulher, com indiferena. - Mas seria preciso cortej-la e, francamente,
duvido que voc conseguisse levar essa tarefa a cabo.
- Sua confiana em mim  impressionante. A me continuou, ignorando o sarcasmo:
- A garota em que estou pensando  perfeita. Sua fortuna  imensa, e o pai dela est entusiasmado com a unio. Ele sonha com que a filha seja condessa. Voc deveria
ter visto o modo como seus olhos brilharam quando comecei a falar de Darkwater. Aparentemente, no h nada que ele queira mais na vida do que a oportunidade de restaurar
a antiga manso.
- Voc est falando de uma burguesinha? - perguntou ele, surpreso.
- No. Uma americana.
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- O qu? - Ele a encarou, confuso. - Voc quer que eu me case com uma herdeira americana?
-  a situao perfeita. O homem fez uma quantidade absurda de dinheiro com peles ou algo do gnero e est querendo gast-lo na propriedade. Ele est enlouquecido
atrs de um ttulo. E, pelo fato de no morarem aqui, no sabem nada sobre sua reputao.
- Voc me surpreende. Quer que eu me amarre  filha de um peleteiro qualquer, algum que no sabe sequer falar ingls corretamente que, com certeza, no tem a menor
idia de qual talher usar  mesa e que, provavelmente, deve ter a aparncia de quem veio do interior.
- No tenho idia de sua aparncia ou de como age - respondeu lady Ravenscar -, mas tenho certeza de que Rachel e eu podemos dar um jeito nela. Se se mostrar um
constrangimento completo... bem, estou certa de que ficar feliz vivendo em Derbyshire com o pai enquanto coloca Darkwater em ordem. Honestamente, Devin, voc no
percebe que qualquer pessoa conceituada neste pas sabe que voc est mergulhado em pecado? Di em mim, como me, ter de dizer isso, mas nenhuma inglesa de respeito
estaria disposta a se casar com voc.
Devin no respondeu. Sabia tanto quanto sua me que as palavras dela eram a mais pura verdade. Desde o incio da vida adulta, ele levara uma vida que escandalizava
a maioria das pessoas de sua classe social. Havia vrias anfitris que no o recebiam, e as demais s o faziam porque ele era, no fim das contas, um conde. Felizmente,
no desejava conviver com o restante da nobreza, e a desaprovao desta no o afetava em nada. H alguns anos, aceitara o fato de que sua me compartilhava a
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mesma opinio da sociedade a respeito dele - e seu pai, mais do que ningum, o havia considerado uma alma perdida.
- No sei por que voc deveria se preocupar com as inabili-dades sociais da americana - continuou a me. - Sou eu a nica que poderia ter a reputao arruinada por
uma nora rude.
- Deixe-me lembr-la de que sou eu quem estar legalmente ligado a ela. J posso at visualiz-la: simplria demais para arranjar um marido por l, mesmo com todo
seu dinheiro, usando roupas que j saram de moda h dez anos e sem um nico assunto interessante na mente.
- Francamente, Devin, tenho certeza de que voc est exagerando.
- Estou? Por que, ento, eles vieram para a Inglaterra  procura de um marido? Para encontrar algum com uma propriedade em runas e uma fortuna desfeita, suficientemente
desesperado para casar com qualquer uma, desde que endinheirada! Realmente, me, est fora de cogitao. No farei isso. Encontrarei um modo de ajeitar-me. Sempre
encontro.
- Apostando? - retorquiu a me. - Penhorando seu relgio e as abotoaduras de diamantes do seu av? Ah, sim, sei como voc tem se virado nos ltimos meses. Voc vendeu
tudo o que podia ser vendido e que tivesse algum valor. Demitimos metade dos criados de Darkwater. Voc tem levado uma vida decadente, libertina e extravagante,
Devin, e essa  a conseqncia.
Devin virou-se na direo da irm, que havia ficado em silncio durante a maior parte da conversa.
-  isso o que voc quer para mim, Rachel? Que eu me case com alguma caipira que nunca vi na vida? Ter o mesmo tipo de casamento feliz que voc tem?
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A irm retesou-se, lgrimas brotando dos olhos.
- Isso  cruel e injusto! Tudo o que quero  sua felicidade. Mas como voc vai ser feliz quando tiver de desistir desta casa e viver em um apartamento de um s cmodo?
Voc sabe quanto dinheiro costuma gastar, Devin. Ouso apostar que  mais do que o que Strong manda para voc da propriedade, e que isso s vai diminuir cada vez
mais.  preciso reinvestir parte desse dinheiro em suas terras se quiser manter a lucratividade delas, e nem voc nem papai jamais fizeram isso. Sei que quando papai
cortou relaes com voc, voc se virou com suas habilidades nos jogos e com o dinheiro que Michael e Richard lhe deram. Mas no vai querer fazer isso para o resto
da vida.
Ele desviou os olhos para longe dela, assentindo com seu silncio.
- Sinto muito, Rachel - disse ele, por fim. - Eu no deveria ter dito isso. - Lanou um olhar para a irm e um leve sorriso abrandou seu rosto. - Estou com uma dor
de cabea terrvel, e isso me incita ao sarcasmo. Sei que voc sacrificou sua felicidade em nome da famlia.
- Que bobagem - interveio lady Ravenscar, exasperadamente. - Rachel  uma das mulheres mais invejadas de Londres. Ela possui uma casa extraordinria, um guarda-roupa
adorvel e uma mesada bastante generosa. Um grande nmero de mulheres ficaria muito feliz de ter feito este tipo de "sacrifcio".
Devin e Rachel entreolharam-se, e um brilho irnico relu-ziu nos olhos deles. Felicidade, para lady Ravenscar, consistia, mesmo, em tais detalhes.
- Quanto a voc, Devin, no estou pedindo que pea a moa em casamento. Estou apenas pedindo que considere
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a proposta. Darei um jantar hoje  noite em minha casa e convidei-a. O mnimo que pode fazer  ir ao jantar e conhec-la.
Devin deixou escapar um grunhido baixo. Um jantar na casa de sua me estava em sua lista de coisas menos interessantes a fazer quase na mesma posio de ser apresentado
 herdeira americana.
- Tambm estarei l - Rachel interveio, animadamente. - Diga que ir, Dev.
- Oh, est bem - disse ele, aborrecido. - Irei hoje  noite e conhecerei a garota.
A "garota" - para surpresa total de lorde Ravenscar, se soubesse - estava naquele mesmo instante ocupada em uma guerra verbal com sua famlia a respeito do mesmo
assunto.
- Papai - disse Miranda Upshaw, com firmeza. - No me casarei com um homem que nunca vi, no importa o quo vido o senhor esteja para colocar as mos em uma propriedade
britnica. Isso  absolutamente medieval.
Ela cruzou os braos e olhou para o pai, de modo implacvel. Miranda era uma mulher bonita, com olhos grandes e expressivos, em um tom de cinza, e com longos cabelos
castanhos. A estatura era pequena e compacta, bem torneada pelo vestido azul de cambraia com cintura alta, mas a personalidade era tal que as pessoas quase sempre
ficavam com a impresso de que Miranda era uma mulher alta.
Joseph Upshaw virou-se para contemplar a filha, os braos e o rosto posicionados como um reflexo dela no espelho. Ele era um homem de dorso robusto, no to mais
alto que a filha, cujo suave porte fora obviamente herdado da me. Estava
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acostumado s coisas do seu modo, da mesma forma que a filha, e por isso ficavam em p de guerra com freqncia.
- No estou pedindo que se case com ele amanh - disse ele, ponderando. - Tudo o que tem a fazer  ir  casa da me dele hoje  noite para ser apresentada a ele.
Depois, poder levar o tempo que quiser para conhec-lo melhor.
- Duvido que v querer conhec-lo melhor. Ele provavelmente tem pernas finas,  vesgo e... e tem pouco cabelo. Por que outro motivo sua famlia estaria to vida
em cas-lo? Mesmo sem dinheiro, um conde  considerado um bom partido. Com certeza, deve haver ingleses ricos que estariam dispostos a vender as filhas por um ttulo.
- Voc est afirmando que eu a estou vendendo? - retrucou o pai, indignado. - Uma coisa muito boa de se dizer de um homem que est tentando dar a voc um dos melhores
e mais tradicionais nomes neste pas. Se h alguma venda nessa histria, sou eu que o estou comprando para voc.
- Mas eu no o quero. - Miranda sabia tanto quanto o pai que o que ele mais queria era comprar um genro para ele, em vez de um marido para ela. Desde que podia se
lembrar, Joseph era um angloflico, lendo tudo o que podia sobre a aristocracia inglesa, seus ttulos, suas histrias, suas propriedades. E era fascinado por castelos
e manses ingleses, e queria desesperadamente colocar as mos em uma dessas.
- Como voc pode recus-lo sem nem t-lo visto? - perguntou-lhe agora. - Ele  um conde. Voc seria uma condessa! Pense em como Elizabeth se sentiria. Assim que
ela estiver se sentindo melhor, contarei tudo para ela. Ela ficar encantada.
- Tenho certeza de que ficar - respondeu Miranda, secamente.
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Sua madrasta, Elizabeth, uma inglesa, era bem mais apaixonada pela idia de Miranda se casar com a nobreza inglesa do que Joseph. Ela mesma viera de uma "boa famlia",
coisa que dizia com prazer a qualquer um disposto a ouvi-la; e o marido incauto e impetuoso que a trouxera para Nova York, que acabara cometendo o descuido de pegar
um resfriado e morrer, deixando-a sozinha no Novo Mundo com uma filha pequena, viera de uma famlia ainda mais importante na escala social. Seu sonho era que a filha
Vernica, agora com 14 anos, vivesse no mundo da aristocracia britnica para debutar l, ficar ntima dos membros da sociedade e casar-se com um homem nobre. O mtodo
mais fcil de atingir esse sonho, decidira Elizabeth, seria Miranda se casar com algum dessa aristocracia e, ento, depois de alguns anos, apresentar Vernica 
sociedade.
- Voc sabe como gosto de Elizabeth - continuou Miranda. - Ela  a nica me que conheci e tem sido sempre muito boa para mim. - Com uma natureza gentil, fcil de
lidar e um tanto preguiosa, Elizabeth nunca tratou mal sua enteada nem tentou tirar-lhe o controle da casa. Na verdade, Elizabeth preferia deixar que outra pessoa
cuidasse de todos os detalhes incmodos relacionados  administrao de uma casa grande, com inmeros criados, porque isso permitia que ela se concentrasse em suas
"doenas". - E eu tambm amo Vernica.
- Sei que voc ama. - O pai deu um grande sorriso para ela. - Voc sempre foi como uma me para aquela criana.
- Mas isso no significa - continuou Miranda, com firmeza - que vou me casar com algum s porque Elizabeth quer que Vernica debute na sociedade londrina.
- Essa no  a nica razo - protestou Joseph. - H uma
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grande propriedade em Derbyshire. E uma casa. No um castelo, garanto-lhe, mas quase to grande quanto um. Darkwater. Eis a um nome para voc. Ele no evoca histria?
Romance? O conde de Ravenscar. Meu Deus, garota, seu corao est morto?
- No, papai, ele no est. E eu serei a primeira a admitir que este  um nome muito romntico, ainda que, devo comentar, um pouquinho assustador.
- Tanto melhor. Deve haver fantasmas l. - Seu pai pareceu animado com a idia.
- Que timo.
-  mesmo, voc no acha? -Joseph Upshaw estava imune a ironias naquele momento. Os olhos brilharam e o rosto se iluminou quando comeou a falar da casa na qual
passara a noite anterior conversando com lady Ravenscar. - A casa fora construda por um dos amigos e partidrios mais chegados de Henrique VIII. Ele construiu a
casa principal durante o reinado de Henrique. Depois, quando seu filho herdou-a e tornou-a ainda mais prspera, durante o imprio de Elizabeth, adicionou-lhe duas
alas, compondo a clssica manso eliza-betana em formato de E.  grande, mas est completamente em runa. Madeiras podres... tapearias rasgadas... pedras desabando.
- Ele descrevia os problemas da casa com entusiasmo, e completou: - E ns podemos restaur-la! Voc imagina que oportunidade? A casa, os jardins, a propriedade.
Ns poderamos reconstruir tudo.
- Isso parece maravilhoso - concordou Miranda, sendo sincera.
Imveis eram um de seus principais interesses. Durante os anos em que o pai lidou com John Jacob Astor - um senhor
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muito sagaz -, ela teve muitas conversas com ele e seguiu sabiamente seus conselhos, investindo muito dos lucros do pai em imveis em Manhattan. Os riscos j tinham
sido cobertos primorosamente, e Miranda estava certa de que iriam gerar mais lucro ainda no futuro. A especulao de comprar terras e vend-las, no futuro, com um
lucro alto, era divertida, mas o que ela gostava mais era de desenvolver projetos - comprar terra, construir algo nela e alugar para algum, ou investir nos planos
de expanso ou de criao de outra pessoa.
Assim, a idia de restaurar uma manso antiga para devolver-lhe a glria a seduzia, alm de ter vivido com o pai tempo suficiente para desenvolver grande interesse
pela histria e arquitetura britnicas. Mas isso no queria dizer que o prazer de reformar uma propriedade inglesa chegasse ao ponto de ter de se casar para adquiri-la.
Com o olhar de quem d a cartada final, seu pai continuou, orgulhoso:
- E h at uma maldio. Miranda arqueou as sobrancelhas.
- Uma maldio? Isso seria esplndido, tenho certeza
- Oh, sim, , de fato.  uma maldio maravilhosa. Havia uma abadia poderosa em Derbyshire, entende? Abadia de Branton. Durante a dissoluo dos monastrios, quando
Henrique VIII confiscou todas as terras e todos os bens da Igreja Catlica, ele confiscou essa abadia e deu-a a seu bom amigo Edward Aincourt. Bem, o abade em Branton
era um velho cabea dura, e no saiu de l assim, facilmente. Quando o colocaram  fora para fora da igreja, ele amaldioou o rei e Aincourt. A maldio incluiu
at mesmo as pedras da abadia, dizendo que nada jamais iria prosperar naquele lugar
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e "quem quer que vivesse sob aquelas pedras jamais conheceria a felicidade".
Ele olhou para a filha, triunfantemente.
- Bem. Essa  uma maldio impressionante - Miranda admitiu. Conhecia muito bem o amor de seu pai pelo drama e pelo romance para se surpreender com a idia de que
ele acharia uma casa arruinada e amaldioada o lugar perfeito para sua amada filha morar. Para Joseph Upshaw, um lugar como esse significava um tesouro.
- No  mesmo? Dizem que Capability Brown fez os jardins originais. Miranda... como voc pode deixar passar uma oportunidade como essa? No so s a casa e os jardins
que precisam de restaurao, sabe? Aparentemente, toda a propriedade est arruinada financeiramente. Voc poderia recuperar isso tambm. Poderia ser um de seus projetos.
Miranda riu.
- Isso tudo parece maravilhoso, tenho certeza, mas ainda h o fato de que, para colocar minhas mos na casa, na propriedade e em todo o resto, eu teria de me casar
com um completo estranho.
- Ele no teria mais de ser um estranho quando vocs viessem a se casar - observou Joseph. - Vocs poderiam ter um noivado longo, se desejassem. Ns poderamos comear
a trabalhar na casa nesse meio-tempo.
Miranda sorriu para o pai e balanou a cabea.
- No me casarei, papai, s porque voc se sente entediado. Isso realmente  querer se engajar num projeto...
- Mas este seria o projeto de uma vida! E no  s porque estou entediado desde que vendi tudo para o sr. Astor. Voc sabe que tenho vontade de colocar minhas mos
em uma casa antiga
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e grande como aquela h anos. - Ele fez uma pausa, pensando nela, e ento continuou com um tom lisonjeiro. - De qualquer maneira, Miranda, meu amor, no estou pedindo
que se case com o rapaz hoje  noite. Tudo o que desejo  que o conhea. Que veja como ele . Que considere as possibilidades.
- Sim, mas a seguir voc vai me perguntar sobre como me sinto e dizer "Voc no poderia dar ao homem uma outra chance?". Vai querer que eu v conhecer essa Darkwater
e...
O pai adotou uma expresso indignada.
- Miranda! Voc diz coisas terrveis sobre mim. Como se eu fosse insistir com voc...
Miranda arqueou uma das sobrancelhas para ele, e Joseph teve a simpatia de sorrir.
- Bom, est bem. s vezes eu insisto com voc. Admito. Mas no desta vez, prometo. Apenas conhea o homem. Voc s ter de ir a um jantar elegante, conversar educadamente
e dar uma olhada nele. Voc no faria isso por Elizabeth e por mim?
Miranda suspirou.
- Oh, est bem. Acho que posso conhec-lo. Mas no estou prometendo nada. Voc entende?
- Claro, claro! - concordou Joseph, alegremente, indo na direo da filha e envolvendo-a com um abrao apertado.
- Ora, ora - disse uma voz suave, vindo da porta. - Qual  o motivo dessa alegria?
Os dois se viraram ao som da voz da sra. Upshaw. Miranda sorriu para a madrasta, enquanto Joseph abriu um largo sorriso. Elizabeth Upshaw era uma mulher loira e
baixa que agitava o ambiente ao andar - mos, cabelos, laos, fitas, as pontas do xale. Quando Joseph a conheceu, ela era uma bela jovem, mas, com o passar dos anos,
o tempo e o sedentarismo
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fizeram-na pagar o preo, alterando as linhas de seu rosto e de sua silhueta com gordura. Sempre com um chapu matronal na cabea e envolta em xales, parecia bem
mais velha do que realmente era. Ainda que apenas dez anos as separassem, muitos achavam, aps conhec-las, que Elizabeth era me de Miranda.
- Elizabeth! - exclamou Joseph, pegando a esposa pelo brao e acompanhando-a at o sof, como se estivesse muito fraca para andar. H muito que Elizabeth sofria
de uma srie de doenas reais e imaginrias. Seu marido seguia fielmente a imagem que fazia de si mesma como uma mulher frgil. Miranda no conseguia compreender
como Elizabeth gostava de passar a vida reclinada em sofs e camas, suportando as enfermidades com um sorriso brando. Mas se esse fora o modo que Elizabeth escolhera
para viver, isso no a incomodava. Gostava muito da madrasta, cuja bondade no corao compensava a ladainha de queixas dceis. - Algo espetacular aconteceu - continuou
Joseph, ajeitando a esposa no sof e certificando-se de que o xale de tric e os vrios travesseiros estavam bem arrumados em volta dela. - No quis acord-la esta
manh para contar-lhe, no do jeito como se sentia aps cruzarmos o Canal.
- Entendo. Sempre fui tristemente afetada pelo mal de mer - concordou Elizabeth Upshaw com voz fenecente. - Tenho pavor de ter de voltar a Nova York por causa disso.
- Talvez voc no precise voltar - disse Joseph, animadamente. - Ou pelo menos no por algum tempo.
- Por qu? O que quer dizer com isso?
-  bem possvel que Miranda se case com um conde.
- Um conde! - exclamou Elizabeth, sentando-se to ereta,
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movida por seu interesse, que seu xale escorregou dos ombros sem que ela percebesse.
- Papai! - disse Miranda, exasperada, colocando as mos nos quadris. - L vem voc de novo. Disse que iria conhecer o conde. No tenho inteno alguma de me casar
com ele.
- Mas um conde! - suspirou a madrasta, uma das mos indo ao peito como se a notcia fosse demais para seu corao. Ela arregalou os olhos para Miranda. - Voc poderia
ser uma condessa. Oh, Miranda, isso  mais do que desejei na vida.
Miranda suspirou, desejando no ter deixado seu pai convenc-la a conhecer esse nobre. Joseph no precisaria insistir com ela depois dessa notcia; a madrasta cuidaria
disso por ele.
Os olhos de Elizabeth brilharam, o rosto dela iluminou-se com uma animao fora do comum.
- Pense nas festas, no casamento. - Um pensamento lhe veio de sbito  mente, fazendo-a virar-se para o marido. - Eles tm casa na cidade?
- No. A condessa contou-me ontem  noite que seu esposo teve de vend-la. Creio que seu filho, o conde, mantm uma pequena casa de solteiro. Mas ela alugou uma
para a estao. Esse pareceu ser um assunto delicado para ela.
Elizabeth balanou a cabea, concordando com seriedade.
- H de ser. Ter de desistir de uma casa, com certeza magnfica, e contentar-se com um aluguel a cada vero. E tendo conscincia de que todos sabem... Pena no poder
realizar a festa do casamento em uma manso. - Ela se iluminou. - Mas voc pode comprar uma, querido. Digo, ns precisaremos ter uma casa em Londres, se pretendermos
ficar aqui por algum tempo e...
- Elizabeth, por favor - Miranda interrompeu, educadamente.
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- No planejo me casar com o conde de Ravenscar. Eu apenas disse...
- O qu? - A madrasta encarou Miranda, o rosto ficando subitamente plido e os olhos arregalados. - O que voc disse? Quem?
- O conde de Ravenscar - completou Joseph. - Esse  o homem de quem estamos falando e com quem Miranda vai se casar, digo, conhecer. Devin Aincourt  seu nome.
- Oh, meu Deus - Elizabeth levantou-se, as mos cruzadas. - Voc no pode se casar com ele. Esse homem  o demnio!

Captulo 2

Esse pronunciamento calou seus interlocutores. Miranda e o pai encararam Elizabeth. Diante de seus olhares, a madrasta ruborizou acanhada e recostou-se, de volta
 posio anterior.
- Ah, bem, quer dizer, no acho que seria uma boa idia Miranda se casar com ele. Ele , digamos assim, ele tem uma... uma reputao ruim.
- Voc o conhece, querida? - perguntou o marido.
- Oh, no. Eu no pertencia ao crculo dele, obviamente. Mas... ouvi falar dele. Todos ouviram falar dele. Possua uma reputao infame. Isso foi antes de ser conde.
Seu pai era o conde de Ravenscar na poca.
- O que havia de errado com ele? - perguntou Miranda, curiosa. - O que ele fez?
- Ah, as coisas corriqueiras que jovens nobres fazem, imagino - respondeu Elizabeth, vagamente. - Nada que seja apropriado para seus ouvidos.
Miranda fez uma careta.
- Ora, Elizabeth, no seja convencional. Tenho 25 anos e no sou nem um pouco ingnua. No vou ficar chocada.
- Sim, Elizabeth, o que ele fez? - Joseph atiou.
- Bem, ele jogava e... associava-se com tipos inapropriados. Os dois continuaram na expectativa, e como Elizabeth no acrescentasse mais nada, Miranda perguntou,
desapontada:
- Isso  tudo?
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Elizabeth se mexeu, sem jeito.
- Dizem que ele era - sua voz ficou mais baixa - um dom-juan. Seduzia jovens mulheres, desencaminhava-as.
Ela ruborizou ao ser to direta e comeou a abanar o leque.
- R! - Joseph deixou escapar uma risada curta. - Gostaria de v-lo tentar qualquer coisa com minha Miranda. Alm disso, se eles se casarem, no h por que se preocupar
com a possibilidade de ele arruinar a reputao dela.
- Suspeito que Elizabeth esteja mais preocupada com a deslealdade dele, papai - Miranda observou, sarcasticamente.
- Desleal? Com voc? -Joseph uniu as sobrancelhas e repetiu: - Gostaria de v-lo tentar! Confie em mim, minha querida, garantirei que saiba o que dele  esperado.
- Nada  esperado dele - afirmou Miranda, categoricamente. - No me casarei com o conde.
-  claro, querida, que no; a menos que voc queira - respondeu Joseph, complacentemente. E virou-se para Elizabeth: - Alm do mais, Lizzie, isso aconteceu h muitos
anos. Ele era um garoto  poca. Muitos homens so fogosos na juventude, mas tomam jeito quando ficam mais velhos.
- Sim, eu sei - concordou Elizabeth, mas continuou com rugas de preocupao na testa.
- Alm disso, ns garantiramos que tudo estivesse perfeitamente acordado antes do casamento. Voc sabe que no permitiramos que um perdulrio colocasse em perigo
a fortuna de Miranda.
- No era na fortuna dela que eu estava pensando - retrucou Elizabeth com um toque atpico de aspereza. - Era em sua felicidade.
- Eu sei. - Tocada pelo fato de a madrasta estar colocando
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sua felicidade acima do prprio desejo de v-la casada com um membro da realeza, Miranda aproximou-se de Elizabeth e sentou-se a seu lado, pegando sua mo. - E agradeo.
Sinceramente.
- Miranda pode se impor com qualquer homem - disse Joseph, confiante.
- Sim, eu posso - respondeu Miranda com um sorriso. - E isso inclui voc... ento no v pensando que me dobrou. - E apertou a mo de Elizabeth. - Eu apenas concordei
em conhecer esse conde, mas no tenho qualquer inteno de me casar com ele, garanto-lhe.
A madrasta manteve a expresso preocupada.
- Mas voc ainda no o viu. Ele , bem, o tipo que pode mudar a opinio de qualquer pessoa.
- Bonito, ? - perguntou Joseph. - Isso  bom, no , Miranda?
- E charmoso. Pelo menos a meu ver - acrescentou Elizabeth.
- Isso foi h 14 anos - Miranda argumentou. - Quatorze anos de uma vida de excessos podem mudar bastante a aparncia de algum.
-  verdade. - Elizabeth se animou um pouco.
- De qualquer maneira, no me deixarei seduzir por um rosto bonito, fique ciente disso. Lembra-se de como aquele conde italiano tinha uma aparncia angelical? E
eu no fiquei nem um pouco tentada a aceitar sua proposta.
Elizabeth no pareceu se tranqilizar muito, mas sorriu levemente para Miranda.
- Eu sei. Ainda posso ver a surpresa no rosto dele quando voc o rejeitou.
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- E esse vai ficar com a mesma expresso - disse Miranda, confiante. - Voc ver.
Devin no conseguiu afastar da mente a histria da herdeira americana depois que a me e a irm foram embora. Por fim, pegou o chapu e saiu de casa. Caminhou, esperando
que o ar aliviasse a cabea ainda dolorida e atordoada mas, ao chegar no apartamento de Stuart, alguns minutos mais tarde, sentia-se pouqussimo melhor. O criado
de Stuart atendeu a porta e mostrou-se um pouco surpreso quando Devin sugeriu que acordasse o patro.
Com um suspiro de impacincia, Devin passou por ele e subiu as escadas, dois degraus de cada vez, na direo do quarto de Stuart. O criado correu para alcan-lo,
protestando, angustiado. O barulho despertou Stuart e, quando Devin abriu a porta e adentrou o quarto, ele estava sentado  cama, a touca de dormir cada de lado,
parecendo ao mesmo tempo contrariado e desnorteado.
- Ol, Stuart.
- Meu Deus, Ravenscar - respondeu o amigo, sem demonstrar qualquer apreo por sua visita. - Que diabos est fazendo aqui? Que horas so?
- So duas da tarde, senhor - informou o criado, retorcendo as mos. - Perdo, senhor, no consegui impedi-lo de entrar.
- Oh, pare. - Stuart fez um gesto com a mo para que o criado nervoso sasse do quarto. - No culpo voc. Ningum consegue deixar Ravenscar de fora quando ele decide
entrar. V preparar um ch para mim. No, faa caf. Bem forte.
- Muito bem, senhor. - O homem retirou-se servilmente do quarto.
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- Quando voc o contratou? - perguntou Devin, andando at a cadeira e deixando-se cair nela. - Sujeito nervoso.
- , eu sei. Creio que irei dispens-lo. Irei, sim - continuou Stuart, reflexivamente -, se ele no parar de estragar minhas "gravatas". Sinto falta de Rickman.
Maldito Holingbroke por roub-lo de mim.
- No se pode dizer que o roubou - Devin argumentou, ponderando. - Creio que ofereceu at pagamento ao homem.
Stuart fez uma careta, resmungando.
- Nenhuma lealdade. - Esfregou as mos no rosto e suspirou. - Diabos, Dev, o que est fazendo aqui? Estou com a mais cruel dor de cabea.
- Humm. Tambm no me sinto muito bem. Mas minha me e minha irm foram me visitar h uma hora.
- Nada que justifique castigar-me com sua presena - argumentou o amigo, racionalmente.
- Lady Ravenscar quer que eu me case. Stuart arqueou as sobrancelhas.
- Algum em particular?
- Uma herdeira americana. A filha de um comerciante de peles ou algo do gnero.
- Uma herdeira, hein? Algumas pessoas tm toda a sorte do mundo. Qual o nome dela?
- No tenho idia. No pretendo me casar com ela.
- Meu Deus, por que no? Voc est nas ltimas. Toda Londres sabe disso.
- Ainda no estou derrotado - protestou Devin. Stuart bufou.
- Voc tem dvidas de jogo com pelo menos trs cavalheiros de seu crculo de amizades. Sabe que seu nome vai ficar
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sujo se no lhes pagar logo. Noite passada tivemos de sair pela porta dos fundos de sua casa, se  que voc se lembra, porque o maldito cobrador estava rondando
a frente. Voc no precisa pagar a dvida que tem com um comerciante, obviamente... isso no arruinar seu nome. Mas  um grande aborrecimento esbarrar com esses
homens o tempo todo. Devin suspirou.
- Sei. Est pior do que antes quando papai cortou relaes comigo. Pelo menos naquela poca todos sabiam que eu receberia uma herana quando ele morresse. Entre
jogatinas e embromaes de pessoas, eu at que fui bem.
- No  a mesma coisa agora, porm. No h qualquer atenuante esperando-o no futuro. Vivo essa experincia h vrios anos... filho mais jovem, eles sabem que no
herdarei, nunca me do folga.  injusto, mas  assim que as coisas funcionam. Os alfaiates so os piores. Como se no os levasse a vrios novos negcios o uso que
fao dos seus ternos.
Devin sorriu, desanimado, diante da lgica do amigo.
- Isso  fato.  terrivelmente egosta da parte deles querer receber pagamento.
- Foi isso que disse ao Goldman, mas ele continuou insistindo em ser pago. Depois de muita insistncia, acabei tendo de dar alguns guinus para silenci-lo. - Ele
se animou um pouco. - Talvez eu lhe pague, agora que ganhei aquela aposta. - E parou, franzindo o cenho. - Pensando bem, h aquela vasilha de ala dourada que vi
ontem... melhor gastar o dinheiro nela. Qual o propsito de pagar por algo que voc j possui?
- Boa pergunta. Estou certo de que Goldman entender.
- Oh, no. - Stuart, no muito dado a sarcasmos, especialmente ao acordar, balanou a cabea. - Ele vai reclamar.
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Vou ter de comear a procurar outro alfaiate. Pena. O homem sabe como fazer os ombros dos meus casacos exatamente como gosto.
- Com ombreiras? Stuart revirou os olhos.
- Por que, mesmo, voc disse que veio aqui?
- A herdeira americana.
- Ah, sim. Voc disse que est pensando em no aceitar a proposta?
- A ltima coisa que quero  uma esposa.
- Sim. Malditos aborrecimentos, geralmente. Ainda assim... Difcil brigar com a idia de botar moedas em seu bolso. Mas o que mais poderia fazer? Voc j gastou
toda a sua fortuna. Voc mesmo o disse.
- Assim foi. Os condes de Ravenscar tm sido negligentes h anos. At meu pai, grande defensor que era, gastou dinheiro como gua.
- A est. Voc tem de fazer algo para refazer a fortuna da famlia.  seu dever como um Aincourt e tudo mais. Essa  a vantagem de ser o filho mais jovem, No tem
de se preocupar muito com as obrigaes da famlia. O que em geral significa fazer algo entediante; as obrigaes so assim.
- Sim. - Dev ficou em silncio por um momento e depois falou, mansamente. - E sua irm?
- Leona? - Stuart olhou para ele, sem compreender. - O que isso tem a ver com ela?
Dev arqueou uma sobrancelha e olhou para ele, expressivamente:
- Ah, isso. Bem, no faz diferena se voc  casado, faz? Leona se casou com Vesey. Ela tem vivido assim desde ento,
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no ? Por que voc no haveria de se casar tambm? A filha desse peleteiro no vai mudar nada. Faa um herdeiro com ela, despache-a para Darkwater e aproveite seu
dinheiro. - Olhou para a porta quando esta se abriu e o criado entrou com uma bandeja. - Ah, a est voc. Coloque isso na mesa e pegue meu robe. Dev, seja um bom
rapaz e olhe dentro daquele armrio. Deve haver algum usque irlands ali. Ele torna o caf palatvel.
- Claro. - Devin foi em direo ao pequeno armrio oriental e vasculhou-o at encontrar uma pequena garrafa de usque. Ele no sabia por que se preocupava com esse
tipo de coisa, pensou, ao puxar a garrafa para fora e adicionar generosa quantidade de lcool s xcaras de caf que o criado lhes servira. Stuart, e quase todos
os outros que conhecia, no hesitariam um instante em se casar com essa mulher. E se hesitassem, seria apenas por causa da idia de misturarem seu sangue azul com
um tipo comum. Uma vez casados, ele teria, obviamente, controle sobre o dinheiro dela. Nada o impediria de deix-la em Darkwater, como Stuart sugerira, e retomar
sua vida em Londres... com Leona. E, tecnicamente, no estaria sendo desleal com Leona. Ela era casada, no fim das contas. E no se podia esperar que ele deixasse
a linhagem dos Aincourt desvanecer s porque era apaixonado por uma mulher casada.
Seria tolice de sua parte deixar que isso o detivesse. No  como se levasse a vida de um homem honrado. Ele vivia, como seu pai fizera questo de reforar vrias
vezes, entre a escria da sociedade, associando-se a jogadores, trapaceiros, beberres e alcoviteiras. Parecia absurdo hesitar em aceitar uma esposa por causa da
amante - ou pelo fato de que faria infeliz essa rstica herdeira.
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- Voc tem razo, sem dvida - disse para Stuart, tomando um gole do caf generosamente batizado. Seu estmago estremeceu um pouco quando a forte mistura o atingiu,
mas depois acalmou-se. O restante desceu suavemente.
- Claro que tenho. Voc vai pedi-la em casamento?
- No tenho certeza. Prometi a minha me que iria conhec-la. O jantar na casa de lady Ravenscar  hoje  noite.
- Medonho. - Stuart fez uma careta s de pensar no assunto. - Melhor que venha conosco. Boly e eu vamos visitar o estabelecimento de Madame Valencia.
- Estou certo de que um bordel seria mais divertido - concordou Devin. - Mas eu tenho de conhecer essa fedelha, suponho.
- Bem, se voc no a pedir em casamento, d-me o nome dela - disse Stuart, sorrindo. - Fico com ela... Estrbica, pernas arqueadas, pele ruim e tudo mais. Estou
sempre quebrado mesmo.
- Lembrarei de voc - disse Devin, seriamente, e eles passaram a prticas muito mais interessantes como beber e conversar sobre uma corrida de cabriol  qual tinham
ido na semana anterior.
Miranda aproximou-se do pai e sussurrou em seu ouvido:
- Creio que esse jantar para conhecer lorde Ravenscar seria mais bem-sucedido se lorde Ravenscar houvesse comparecido.
- Miranda, meu amor - disse Joseph, esperanoso -, ele ainda pode chegar. So s... - olhou sorrateiramente em seu relgio de bolso - dez e meia.
- O convite era para as nove - lembrou-lhe Miranda. O grupo aguardou lorde Ravenscar por quase 30 minutos antes de
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iniciarem a refeio. Mas o jantar bem organizado e sortido havia agora chegado ao fim, e os convidados se encaminharam para a sala de msica, onde uma mulher loira,
um tanto dentua, estava tocando Mozart sofrivelmente. - A menos que o homem tenha sido atropelado por uma carroa ou algo dessa magnitude - continuou Miranda, num
sussurro -, ele , no mnimo, muito mal-educado. Estou apostando que no aparecer.
A pianista parou, e todos aplaudiram, educados. Felizmente, ela no se ofereceu para tocar outra pea. Lady Westhampton virou-se em seu assento, de maneira que ficasse
de frente para Miranda, e sorriu.
- Srta. Upshaw, sinto tanto - disse ela, sendo delicada. - Devo pedir desculpas por meu irmo. No consigo imaginar o que o teria detido.
- Pelo que ouvi dele, imagino que tenha sido um jogo de cartas - respondeu Miranda, asperamente.
- Miranda! - Joseph virou-se para Rachel. - Peo perdo, lady Westhampton. Minha filha no costuma ser assim to... to...
- Sincera? - interveio Miranda. - No, sou assim sempre, papai. Mas, sinto muito, lady Westhampton, se a ofendi. Gosto de voc. Voc , de longe, a mais simptica
integrante da sociedade inglesa que conheci at agora.
Rachel sorriu.
- Obrigada, srta. Upshaw. E tenho de admitir que compreendo perfeitamente seus sentimentos por meu irmo nessa hora.  muito deselegante da parte de Devin estar
to atrasado. - Ela parecia aflita. - Voc deve estar pensando que ele no vir, e pode ser que esteja certa. Pode-se ver que ele precisa de algum para gui-lo.
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- No tenho dvidas de que ele precisa disso. Entretanto, no estou  procura de um marido, muito menos de um que tenha de ser tratado como criana. Vim aqui apenas
porque meu pai estava ansioso para que eu conhecesse lorde Ravenscar, e sinto ter feito o suficiente para satisfazer minha obrigao para com ele. Papai? - virou-se
para Joseph. - Estou pronta para irmos agora.
- Oh, mas  certo que no - protestou Joseph, imediatamente. - Ora, h, humm...
- Carteado, mais tarde, na sala de visitas - completou Rachel. - Creio que lady Ravenscar prometeu a seu pai um jogo de uste.
- Sim, isso. Uste. Estou deveras ansioso por isso.
-Muito bem, ento - disse Miranda, sensatamente. - Vou para casa com a carruagem e mando-a de volta para busc-lo mais tarde.
- Por favor. - Rachel estendeu o brao impulsivamente e pegou a mo de Miranda. - Posso persuadi-la a ficar mais alguns minutos? Meu irmo  mal-educado, concordo,
mas no fundo  um bom homem, garanto-lhe. Ele est, assim como sem dvida voc tambm, relutante em entrar nesse tipo de relacionamento.
- Devo estim-lo por isso - concordou Miranda. - Entretanto, se ele est relutante e eu estou relutante, h pouco propsito em nosso encontro. Ele, sem dvida, percebeu
isso, e foi o que o manteve afastado esta noite. Portanto, neste caso, seria tolice de minha parte demorar-me mais aqui.
Rachel suspirou. Miranda apertou sua mo e sorriu. Ela gostara da irm de lorde Ravenscar desde o momento em que a vira. A jovem tinha um rosto adorvel, os olhos
verdes com
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um toque de tristeza, e havia uma calma ternura em seus modos que fazia com que se tornasse acessvel, apesar de sua beleza e do penteado moderno e enfeitado.
- Lady Westhampton, gosto sinceramente de voc - continuou Miranda. - E admiro seu irmo por estar relutante em se unir a uma mera mulher rica que surge do nada.
Entretanto, assim como ele, no desejo esse casamento e me parece intil permanecer aqui.
- Gostaria que Devin a conhecesse. Agora que eu mesma a conheci, eu... estou ainda mais a favor do casamento. Ele  um homem muito charmoso, de verdade. Voc no
teria como no gostar dele. E ele ficaria to sur... bem, to feliz em conhec-la.
- Surpreso, voc ia dizendo? - perguntou Miranda, o lbio curvando-se num sorriso. - Por qu? Ele pensou que eu fosse uma campesina sem instruo.
As faces da outra mulher ficaram rosadas.
- E... bem... possvel. Veja bem, ns no sabamos. - Ela suspirou e levantou as mos num gesto de rendio. - Sinto muito. Estou piorando ainda mais as coisas.
Mas, admito, no esperava que voc... se vestisse to elegantemente ou que falasse to bem, quase como uma inglesa.
- Minha madrasta  inglesa - respondeu Miranda. - Ela sempre fez de tudo para que falssemos corretamente e nos comportssemos com educao.
-Ah, entendo. - Rachel ruborizou um pouco mais.-Agora sinto-me mais tola ainda. Eu... sua madrasta est aqui? No me lembro de t-la conhecido. - Rachel correu os
olhos pela sala.
- No. Ela no estava se sentindo muito bem esta noite. Vive constantemente adoentada.
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- Sinto muito. - Rachel olhou para ela por um instante e depois falou: - Srta. Upshaw, posso ser inteiramente franca, como o foi comigo h um instante?
- Assim prefiro.
- Receio que pareamos muito diferentes a seus olhos, da forma como nos casamos por alianas em vez de por amor. Isso  um pouco frio, admito. Mas tem sido assim
h muito tempo entre ns... a aristocracia, digo. Temos uma obrigao com nossa famlia, com nosso nome, com a casa na qual nascemos e com todas as pessoas que nela
trabalham, que vivem nela. Nem sempre conseguimos fazer o que queremos. Eu, tambm, casei-me segundo os desejos de meus pais.
Miranda ficou imaginando, curiosa, como aquele casamento teria transcorrido. Ela no conhecera nenhum lorde Westhampton naquela noite.
Como se visualizasse o pensamento de Miranda estampado em seu rosto, Rachel acrescentou:
- Voc no conheceu meu marido. Lorde Westhampton mora em nossa propriedade no campo a maior parte do ano. - Ela hesitou e, ento, continuou: - Certamente voc pode
ver que, s vezes,  necessrio casar bem, e no casar seguindo nosso prprio desejo.  possvel que voc encontre o mesmo tipo de situao nos Estados Unidos. Os
negcios de seu pai exigiro que algum tome seu lugar quando ele morrer, no  mesmo? Se voc no tiver um irmo, ou um tio, ou quem quer que possa tocar o negcio,
no se sentir na obrigao de casar-se com algum que possa assumi-lo?
- No tenho irmo ou tio. Mas quando meu pai morrer, eu assumirei seus negcios. No precisarei de um marido para isso.
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Rachel olhou para ela por um longo instante.
- Voc ir administr-los?
- Irei,  claro. No h quem saiba mais sobre eles do que eu. Venho ajudando meu pai em seu trabalho desde os sete anos. Calculava as quantidades e os preos das
peles enquanto papai comerciava com os caadores. Conheo o negcio de peles de cima a baixo, e agora que ele o vendeu para o sr. Astor, francamente, tudo  mais
meu do que dele. Invisto a maior parte de seu dinheiro em imveis e negcios afins.
- Mas eu... Voc me deixa sem palavras, srta. Upshaw. Estou perplexa.
- Isso ser meu um dia, meu e de Vernica. Seria tolice no conhecer tudo o que posso a respeito. Alm disso,  mais interessante do que fazer visitas o dia inteiro.
Oh, desculpe-me. No quis dizer que...
- Que o que fao  intil e entediante? - Rachel terminou a frase por ela. - No se preocupe. No fiquei com raiva.  a mais pura verdade. O que fao  um tanto
intil e, na maior parte do tempo, entediante. - Ela sorriu, uma covinha surgindo na face. - Mas receio que no teria a menor idia de como administrar a propriedade
ou de como conseguir dinheiro para reform-la. E, alm do mais, isso no seria considerado apropriado por aqui.
- Duvido que seja considerado apropriado onde moro - respondeu Miranda, alegremente. - Mas se vivesse a minha vida pelo que as matronas da sociedade consideram apropriado,
raramente conseguiria fazer qualquer coisa de que gostasse. Eu no sou uma pessoa conveniente, sinto dizer, de modo que voc pode ver que  bom que seu irmo no
se case comigo,
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porque, sem dvida, eu estaria sempre fazendo coisas que deixariam todos chocados.
Rachel sorriu.
- Mas a vida seria muito mais divertida para ns.
- Talvez. - Miranda retribuiu o sorriso e levantou-se para ir embora.
Lady Ravenscar aproximou-se ao sinal da filha, sorrindo de modo um tanto empertigado, e disse:
- Oh, no, voc no pode nos deixar assim to cedo, srta. Upshaw. Por qu? Voc ainda no conheceu meu irmo. Rupert... - Ela virou-se e fez um gesto na direo
de um senhor idoso que estava em p a alguns passos dali. - Venha c e conhea a srta. Upshaw. Este  meu irmo, Rupert Dalrymple, srta. Upshaw.
Rupert Dalrymple era um cavalheiro afvel, muito mais jovial que a irm, um tanto corpulento, com a cabea quase totalmente calva - que ele se empenhou em compensar
cultivando um bigode branco exuberante que se curvava para baixo, para muito alm de seu lbio superior. Ele, tambm, tentou bravamente convencer Miranda a ficar,
oferecendo jogos de cartas e mais msica como entretenimento e assegurando-lhe que seu sobrinho Dev tinha o costume de perder a hora... - "No sendo qualquer insulto
pessoal a voc, posso garantir-lhe" - e que apareceria logo, logo.
Miranda sorriu mas manteve-se resoluta e, alguns minutos depois, estava fora da casa de lady Ravenscar, esperando sua carruagem encostar.
A casa de lady Ravenscar, mesmo com todas as reclamaes dela sobre as inadequaes, era uma agradvel casa branca no estilo Rainha Anne, e, ainda que no muito
grande, ficava em
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uma rua em forma de meia-lua, no outro lado da qual havia um pequeno jardim que a resguardava de uma avenida maior. Depois que a carruagem estacionou e Miranda acomodou-se,
eles seguiram em frente, contornando a meia-lua e adentrando a grande avenida, vazia de trfego quela hora da noite.
Miranda abriu a cortina para ver a noite. A maioria das pessoas preferia a privacidade das cortinas, mas em uma noite to agradvel como aquela, quente e sem chuva,
era uma pena ficar sentada naquele ambiente abafado, fechado. Ela teria preferido andar alguns quarteires at em casa e aproveitar melhor a noite perfumada, mas
os sapatos finos de festa que usava no eram adequados para caminhadas, e, alm disso, sabia que sua madrasta teria um colapso nervoso  idia de ela sair andando
sozinha  noite, em meio aos perigos de Londres.
Quando o cocheiro virou  direita na rua seguinte e entrou no quarteiro, Miranda viu um homem descendo a rua a p, na direo deles. Estava usando um elegante traje
de noite, o chapu arrumado em um ngulo garboso na cabea. Miranda notou que, enquanto andava, seus passos seguiam tudo menos uma linha reta. Ainda que no cambaleasse
ou se desequilibrasse, ele estava, concluiu Miranda, definitivamente embriagado. Havia algo no modo cuidadoso com que caminhava, os passos indo sinuosamente em uma
direo e depois em outra.
Um cavalheiro indo para casa, sado de seu clube, pensou ela, e ficou tentando imaginar se estaria caminhando na esperana de que o ar da noite o fizesse ficar sbrio
antes de encarar a esposa. Ela notara a propenso da aristocracia  ingesto de bebidas alcolicas, mas era um pouco cedo para que um cavalheiro estivesse assim
to bbado. Esse deve ter comeado muitssimo cedo.
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O cavalheiro atravessou uma faixa escura que indicava uma passagem entre duas casas, e, ao faz-lo, trs homens surgiram do pequeno beco e lanaram-se em cima dele.
Devido ao ataque, a queda foi imediata, os outros lanaram-se sobre ele. Aquilo no era uma luta justa, mesmo que o homem atacado estivesse sbrio, e o senso de
justia inato de Miranda foi despertado. Colocando a cabea para fora da janela, gritou para que o cocheiro acelerasse em direo quela confuso de homens.
- Mas, senhorita! - exclamou o cocheiro, assustado. - Eles esto lutando. No quer que...
- Faa o que digo - respondeu Miranda, asperamente. - Se quiser manter seu emprego.
Como era cocheiro da famlia Upshaw havia apenas uma semana, e tendo uma vaga noo de como as coisas funcionavam entre eles, o criado no hesitou em obedecer Miranda.
Ele gritou com o cavalo, balanando as rdeas, e a carruagem avanou com alvoroo. Miranda olhou em volta  procura de uma arma, e seu olhar foi atrado para um
guarda-chuva reservado para uma possvel chuva. Ela pegou-o, jogou de lado o fino xale e, quando a carruagem parou, abriu a porta e pulou, gritando para que o cocheiro
a seguisse.
Miranda correu para o bolo de homens que estavam rolando pela calada, se socando e se chutando. Sem hesitar, levantou o guarda-chuva, agarrando a ponta com as mos
e, com o cabo virado para baixo, desferiu um forte golpe nas costas do agressor mais prximo. Ele soltou um grito de surpresa e dor, e girou, caindo de joelhos.
Esse provou ser um movimento estpido, j que fez com que a frente de seu corpo ficasse exposta sem dar a ele a vantagem estratgica da
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altura. Miranda rapidamente tirou vantagem desse movimento: ergueu o guarda-chuva, virando-o de modo que segurasse o pesado cabo curvo, e empurrou-o duramente contra
o tronco do atacante. Sua expresso inicial de afronta foi logo seguida por uma de espanto, ao ver que recebera o golpe de uma mulher bem-vestida e, depois, por
uma de intensa dor quando a extremidade pontuda do guarda-chuva espetou sua barriga.
O agressor se levantou com um grito de dor e tentou pegar o guarda-chuva, mas Miranda recuou com destreza e golpeou o brao esticado do homem com a ponta. Naquele
instante, o cocheiro, tendo parado para amarrar os cavalos, chegou  briga carregando o pequeno e grosso basto que sempre levava escondido sob o assento. Teve oportunidade
de us-lo agora, batendo-o na parte de trs da cabea do oponente de Miranda na hora em que ele conseguira pegar a outra extremidade do guarda-chuva dela. Os olhos
do rufio se reviraram, e ele tombou no cho sem emitir qualquer som.
Nesse nterim, o cavalheiro bbado desferiu um soco no estmago do terceiro homem, que rolou para o lado com dificuldade para respirar e com a mo na barriga, enquanto
o cavalheiro conseguia se desvencilhar e se erguer. Ele se abaixou e pegou o homem pela gola da camisa, socando-o mais uma vez no estmago e finalizando com uma
direita no queixo. O homem dobrou e caiu. O cavalheiro voltou-se para o primeiro agressor, assim como o cocheiro. O rufio, vendo que os dois vinham em sua direo,
ps-se rapidamente de p e fugiu correndo.
O cavalheiro sorriu com a fuga do outro homem. Espanou a poeira da roupa, virando-se para o cocheiro.
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- Muito obrigado, senhor. - Sua voz era grave e harmoniosa, apenas uma leve tremulao revelando a embriaguez. Passou pelo cocheiro para olhar Miranda e parou, uma
expresso de surpresa cmica surgindo em seu rosto. - Uma dama! - Recuperando-se rapidamente do susto, fez-lhe uma elegante reverncia. - Meus sinceros agradecimentos,
madame, por vir em meu socorro. Voc salvou minha vida.
Miranda no vira direito o rosto dele at ento, e agora olhava-o fixamente, atordoada pelo impacto de sensaes que se espalhavam por seu ser. Ela ficou ao mesmo
tempo sem ar, com todo o corpo arrepiado, e to alterada que sentiu vontade de rir. O homem era inquestionavelmente lindo. Os cabelos volumosos e negros, desgrenhados
por causa da briga, balanavam na testa; isso, aliado ao brilho dos olhos, dava a ele uma aparncia sem dvida admirvel. Seu rosto era forte, o queixo firme e de
formato quadrado, com mandbula afiada. No entanto, as linhas quase selvagens de seu rosto eram suavizadas por lbios carnudos e sensuais, curvados agora em um sorriso,
e por clios negros e grossos que emolduravam os olhos. Era alto, esbelto e musculoso, os ombros por baixo da casaca impressionantemente largos. Uma marca vermelha
luzia em sua face no local em que um dos homens o havia acertado. O sangue pingava do lbio cortado, mas mesmo essas marcas no conseguiam diminuir a atrao que
ele exercia.
Mas no era s o fato de ele ser bonito que fez Miranda sentir-se como que atingida por um raio. Ela j vira homens belos antes. S que jamais sentira aquele tremor
de excitao, aquele impulso primrio de luxria - ou aquela conexo estranha
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e profunda, como se, de alguma forma, j o conhecesse. Por mais loucura que pudesse parecer, o pensamento que lhe cruzou a mente foi que aquele era o homem com quem
queria se casar.
Aquilo, obviamente, era absurdo, sabia. Fora apenas um estranho rasgo de pensamento. Mas ele era, sem dvida, intrigante. No se parecia em nada com os aristocratas
que conhecera at ento no restante da Europa ou na Inglaterra. Era to habilidoso com o punho quanto os homens que conhecera entre os caadores no interior, e havia
uma ironia travessa cintilando em seus olhos. Estava vestido elegantemente, mas sem os exageros de um almofadinha. O conjunto admirvel de roupas em seu corpo valorizava
ainda mais a firmeza de seus msculos do que os enchimentos de ombros e pernas que vira em outros cavalheiros. Claramente surpreso ao descobrir que fora salvo por
uma mulher, conseguira se controlar para no estragar seu agradecimento com algum comentrio sobre o descabimento do ato por parte dela.
- O senhor pareceu-me bastante hbil com os punhos - respondeu ela, feliz ao perceber que sua voz sara mais casual do que previra.
- E, no entanto, eles me pegaram de surpresa. Confesso que no estou em minha melhor forma. - Mais uma vez o sorriso encantador iluminou seu rosto, encorajando-a
a retribuir o sorriso. - Tenho sorte de voc ter sido corajosa o suficiente para parar.
- Eu no poderia, de forma alguma, seguir em frente quando eram trs contra um - argumentou Miranda. - Uma covardia.
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- De fato. Acho que era essa a idia.
- O senhor os conhecia? - perguntou o cocheiro, indo at um dos homens inconscientes e olhando-o no rosto. - Uma aparncia malandra tem este aqui.
- No. Nunca os vi na vida. - O homem deu de ombros.
- Sem dvida, eram ladres comuns escondidos,  espera do primeiro que aparecesse.
- Essa no costuma ser uma rea freqentada por ladres - observou o cocheiro, olhando para as casas luxuosas em ambos os lados da rua.
- No - concordou o homem, sem muito interesse. - Eles devem estar ficando mais ousados. - E espanou a poeira da casaca mais uma vez, sem muito sucesso. - Receio
que meu criado ficar um tanto contrariado ao ver o que fiz a seu trabalho to cuidadoso.
- O senhor est sangrando - observou Miranda, procurando o leno rendado no bolso e dando um passo  frente para limpar o sangue que pingava da boca do homem.
Era aterrorizante ficar to prxima a ele. Podia sentir o calor de seu corpo, o cheiro de bebida em seu hlito. Miranda olhou-o no rosto. No conseguia ver a cor
dos olhos com to pouca luz, mas eram ternos e imperiosos... e, naquele instante, um tanto dispersos. Ele balanou um pouco, o que fez Miranda agarrar seu brao
para equilibr-lo.
- Senhor? Est tudo bem? Beldon... - Miranda chamou o cocheiro e ele veio para segurar o outro brao do homem com a mo enorme.
- Sim. Sim, estou bem. S um episdio de tontura, s isso.
- Talvez voc devesse deixar que o levssemos para casa - Miranda sugeriu. - Minha carruagem est logo ali.
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- Senhorita.... - o cocheiro falou, em sinal de advertncia.
- , , eu sei - disse Miranda, impaciente. - No seria a coisa certa a fazer, dar uma carona a um estranho. Mas no creio que ele v me causar qualquer dano. Digo,
de verdade...
- Voc  uma mulher terna e corajosa - disse o cavalheiro -, mas no precisa se preocupar. Conseguirei continuar sem ajuda. S vou andar um ou dois quarteires at
a casa de minha me. - Ele olhou na direo de onde Miranda viera e, ento, franziu o cenho. - Bem, talvez no. Estou um pouco atrasado. Receio ter ficado mais tempo
do que deveria com meus amigos. E nessas condies... Mas tambm no estou to longe assim de minha casa. Ficarei bem.
- Insisto em dar-lhe uma carona. O senhor foi atingido com golpes na cabea. Mesmo possuindo uma cabea dura, asseguro-lhe que isso deve t-lo afetado.
Ele sorriu debilmente ao gracejo dela.
- Talvez esteja certa. Devo admitir que est comeando a latejar... embora no esteja totalmente convencido se  devido aos socos ou a muito brandy.
O cavalheiro seguiu com os dois at a carruagem, mas, concordando com o cocheiro que no seria bom para uma dama andar na carruagem com um estranho, optou por subir
e postar-se ao lado dele. Percorreram os poucos quarteires at chegarem ao endereo que lhes dera e, enquanto isso, de dentro da carruagem, Miranda teceu consideraes
a respeito daquela situao. O homem dissera que estava indo para a casa da me e apontara na direo da casa de lady Ravenscar. Seria possvel que o cavalheiro
que salvara fosse o homem que deveria ter conhecido hoje  noite? Haveria alguma possibilidade de este homem bonito, charmoso e
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hbil com os punhos ser o conde de Ravenscar? Fazia sentido. E seu estado de embriaguez certamente explicaria o atraso, assim como combinaria com o que ouvira a
seu respeito. E Elizabeth disse que ele era charmoso e bonito - ainda que simples palavras no fossem suficientes para expressar a intensidade de sua aparncia.
Houve um estranho momento em que todo o seu ser se entusiasmara por ele, quando chegou a pensar que pertencia a ele... Esse era o tipo de homem que poderia fazer
uma mulher esquecer todo o resto.
Pararam em frente  casa dele: uma residncia pequena e graciosa no bairro elegante, exatamente o tipo de casa em que um solteiro de posses e de famlia tradicional
moraria. O cavalheiro desceu do coche com a ajuda de Beldon, e Miranda abriu a porta da carruagem, inclinando-se para fora.
- Boa noite, senhor. - Estava relutante em deix-lo ir, percebeu, outra sensao que lhe era estranha. Se apenas soubesse se este era mesmo o conde de Ravenscar...
Mas no queria apresentar-se. Se aquele era Ravenscar, no queria que soubesse que ela era a herdeira por causa de quem ele passara a noite bebendo na tentativa
de evit-la.
- Madame. - Fez nova reverncia, mas Miranda notou que estava menos firme agora. - Voc  um anjo dos cus.
- Isso  um exagero sem precedentes, mas agradeo - respondeu Miranda, sarcasticamente.
Ele virou-se e subiu as escadas da casa fazendo um caminho tranado. Um momento depois, a porta se abriu e ele entrou.
- Vamos para casa, Beldon - disse Miranda, e a carruagem seguiu caminho.
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Indo para casa, seus pensamentos giraram em torno do homem que acabara de salvar. Seria ele Ravenscar? E o que teria acontecido se no houvesse se atrasado para
o jantar hoje  noite? De uma coisa tinha certeza: se aquele homem houvesse estado l, ela no teria sado mais cedo.

Captulo 3

- Boa noite, senhor. - Carson, o criado de Devin, abriu a porta. Ele constatou o desalinho de seu patro, mais alarmado pela gravata amarfanhada e pelo rasgo na
casaca do que pelas marcas de luta no rosto de Ravenscar. - Digo, patro, o senhor est bem? Algo aconteceu?
- Uma pequena briga - admitiu Devin. - Um pano mido para meu rosto cairia bem.
-  claro, senhor. - O criado apressou-se em cumprir a ordem.
Devin suspirou e passou a mo nos cabelos. Ficou pensando se seriam mesmo simples ladres, como assegurara sua bela salvadora. O cocheiro tinha razo quando disse
que ali no era uma rea em que ladres e rufies costumavam ficar. Havia um ou dois de seus credores que ele no se surpreenderia se descobrisse que estavam por
trs do ataque. Devin suspeitava de que se seus salvadores no tivessem derrotados os trs homens, eles teriam dito a ele que pagasse o que devia se no quisesse
levar outra surra daquelas.
Teria de ser mais cuidadoso agora... carregar sua pistola, mas ela iria deformar o caimento da casaca. Carson protestaria.
Seus pensamentos voltaram-se para seus salvadores, arrancando-lhe um sorriso. Que tipo estranho de mulher! Estivera de certa forma distrado com sua prpria luta,
mas podia dizer quase com certeza que ela lanara-se na briga e batera em
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um dos malfeitores com o guarda-chuva. E parecia bonita, tambm. Teria sido melhor se houvesse mais luz... e se sua viso no estivesse to debilitada pelo lcool.
Os cabelos eram castanhos, mas no havia como determinar a cor dos olhos, que eram grandes e brilhantes. Tinha uma boca jovial, risonha. Lembrava-se com mais detalhes
da curva generosa dos seios no decote do vestido. E tambm lembrava-se da reao inconfundvel de seu corpo ao olhar para ela.
Ficou imaginando se ela faria parte do submundo. Falava e vestia-se como uma dama, mas ele no conseguia visualizar nenhuma dama de seu crculo de amizades lanando-se
em uma luta daquele jeito. E havia algo diferente em sua fala. No podia garantir, mas havia uma certa inflexo que destoava. Talvez houvesse aprendido a falar como
uma dama. E uma atraente mulher da vida poderia muito bem ter uma carruagem e vestir-se bem. Isso explicaria aquelas aes, to atpicas de uma mulher de criao
aristocrtica.
Brincou com a idia de tentar descobrir o nome dela. Aquela mulher o intrigara. Normalmente, Leona no reclamava de seus divertimentos passageiros com outras mulheres.
Ela sabia que ele nunca se afastaria muito. Mas, lembrou-se com um suspiro, havia a situao deprimente de suas finanas. Nunca poderia esperar atrair uma cortes,
tirando-a de seu obviamente generoso patrono, quando seus prprios bolsos estavam prestes a serem arrendados. E a forma de contornar isso estava na casa de sua me
onde, suspeitava, ele devia ser persona non grata no momento.
Sua incapacidade de comparecer ao jantar naquela noite era algo que podia ser remediado, sups, com algum esforo de sua parte. Mas, como sempre, se ops a esse
pensamento.
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Algo dentro dele se retraa  idia de passar o resto da vida casado com uma mulher por quem sentia, no mnimo, indiferena... e, no mximo, um profundo desgosto.
Ele j vira muitos casamentos sem amor, arranjados em nome da tradio e da famlia - incluindo o dos seus pais, isso sem mencionar o de Rachel e o de Leona - para
saber que no queria aquilo para si. No era, assim esperava, um tolo romntico para desejar amor no casamento - ou, pelo menos, no o fora por muitos anos. Contudo,
estava certo de que seria melhor no se casar do que viver o tipo de solido silenciosa em que Rachel vivia.
Carson voltou, carregando um pano mido e frio em uma pequena bandeja de prata. Devin pegou o pano e colocou-o sobre o corte no lbio, lembrando-se, ao faz-lo,
do modo como a mulher limpara seu sangue com o leno. Ele pde sentir de novo o leve perfume de rosas impregnado no leno de algodo de borda rendada. Ficou imaginando
se ela, tambm, cheirava a rosas.
- Chegou um bilhete para o senhor esta noite - disse Carson, dirigindo-se para a pequena mesa no vestbulo, onde uma pequena bandeja abrigava um pedao de papel
branco; quadrado, dobrado e lacrado. "Ravenscar" era tudo o que havia escrito na frente, com a grafia forte e arredondada, que reconheceu imediatamente como sendo
de Leona.
Uma sensao familiar de antecipao serpenteou-o ao pegar o bilhete da bandeja que Carson estendeu em sua direo. Rompeu o lacre e abriu o bilhete.
Querido,
Hoje, aps a meia-noite. Tenho uma surpresa para voc.
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Era uma tpica mensagem de Leona - breve, no assinada e ligeiramente misteriosa - e que tirou de pronto todos os pensamentos da mulher que conhecera h instantes.
- Que horas so, Carson?
- Onze e pouco, creio.
- Bom. Temos tempo. Preciso me arrumar antes que minha visita chegue.
Ambos sabiam quem era a visita, mas nenhum dos dois mencionaria o fato. Seu relacionamento com Leona corria por trs de um vu de sigilo - por mais fino que fosse
esse vu. Mesmo todos os fofoqueiros da sociedade londrina sabendo a respeito dos dois e comentando em segredo o longo caso, este ainda podia ser considerado uma
fofoca e um fato no comprovado enquanto mantivessem segredo. Lorde Vesey no se importava com o que a esposa fizesse - ambos seguiam caminhos distintos -, contanto
que ele no fosse publicamente exposto ao ridculo.
Sendo assim, como acontecia h muitos anos, Devin s via Leona quando ela o visitava em segredo, ou ento em pblico - em uma de suas festas, no teatro, na pera,
ou em um baile para o qual tambm fora convidada -, nunca, por palavras ou gestos, demonstrando serem nada alm de amigos. Ele nunca ia  casa dela, exceto quando
acompanhado de Stuart, irmo de Leona. Eles se encontravam no fim da noite, depois que ela saa de casa ou de qualquer festa na qual estivesse e, completamente encoberta
por um manto com capuz, ia a cavalo para a casa dele, esgueirando-se pela lateral e entrando pela porta do jardim. Em dias como esses, Devin esperava por ela junto
 lareira do quarto, como o faria hoje, com uma taa de brandy na mesinha diante de si, o corao palpitando em expectativa.
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Havia noites em que ela no aparecia. Com Leona, ningum sabia ao certo o que ia acontecer - e isso era uma das coisas que mantinha o relacionamento algo jamais
previsvel. s vezes, ela no conseguia escapar. E, outras vezes, gostava simplesmente de deixar as coisas no ar. Com o decorrer dos anos, Devin atingiu o ponto
em que as ausncias dela no mais o levavam  loucura, mas nunca conseguiu se livrar dos grilhes do cime, da idia de que ela no havia aparecido por causa de
outro homem - de seu marido, que, apesar do desinteresse mtuo declarado, ainda possua prioridade sobre ela, ou talvez de um novo namorado, algum jovem que esperava
atrair a ateno da dama mais desejvel de Londres. No incio, Devin acertara contas com um ou dois deles. Agora seu sangue j no corria mais to quente nem rpido,
mas a idia de Leona com outro homem, mesmo que apenas conversando, ainda lhe espetava o corao.
O segredo e o mistrio, aquela pitada de cime, a incerteza de seus encontros, tudo servira para manter viva a emoo de seu caso esses anos todos.
Devin subiu as escadas de dois em dois degraus, o criado seguindo-o, e foi para o quarto. No demorou muito para se arrumar, e, ainda que Carson fosse meticuloso,
 beira do irritante, na amarrao do n da gravata, tambm era gil nisso. Assim, vrios minutos antes da meia-noite, estava impecavelmente vestido e asseado. Dispensou
Carson e ajeitou-se diante da lareira para esperar, servindo-se de uma dose de brandy.
Esperou por um bom tempo. Era quase uma da manh quando ouviu um leve barulho de sapato no corredor, e a porta do quarto se abriu. Devin levantou-se quando a mulher
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deslizou para dentro. Fechou a porta atrs de si e virou-se para ele, tirando devagar o capuz que lhe cobria o rosto. Da mesma forma como acontecera outras vezes,
seu corao ainda batia acelerado. Leona olhou para Devin, um leve sorriso pairando em seus lbios.
Devin sempre achou que o nome Leona lhe caa muito bem. Com seus cabelos louros fulvos, os olhos castanho-dourados arredondados e esprito de leoa, Leona era uma
criatura selvagem, pouco domada pelas regras e pela rigidez da sociedade inglesa. Ela s mantinha as aparncias, nada mais, fazendo o que bem entendia quando na
privacidade.
Devin a conhecera quando tinha 18 anos, em sua primeira vinda a Londres, sado direto da propriedade do pai. O mundo se abrira para ele ento, a sofisticao da
cidade substituindo a vida estril de Darkwater. Em vez das oraes e pregaes morais do pai, o que encontrou foram jogatinas, companhias alegres e noitadas em
clubes e tavernas. Em vez de lies dirias, encontrou horas livres para fazer o que quisesse. E, em vez de camponesas entediantes, ele encontrou... Leona.
A primeira vez que a viu foi em um baile na casa de lady Atwater. Ela usava um vestido dourado que se colava a cada uma de suas curvas. A pele brilhava sob a luz
de velas, refletindo o brilho do vestido. Ele a quis com um arroubo de lu-xria que nunca sentira antes. Ela brincou com ele, rapaz ingnuo que era. Pensando agora,
Devin poderia ter se dado conta disso  poca, mas, depois de todos esses anos, o fato de ela ter agido daquela forma o divertia. Ele se atrapalhara todo tentando
lev-la para a cama, ao passo que ela o provocara e o iludira por mais de um ano, rejeitando-o at ele quase
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desistir. E, ento, subitamente, reacendia seu desejo com um olhar, um roar acidental do seio em seu brao, um beijo roubado no jardim.
O assdio  comprometida lady Vesey fora um escndalo, obviamente - uma das muitas coisas escandalosas que fizera na cidade e que provocara a ira recriminadora de
seu pai, aumentando o abismo entre ambos. Mas ele no se importava com escndalos. A maioria das coisas de que gostava na vida, descobriu, era escandalosa. Como
Leona j argumentara certa vez, eles no eram como as outras pessoas.
- Ol, Dev - disse Leona, com sua voz rouca caracterstica.
- Leona. - Devin andou at ela, os olhos perscrutando o rosto e descendo do pescoo at o peito, onde seus seios se sobressaam no decote do vestido. Leona, como
algumas outras damas de estirpe "selvagem", costumava umedecer seus vestidos finos, de modo que eles colassem cada vez mais em seu corpo voluptuoso. Naquela noite,
Devin conseguia ver os crculos escuros dos mamilos pelo tecido fino do vestido virginalmente branco de musselina. Seu sexo enrijeceu-se em reao quela viso.
S Leona conseguia se vestir como uma virgem debutante e, ainda assim, parecer, de alguma forma, uma libertina.
Ele se inclinou e roou os lbios nos dela.
- Voc est adorvel hoje.
s vezes o surpreendia o modo como Leona conservara a boa aparncia. Ele no fazia idia da quantidade de horas e dinheiro gastos em cremes, cosmticos e hennas.
Nem se deu conta de que, nos ltimos dois ou trs anos, quase no vira Leona durante o dia. Seus momentos juntos se limitavam a noites iluminadas pela luz suave
de velas.
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Ele encaixou a mo por baixo do seio dela e passou o polegar pelo mamilo, at este ficar duro e eriado.
- Voc usou isso em uma festa?
- Sim. Quase causei um tumulto durante a soire na casa de lady Blanchette... ou ao menos me pareceu, pelo modo frio com que ela falou comigo. Mas os homens pareciam
gostar.
- Estou certo de que gostaram. - Devin riu. Suas mos desceram at a cintura dela, puxando-a para um beijo. Ele se retraiu levemente quando seus lbios se tocaram,
e Leona recuou.
Ela olhou-o no rosto, dirigindo o olhar para o lbio dele.
- O que aconteceu? Di? Ele deu de ombros.
- Alguns homens me atacaram, mas consegui escapar. Sangrei um pouco, mas est tudo bem.
Leona semicerrou os olhos sedutoramente, ficando na ponta dos ps at que seus lbios se mantivessem a um milmetro dos dele.
- Nunca me importei com um gostinho de sangue - murmurou ela, lambendo os lbios dele.
Devin puxou-a para si e beijou-a vigorosamente. Depois de um beijo longo e avassalador, ele a soltou. Leona inclinou-se para trs, olhando sedutoramente para o rosto
dele.
- Humm. Tenho uma surpresa para voc esta noite - murmurou ela.
O sexo dele enrijeceu.
- Tem? - As surpresas de Leona eram sempre sensuais e valiam a provocao que normalmente fazia antes de revel-las. - Uma surpresa prazerosa, espero.
- Bastante prazerosa. - Ela sorriu, percorrendo com os dedos o trax dele. Leona engatou a mo na cintura da cala
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de Devin e, em seguida, empurrou-o para longe. - Mas, primeiro, acho que um pouco de brandy viria bem a calhar.
-  claro. - Aprendera a gostar dos jogos tipo gato-e-rato de Leona, apreciando o prazer e a antecipao crescentes, s vezes at mesmo a frustrao, sabendo que
isso levaria a um intenso prazer. Virou-se calmamente e serviu a taa dela com brandy.
Ela pegou a taa da mo dele e fez um gesto para que se sentasse na cadeira. Devin assim o fez. Leona sentou-se em seu colo, virando-se de lado. Tomou um gole da
bebida e depois colocou-a de lado. Comeou a brincar frivolamente com os botes da camisa dele, desabotoando-os vagarosamente um aps o outro e deslizando as mos
por dentro da abertura da camisa.
- Ouvi a respeito de sua herdeira americana - disse ela, depois de um instante, retorcendo um dos mamilos dele.
- O qu? Eu no tenho uma herdeira, americana ou de qualquer outra nacionalidade.
- No foi o que ouvi. No se falava de outro assunto na casa de lady Blanchette. A filha de um vendedor de roupas, creio.
- Ele lida com peles. - Devin sorriu. - Com cimes, meu amor?
- Eu? Cimes da filha de um comerciante de peles? - perguntou Leona com desdm. - Nem um pouco. S curiosa. Ela quer realmente se casar com voc?
- De acordo com minha me, o pai dela est louco por isso. Quer colocar as mos na propriedade de um conde. - Devin pegou a bebida de Leona sobre a mesinha ao lado
da cadeira e bebeu-a. - Eles esto, aparentemente, nadando em dinheiro. Poderiam salvar Darkwater.
- Oh, Darkwater. - Leona desdenhou a propriedade com um movimento de mo. - Eles poderiam nos salvar.
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- Nos salvar? - Devin olhou para ela, um tanto surpreso ao ouvir tais palavras.
- Sim. Da runa financeira. - Leona alongou-se, arqueando as costas de modo que seus seios impeliram-se ainda mais atrevidamente contra o tecido delicado do vestido.
Ento deslizou a mo por dentro da camisa de Devin e acariciou-lhe livremente o peitoral enquanto falava. - Vesey diz que no vai pagar mais nenhuma das minhas dvidas
de jogo. Diz tambm que nem o rei Croeso poderia dar conta de meus hbitos dispendiosos. - Os dedos dela pararam no mamilo dele, acariciando-o e apertando-o, circulando-o
provocativamente. - Lembrei-lhe de que no foi por seu charme que me casei com ele. Vesey deveria me fornecer fundos, enquanto eu acobertaria suas verdadeiras inclinaes
sexuais. Mas ele disse que nenhum comportamento da parte dele poderia valer as quantias que gasto.
A boca carnuda de Leona formou uma intumescncia lu-xuriosa.
- Voc acha que este vestido  um desperdcio de dinheiro? - Ela roou os dedos pelo decote do vestido.
- No em voc - respondeu ele, os olhos seguindo o movimento dos dedos dela. A mo de Devin subiu pelo corpo de Leona e rodeou-lhe o seio, acariciando-o, os olhos
faiscando de desejo quando viu o mamilo endurecer em resposta a seu toque.
- Mas, ento, nada com mais de 14 anos atrai a ateno de Vesey - acrescentou Leona com um dar de ombros. - Quero dizer, na verdade... acho um estudante excitante
agora e depois... h algo um tanto estimulante naquele ardor inocente. Mas fazer disso uma dieta regular? - Ela balanou a cabea. - Mas estou fugindo do assunto.
- Esticou-se para
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roar os lbios nos dele. - Estvamos falando da sua herdeira americana.
- J lhe disse, ela no  minha herdeira americana - respondeu Devin. - No tenho qualquer desejo de me casar com ela.
- Claro que no tem. No seja tolo. Quem quereria se casar com alguma fedelha enfadonha sada do fim do mundo? Mas... a necessidade obriga.
- A necessidade obriga? - repetiu Devin, incrdulo. Sua mo subiu at o queixo dela, inclinando-o de modo a fazer com que o olhasse nos olhos. - Voc est dizendo
que acha que devo me casar com essa garota?
-  claro - respondeu Leona, racionalmente. - O que mais voc faria? O que mais ns faramos? Por mais que eu ame o seu gosto, meu bichinho de estimao, ns no
podemos viver disso. Precisamos de dinheiro para sobreviver. Voc no tem um centavo. Voc me disse que seu tio falou isso da ltima vez em que voc quis saber sobre
a propriedade. Ela  dispendiosa e tem sido assim por vrios anos. Seus fundos j se exauriram h tempos. O que voc vai fazer... Trabalhar?
- Eu sei que tenho pouco dinheiro - resmungou Devin. - Todos tm sido bastante gentis em me lembrar disso. Certamente, o casamento resolveria esse problema. Mas,
com isso, eu teria uma esposa.
- Um inconveniente menor. - Leona balanou a mo vivazmente, minimizando o problema. - Muitos homens tm esposas, e h quem nem saiba disso. Mande a caipira sem
graa para Darkwater e deixe-a por l. Ela sem dvida vai ficar bastante feliz em morar l... afinal, j passou boa parte da vida morando em um lugar atrasado. Ela
quer ser lay Ravenscar, e
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ser. Ao possuir seu pequeno "domnio", a pobre criatura ingnua vai pensar, provavelmente, que est levando a vida da sociedade inglesa. Cus, Dev, duvido que ela
seja capaz de viver em algum lugar que no seja enclausurada em Darkwater. No deve conseguir manter um minuto de dilogo sobre algum assunto que no envolva os
cuidados com a casa ou algo do gnero. Ela ficaria perdida tentando entender o que fazer com um talher para ostras. Voc pode se imaginar apresentando a fedelha
para a sociedade? Deixe sua me lev-la para Darkwater e supervisionar a educao dela.
- Esta talvez no seja a vida que ela imagina - argumentou Devin, levantando-se abruptamente e deixando Leona de lado. - E se ela quiser viver em Londres e infiltrar-se
na sociedade em toda a sua glria rstica? - perguntou Devin. - Ser que vou agentar ver minha esposa ridicularizar o nome Aincourt?
- No fale bobagem. Qual  o problema se isso acontecer? Uma vez casado com ela, o dinheiro ser seu. Voc ser seu marido, mestre e senhor. Ela far o que voc
mandar.
- Humm. Da mesma forma que voc faz o que seu mestre e senhor manda.
- Que absurdo... me comparar com a filha de um comerciante de peles. - Leona riu, o fino lbio superior retraindo-se charmosamente sobre dentes brancos perfeitos.
- Francamente, Dev, voc me faz rir.
- Fico feliz em saber que voc acha isso to engraado - respondeu Devin, irritado. - Eu pensei que ao menos voc, dentre todas as pessoas, no me encorajaria a
casar com essa fedelha. No a incomoda nem um pouco pensar em mim tendo uma esposa? Em mim na cama com ela e gerando herdeiros?
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- Srio, Dev, no seja to plebeu. A possibilidade de voc gerar alguns pestinhas com uma vaca inspida no tem nada a ver conosco. Que diferena isso faria? - Leona
foi at Devin, deslizando os braos na cintura dele e apoiando a cabea em seu peito. - Sou capaz de me lembrar de mais de uma vez em que voc esteve com outra mulher...
at ao mesmo tempo. Pelo que me lembro, ambos achvamos isso um tanto estimulante.
- Aquela foi uma situao muito diferente - disse ele mal-humorado, sua mente voltando involuntariamente  noite devassa que ela mencionara. E ficou excitado com
a lembrana. - Eu no me casei com a outra mulher. No tinha qualquer obrigao com ela, nenhum lao nos unia alm do dinheiro.
- E o que une voc a essa a no ser o dinheiro? - retrucou Leona, deslizando as mos pelas costas dele at as ndegas, apertando-as com os dedos. - Chega de conversa,
vamos. Creio que est na hora da minha surpresa, no acha?
Ele inclinou-se e beijou-a, em concordncia. Leona desvencilhou-se de seus braos e foi at a porta, abrindo-a. Colocou a cabea para fora e voltou. Um instante
depois, uma figura envolta em uma capa com capuz entrou no quarto. A pessoa era de baixa estatura; Devin deduziu, por esse detalhe, que se tratava de uma mulher.
A nica outra coisa que se podia ver era que seus ps eram pequenos, bronzeados e estavam descalos.
Enquanto ele processava a cena incomum, Leona trancou a porta que dava para o corredor e voltou para Devin, pegando-o pela mo e levando-o para a cama. Ambos tiraram
os sapatos e subiram na cama alta, na qual Leona instruiu-o a deitar-se de lado. Aninhou-se por trs dele, apoiando-se no cotovelo para que pudesse ver.
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A mulher encapuzada deslizou at a lateral da cama, ocupando um espao a alguns centmetros deles. Desamarrou a capa e retirou-a, revelando-se uma mulher negra e
pequena vestida com um nfimo top que cobria apenas os seios, e uma cala larga feita de um tecido vaporoso, presa nos tornozelos. Finas correntes douradas pendiam
na cintura desnuda e em volta do pescoo, fazendo voltas no estreito top. Sininhos estavam presos em uma linha na base do top e na cintura da cala. Eles estavam
dependurados em uma fita entrelaada nos densos cabelos negros e em pulseiras e tornozeleiras. A cada movimento que ela fazia, eles tilintavam. Por cima de suas
vestimentas finas, lenos de vrias cores se enrolavam, todos do mesmo tecido fino. S de olhar para ela, Devin sentiu um impulso de desejo na virilha.
Ela olhou para baixo de maneira quase envergonhada quando levantou os braos acima da cabea e comeou a estalar os dedos produzindo um som metlico e rtmico com
pequeninos cmbalos. Ento seus quadris comearam a se mexer em um movimento ondulante, fazendo os sinos soarem. Comeou a danar, os ps e os quadris movendo-se
ritmicamente. Ela se mexia em um espao restrito, balanando-se, contorcendo-se e enroscando-se.
- Excitante, no acha? - sussurrou Leona no ouvido dele, a respirao dela provocando calafrios em Devin. Ela colocou a ponta da orelha do amante entre os dentes
e mordiscou-a suavemente. Enquanto a garota danava, a mo de Leona deslizou pelas laterais abertas da camisa de Devin e comeou a alisar o peito dele. A combinao
daquela viso ertica com o toque de Leona fez a pulsao retumbar em sua cabea.
A garota continuou a danar, requebrando os quadris, balanando os seios, fazendo tocar todos os sininhos ao danar,
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tudo isso pontuado pelo batimento rtmico dos cmbalos. E Leona o acariciava, os dedos provocando-o no peito e na barriga, depois mais embaixo, por cima do tecido
da cala. Ela deixou escapar uma risada baixa e gutural ao sentir o intumescimento dele pressionando o tecido.
- Voc quer mais? - sussurrou Leona em seu ouvido. - Talvez voc queira v-la em mais detalhes. - Levantando-se um pouco, bateu as mos uma vez.
A danarina de cabelos negros suspendeu a mo, sem parar o movimento de quadris, e tirou um dos lenos. Deixou-o cair, descendo vagarosamente por suas pernas at
cair a seus ps. Pouco a pouco, enquanto se contorcia e se revirava, ondulando sob o ritmo dos cmbalos, ela soltou os lenos, um por um.
Devin observou-a despir-se, a respirao spera em sua garganta, o calor descendo internamente enquanto Leona o acariciava, deslizando a mo por dentro da cala
dele e envolvendo-o.
- Humm - murmurou ela. - Ainda duro, como quando era rapaz. Gosto disso. - A lngua de Leona contornou as voltas das orelhas de Devin, enviando um longo tremor pelo
corpo dele. - O que importa voc arrumar uma esposa se ns ainda teremos isso? Quem se importa se uma camponesa qualquer vinda das colnias puder reivindicar o fato
de ser sua esposa? V a Darkwater uma vez por ano e deite-se com ela para gerar um herdeiro e depois volte para mim... e para todos os prazeres aos quais est acostumado.
- Leona... - Devin deixou escapar uma risada de incredulidade e virou-se para olhar diretamente seu rosto. - No acredito que at voc... esteja me seduzindo para
que eu pea outra mulher em casamento.
- Estou pedindo que voc torne possvel continuarmos
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como sempre fomos. - Leona afastou-se, os olhos acesos. - Eu j lhe disse que Vesey est me limitando a uma mesada mesquinha. Se meu amante tambm est sem fundos...
Devin semicerrou os olhos.
- Voc est ameaando arranjar outro amante? Ele no vai durar muito se eu desafi-lo para um duelo.
- No fale bobagem. Eu faria o que fosse preciso. Porque voc se recusa a fazer o que deve fazer.
- Diabos, Leona, se voc ousar...
- Eu no substituiria voc, querido. Voc teria sempre um lugar na minha cama. Eu s teria de dedicar menos tempo a voc.
- Deus! Voc fala como uma meretriz. - Devin afastou-se dela, ficando de p.
A danarina parou e deu um passo atrs, insegura, levantando os olhos e observando a expresso repentinamente inflexvel de Devin.
- Oh, Dev, pare de agir como uma criana mimada. - Leona saiu da cama tambm, fazendo um rpido gesto com a mo para que a danarina continuasse.
A mulher recomeou a danar. Leona andou at ela e, enquanto a garota ondulava lentamente o corpo, deslizou a mo pelo seio dela, agora escorregadio pela transpirao,
e soltou outro leno. Leona olhou para cima, para Devin, a expresso desafiadora, os olhos sensualmente iluminados.
- Venha, Dev, meu amor, voc sabe quem eu sou. Nunca fingi ser nada diferente.
Enquanto falava, acariciava o corpo da mulher, lanando ao cho um leno aps o outro, at ela ficar apenas com a cala fina, o nfimo top e as delicadas correntes
douradas.
- Eu sou perversa - Leona continuava. - E voc tambm.
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Voc gosta disso, assim como eu. Da mesma forma como gosta de todas as coisas que fazemos... coisas das quais nenhuma pessoa decente gosta.
Ele a observava, to incapaz de desviar o olhar daquela cena ertica quanto de suprimir a pulsao quente em seu membro. Seus olhos estavam fixos nos dedos geis
de Leona, de-sabotoando o top e lanando-o para longe, deixando apenas as correntes douradas penduradas sobre os seios pequenos e bronzeados da mulher. Ela os acariciou
delicadamente, fazendo crculos com o indicador em cada mamilo.
- Voc no quer possu-la agora, Dev? - sussurrou Leona. - Voc no quer penetr-la? Eu gostaria de ver isso. Voc gostaria que eu assistisse, no gostaria? Voc
acha que isso  normal?  perverso. Perverso do modo como voc e eu somos.
Com um movimento abrupto e feroz, Leona deu um puxo na cintura da cala fina e bufante da danarina, abrindo-a e deixando-a cair-lhe aos ps.
- O que voc me diz, Dev? Vai possu-la? - Leona afastou-se da mulher. - Ou preferiria me possuir?
Desabotoou a frente do vestido e empurrou-a para trs, revelando os seios, firmes e volumosos, com os centros marcados por mamilos grandes e escuros, eriados pelo
desejo. Ela tirou as alas do vestido dos ombros e deixou-o cair no cho, revelando o corpo nu. Passando as mos de cima para baixo pelo corpo de maneira provocativa,
olhou para Devin, ar-queando uma das sobrancelhas.
- Ento, Dev, voc me quer? Ou talvez queira a ns duas. Ou voc  puritano demais, como seu pai?
- Maldita - resmungou ele, alcanando-a e puxando-a para si. - Voc sabe que eu a quero.
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Leona sorriu e roou seu corpo no dele.
- Ento admita. Admita que voc  perverso. Voc no d a mnima para aquela fedelha americana tola ou para o fato de ela gostar de viver em Darkwater. Voc no
d a mnima para o nome Aincourt. No, contanto que possa ter muito dinheiro. E isso. - Ela enroscou uma perna na dele, roando-se, sugestivamente. - E, ento, Dev,
voc d importncia a isso?
- Voc sabe que no - respondeu ele secamente, pegando-a no colo e jogando-a nada gentilmente na cama. - Voc est certa. Ns estamos mergulhados em pecado - disse
ele, enquanto desabotoava as calas e se despia. - Vou me casar com a maldita herdeira, se  isso o que voc quer.

Captulo 4

Miranda ajeitou os culos no nariz e conteve um suspiro. Pela primeira vez, as contas  sua frente a entediavam mais do que nunca. Ela vinha se sentindo ligeiramente
melanclica o dia todo. Sabia que aquele sentimento tinha algo a ver com o estranho que conhecera na noite anterior. Quanto mais pensava no assunto, mais se convencia
de que o homem agredido era o mesmo que o pai queria que conhecesse. Foi sorte o fato de aquele homem ser o primeiro a despertar seu interesse desde que chegara
na Inglaterra. Mas era ao mesmo tempo deprimente, j que ele estava to certo em rejeit-la que nem compareceu ao jantar da me no qual iria conhec-la.  claro
que Miranda sentira mais ou menos a mesma coisa, de modo que no podia usar isso contra o homem. Na verdade, aquilo demonstrava que ele no era o tipo fraco e superficial
que achou que fosse. No entanto, no podia evitar sentir-se um tanto ofendida, no importa o quo tolo esse sentimento parecesse.
Obviamente, ela jamais admitiria algo do gnero para quem quer que fosse. De fato, nem mesmo contara ao pai que acreditava ter conhecido o esquivo conde de Ravenscar
na noite anterior. Se o pai soubesse que achara o candidato a marido intrigante, jamais abandonaria sua campanha em faz-la se casar com ele. E, certamente, no
tinha qualquer inteno de fazer nada parecido, no importa o quo
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atraente tenha achado o conde. Ela ainda mantinha suas convices. No seria capaz de se casar com um homem que no amava. Queria o mesmo tipo de casamento que seu
pai e Elizabeth tinham - eles se devotaram um ao outro desde o dia em que se conheceram. E mesmo no sendo nem de perto o tipo de mulher dependente e pegajosa que
a madrasta era, queria viver o mesmo tipo de sentimento estvel, duradouro.
Queria que seus olhos brilhassem a cada vez que visse o marido, da mesma forma que os olhos de seu pai brilhavam quando Elizabeth entrava na sala. Queria sentir
saudade quando ele estivesse longe e receb-lo com prazer sincero quando voltasse, da mesma forma como vira Elizabeth fazer com o pai. Do contrrio, qual seria o
propsito do casamento? Podia se virar muito bem sem um marido. Estava acostumada a tomar conta de tudo sozinha, alm de possuir enorme fortuna. No precisava se
casar, como a maioria das mulheres, e com certeza no sentia, como lady Westhampton dissera sobre si mesma, que deveria se casar para cumprir um dever com a famlia.
At poderia querer agradar o pai, mas, se no o fizesse, isso no o prejudicaria, nem ao nome Upshaw.
Miranda convencera-se de que estava sendo tola em relao ao caso do homem que salvara na noite anterior. Assim, depois de ter tocado levemente o caf-da-manh,
decidiu passar o resto do dia fazendo algo til - e tambm algo que normalmente a mantinha absorta. Ento, prendera o cabelo em um coque simples e sbrio e enfiou-se
em um dos vestidos retos, velhos e desbotados que estava acostumada a usar quando fazia a contabilidade ou redigia correspondncia comercial. Era sempre provvel
que deixasse cair tinta na roupa
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quando trabalhava, por isso no usava um de seus melhores vestidos. Desta forma, seguiu para o escritrio, colocou os culos pequenos e redondos que usava quando
a tarefa exigia e sentou-se para trabalhar com o assistente do pai, Hiram Baldwin.
Para seu espanto, verificou que nada parecia modificar seu nimo. E o pior  que no conseguia se interessar pelas folhas com nmeros que Hiram colocara diante dela.
Normalmente, ela e Hiram compartilhavam um interesse permanente por assuntos financeiros, mas hoje a voz dele era como um zumbido impiedoso. A ateno de Miranda
vagava de volta aos acontecimentos da noite anterior. O tempo todo tinha de pr a cabea no lugar e se concentrar nos negcios  sua frente.
Foi um alvio quando a porta se abriu, no incio da tarde, e seu pai entrou agitado, sorrindo de orelha a orelha. Miranda sorriu em retribuio; era difcil no
faz-lo, quando o pai aparecia com aquela expresso no rosto. Alm disso, estava mais do que pronta para aproveitar um verdadeiro motivo para distrair-se do trabalho.
- Ol, papai - cumprimentou-o. - Voc est parecendo o gato que comeu o canrio.
- Estou? - O sorriso do pai aumentou ainda mais. - Bom, tenho motivos para isso, minha menina. Estive conversando com um cavalheiro, e parece que ele gostaria de
fazer-lhe a corte. Disse-lhe que estava de acordo, obviamente.
- O qu? - Miranda ficou de p. - Do que voc est falando? Que cavalheiro? Papai, o que voc fez? Se encontrou outro nobre petulante para tentar casar-me com ele
eu juro que...
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- No, no -Joseph apressou-se em tranqiliz-la. - No se trata de um novo cavalheiro.  o mesmo. Lorde Ravenscar.
Miranda ficou pasma.
- O qu? Aqui? - Sua mo voou para o cabelo. Devia estar um horror! O penteado no lhe caa nada bem, o vestido que usava era to velho e fora de moda que ficaria
constrangida em ser vista com ele. - Papai! No! Eu no posso... ele no deve.
- Que nada, menina - respondeu Joseph, alegremente.
- J disse a ele que poderia falar com voc. No seria educado mand-lo embora agora. No vai levar nem um minuto.
- Virou-se e caminhou at a porta. - Venha, Hiram,  melhor que voc e eu deixemos a menina sozinha.
Hiram, lanando um olhar perplexo para Miranda, que estava paralisada como se fora transformada em pedra, enfiou a pena de volta no pote de nanquim e seguiu o chefe
porta afora.
- No, espere! - Miranda correu at a porta. No podia deixar que Ravenscar a visse daquela forma! Mas nem chegara ao portal quando este foi preenchido por um cavalheiro
alto e bem-vestido.
O primeiro pensamento de Miranda foi de que estava certa. O homem parado  sua frente, bonito e alto, era o mesmo que ela ajudara a escapar dos agressores na noite
anterior. Seu segundo pensamento foi imaginar o que teria acontecido a todo o charme do homem.
O rosto que via agora trazia uma expresso ligeiramente entediada e marcada por traos de soberba aristocrtica. Com certeza era bonito, de porte esguio e musculoso
em trajes de caimento perfeito, mas os olhos verdes no possuam qualquer graa ou excitao agora que flutuavam de modo frio pelo cmodo e pararam brevemente nela.
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- Srta. Upshaw - balbuciou ele, ao fazer uma reverncia elegante em sua direo.
- Lorde Ravenscar - respondeu Miranda, com um tom de voz to frio e distante quanto o rosto dele. Ficou se perguntando se a excitao da noite anterior teria danificado
seu crebro, o que explicaria ter se sentido atrada por este homem. O conde de Ravenscar parecia com qualquer outro nobre arrogante que conhecera... seno pior.
Devin olhou rapidamente para Miranda de novo. Ele odiava estar ali. Era humilhante, aviltante. Consumia sua alma ser reduzido a isso. Apesar do modo como Leona e
Rachel definiam essa situao, ainda significava estar se vendendo pelo dinheiro dessa mulher. Era uma prova, sabia, de quo fundo no poo chegara. Mas, como Leona
argumentou, ele estava na lama agora. Vinha se atolando h muitos anos. Por que no chafurdar completamente nela?
Ainda assim, era difcil fazer aquilo. Ficara constrangido ao falar com o pai da garota; estava ainda mais constrangido agora, olhando-a diretamente. Mas ainda havia
lhe sobrado orgulho suficiente para deixar que percebessem como a humilhao marcava sua alma. Sua famlia, lembrou, se relacionara com reis; no deixaria que um
comerciante de peles qualquer ou sua filha o vissem humilhado. Levantou o queixo e lanou outro olhar para a criatura simplria diante dele.
Ela era exatamente como imaginara: desleixada, com o vestido fora de moda e sem formas definidas, o cabelo esticado para trs em um coque deselegante, um par de
culos empoleirado no nariz. Era, sem dvida, uma solteirona, uma mulher comum com quem algum s se casaria por dinheiro.
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Com certeza, o jeito de falar e os modos deveriam ser to pobres quanto a aparncia - um sotaque americano desagradvel e nenhuma idia sobre o que fazer ou dizer
quando em companhia de algum educado.
Seus olhos se desviaram de novo, to rapidamente quanto a focalizaram. No conseguia mais olhar para ela depois disso, portanto fixou um ponto acima do ombro esquerdo
da mulher e comeou a falar.
- Srta. Upshaw, pedi permisso a seu pai para cortej-la, e ele gentilmente concedeu-me essa permisso. - Suspirou e continuou: - Seria um grande prazer para mim
se me desse a honra de consentir em ser minha esposa.
Ele fez uma pausa, esperando. Miranda encarou-o por um longo instante, sem acreditar no que acabara de ouvir. Estava to furiosa que mal conseguia formular uma frase
coerente.
Por fim, sem rodeios, ela disse:
- No.
O queixo dele caiu comicamente, e pela primeira vez encarou-a diretamente.
- O qu?
O olhar de espanto dele era to grande que Miranda deu uma risadinha.
- Eu disse que no, lorde Ravenscar - ela repetiu.
- Voc est recusando o meu pedido? - E como se no bastasse, a ordinria ainda tinha a petulncia de rir dele!
- Sim, estou.
- Santo Deus, mulher! - ele explodiu. - Espero que no pense que vai receber uma oferta melhor!
- Caro senhor - disse Miranda, asperamente -, qualquer oferta teria sido melhor do que a que o senhor acabou de fazer.
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Ela tirou os culos e andou para a frente, at ficar a poucos centmetros dele. Olhou para cima, provocativamente, para seu rosto.
- Nunca ouvi uma frase to sem graa em toda a minha vida. Posso garantir-lhe que no h mulher na Terra que se casaria com o senhor se a abordasse dessa forma.
Quem pensa que ? Acha que qualquer mulher cairia de joelhos em agradecimento por voc ter permitido que ela seja sua esposa? Voc  o homem mais rude e arrogante
que tive a infelicidade de conhecer. Prefiro viver o resto da vida sozinha, morrer sozinha, a me unir a um tipo como voc!
Dev olhou para baixo, para os olhos verdes arregalados, loucos de raiva, e teve a segunda grande surpresa daquela tarde.
- Voc! Voc  a mulher que...
- Sim - respondeu Miranda, asperamente. - Sou a mulher que salvou sua pele ontem  noite. Se no fosse to arrogante e convencido, sem dvida teria percebido isso
antes. E, pensando bem, estou comeando a me arrepender de ter me dado o trabalho. Uma sova nas mos daqueles rufies teria feito um bem enorme a voc. Na verdade,
estou propensa a imaginar que talvez eles houvessem sido contratados por alguma outra mulher a quem voc insultou com um pedido de casamento.
- Insulto! - exclamou Devin, a raiva crescendo dentro dele. No sabia ao certo o que o incomodava mais... se o desdm daquela mulher ou o fato de que seu corpo,
repentina e vividamente, se lembrara da excitao que sentira na noite passada quando olhou para ela. - Voc ousa dizer que a insultei ao pedi-la em casamento? Sou
o sexto conde de Ravenscar. Sou capaz de descrever minha linhagem a partir
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do sculo XII. Posso jurar que voc mal saberia dizer quem foi seu av.
- Esse argumento  uma tolice sem precedentes - disse Miranda, indiferente. - Os antepassados de todas as pessoas remontam a essa poca. O fato de voc saber os
nomes dos seus no significa nada, exceto que a famlia guarda registros. S Deus sabe que tipo de homem foi esse seu antepassado... poderia muito bem ter sido o
homem mais diablico da poca. E isso no diz nada sobre seu carter. Esta  uma qualidade que voc constri sozinho, e, pelas coisas que ouvi, no tem feito um
bom trabalho.
- Voc ousa... - Ravenscar olhou para ela com os olhos semicerrados. - Santo Deus, se voc fosse homem, eu a desafiaria para um duelo. - Chegou ainda mais perto,
encarando-a com um olhar penetrante.
- Outro detalhe por demais tolo de se mencionar, j que obviamente no o sou - observou Miranda, mantendo-se firme. No estava disposta a deixar que ele a intimidasse,
impondo-se dessa forma. Seu humor se alterara e estava gostando de sua postura. Este homem merecia que lhe domassem a petulncia, e Miranda estava bastante feliz
por ser a pessoa a fazer isso. Levantando o queixo em desafio, ela o encarou de volta, a apenas alguns centmetros de seu rosto.
- Sua desaforada... - Ravenscar interrompeu suas palavras e, repentinamente, segurou-lhe os braos com fora. Puxou-a para cima, levando a boca em direo  dela.
Miranda ficou paralisada por um instante, incapaz de se mover. Nunca fora tratada daquele modo, agarrada to bruscamente ou beijada com tanta intensidade. Nenhum
outro homem teria a arrogncia - ou a coragem. Um lapso de indignao tomou
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conta dela. Mas, ao mesmo tempo, todo seu ser estremeceu com as sensaes que experimentou. A boca dele era quente e exigente; e aquele gosto a inebriou. Os lbios
de Devin pressionaram os dela, ferventes, aveludados, flamejantes. Ento a lngua dele entrou em sua boca, invadindo-a. Um tremor de excitao percorreu-lhe o corpo,
uma vibrao que chamuscava cada terminao nervosa de um modo que ela jamais sentira - que, na verdade, jamais imaginara existir.
Sentiu uma presso na parte baixa do abdmen, quente e latejante, insistente. Ela cedeu, entregue ao calor e ao prazer, a raiva e a indignao extintas pelo desejo
que a preenchia. Sentiu os seios cheios e macios, os mamilos salientes e ansiosos. Percebeu que queria sentir as mos dele em seus seios, que a tocasse por inteiro.
Ela tremeu, emitindo um gemido que foi engolido pela boca voraz que a beijava.
De repente, e para a surpresa de Miranda, Devin se afastou. Ele chegou para trs e olhou para baixo, para o rosto suavizado pela paixo. Os olhos dele brilharam,
verdes como a gua do mar.
- Pronto - sussurrou, largando os braos dela. - Agora voc sabe o que poderia ter tido, mas foi muito tola para conseguir.
Aquelas palavras custicas romperam a nvoa de prazer. A espinha de Miranda enrijeceu-se. Uma ira e uma feroz averso a si mesma a dominaram. Levantou a mo e deu-lhe
um tapa na cara com toda a fora.
- Saia daqui - ela explodiu. - Saia desta casa e nunca mais aparea aqui novamente.
- Com muito prazer - respondeu ele, num tom sarcstico, virando-se para deixar o recinto.
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Os joelhos de Miranda ficaram de repente muito fracos para se firmarem, e ela desabou na cadeira mais prxima. Meu Deus, o que acabou de acontecer?
Em um instante, sua vida inteira virara de cabea para baixo. Ela agiu com uma fria, uma indignao e um fogo completamente novos para ela. A mo ardia do tapa
que dera. Ficou feliz por t-lo dado; chegou a desejar que Devin voltasse para que pudesse bater nele de novo. Mas, ao mesmo tempo, estava confusa, quente e sedenta.
Queria sentir mais uma vez o prazer que surgira dentro de si quando ele a beijou.
O homem era arrogante e rude - no, ele era mais do que isto; era to irritante e provocador que no conseguiu achar um nome que o definisse. Ela o odiava, e o odiava
ainda mais por t-la excitado daquela forma com o beijo. Sentira vontade de encostar-se luxuriosamente nele, desejara que aquilo durasse para sempre. Adorou o beijo,
ainda que todo o seu ser lhe gritasse para no gostar. Desejara-o com uma ferocidade e urgncia como nunca sentira por outro homem. E era enfurecedor o fato de que
ele a fizera sentir-se daquele jeito contra sua vontade.
O homem era o demnio em pessoa, pensou, e desejou nunca mais v-lo. Mas, no, logo percebeu, isso no era verdade. Desejava v-lo de novo, sim - e logo -, para
que pudesse dizer-lhe o quanto o desprezava!
Devin desceu a rua a p, os passos seguindo o mesmo ritmo da torrente de confuso que tomava conta de sua mente. Que audcia da vadia! Dar-lhe um tapa, dizer que
ele no era bom o bastante para ser seu marido! Quem ela pensa que ? Ele  um Aincourt de Darkwater; ela  uma ningum, cheia de empfia
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s porque seu pai fizera uma pilha de ouro vendendo peles de animais - como se isso a tornasse algum importante!
pensou em uma dzia de injrias que deveria ter lanado sobre ela. Deveria ter dito como sua recusa era sem importncia. Para comear, no queria pedi-la em casamento
- s o fez porque todos o pressionaram. Deveria ter dito que ela no era um trofu para homem algum, muito menos para um conde. Mas, raios, a sensao dela em seu
corpo fora to suave e dcil. Seus lbios tinham gosto de mel; o perfume de rosas impregnado em seu corpo penetrou-lhe as narinas de forma encantadora e inebriante.
Devin resmungou de frustrao, assustando um passante e fazendo com que o homem fosse rpido para o outro lado da rua. Parecia bizarro demais, absurdo demais, que
ela pudesse ser a mulher encantadora que o salvara na noite anterior. Ele estava bbado,  claro, ficara apenas com uma vaga lembrana do rosto da mulher, mas se
lembrara daqueles olhos cinza grandes e expressivos, da forma como brilharam com alegria e excitao. Como poderia aquela mulher ser esta criatura montona e enervante,
a quem se forou a pedir em casamento esta tarde?
Fora a mulher de ontem  noite que correspondera ao seu beijo. Sentira o ardor e a excitao nela, a mesma paixo que a impelira ontem para o meio de uma briga.
Sorriu ao pensar no beijo, lembrando-se do calor dos lbios dela e de sua doce avidez. No sabia ao certo por que fizera aquilo - quis dar o troco de alguma forma.
Ela fora to enervante, to fria e controlada, to desdenhosa, que quis mostrar-lhe quem estava no controle da situao. E conseguira isso, apesar do tapa. O tapa
s serviu para mostrar como atingira um ponto fraco;
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suspeitava que ela estava mais furiosa por corresponder ao beijo do que por qualquer outro motivo.
Sabia, tambm, que era capaz de faz-la corresponder novamente. Diabos, se se esforasse, poderia faz-la se apaixonar. Devin sabia que podia ser encantador. Muitas
mulheres em seu passado sucumbiram a seu charme - at algumas consideradas recatadas demais para ter qualquer relacionamento com um libertino como Devin Aincourt.
Geralmente, no perdia tempo cortejando uma mulher que resistia a ele; muitas outras iriam para sua cama de bom grado... e havia,  claro, Leona, que sempre ocupava
o primeiro lugar em seus afetos.
Mas agora, pensou, parecia que ia valer a pena. Ento a vadia americana o considerou um pretendente de baixa qualidade... Qualquer proposta teria sido melhor do
que a dele. Imaginou como Miranda se sentiria a respeito depois de alguns dias de cortejo insistente. Nada dcil foi o sorriso que lhe veio aos lbios ao pensar
nisso. Ele seria encantador e atencioso; iria seduzi-la com todo o carinho e ternura. No seria difcil, no com o tipo de paixo que sentira nela esta tarde. E
quando estivesse completamente apaixonada, dizendo-lhe que desejaria casar-se com ele mais do que tudo na vida... bem, ento ele sorriria e diria que sentia muito,
mas no costumava pedir algum em casamento uma segunda vez.
S de pensar na cena, sentiu enorme satisfao. No fundo, pensou, era um homem perverso, como Leona dissera na noite anterior. Partir o corao da fedelha americana
o atraa muito mais do que se casar com ela.
Mudou de direo, indo para a casa da irm, uma imponente propriedade que ocupava a maior parte de um quarteiro em Mayfair. O lacaio o conhecia e cumprimentou-o
com
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uma reverncia quando passou por ele e subiu as escadas at a sala de estar, no andar de cima. Ficou aliviado ao encontr-la sozinha, concentrada em um bordado,
em vez de recebendo visitas.
Rachel levantou os olhos ao som dos passos dele; um sorriso brotou em seu rosto.
- Dev! - Levantou-se rapidamente e foi em direo a ele, estendendo ambas as mos. - Estou to feliz em v-lo... ainda que devesse repreend-lo pelo que fez ontem
 noite, ou, devo dizer, no fez. Aquilo foi muito constrangedor. Eu me senti uma tola tentando dizer  srta. Upshaw que, no fundo, voc era um bom homem.
- No precisa mentir a meu respeito, Rachel - disse Devin com um sorriso, cumprimentando a irm com um beijo no rosto. - Voc sabe que sou tudo menos um bom homem.
- Bem, todo mundo na cidade dir isso a ela. Eu estava tentando defend-lo. Mas ficou um pouco difcil pelo fato de voc no ter tido nem a cortesia de aparecer.
- Mas eu compensei isso hoje. Fui  casa da americana e pedi a mo dela ao pai.
- Dev! - Os olhos verdes de Rachel, uma verso terna e feminina dos olhos do irmo, brilharam de satisfao. - Voc no fez isso! Verdade? Oh, estou to feliz. Gostei
da srta. Upshaw assim que a vi. Acho que ela ser uma esposa maravilhosa. Sei que isso  a coisa certa... vocs sero muito felizes.
- No se a minha felicidade depender de um casamento com ela. A srta. Upshaw recusou meu pedido.
- Recusou seu pedido? Devin riu.
- Bom, aplaca meus sentimentos feridos ver que voc est
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indignada com isso. Estou certo de que nossa estimada me dir que  bem-feito para mim.
- , provavelmente  - admitiu Rachel. - Mas no, isso  to desapontador. Eu, na verdade, esperava...
- No perca a esperana, meu amor. Tenho um plano.
- Um plano? - Rachel lanou-lhe um olhar com uma ponta de suspeita. - O que isso significa? Um plano para qu?
- Para virar o jogo com a srta. Ricaa - respondeu Devin. - Eu pretendo cortejar a fedelha. Faz-la voltar atrs na recusa.
Rachel franziu o cenho.
- Mas por qu? Achei que voc no queria se casar com ela. Imaginei que voc teria ficado feliz por ela t-lo rejeitado.
- Feliz por ouvir de uma americana qualquer que no sou bom o suficiente para ela? - perguntou Devin, friamente. - Creio que no, cara irm. No estou contente de
casar-me com ela, mas isso no significa que me sinto bem em ser rejeitado.
Rachel franziu ainda mais o cenho.
- Devin...
- O qu? - Olhou para ela com ares inocentes. - Achei que voc ficaria feliz por eu dar um empurrozinho para chamar a ateno dela.
- Ficaria se pensasse que voc estaria levando isso a srio. Mas essa parece ser uma jogada para voc, e uma jogada cruel, diga-se de passagem.
- No se preocupe com a americana. Pense somente em todo aquele dinheiro maravilhoso  espera de o agarrarmos.
- Devin! Voc fala como se fssemos to...
- To o qu? Mercenrios? Mas no somos? No fomos sempre impulsionados na direo do dinheiro? Este no foi o
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objetivo maior de seu casamento? E o de Caroline? Eu no fui sempre o indolente que no cumpriria o dever familiar no me casando com uma herdeira? Os cofres dos
Aincourt so, afinal, um poo sem fundo.
- Odeio quando fala desse jeito - disse Rachel, agora com o semblante entristecido. - Caroline e Richard se amavam. Ele est com o corao partido desde a morte
dela, voc sabe disso.
- Sei. - Suas feies suavizaram-se um pouco. - E eu sou vil ao lembrar-lhe de seu prprio sacrifcio. Sobretudo quando fui sempre egosta demais para fazer o mesmo.
- No quero que voc sacrifique sua vida, Dev. Quero sua felicidade.  s com isso que me importo.
- Bem, ficarei muito feliz em conquistar a srta. Upshaw. E  por isso que quero que voc d uma festa e a convide.
- Dar uma festa?
- Sim. Uma festa  qual eu comparecerei... e na qual me esforarei para reparar o dano que causei  opinio da srta. Upshaw a meu respeito.
Rachel lanou um olhar demorado e ponderador. O brilho inflexvel nos olhos dele a assustavam um pouco. Perguntou-se se estaria prestando um grave desservio  americana
ao ajudar Devin na tentativa de seduzi-la a aceit-lo. Mas ento lembrou da srta. Upshaw e da conversa que tiveram na noite anterior, ocorrendo-lhe que Miranda Upshaw
era capaz de se virar com qualquer um, at mesmo Devin.
- Est bem - disse ela, por fim. - Vou dar um baile para a srta. Upshaw. Ela no poder se recusar a comparecer a uma festa realizada para apresent-la  sociedade.
- Obrigado, irm querida. - Devin fez uma reverncia brincalhona. - Estou eternamente em dvida com voc.
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- Farei com que se lembre disso - retrucou Rachel no mesmo tom de voz e acrescentou, mais reflexivamente: - Ser interessante ver qual dos dois sair vencedor. Talvez,
e com sorte, os dois saiam.

Captulo 5

Miranda virou-se primeiro para um lado, depois para o outro, olhando o reflexo no espelho. Atrs dela estavam sentadas a madrasta e a meia-irm, observando-a. O
pai andava de l para c pelo corredor, enfiando a cabea pelo portal de tempos em tempos para ver como as coisas progrediam.
- Voc est linda - disse Vernica, olhando para Miranda com brilho nos olhos.
- Ela tem razo - concordou Elizabeth. - Este verde-gua combina perfeitamente com seus cabelos. Estou to satisfeita por termos decidido compr-lo.
- Eu tambm - admitiu Miranda. O vestido era adorvel. Feito em camadas de um tecido transparente e verde bem claro, tinha um corte ondulado que fazia parecer que
Miranda estava emergindo do mar. Amarrado com uma fita prateada larga abaixo do busto, acentuava a firmeza de seus seios, o decote baixo e arredondado favorecendo
o colo. Nos ombros, havia uma faixa de prata to fina que parecia nem existir. Seus cabelos castanhos estavam artisticamente arrumados em uma cascata de cachos pendentes,
entre os quais havia, entrelaada, uma fita no mesmo tom de prata. Estava mais bonita do que nunca, pensou com um sorriso de satisfao. Lorde Ravenscar no a encontraria
comum ou desleixada esta noite.
Este, sabia, era o principal motivo que a fizera aceitar comparecer
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ao baile de lady Westhampton esta noite. Quando recebeu o convite, dissera secamente ao pai que no iria.
- Isso  apenas uma manobra para me forar a encontrar lorde Ravenscar de novo, e nada vai me obrigar a isso - dissera ela, ignorando a expresso suplicante de Joseph.
- Ns no sabemos se  isso o que vai acontecer.
- E por que outro motivo lady Westhampton teria nos convidado? Obviamente, ela ama muito seu irmo, apesar do fato de ele ser um cretino. Deve esperar que ele seja
capaz de me persuadir em uma segunda tentativa. Ou talvez pense que pode me deslumbrar com uma prova da vida reluzente da sociedade londrina, torcendo para que eu
me case com ele s para comparecer a festas como essa.
- Estou certo de que no foi esse o motivo. Ela gosta de voc. Voc no disse que gostou dela?
- Sim. Mas no o bastante para me casar com seu odioso irmo.
- Vamos, Miranda, meu amor, ele era assim to mau? - perguntou Joseph.
- Ele foi o homem mais rude e arrogante com o qual tive a infelicidade de conversar. Ele mal me olhou por todo o tempo em que falava. Ficou bem claro que me considerava
muito inferior a ele e que fazia o pedido s porque estava desesperado. Se eu tivesse de viver com um homem como esse, um de ns seria encontrado morto em um ms.
- Talvez estivesse nervoso - Joseph sugeriu. - Pedir a mo de uma mulher costuma causar isso em um homem.
- Nunca vi um homem menos nervoso.
Miranda no contara ao pai sobre o modo como lorde Ravenscar a agarrara e a beijara  fora. No entendia ao certo
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por qu. Sabia que uma revelao como essa acabaria na hora com os questionamentos e apelos do pai. No entanto, percebeu que estava relutante em dizer isso a ele.
Era constrangedor: mal podia pensar no incidente que ruborizava. E, tambm, no tinha certeza de como o pai reagiria. Ele no era um homem destemperado, mas um insulto
como aquele  filha era algo que poderia provocar um acesso de fria. E, se isso acontecesse, estava quase certa de que ele poderia fazer algo impensado, como ir
at a casa do conde e agredi-lo. Embora aquele homem merecesse, tendo visto o conde em ao na noite anterior, imaginou que o pai estaria em desvantagem numa briga,
e certamente no queria v-lo machucado.
Mas Miranda sabia que havia mais do que isso impedindo-a de revelar o comportamento escandaloso de Ravenscar. No sabia ao certo a razo; apenas queria guardar a
informao para si. O beijo a deixara confusa e insegura, uma condio  qual no estava acostumada, e relutava em permitir que algum o percebesse.
Ela no gostava nem um pouco do homem, exatamente como dissera ao pai. Sentia que poucos minutos na companhia dele a deixariam furiosa de novo. O que no revelava,
entretanto, era que no conseguia parar de pensar no beijo, que havia algo dentro dela que ansiava com igual intensidade senti-lo mais uma vez. No queria dizer
isso a Joseph, claro, mas sabia l no fundo que estava intrigada com a idia de encontrar Ravenscar mais uma vez.
Lorde Ravenscar no encontraria uma garota desleixada e de culos aquela noite, pensou e sorriu para si mesma, dando uma ltima olhada no espelho antes de se afastar
para calar
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as luvas compridas. A noite inteira valeria a pena s para ver a expresso no rosto dele.
Joseph apareceu no quarto novamente, com luvas em uma das mos e o relgio de ouro na outra.
- Hora de ir - disse, depois parou, olhando para a filha.
- Veja! Terei de lutar para mant-los afastados hoje  noite, garanto-lhe.
Miranda riu.
- Obrigada, papai.
- No h nada que possa colocar neste decote para cobri-la um pouco? - continuou ele, franzindo o cenho. - Um babado, uma renda ou algo assim?
- Este  um vestido de festa, papai.  assim que eles devem ser.
- Sim, querida - concordou Elizabeth serenamente, de sua poltrona. - Essa  a ltima moda.
-Achei-o absolutamente magnfico-acrescentou Vernica, suspirando. - Gostaria de poder ir com vocs. S de pensar em conhecer todas aquelas pessoas... as mais ricas
e enaltecidas da sociedade inglesa.
- As mais falsas e tolas seriam uma descrio melhor - respondeu Miranda, e passou a mo carinhosamente nos cabelos castanhos da menina. - Sua hora chegar.
- Sim, sua irm cuidar do seu debut - prometeu Joseph. - Assim que estiver estabelecida na sociedade.
- Papai...
- Sabe, Joseph, voc no deveria pression-la - Elizabeth interveio, delicadamente. - Ela no precisa se casar com lorde Ravenscar. Na verdade, voc sabe que eu
acho que ela no deveria fazer isso.
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- Eu sei, Elizabeth - disse Miranda  madrasta, com um sorriso. - Acredite, no tenho qualquer inteno em concordar em me tornar lady Ravenscar.
- Acho esse um nome maravilhosamente romntico - disse Vernica, dando outro suspiro de admirao. - Ravenscar. Ele soa to... to selvagem e extico.
- Humm. - Miranda pegou o leque de cima da mesa a seu lado. - Selvagem e extico demais para uma pessoa simples como eu, com certeza. Tudo certo, papai, estou pronta.
- Finalmente. - Ele foi em direo  esposa e inclinou-se para beij-la no rosto. - Gostaria que fosse conosco, Elizabeth.  uma pena estar perdendo todas essas
festas.
- No tem importncia. No estou nem mesmo com vontade de sair hoje. Quero ir  pera daqui a alguns dias.
- Tenho certeza de que ser mais divertido... e muito menos cansativo - concordou Miranda, indo tambm at a madrasta e beijando-a.
O pai ofereceu-lhe o brao, Miranda apoiou a mo nele, e ambos saram, descendo as escadas para a carruagem que os esperava do lado de fora. Joseph ficou atipicamente
silencioso no caminho at a manso Westhampton, olhando pensativo pela janela. Por fim, disse:
- Sabe, eu no gostaria que voc fizesse nada que a tornasse infeliz.
- Sei disso, papai. - Miranda esticou o brao e afagou seu joelho.
- Talvez Elizabeth esteja certa... S estou pensando em mim, no em voc.
- Bem, sou bastante capaz de pensar em mim, e, acredite, voc no vai conseguir me coagir a fazer algo que eu no
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queira. - Ela sorriu. - Com certeza, no acha que me tornei frgil e dcil nos ltimos dias, acha?
Um sorriso se abriu no rosto do pai quando ele girou a cabea para olhar para a filha.
- No, no acho.
- Ento, no h nada com que se preocupar. Sou to cabea-dura quanto voc, portanto pode discutir comigo o quanto quiser que no conseguir me desviar do que desejo
fazer. Agora, Vernica  outro caso.
- Vernica! - O pai pareceu surpreso. - Eu nunca tentaria coagir Vernica a fazer nada. Ela, bem, ela o faria s para me satisfazer e ento seria totalmente infeliz.
- V? Voc sabe que comigo no tem de se preocupar.
- Voc tem razo. - Ele pegou a mo da filha com um sorriso. -  um alvio, para mim, saber que voc no leva em considerao nada do que falo.
Miranda riu e apertou a mo dele.
No instante em que chegaram, a manso Westhampton estava cheia de gente. Miranda ficou para trs de propsito, agitando o vestido como nunca o fizera porque queria
fazer uma entrada majestosa. Ficou desapontada, no entanto, ao lanar-se na grande escadaria no brao do pai e perceber que Ravenscar no estava ali para assistir
 sua descida. O homem conseguira uma vantagem sobre ela, pensou, contrariada, enquanto seus olhos perscrutavam rpida e discretamente pelo grande salo de baile.
Ela no o via em lugar algum. Ser que essa festa era apenas puto de uma irm esperanosa? Ser que Devin no havia planejado tentar cortej-la?
Esse foi um pensamento deprimente. Miranda estivera contando, a semana toda, com uma nova oportunidade de dar
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o troco quele homem arrogante. Mesmo assim, com a melhor expresso no rosto possvel, cumprimentou Rachel, que estava recebendo os convidados ao p da escadaria,
com um sorriso.
- Srta. Upshaw! - Os olhos verdes de Rachel brilharam, e ela pegou as mos de Miranda, cumprimentando-a amistosamente.
Agora que conhecera o irmo, Miranda pde identificar a semelhana entre eles. Como Devin, Rachel era alta. Os ombros largos faziam com que as roupas cassem lindamente
nela. Seus cabelos cheios e brilhosos eram negros, como os dele, e os olhos, do mesmo tom de verde. Mas uma ternura fazia os olhos dela mais doces e convidativos
e dava um toque amigvel a seus traos, o que no acontecia com o rosto de lorde Ravenscar.
- Estou to feliz por ter comparecido hoje. Fiquei com medo de que o comportamento intolervel de meu irmo a afastasse. Posso garantir-lhe que ele se arrepende
profundamente.
Miranda tinha sua prpria opinio a respeito. Duvidava que o conde de Ravenscar se arrependesse de algo, mas no se podia culpar a irm por no enxergar seu verdadeiro
carter.
Rachel tambm cumprimentou o pai de Miranda calorosamente. Para alm dela estava sua me, lady Ravenscar, que relaxou apenas o suficiente para sorrir para eles,
apesar de o gesto no ter se estendido ao olhar. Ela, pensou Miranda, era mais como o conde... odiando a idia de ter de se rebaixar para permitir que meros campesinos
entrassem na famlia. Miranda cumprimentou lady Ravenscar com o mesmo calor e entusiasmo exibidos pela senhora. Ento comeou a se movimentar com o pai em direo
aos convidados.
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Mas Rachel no a deixaria escapar assim, to facilmente. Foi para o lado deles e deu o brao a Miranda.
- Deixe-me apresent-la a algumas de minhas amigas - disse-lhe, guiando Miranda na direo de um grupo de jovens matronas.
Rachel apresentou-a a todas as mulheres. Algumas eram to amveis quanto Rachel em seus cumprimentos, outras eram mais frias. Miranda podia ver os olhos delas percorrendo
seu vestido, avaliando estilo e custo. Sabia que fora feito por um dos melhores estilistas de Londres, ento no havia com o que se preocupar. Sem dvida alguma,
quem quisesse encontraria algo para criticar em seus modos e em seu jeito de falar, mas Miranda no se incomodava. Sabia que estava vestida para apenas uma pessoa
ali, naquela noite... e, aparentemente, tudo fora em vo. No havia sinal do conde de Ravenscar em lugar algum.
Tinha conscincia de que as pessoas estavam falando dela. Viu os olhares de esguelha e ouviu os murmrios por trs de mos e leques enquanto Rachel a conduzia, apresentando-a
a uma vertiginosa fila de garotas vestidas de branco, matronas em vestidos magnficos e ricas vivas vestidas de negro enfi-leiradas em poltronas encostadas na parede.
De vez em quando, assim que Rachel se virava para falar com outra pessoa, Miranda podia ouvir fragmentos de dilogos: "(...) to selvagem que s uma americana se
casaria com ele..."
"(...) nada alm de antros de jogatina e casas de m reputao..."
"Bem, o que voc poderia esperar? Ele gastou toda a fortuna (...) cartas, bebida e mulheres."
"(...) bonito como o prprio Lcifer,  claro."
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"Graas a Deus ele nunca jogou charme para minha Marie."
"Bem, ela se arrepender."
Aquilo era quase o suficiente para fazer qualquer um sentir um pouco de piedade pelo homem, pensou Miranda... mas s para algum completamente desavisado a respeito
dele. Tambm achou irritante todos parecerem acreditar que ela aceitaria o pedido de casamento, como se uma americana fosse ficar feliz em desposar um aristocrata
britnico, no importando o quo baixo e vil ele fosse. Esta era uma atitude com a qual deparara vrias vezes durante sua estada ali. Em sua terra, ela e sua famlia
faziam parte da mais alta sociedade; aqui, pareciam ser meramente tolerados como uma curiosidade grotesca. Achou peculiar que o sucesso na vida contasse to pouco
em relao ao nome que algum trazia.. Exatamente a mesma atitude que Ravenscar demonstrara; o desgosto e o desprezo de ter de pedir em casamento uma simples mulherzinha
da ex-colnia transpareceram em sua fala e em seus modos. Ela sups que houvesse sido inevitvel para ele, tendo crescido no meio dessas pessoas, tornar-se assim
to arrogante.
Miranda j estava ali por quase uma hora agora, o que parecia muito mais, considerando os dilogos fteis dos quais tivera a infelicidade de participar. Se o homem
no aparecesse logo, pensou, iria para casa mais cedo e descansaria com um bom livro. Com certeza, seria mais divertido que tudo aquilo.
Naquele momento, uma voz grave soou atrs dela e de Rachel.
- Minha cara irm - Ravenscar comeou. - Uma reunio bem-sucedida, como sempre.
- Ol, Dev. - Miranda sentiu o brao tenso de Rachel
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contra o dela, mas j sabia quem era pela voz. Era o tom grave e distorcido do homem que salvara, com um toque de leveza e graa colorindo sua voz, no o balbuciar
arrogante do Ravenscar que a pedira em casamento. Miranda virou-se, como Rachel o fizera, para olh-lo.
- E quem  essa... - Devin tropeou nas palavras obsequiosamente ao colocar os olhos em Miranda, que percebeu seu arregalar de olhos e a maneira rpida com que varreram
seu corpo de cima a baixo. Nesse instante, soube que o vestido e o penteado haviam causado o efeito desejado. - adorvel senhorita - continuou, disfarando o pequeno
tropeo de suas palavras. - Ah, mas eu a reconheo agora, srta. Upshaw.  um prazer rev-la.
- No poderia ser um prazer menor do que o foi da ltima vez em que nos vimos - respondeu Miranda, com um tom igualmente suave. - Como vai, lorde Ravenscar?
- Melhor agora, que a vi. - E virou-se ligeiramente na direo da irm. - Rachel, roubarei sua convidada. Voc j monopolizou-a por muito tempo. Uma valsa est para
comear, srta. Upshaw. Se me der a honra...
Ele estendeu-lhe a mo, os olhos desafiadores no rosto bonito. Devin sabia que Miranda preferiria dizer no, mas essa atitude teria sido excessivamente rude para
com sua irm, a anfitri da festa, que estava em p ao lado deles.
- Eu mal tive oportunidade de conversar com lady Westhampton - Miranda mentiu, fazendo uma tentativa de esquivar-se do convite.
Mas Rachel foi mais rpida.
- Oh, no se incomode comigo, srta. Upshaw. Estou negligenciando meus convidados. Apreciei bastante o tempo
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que conversamos. V em frente e dance com Dev. Posso assegurar-lhe, sejam quais forem seus defeitos, ele  um exmio danarino. Ns duas teremos chance de conversar
mais tarde.
-  claro. - No havia nada que Miranda pudesse fazer agora, com todos olhando para eles, exceto aceder graciosamente.
Botou a mo no brao que Devin lhe ofereceu e caminharam juntos at o salo de dana. Viraram-se de frente um para o outro, e ele pegou-lhe a mo, deslizando a outra
suavemente em torno da cintura dela. Miranda olhou para cima, para o rosto dele, seu corao batendo mais rpido do que gostaria. O homem era inegavelmente lindo.
Ele rodopiou-a pelo salo assim que comearam as primeiras notas da valsa, e, nos momentos seguintes, no se falaram, apenas movimentando-se ao som da msica, concentrados
em coordenar os passos. Era fcil danar com ele, constatou Miranda. Devin era, como a irm dissera, um excelente danarino - movimentando-se com graa e conduzindo-a
com leveza, em nada parecido com os puxes de um lado para o outro que alguns homens costumavam fazer. Depois que entraram no ritmo da dana, Devin sorriu para ela,
um tanto ironicamente.
- Bem, uma bela transformao, devo dizer.
- Nem tanto... se o que importa  olhar por baixo da superfcie das coisas.
- Ah, um soco direto, srta. Upshaw. Voc me pegou. Eu no demonstrei considerao no outro dia.
- Voc foi rude - Miranda corrigiu-o asperamente. - Arrogante, rude e profundamente desagradvel.
- Sim. Confesso que fui tudo isso. E logo aps voc ter vindo em meu socorro na noite anterior. Foi muito grosseiro de minha parte.
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Aquela pronta admisso de sua falta de modos pegou Miranda de surpresa. Ela esperava que ele discutisse, ou negasse suas afirmaes... ou que simplesmente as ignorasse.
No estava preparada para que concordasse com ela. Aquilo deixou-a, percebeu, sem palavras.
Ele sorriu ao ver a expresso em seu rosto.
- Veja, pelo menos sou honesto. Pode me dar o crdito por isso.
- Isso conta um pouco, suponho... Um pouquinho.
- Pelo menos tenho algo a partir do qual posso trabalhar. Talvez possa redimir minha falta de modos naquele dia.
- No tenho certeza se isto  possvel. Sempre poderia achar que seus modos educados so apenas fachada, e que por trs disso est o mesmo homem que se comportou
to mal.
- Nenhum pedido de desculpas ser suficiente, ento? No se pode dar a uma pessoa a oportunidade de melhorar?
- Melhorar  uma coisa boa, contanto que seja de verdade.
- Voc, obviamente, duvida da minha capacidade... ou da minha veracidade.
- No o conheo bem o suficiente para responder, lorde Ravenscar. As situaes nas quais o vi...
- Eu sei. No me apresentei na minha melhor forma. - Um sorriso levantou um dos cantos de sua boca. - Ainda que haja muitos que diriam que no tenho nada de bom.
- Fala srio? At agora voc no est apresentando uma defesa muito boa de si mesmo.
- No, no estou, no ? Acho que deve ser voc, srta. Upshaw. Normalmente sou muito mais articulado. Voc me deixa sem palavras.
- Deixo? Fico impressionada por ter tal poder sobre voc.
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Especialmente pelo fato de ser o sexto conde de Ravenscar, enquanto sou apenas uma simples provinciana que mal sabe quem era o av. - Ela sorriu afavelmente para
ele. Ravenscar deixou escapar um gemido.
- Voc no vai me deixar esquecer isso, vai?
- No, creio que no.
- Deixe-me pedir desculpas, srta. Upshaw.
- Certo. - Ela olhou para ele,  espera. - V em frente. Pea desculpas.
As palavras dela pareceram aturdi-lo. Ele desviou o olhar, dizendo:
- Bem, ah...
Miranda deduziu que pedir desculpas era algo que o homem raramente fazia.
- Sim?
- Desculpe-me - disse ele, por fim, e olhou de novo para ela. - Eu no deveria ter agido do modo como agi ou dito as coisas que disse. No h justificativa, exceto...
francamente, eu estava com raiva, e lamento ter descontado em voc.
Ravenscar pareceu ligeiramente surpreso, como se no houvesse esperado dizer o que disse - ou talvez no tenha se dado conta da verdade at aquele momento. Hesitou
um instante, e ento disse:
- Podemos conversar?
- Achei que era isso o que estvamos fazendo.
- No, quero dizer... - ele a conduziu para o canto do salo e parou -... vamos dar uma caminhada, pegar um pouco de ar fresco. E conversar.
- Certo - concordou Miranda. Ela no sabia ao certo quais eram as intenes de Ravenscar ou exatamente por que semtira
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essa necessidade repentina de conversar. Deduziu que estava de algum modo engajado em faz-la aceitar seu pedido de casamento. No descartava a possibilidade de
ele preparar-lhe uma armadilha para faz-la casar-se com ele - como, por exemplo, arruinar sua reputao -, mas estava confiante de que podia ser mais esperta do
que ele. E estava interessada em descobrir o que ele havia maquinado para convenc-la - ou for-la - a aceitar a proposta.
Apoiou a mo no brao dele e caminhou a seu lado pelo permetro da sala at chegarem s largas portas duplas abertas para o terrao da manso. Havia outras pessoas
ali, fugindo do ar quente e confinante do salo de baile. Alguns caminhavam, assim como eles, e outros formavam grupos de conversa. Miranda viu mais de um par de
olhos deslizar em sua direo e depois desviar. Tambm percebeu de relance uma mesma quantidade de mos levantadas para disfarar sussurros. Tinha certeza de que
todos estavam falando deles. No sabia ao certo que comentrios estavam fazendo ou o quanto os conhecidos de Ravenscar sabiam a respeito de seu pedido de casamento,
mas era bvio que houvera rumores.
Ravenscar guiou Miranda cortesmente para longe das pessoas do terrao e desceram os degraus de uma das passarelas do jardim iluminada por lanternas dispostas aleatoriamente
por entre as rvores.
- Eu no queria ter de me casar - disse a Miranda. - Eis por que estava com raiva... e constrangido. Ento agi como um tolo. - Lanou-lhe um olhar de soslaio. -
Se soubesse quem voc era, teria sido completamente diferente.
- Teria? - respondeu Miranda, friamente. Se ele achava
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que aquilo era um pedido de desculpas aceitvel, ainda tinha muito o que aprender.
Ele parou de andar, de modo que ela teve de parar tambm. Virou-a de frente para si. Miranda olhou-o nos olhos, escurecidos pela pouca luz do jardim, e sentiu os
joelhos ficarem repentinamente fracos. Talvez esse pedido de desculpas tenha sido o suficiente, no fim das contas. Ela sentiu uma onda de sensaes que no tinham
nada a ver com o fato de estar ressentida com ele.
- Sim. A mulher misteriosa que veio de modo to ousado em meu socorro... a mulher bonita que vejo diante de mim... como no haveria de ficar intrigado?
- Alm de ser tudo isso - respondeu Miranda -, sou tambm a americana insignificante com quem sua me est forando voc a se casar.
Os olhos dele se acenderam.
- Eu no estou sendo forado por minha me a me casar com voc. Ela no tem esse poder.
Miranda virou-se, escondendo um sorriso. Era fcil demais provoc-lo. Ela j percebera que, quando subestimada, era muito mais fcil manipular os outros. Isso funcionava
sempre a seu favor quando lidava com homens que pensavam que era incompetente s por ser mulher. Era igualmente fcil com esses aristocratas britnicos, que achavam
que no era sofisticada e que a consideravam at mesmo idiota, s por ser americana.
- Desculpe-me. Eu deveria ter dito que voc est sendo forado a se casar para escapar... como  que se costuma dizer por aqui?... do lao das dvidas?
- Se  assim que deseja se referir a isso - disse ele, a irritao
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tornando sua voz spera. Miranda manteve o rosto virado para baixo, mais para esconder o humor em seus olhos do que por timidez. Ravenscar colocou a mo em seu queixo
e suspendeu-o, de modo que ela olhasse diretamente para seu rosto.
- Agi de forma precipitada com voc - disse ele, sorrindo levemente. - Perdo. No costumo ser to amedrontador assim. Por favor, aceite minhas desculpas e permita-me
cortej-la.
Ele pegou o brao de Miranda, elevando-o e inclinando-se para pousar um beijo suave na parte de dentro do pulso dela.
- Deixe que lhe mostre o homem que posso ser. D uma chance a mim. D uma chance a ns.
Enquanto falava, seus lbios se moviam em pequenos beijos percorrendo o brao de Miranda at o cotovelo. O charme estudado de suas palavras a irritaram, mas ela
no conseguiu conter a profunda onda de prazer que sentia ao toque daqueles lbios em sua pele. No sabia como o mais leve beijo na pele sensvel do brao poderia
fazer seu abdmen inundar-se de calor e a pele formigar.
- Senhor - disse ela, constrangida ao perceber que a voz tremia -, isso no me parece apropriado. Estamos sozinhos no jardim.
- Sim, estamos. - A voz dele era rouca. Suas mos deslizaram para a cintura dela e puxaram-na delicadamente mais para perto.
- As pessoas vo...
- Ao inferno com as pessoas. - Ele baixou a cabea e beijou-a.
O desejo percorreu o corpo dela como se fosse a primeira vez que ele a beijava, estarrecendo-a e alarmando-a ao mesmo
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tempo em que se derretia. Devin abraou-a, pressionando o corpo contra o dela. O fsico dele era firme e masculino, deliciosamente diferente do seu. Miranda nunca
sentira a fora e o poder do corpo de um homem dessa forma; nenhum dos homens que conhecia jamais ousaria ser to presunoso. O fato de esse homem no se sentir
intimidado por ela aumentava de alguma forma o tremor de pura luxria que a atingia. Sentiu sua boca, quente e faminta, e o calor que emanava de seu corpo. Tremeu,
os dedos se fechando nas lapelas da casaca de Devin, segurando-se a ele em um mundo repentinamente instvel,
Devin emitiu um som baixo e trouxe-a mais ainda para junto de si, aquele beijo cuidadosamente calculado transformando-se de repente em um beijo de paixo. Seus lbios
atacaram os dela, e Miranda correspondeu com igual entusiasmo, surpreendendo-o com uma exploso de desejo profundo. Ele quisera seduzi-la, manipul-la para que o
desejasse. De repente, tudo o que queria era senti-la nua sob si.
Ele deslizou as mos pelas costas de Miranda e por suas ndegas arredondadas, apertando-a e levantando-a. Ela pde sentir o volume teso de Devin e, embora no tivesse
experincia nesses assuntos, soube instintivamente o que era, e esse pensamento provocou um ardor em sua virilha. Seus braos enlaaram o pescoo dele, e ela se
curvou. Devin gemeu, as mos acariciando selvagemente suas costas e quadris.
Miranda se pendurou nele sem prestar ateno em nada que no fosse o intenso prazer que sentia. Os seios ansiavam e formigavam de uma forma inimaginvel, e seu sexo
latejava intensamente. Queria envolv-lo com as pernas e aliviar o vazio que crescia ali. Queria sentir as mos dele em seus seios
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e pernas... por todos os lugares. O corpo dele parecia uma fornalha, o hlito quente em seu rosto, e tal sensao multiplicou seu desejo.
Devin afastou a boca, o que quase fez com que Miranda soluasse pela perda. Ento comeou a descer com os lbios pelo pescoo, acariciando-a e mordiscando-a delicadamente.
Sua mo subiu deslizando pela frente, entre seus corpos, e ele segurou um dos seios, surpreendendo-a e excitando-a. O polegar roou o mamilo por cima do tecido,
endurecendo-o e enviando um fervor de desejo to intenso por todo o corpo de Miranda que fez com que deixasse escapar um gemido alto.
Foi o som de sua prpria voz, descontrolada e estranha, que a trouxe de volta a si e a fez sair do transe de desejo no qual Ravenscar a colocara. Miranda se deu
conta, com uma onda de vergonha, de onde estavam e o que estavam fazendo. Ela planejara desmascarar o conde arrogante e, em vez disso, ele a seduzira to facilmente
quanto a uma mulher de taverna da pior categoria, deixando-a ardente e ofegante de desejo por ele, vida por sentir seu toque, seu beijo... e tantas coisas mais,
que ficou ruborizada s de pensar.
- No! - Desvencilhou-se dele que, assustado, soltou-a. Devin ficou parado observando-a, os braos inesperadamente vazios, o fogo queimando, insatisfeito, por suas
veias.
Miranda alisou o vestido e levantou a mo para colocar uma mexa de cabelo solto de volta no lugar.
- Francamente, lorde Ravenscar - disse ela, tentando passar toda a calma que podia na voz. No podia deixar que ele percebesse como conseguia abal-la com facilidade;
isso seria humilhante demais, - Esta no  a hora nem o lugar. Qualquer um pode se aproximar de ns a qualquer momento.
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- Eles no iro. - Sua voz era baixa e, ficou surpreso ao perceber, quase trmula com a intensidade de seu desejo. - Ns podemos ir mais para adiante. Conheo um
lugar... - Devin parou abruptamente, percebendo horrorizado que estava quase implorando.
Uma raiva comedida transpassou Miranda pelo fato de que ele conhecia o melhor lugar perfeito para seduzir uma mulher no jardim da irm.
- Sim - disse ela, friamente. - Tenho certeza de que voc teve uma vasta experincia ali adiante. Entretanto, no tenho a inteno de ser mais uma de suas amantes.
Miranda virou-se para encar-lo, os olhos cinza brilhando, prateados de raiva.
- No h mesmo necessidade dessa farsa, senhor. Ns dois sabemos o que quer de mim, portanto  tolice fingir uma paixo que nenhum de ns sente. - Seu sorriso era
frio. - Voc no conseguir me seduzir para que aceite o pedido de casamento.
Suas palavras foram como sal na ferida aberta da frustrao sexual de Devin. Ele sentira paixo - um volume alarmante dela, na verdade -, em bvio contraste  ausncia
pia de paixo por parte dela. Ficou muito irritado com o fato de que ele, que planejara seduzi-la, houvesse sucumbido ao desejo, enquanto Miranda estava ali, fria
e desdenhosa.
- No pretendo me casar com voc. Nunca pretendi, mesmo antes de seu pedido sem graa - continuou Miranda, sentindo-se novamente controlada. Foi assustador o modo
como quase perdera o controle. E pensar que chegara to perto de cair como uma menina ingnua na falsa seduo deste canalha! - No estou interessada em um casamento
arranjado... ainda que,  claro, possa ver as vantagens de um.
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- Mesmo. - Devin cruzou os braos, olhando irritado para Miranda.
- Oh, sim, mesmo. Para voc,  claro, h o meu dinheiro. Para mim, bem... Eu poderia apresentar minha irm Vernica  sociedade londrina do jeito que minha madrasta
deseja. Isso agradaria tanto a Vernica quanto a minha madrasta, ambas muito queridas para mim. E seu nome, obviamente,  tradicional e respeitado, apesar de voc
t-lo manchado com suas prticas perdulrias.
- O qu? - Ele arregalou os olhos e fechou as mos, os braos esticados ao lado do corpo. - Como ousa?
Miranda olhou para ele com ar inocente.
- Mil perdes. Essa no  a verdade? Foi o que ouvi. Mas talvez os comentrios no lhe tenham feito justia. Voc no gastou toda a sua fortuna? No anda em m companhia
e passa seu tempo em inferninhos de jogatina e casas de m reputao?
Ele apertou os lbios, um rubor surgindo em seu rosto firme.
- Ento? - Miranda provocou-o. - Trata-se de um falso rumor?
- Voc no deveria nem saber da existncia de tais coisas, muito menos mencion-las - falou ele, contrariado. -  vergonhoso.
-  vergonhoso eu mencion-las, mas no o  voc pratic-las? Francamente, lorde Ravenscar, no sou tola, se  isso o que voc pensa a respeito daqueles que vivem
alm da reverenciada costa da Inglaterra. Tambm no sou surda. No imaginou que eu ouviria os rumores? S esta noite, ao andar pelo salo, ouvi que voc envergonhou
o nome de seu pai, desperdiou...
- Cale-se! Voc no sabe do que est falando.
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- Ah, sei sim. Promiscuidade, depravao, bebedeiras... essas coisas so como vento no moinho dos boatos. Todos falam a respeito. Estou certa de que nenhuma das
pessoas a dentro se importa se uma americana desprezvel v ter a infelicidade de se casar com um homem com sua reputao. Mas isso conta pontos contra voc, pelo
que sei. E, obviamente, nenhum dos seus deixar que se case com uma de suas filhas.  parte,  claro, da afeio natural que sentem por elas, nenhum deles desejaria
aliar seus nomes a um outro to manchado por escndalos.  por isso que voc deve se contentar com uma herdeira que no  da nobreza... at mesmo uma no-britnica.
Sua reputao deve ser realmente muito ruim.
O rosto de Devin parecia feito de pedra ao encar-la com uma expresso fria e dura nos olhos, que pareciam bolas de gude. Miranda sabia que ele gostaria de poder
lanar sua ira sobre ela, mas no podia, porque tudo o que tinha dito era verdade.
- Obviamente, uma mancha em seu nome no incomodaria tanto a ns, americanos. Meus conterrneos parecem estranhamente apaixonados por ttulos. Suponho que isso se
deva ao fato de termos nos livrado de tais detalhes sem sentido h muito tempo. O que criou um vazio para os muito orgulhosos, sabe. De modo que conheo alguns americanos
abastados que comprariam maridos aristocratas para suas filhas, s para que pudessem ter um ttulo na famlia. Eu, no entanto, tenho pouco interesse em ser "lady"
Ravenscar. Ele soa como um ttulo vazio, e, francamente, prefiro meu prprio nome. Ainda que - acrescentou ela, com um olhar pensativo - a idia de restaurar sua
propriedade de certa forma me atraia. Gosto de colocar as coisas em ordem e funcionando, e tenho certeza de
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que ela tem sido negligenciada. Sinto-me atrada por construes antigas, a arquitetura elizabetana  uma das minhas favoritas, assim como de papai. Sei que Darkwater
 um exemplo espetacular de manso do incio do perodo elizabetano. E,  claro, a histria que a cerca  intrigante. A maldio e tudo mais.  verdade que Darkwater
foi feita com pedras tiradas...
- Para o inferno com Darkwater! - Ravenscar explodiu. - O maldito lugar pode apodrecer, pelo que me diz respeito. Este aqui  um nobre ingls que no est  venda
para voc ou para qualquer outra americana rica. Prefiro que a propriedade inteira caia em runas ao meu redor. Prefiro morrer na pobreza a me casar com uma bruxa
ordinria e insensvel como voc! Boa noite, srta. Upshaw. E at logo.
Devin passou por ela com um esbarro e foi embora.

Captulo 6

- Bem! - Miranda ficou olhando enquanto Ravenscar desaparecia por uma das passarelas do jardim. - Isso foi interessante.
Ela pretendera provocar uma reao nele, mas aquela exploso fora algo bastante diferente do que esperara. Irritao, ira contida, frustrao e desgosto - era isso
o que esperara causar no conde. Mas a fria inflamada e o orgulho ferido que haviam brilhado nos olhos dele foram muito mais do que ela poderia antecipar. Da mesma
forma que o pronunciamento seco de que ele no estava  venda. Era o suficiente para imaginar que talvez, no fim das contas, houvesse algo mais naquele homem.
Miranda caminhou at um banco de pedra, estrategicamente colocado para que se pudesse dali admirar um canteiro de flores, e sentou-se. Os joelhos, honestamente,
estavam um pouco trmulos. A noite fora... bem tumultuada. Devin Aincourt a surpreendera mais de uma vez esta noite, e isso a intrigara. Seus beijos a haviam derretido.
Era honesta demais para admitir o contrrio. Nenhum outro homem a fizera sequer vislumbrar tais sensaes, e - continuando na mesma linha de honestidade - gostaria
de sentir tudo de novo. Por que o nico homem que a fizera sentir esse deleite ligeiramente assustador tinha de ser um de to pouco carter? Por que no poderia
ser algum correto e honesto? Por que era esse o homem cujos
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beijos eram to doces, cujos lbios podiam faz-la sentir como se o mundo tivesse parado, cujos olhos eram to verdes como uma folha nova e cujas mos eram...
Miranda balanou a cabea para organizar os pensamentos. Era tolice ficar sentada ali pensando em algum to claramente inadequado como o conde de Ravenscar. E,
ainda assim... no o favorecia o fato de ter rejeitado to veementemente a idia de se vender como marido? Ravenscar tinha orgulho - e no apenas o orgulho movido
por vaidade como o de muitos aristocratas, mas uma confiana mais profunda em si mesmo. Ela vira isso em seus olhos enquanto ele a enfrentava. Havia dor ali, um
certo desgosto consigo mesmo. Ele sentira raiva, no somente dela, mas de si mesmo, por fazer o que achava que deveria. O dinheiro no fez com que valesse a pena
desistir de seu orgulho, e ela gostou disso. Talvez, pensou, pudesse querer ver o conde de Ravenscar novamente.
Miranda levantou-se e caminhou de volta ao terrao, a cabea entregue aos pensamentos.
- Srta. Upshaw?
Miranda levantou a cabea e viu lady Westhampton em p no terrao, as mos enroladas nas pontas do xale que colocara nos ombros, o semblante marcado por ansiedade.
Miranda sorriu.
- Ol, lady Westhampton.
Rachel relaxou visivelmente ao cumprimento tranqilo de Miranda. Como vira o irmo adentrar feito um raio o salo de baile alguns minutos antes, ficara com medo
de que algo ruim houvesse acontecido entre eles. Mas, aparentemente, no havia nada perturbando Miranda. Rachel ficou se perguntando
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se o irmo apenas estaria chateado, ou se a srta. Upshaw era boa em dissimulaes.
- Espero que voc tenha gostado da festa - comeou Rachel, vacilante.
- Sim, foi realmente divertida.
- De verdade? - Rachel observava Miranda um pouco inquieta. - Eu, ah, eu espero que nada tenha acontecido... digo, que meu irmo no tenha, bem... ofendido voc.
Um sorriso malicioso brotou no rosto de Miranda.
- No. Na verdade, creio que foi o contrrio. Eu ofendi lorde Ravenscar.
Rachel riu.
- No consigo imaginar isso, srta. Upshaw. Devin no se ofende facilmente.
- No? Srio? Tive uma impresso diferente dele. Parece-me que  bastante orgulhoso e que se ofende muito facilmente.
- Oh, minha querida. - Rachel sentiu um aperto no corao. - Ele fez algo, no fez? Ou disse algo?
- Bem, ele disse que preferia ver Darkwater cair em runas a seu redor do que se casar comigo. Mas, veja bem - acrescentou Miranda honestamente -, eu fui um tanto
direta e, bem, at um pouco m.
- Oh. - Rachel olhou para ela, confusa. - Voc foi m com Devin?
- Sim. Eu posso ser m, sabe. H alguns homens em Nova York que ficam aterrorizados quando chego.
Rachel riu e ento olhou para ela com um ar duvidoso.
- Voc est brincando, no est?
- No de todo - admitiu Miranda. - No suporto desonestidade.
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E fui um tanto abrupta com um ou dois homens que pensavam que podiam me ludibriar com suas trapaas. Bom, fiquei irritada com lorde Ravenscar porque ele estava sendo
desonesto.
- Devin? Ele normalmente  o contrrio... Direto, a ponto de ser rude.
- Verdade? Prefiro assim. Ofensivo como foi no outro dia, quando me pediu em casamento. Creio ser prefervel daquela forma. Ele foi arrogante e rude, mas pelo menos
foi honesto. Hoje ele tentou me seduzir para que me casasse com ele.
- Oh, minha querida - disse Rachel com a voz enfraquecida.
Miranda olhou para ela e viu o rubor em seu rosto.
- Sinto muito. Agora eu a constrangi. Quase esqueci que ele  seu irmo. Voc pode no gostar de que falem dele dessa forma.
- No - concordou Rachel, honestamente. - Mas tenho ouvido muitas coisas ruins a respeito de Dev todos esses anos, infelizmente.
- Bem, eu preferia que ele me dissesse a verdade, que odeia a idia de se casar comigo mas que far isso pelo dinheiro, do que fingir um interesse que no sente.
Miranda hesitou, percebendo enquanto falava que o que estava dizendo no era totalmente verdade. Ela no achava que Ravenscar no havia sentido nada daquele desejo
que expressara. Sentira o calor de seu corpo e outras manifestaes inconfundveis da paixo em um homem. O problema  que ele tinha arquitetado a ocasio para tentar
lev-la a dizer sim. E, era bastante honesta para admitir, grande parte de sua raiva se devia ao medo que tinha de ele no ter sentido o desejo
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no nvel surpreendente que ela sentira. Entretanto, no podia explicar tais detalhes para a irm dele, da limitou-se  superfcie dos fatos.
- Ento apontei algumas das desvantagens em me casar com ele, como os rumores e coisas assim. Isso o deixou com raiva, acho.
- Oh, minha querida - disse Rachel com uma voz baixa, triste. - Eu esperava que voc no tivesse ouvido esses comentrios.
- Ouvi a maioria deles esta noite. As pessoas gostam muito de rumores.
- E Dev torna essa prtica mais fcil. - A voz de Rachel estava carregada de amargor. - Eu o amo, srta. Upshaw. Do fundo do corao. Mas, s vezes, parece que ele
tem prazer em tornar isso mais difcil. O que voc ouviu?
Miranda olhou para lady Westhampton, que parecia to plida e infeliz que no poderia repetir as coisas que ouvira.
- Nada que voc j no tenha ouvido, tenho certeza - disse, gentilmente. Num impulso, esticou a mo e pegou a de Rachel. - Por favor, no fique triste. Voc no
pode consertar a vida de seu irmo, sabe. Somente ele pode fazer isso.
- No tem sido fcil para ele - disse Rachel. Ela olhou para Miranda com olhar suplicante. - Por favor, no o julgue pelo que outras pessoas dizem dele. Sim, a maioria
do que falam pode ser verdade, mas no  isso o que Dev , no fundo. Por dentro ele  um bom homem. Sei disso. Ele sempre foi muito bom para mim e para Caroline,
desde a infncia, e... - Ela interrompeu sua fala e suspirou. - s vezes, acho que a maldio  verdade. Os Aincourt esto fadados  misria. Nenhum de nossos ancestrais
jamais foi bom em manter nosso
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dinheiro. Ns o desperdiamos e o perdemos em tolas empreitadas. A famlia j estaria sem um nico centavo, se no fssemos talentosos em arranjar bons casamentos...
casamentos lucrativos, devo dizer. Os Aincourt tm boa aparncia e, muitas vezes, charme. Ns atramos cnjuges abastados, mas raramente temos sido felizes em nossos
casamentos.
Estavam andando pelo terrao enquanto conversavam. Miranda afastou calmamente Rachel para longe das outras pessoas e do salo de baile.
- Minha irm e eu casamos como era esperado que fizssemos - continuou Rachel. - Caroline parecia ter dado sorte. Seu marido era um bom partido, um duque, nada menos,
e ele a amava muito. Eles eram felizes. Tiveram uma filha. Ento, h quatro anos, ela e sua filha morreram em um acidente de carruagem. Richard tentou salv-las,
mas no conseguiu.
- Sinto muito. - Fizeram uma curva, fora da viso dos convidados. Miranda guiou Rachel at um banco de pedra e sentaram-se.
- Obrigada. - Rachel deu a ela um sorriso lnguido. - Eu era a outra filha obediente. Casei-me com um homem que meu pai escolheu. Ele  um bom homem, um homem gentil.
Mas... - Suspirou, e ento continuou: - mas eu no o amava. Eu amava outro homem. Eu achei que Michael sabia disso, aceitava isso, que esperava um casamento que
fosse uma relao formal e nada mais. Depois descobri que no. Quando ele soube que eu amava outro, pensou que eu o tinha enganado de propsito. Ele... bem, ns
vivemos separados. Ele me d tudo que eu preciso...  um homem generoso. Ele e Richard sustentam minha me, tambm. Mas nenhum de ns  feliz.
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- Sinto muito.
-  tarde para mim e para Caroline. Mas Dev... Dev ainda pode encontrar a felicidade. Foi por isso que quis que voc se casasse com ele. Acho que seria capaz de
mudar de vida com a mulher certa. Ele , no fundo, um bom homem, um homem honrado. Mas ele e meu pai no se davam bem. Ele no conseguia fazer nada certo aos olhos
de nosso pai. Dev no era nada parecido com ele. Dev no era calmo e obediente, como eu e Caroline. Discutia com papai, o que o deixava furioso. Meu pai era um homem
rgido. Era muito religioso e odiava quando Dev jogava, bebia e... outras coisas. Sempre achei que foi por isso que Dev ficou to rebelde. Ele seguiu esse caminho
porque isso deixava nosso pai enraivecido. Meu pai tambm odiava as pinturas de Dev. Dizia que no era algo apropriado para um nobre, que Dev agia como se possusse
sangue campons, ao querer pintar. Ele achava intil e inferior, mas Devin amava aquilo. Ento eles brigavam por causa disso tambm. Quando Dev fez 18 anos, veio
para Londres, como a maioria dos jovens faz. E tudo piorou aqui. Ele era livre, por fim, e s fazia o que lhe dava prazer. Trabalhava em sua arte, conheceu outros
artistas, que meu pai considerava m influncia para ele. Mas eles no eram o pior. Ele se misturou com um grupo de pessoas que eram, bem... no eram boas pessoas.
E o encorajaram a levar o pior tipo de vida possvel.
- O que seu pai fez?
- Ele ficou furioso. Vivia escrevendo para Dev, dizendo que tinha de abandonar aquela vida perversa e voltar para casa.  claro que isso s fez com que Dev ficasse
ainda mais teimoso. Papai ameaou cortar relaes com ele. Ento, um tempo depois houve um escndalo, pior do que todos os outros, e papai
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rompeu de vez com Dev. Ele o teria deserdado, mas no pde. Como a propriedade  vinculada, no tinha poderes para isso. Mas suspendeu a mesada. No sei como Dev
conseguiu viver nessa poca. Tenho certeza de que Michael, Richard e outros lhe deram dinheiro. Ele pode ser bastante sedutor e, bem, ns o amamos. Eu lhe dei o
quanto pude. Richard me contou certa vez que Dev ganhava dinheiro jogando cartas. Deduzi que conseguia se manter desta forma. Ele e papai nunca fizeram as pazes.
Um pouco antes de papai morrer, mame nos escreveu dizendo que ele estava muito doente, e eu voltei. Fiz Dev ir comigo, mas quando chegamos l, papai se recusou
a v-lo. No deixou nem que entrasse no quarto. Dev pegou um dos cavalos e voltou para Londres. E se recusou a ir ao enterro de papai. No sei se ele voltou a Darkwater
desde ento. Ela parou e suspirou.
- Ele no teria acabado assim se papai no tivesse sido to rgido. - Sua voz ficou mais spera. - E se no fosse por seus... amigos. Sei que se ele tivesse sido
afastado da influncia deles, se tivesse alguma paz e felicidade na vida, teria sido um homem diferente. Quero isso para ele.  por isso que estava torcendo para
que... voc sabe, para que voc se casasse com ele.
- No tenho certeza se o casamento comigo faria Ravenscar feliz. - Miranda observou, secamente. - No nos damos muito bem, voc sabe.
- Sei. Mas... mulheres sem graa no o atraem. Achei que uma pessoa forte como voc, uma pessoa boa, poderia tornar a vida dele diferente.
O silncio imperou por um instante. Miranda olhou, pensativa, para as mos.
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- Voc mencionou pintura... Ele  artista?
- Ah, sim!  incrivelmente talentoso. Gostaria de ver alguns de seus trabalhos?
- Sim, gostaria.
Intrigada, Miranda levantou-se e seguiu lady Westhampton at a porta dos fundos, entrando por ela e subindo uma escada estreita que, deduzira, devia ser a escada
dos criados. As duas andaram por um corredor at a galeria da frente, que seguia ao longo da casa.
- No d para ver direito agora, infelizmente - disse Rachel, fazendo um gesto na direo da parede externa, na qual se alinhavam grandes janelas. - Durante o dia,
h luz suficiente, mas  noite...
Todos os candeeiros na parede oposta s janelas estavam acesos, pois toda a casa fora preparada com luzes flamejantes para a festa, mas, mesmo assim, havia sombras.
- Posso ver o suficiente - disse Miranda, indo mais perto para olhar o primeiro quadro. - Todos eles so de Ravenscar?
- Estes trs primeiros so. H mais do outro lado. - Ela sorriu, languidamente. - Tive de abrir espao para alguns dos ancestrais dos Westhampton.
A primeira pintura era um retrato de Rachel. Ela estava postada ao lado de um pedestal alto, o antebrao apoiado, olhando para o observador com um sorriso tnue
nos lbios. Tratava-se de uma Rachel mais jovem e mais alegre. Os tons eram esverdeados e claros, por cima dos quais uma Rachel de cabelos negros com um vestido
branco simples se destacava vividamente. Os olhos verdes sorriam; parecia  beira de revelar um segredo divertido. E fora pintado, pensou Miranda, por um especialista.
A mulher no retrato tinha vida; mais do
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que simplesmente uma semelhana fsica, o quadro irradiava sua personalidade, terna e convidativa.
-  lindo - disse Miranda, sendo honesta.
- Eu tinha 17 anos quando ele o pintou - disse Rachel, serenamente. - Ele o deu de presente a Michael quando nos casamos. - Continuou andando. - E esta  Caroline.
Isso foi alguns anos antes. Dev tinha uns, ah, 17 ou 18 anos. Caroline devia ter 15.
Miranda olhou com interesse para a jovem, um tipo sonhador com grandes olhos azuis e os cabelos densos e negros dos Aincourt presos para trs com um lao, caindo
em camadas nos ombros. Ela usava um manto azul sobre o vestido branco, um dos lados atirado para trs, e trazia um gato sobre o brao. Cada detalhe era rico e luminoso.
Miranda fechou as mos, os dedos fincando as palmas para conter a excitao que a arrebatava ao olhar para as pinturas. Passou para a prxima, agora uma paisagem
de um campo rido, salpicado de pedras, belamente cru e inundado pela luz do sol. Ela quase podia sentir o calor.
- Eles so lindos! - Miranda virou-se para Rachel, no conseguindo conter o prazer que crescia por dentro. Fora seduzida pelos museus e galerias que visitara na
Europa. Olhando para muitas das esplndidas obras de arte, com freqncia antigas, arrebatara-se pelo mesmo tipo de excitao, at mesmo alegria, que preenchia seu
ser agora. - Ele  um artista maravilhoso! Voc disse que h mais?
Rachel fez que sim com a cabea, sorrindo.
- Na outra extremidade do corredor, no meu quarto e na sala de visitas.
Rachel levou-a pela galeria, onde mostrou-lhe quatro outros quadros que seu irmo pintara, e depois pelo corredor at uma
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sala de visitas grande e ricamente mobiliada. Ali, e na extenso do quarto, havia outras seis pinturas. Uma delas mostrava uma casa de pedra de cor esmaecida e formidavelmente
grande, ainda que graciosa, construda no formato de um E.
- Esta  Darkwater? - arriscou Miranda, e Rachel respondeu que sim. - Por algum motivo imaginei que seria escura e soturna. A ilustrao no livro a retratava mais
escura.
- Oh, no... o nome vem de um pequeno lago perto dela. O lago  preto como carvo. Mas a casa  linda e clara. Pelo menos a distncia. De perto, v-se que est caindo
aos pedaos. Mas com dignidade.  calcrio. Quando o sol a ilumina assim, parece dourada.
Fora desse modo que Devin a pintara, com uma luz dourada cascateando sobre as pedras quase como gua, as janelas de vidro em formato de diamante brilhando.
- Ele a pintou de memria - continuou Rachel. - Isso foi depois que saiu de casa. Esta  uma pintura do lago.
Ela apontou para um outro quadro menor, o de um lago negro localizado no meio de rochas cinzentas. Era uma pintura mais escura, sombreada e nebulosa, com um nico
raio de sol caindo do cu como uma espada, sua luz engolida pela escurido do lago. Miranda sentiu um calafrio involuntrio. Era to vvido, de sua prpria maneira,
quanto as pinturas mais claras, mas sua riqueza criava uma cena quase assustadora, silenciosa e soturna, a penetrante luz do sol em guerra com a paisagem. As outras
pinturas eram cruas: uma, de uma cama escura com dossel ao lado de uma janela, os lenis brancos amarfanhados, pano de fundo para um vvido vestido de veludo vermelho
jogado por cima dela; a outra, de uma bacia e de um jarro brancos sobre uma cmoda de madeira escura,

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uma rosa vermelho-sangue murchando ao lado dele em um salpico de cor. Mas em todas as pinturas havia a mesma riqueza de textura e cores, a mesma mo especializada
nos detalhes.
- Posso v-las durante o dia, em outra ocasio? - perguntou Miranda, virando-se para Rachel, sua avidez aparente. - Adoraria observ-las sob uma luz mais apropriada.
-  claro. Voc gostou?
- So magnficas. Eu... - Ela voltou ao quadro da cama com o vestido vermelho vvido jogado sobre os lenis amar-fanhados. A pintura era profundamente sensual,
quase ertica, e mexeu com Miranda de uma maneira primitiva, primordial. - No sei o que dizer. Estas so recentes?
O rosto de Rachel anuviou-se.
- So mais recentes do que as outras na galeria. Mas ele no pinta mais. J no pinta h vrios anos.
- Ele no pinta! - disse Miranda, pasma, demonstrando uma surpresa quase cmica. - Voc quer dizer que ele parou? Ele no pinta mais nada? Nem desenha?
Rachel fez que no com a cabea.
- Nada.
- Mas por qu?
- No sei. J fiz esta pergunta uma ou duas vezes, mas ele sempre d de ombros. Diz que cansou, ou que a pintura comeou a parecer tolice.  tudo culpa da vida que
leva. - De novo, um tom de amargura surgiu em sua voz. - Seus amigos... a bebida, a jogatina e... - Sua voz foi ficando desanimada, e ela deu de ombros.
- No posso acreditar. Isso  um pecado! - Os olhos de Miranda se voltaram para as pinturas.
- Eu sei. - Lgrimas brilharam nos olhos de Rachel. - S
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queria que Dev se desse conta do dom que possui, do talento. Ele no enxerga a beleza que h dentro dele.
Miranda franziu o cenho ao seguir Rachel para fora do cmodo e descer as escadas na direo do salo de baile. Ela e o pai partiram logo depois. Ficou desalentada,
na carruagem, por todo o caminho at chegar em casa. Seria possvel, indagou-se, apaixonar-se por um homem por meio de um trabalho artstico tocante e de alguns
beijos igualmente emocionantes - embora em uma rea diferente? Parecia absurdo. Mesmo assim, Miranda no podia negar que comeava a experimentar um novo e maravilhoso
sentimento.
No entanto, era inteligente o bastante para guardar para si seus pensamentos. Sabia que se contasse ao pai que estava considerando a mais leve possibilidade de se
casar com o conde de Ravenscar, ele iria importun-la at no poder mais. No queria ter de lidar com seus argumentos enquanto ainda estivesse indecisa sobre o assunto.
Ela permitiu que o pai lhe mostrasse os papis que adquirira desde que ouvira falar pela primeira vez da elegibilidade do conde de Ravenscar. Neles havia a contabilidade
do estado lastimvel de suas finanas, enviado pelo consignatrio, tio de Ravenscar, Rupert, assim como uma descrio fornecida pelo gerente da propriedade listando
toda a mirade de problemas do local e enumerando os reparos necessrios para que a manso voltasse a ficar em boas condies. Tratava-se de uma triste lista de
desastres que teria afugentado a maioria das pessoas; Joseph conhecia o suficiente da filha para saber que tal confuso financeira a deixaria ansiosa. Miranda sabia
da inteno dele, e admitia que era uma situao tentadora. Mas, ao mesmo tempo em que era um consolo
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pensar que teria muito com que se ocupar se se casasse com Ravenscar, isso no era o suficiente para impeli-la a dar este passo.
Assim como no o era suficiente a beleza da arte que o homem produzira, mesmo que a houvesse novamente enchido de admirao e de um prazer trgido quando visitou
Rachel na manh seguinte para ver as pinturas  luz do dia. Sua arte era ainda mais bela sob bastante luminosidade, pois permitia que se visse o poder total de seu
trabalho. Rachel foi sbia em deix-la sozinha e  vontade para que pudesse examinar os quadros pelo tempo que desejasse. Miranda sentou-se em um banco forrado de
veludo de frente para os quadros na galeria e ficou imaginando, com uma perplexidade lgubre, como o homem que os pintara poderia ter desistido deles. E ainda que
sentisse como se estivesse quase vendo o interior da alma dele - como poderia v-lo seno por meio de sua arte? -, Miranda sabia tambm que essa no era a nica
fonte do novo sentimento alegre e ligeiramente assustador que trazia no peito.
Aquele sentimento tinha muito a ver com os beijos trridos  meia-luz no jardim e, talvez mais, com a sensao estranha, quase estonteante, que sentiu ao olh-lo
nos olhos, como se estivesse de p  beira de um precipcio e quisesse jogar-se impetuosamente no vazio.
Miranda era uma mulher acostumada a confiar em seus instintos. Sagaz e intuitiva, suas primeiras reaes significavam, em geral, a coisa certa a fazer, e ela confiava
muito em suas decises. Entretanto, essa era uma rea com a qual no tinha familiaridade. Miranda nunca se apaixonara. No passara por aquele estgio de risadinhas
e olhos piscantes que a maioria das outras mulheres de seu crculo vivenciara, parecendo se apaixonar
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a cada duas semanas quando jovens. Ela estivera ocupada  poca, comprando propriedades na ilha de Manhattan.
Isso no significava que no tivera alguma experincia com homens. Levava uma vida social intensa em Nova York. Flertava com rapazes, danava com eles e at permitia
que alguns a cortejassem. Mas nunca se sentiu apaixonada por nenhum. Ser que esse estranho aperto no peito que sentia quando pensava em Devin Aincourt significava
estar apaixonada? Ser que o fato de no parar de pensar nele queria dizer que deveria se juntar a ele para toda a vida?
O que quer que significasse, sabia que estava gostando disso. E sabia que queria ver Ravenscar de novo.
A primeira chance surgiu duas noites depois, na pera. Seu pai comprara um camarote para a temporada, j que planejavam ficar em Londres por vrias semanas, mas
esta foi a primeira oportunidade que tiveram para ir. Elizabeth ficou tomada pela excitao ao sentarem em seus assentos no camarote extravagante. At mesmo Hiram,
o assistente do pai, que normalmente trazia uma mesma expresso estica no rosto, parecia feliz em estar ali. Miranda, sentada ao lado de Hiram e munida de um binculo
de pera, perscrutava a platia. Visualizou a me de Devin, sentada em um camarote com Rachel e outras duas mulheres da idade de lady Ravenscar, assim como uma dupla
de homens ligeiramente entediados. No entanto, no havia sinal de Ravenscar. Miranda ficou se perguntando se a pera era algo que Ravenscar evitava; ele no parecia
ser o tipo que compareceria s porque a me ou a irm o pressionariam.
Rachel viu que Miranda as observava e sorriu na direo de seu camarote. Miranda retribuiu o sorriso, baixando o binculo.
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Ela lanou outro olhar pela fila de camarotes. De frente para o seu, e mais perto do palco, um grupo acabava de ocupar um dos camarotes. Havia uma mulher com um
vestido verde-esmeralda e, com ela, trs homens com trajes preto e branco. Miranda respirou fundo. Mesmo afastada, reconheceu um dos homens como sendo Devin.
Quase como se houvesse lido seus pensamentos, o homem virou-se e passou os olhos pela extenso do teatro. Quando viu o camarote de Miranda, parou e olhou-a diretamente.
Ele no a cumprimentou. S levantou de leve as sobrancelhas e ento virou-se para o lado contrrio. Miranda sorriu. A rejeio orgulhosa dele no a incomodou. Isso
s mostrava como o atingira na outra noite, e gostou de ele ter se rebelado perante a idia de se casar por dinheiro.
Mas quem seria a mulher que o acompanhava? Pela primeira vez na vida, Miranda sentiu uma pontada de cime. Chegando rapidamente a cadeira para a lateral do camarote,
e um pouco mais para trs, onde podia se esconder nas sombras, levou o binculo de volta aos olhos e estudou a mulher no camarote de Devin.
Era muito bonita. Miranda sentiu um aperto no peito e segurou o binculo com firmeza. A mulher parecia dourada - os cabelos loiros de um tom de mel, os olhos grandes
e arredondados de um marrom-dourado surpreendente. At mesmo a pele plida no era to branca quanto a mais clara tonalidade de ouro. Estava vestida de acordo com
a ltima moda - talvez at alm da ltima, concluiu Miranda, ao analisar todos os detalhes do vestido. Aquele era o decote mais ousado que j vira, mergulhando perigosamente
prximo aos mamilos da mulher. Ela possua seios fartos e luxuriantes, com
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certeza merecedores daquela exibio, os quais ameaavam saltar de dentro do vestido a qualquer momento. Esmeraldas brilhavam nas orelhas e no pulso, um pingente
no pescoo completava o conjunto, direcionando o olhar para o ponto em que roava nos seios. Os cabelos estavam presos para trs com uma fita larga de cetim verde,
de onde cascateavam em um tranado de cachos fartos e grossos. Sua fisionomia chegava  beira da perfeio, prejudicada apenas por um lbio superior um tanto fino
- mas at a falha parecia favorecer sua aparncia, porque lhe emprestava um qu decididamente sensual.
Enquanto Miranda a observava, a mulher virou-se, olhou para Ravenscar e sorriu. Foi um sorriso secreto, tentador, e por conta daquele olhar peculiar Miranda soube
que aquela mulher significava mais para Devin do que apenas uma simples conhecida que o acompanhara at a pera. Seria sua amante? Ele a amava? Estas perguntas ardiam
em Miranda. Depois que a pera comeou, deu-se conta de estar estudando o camarote deles tanto quanto assistia ao espetculo que se desenrolava no palco.
Eles receberam, durante o intervalo, a visita de lady Ravenscar e seu irmo, sir Rupert Dalrymple. Miranda o conhecera brevemente no jantar frustrado na casa de
lady Ravenscar, e achou-o um interlocutor bastante agradvel e divertido. Porm, naquela noite, teve muita dificuldade em prestar ateno no que ele dizia. S havia
uma pessoa na qual estava interessada, no conseguindo evitar olhar de tempos em tempos pela porta aberta do camarote, esperando poder v-lo por ali.
Foi ao levantar os olhos para ver lady Westhampton adentrando o camarote, seguida por seu irmo, que seu estmago se revirou e ela deixou cair o leque.
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- Ol, me. Tio Rupert. - Os olhos de Ravenscar passaram por Miranda, e ento pararam, sem se demorar em nenhum dos dois. Miranda conteve um sorriso, sabendo que
ele demonstrara novamente, sem falar, que v-la o perturbava.
Ele continuou e cumprimentou o pai dela, que por sua vez apresentou-o  sra. Upshaw. Elizabeth ruborizou de leve e abriu o leque, elevando-o para que cobrisse uma
risadinha tola que deixou escapar. Apesar dos protestos contra ele, pensou Miranda ligeiramente irritada, a madrasta no se mostrara indiferente  aparncia dele,
como de resto qualquer outra mulher.
Ravenscar cumprimentou-a e virou-se na direo de Hiram, as sobrancelhas arqueadas interrogativamente. O pai de Miranda falou, imediatamente:
- Ah, este  meu assistente, Hiram Baldwin. Voc o conheceu na minha casa no dia em que, bem, ah... - A voz de Joseph foi sumindo ao perceber, tarde demais, que
a lembrana que Ravenscar tinha do dia em que Miranda recusou seu pedido de casamento deveria ser tudo, menos prazerosa.
- Oh, estou certa de que lorde Ravenscar no se lembra, papai. Ele mal viu algum de ns naquele dia - Miranda provocou.
Ravenscar virou-se na direo dela:
- Srta. Upshaw. Com certeza lembro-me de voc.
- Fiquei imaginando o contrrio, j que no me cumprimentou ao entrar - disse Miranda, placidamente.
- Esse menino no tem educao - interveio o tio de Ravenscar com uma risada jovial. - Voc deve perdo-lo, srta. Upshaw.
- Devo? - respondeu Miranda suavemente. Ainda que estivesse
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falando com o tio, seu olhar estava em Ravenscar. Os olhos dele permaneceram igualmente fixos nela.
- Estou certo de que a srta. Upshaw no est surpresa, tio - balbuciou Ravenscar com um tom de voz irritantemente aristocrtico. - Ela est bastante ciente do brbaro
que sou.
Miranda abriu um sorriso com falsa doura. O conde virou-se, despedindo-se abruptamente.
- Devo ir agora. Sr. Upshaw, sra. Upshaw, prazer em conhec-la. Baldwin. Srta. Upshaw. - Pronunciou o sobrenome dela com grande preciso, virando-se para ela e acrescentando
um cumprimento to corts que foi por si s uma declarao de seu sarcasmo.
-Meu senhor. Encantada em v-lo, como sempre. - Miranda retribuiu-lhe o gesto com uma cortesia igualmente exagerada.
Devin trincou os dentes com tanta fora que Miranda pde ver o msculo do maxilar saltar. Ento virou-se e saiu do recinto, ignorando o olhar de protesto lanado
por sua irm.
Rachel foi at Miranda, dizendo em voz baixa:
- Sinto muito. No sei o que h de errado com Devin esta noite. Ele est excessivamente azedo desde o momento em que foi ao camarote de mame. Foi ele quem sugeriu
acompanhar-me a seu camarote. No pensei duas vezes, j que estava to aborrecido e zangado. E ento ele chega aqui e age de maneira rude.
- No se preocupe, isso no me incomoda - respondeu Miranda com total candura.
A verdade era que o encontro com Ravenscar a fizera sentir-se mais revigorada. A revelao de Rachel de que fora ele quem quisera ir visit-la em seu camarote era
ainda mais encorajadora. Houve algo em seus olhos, quando se virou para
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encarar Hiram, que Miranda teria identificado, em qualquer outro, como cime, o que a fez sorrir internamente ao pensar que talvez Ravenscar tenha decidido ir ao
camarote deles para descobrir quem exatamente era o homem sentado ao lado dela.
- Queria falar com voc, lady Westhampton - disse-lhe, dando o brao  irm do conde.
- Rachel.
- Est bem, Rachel. Por que no damos uma volta no corredor?
- Claro.
Rachel saiu com a curiosidade obviamente despertada. Chegando no grande corredor, Miranda olhou em volta e levou Rachel para a rea menos movimentada que pde encontrar,
baixando a voz e aproximando a cabea bem perto da de Rachel.
- Agora - disse Miranda -, fale-me sobre a mulher que veio  pera com Ravenscar.
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Captulo 7

A expresso de espanto com que Rachel virou-se para Miranda foi quase cmica.
- Quem?
- A mulher com quem seu irmo veio, a loira bonita.
- Ah. Ah, sim. Ela no  ningum, na verdade. Lady Vesey  seu nome.
- Ela  amante de Ravenscar? Rachel se exasperou.
- Miranda!
- Ento? - Miranda fixou um olhar ameno, mas determinado, na outra mulher. - Voc no me conhece, portanto j vou adiantando que vou acabar extraindo de voc tudo
o que sabe a respeito dela. Ento pode ser mais fcil comear a falar tudo agora.
Rachel olhou para ela, parecendo incomodada.
- Eu realmente... voc no deveria...
- Se voc pensa que contar o que sabe arruinar a possibilidade de me casar com seu irmo, garanto-lhe que no far a menor diferena. Bem, no, isso no  verdade.
Veja bem, preciso saber tudo o que posso a respeito de uma empreitada antes de envolver-me nela, seja a compra de uma propriedade, a encomenda de um vestido... ou
um casamento. Quero saber tudo... o lado bom, o ruim e todas as variaes disso. Sem todos os detalhes, no vou poder tomar uma deciso consciente.
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Por isso, acho muito improvvel que possa me casar com seu irmo sem ter descoberto como  o relacionamento dele com lady Vesey.
Rachel deixou escapar um gemido.
- Prometo a voc que no sou ingnua - continuou Miranda. - Sei que as pessoas daqui gostam de pensar que os americanos no so sofisticados. Talvez no o sejamos
mesmo, em alguns aspectos. Mas quando se trata de escndalos, diria que estamos to atualizados quanto os europeus. Sei que os homens, com freqncia, tm amantes.
No esperaria que um homem, sobretudo como seu irmo, no tivesse, bem, como posso dizer, envolvimentos amorosos? Mas tenho de saber com o que estou lidando. O que
lady Vesey  para ele? Ele a ama? No seria justo comigo, voc tem de admitir, entrar s cegas em algo como um casamento.
A acompanhante lanou-lhe um olhar agoniado.
- No, voc est certa.  extremamente injusto de minha parte no querer que voc saiba. Mas eu receio que... oh, por favor, no culpe Dev. Ele era muito jovem quando
a conheceu... e aquela mulher  uma feiticeira! Uma usurpadora! Ela colocou as garras nele e jamais o soltou.
Rachel parou e suspirou. Em seguida, continuou, com a voz mais calma:
- O nome dela  Leona e  considerada uma das mais belas damas da sociedade desde que veio para Londres, h muitos e muitos anos - acrescentou ela, felinamente.
Rachel abriu um sorriso depreciativo. - Bem, no sei ao certo quantos anos tem, mas deve ser muito mais velha que Dev. Ela j era uma beleza constituda e esposa
de lorde Vesey antes de Dev vir para Londres. Quando ele chegou aqui, associou-se a
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artistas e a outros jovens que meu pai no aprovava, jovens cujo estilo de vida era bastante livre e fcil. Ele jogava, sim, bebia e seduzia mulheres. Ele havia
feito esse tipo de coisas at mesmo quando estava em casa, o que sempre desencadeava uma grande guerra com papai. Chego at a pensar que essa era a razo de Dev
agir assim: pretendia antagonizar papai. Creio que lhe contei que em Londres ele se tornou ainda mais selvagem, mas, ainda assim, no acho que fosse muito pior do
que a maioria dos jovens de sua idade.
- Que gostam de farrear - disse Miranda, encorajando-a a continuar.
- Sim, voc sabe como  - disse Rachel, agradecida pela compreenso da outra. - Na verdade, ele conheceu Leona em casa, em Darkwater. A propriedade do marido dela
no  distante da nossa, e ele a viu ali. Obviamente, nada teria acontecido l, porque Leona pouco visita Vesey Park. Mas, ento, Devin veio para Londres. E viu
Leona mais uma vez. Bem, voc sabe como  a aparncia dela. E pode imaginar como era bonita na poca, na juventude. Dev apaixonou-se por ela. Ficou perdidamente
apaixonado. Uma mulher de boa ndole o teria desencorajado. Uma mulher gentil o teria dispensado aps um caso fugaz. Mas Leona no  boa nem gentil. Ela  perversa,
e levou Dev para os mesmos caminhos de perversidade que seguia.
- Foi por causa de Leona que seu pai o renegou?
- No. Pelo menos creio que no. Papai soube que Dev estava atrs de Leona e desaprovou o caso com firmeza, mas eu... eu acho que foi alguma outra coisa. No creio
que ele estivesse, bem.... envolvido com Leona quando teve a briga com papai. Eu ainda era muito jovem na poca, tinha apenas 14 anos, nem papai nem mame jamais
falaram conosco a
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respeito. S sei que foi um escndalo terrvel. Depois desse episdio, qualquer que tenha sido ele, Dev ficou completamente enredado no grupo de Leona. No sei tudo
o que tm feito. As pessoas tentam me proteger, sabe. - Ela abriu um leve sorriso para Miranda. - Confesso que no quis saber de verdade. No sou to forte quanto
voc.
- Provavelmente me sentiria da mesma forma se estivssemos falando de meu irmo - Miranda mentiu, para ser gentil. Sabia que, na verdade, se fosse seu irmo nas
garras de uma mulher perversa, se afogando em um mar de pecados, no s descobriria o que pudesse a respeito, como tambm faria algo para acabar com tudo aquilo.
Mas, a bem da verdade, sabia que pouco teria a fazer porque seu pai logo tomaria uma atitude: tiraria o filho da lama e no o renegaria, como o fez o pai de Devin.
- Acho que ele a ama - Rachel admitiu, com tristeza na voz. - Pelo menos tem se mantido fiel a ela por todos esses anos... do seu jeito. As pessoas no valorizam
o que h de bom nele, mas Devin  uma pessoa muito leal. Ele faria qualquer coisa por mim ou por qualquer um que ame, e sei que sente o peso da responsabilidade.
Acho que, s vezes, ele se odeia pela vida que vem levando. H pessoas to cruis que chegam at a culp-lo pela morte de nosso pai... e no foi culpa dele! Ele
no teve nada a ver com isso. Papai no falava com ele h anos. Mas espalhou-se o boato de que papai no o veria nem em seu leito de morte. S que a lealdade de
Dev com Leona o magoava. Ela o arrastou para a lama.
"Quando me casei e vim para Londres, Dev j estava bastante mergulhado em pecado. Nem ele nem Leona eram recebidos pelas pessoas, exceto pelos grupos mais imorais.
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Ficava surpresa e magoada quando dava festas e poucas matronas decentes vinham, quando, na verdade, eram sempre agradveis comigo em outras festas. Foi ento que
Michael me contou, com o mximo de delicadeza que conseguiu, que elas no compareciam porque Dev estava nas festas, muitas vezes com Leona, o irmo dela, Stuart,
e seus amigos. Disse a Michael que jamais excluiria meu prprio irmo de minhas festas, e no o fiz, mas acho que Michael deve ter falado com Dev porque, depois
disso, ele parou de freqentar as minhas festas. E ento as matronas mais idneas voltaram a freqent-las e a levar as filhas.
- Isso deve ter sido muito difcil para voc - disse Miranda, solidria.
Rachel anuiu com a cabea, lgrimas brotando-lhe nos olhos. Ela as enxugou, impaciente.
- Foi. Eu preferia ter Dev l do que todas as mulheres. Fiquei com raiva por Michael ter interferido. Mas ele sabia, assim como Dev, que se eu continuasse a agir
daquela forma, em pouco tempo seria considerada parte do grupo deles e seria excluda do resto da sociedade, assim como eles. Dev no queria que isso acontecesse
comigo, ento parou de freqentar minha casa, exceto s tardes e em outras ocasies. Nem a fofoqueira mais impertinente poderia esperar que eu no permitisse que
meu irmo me visitasse. - E acrescentou com um sorriso tnue: - Tambm  possvel que Dev tenha se cansado das minhas festas. Estou certa de que estava acostumado
a eventos muito mais animados.
Elas se viraram e comearam a andar de volta para o camarote dos Upshaw. Rachel ficou em silncio por um instante e, ento, disse:
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- Leona  uma mulher m. Acho que prendeu Dev a ela com seus ardis. Isso, aliado  forte lealdade dele, o manteve ao lado dela. Leona o encorajou a fazer as coisas
perversas que tem feito. Sei que foi ela quem o influenciou a parar de pintar. Ela no gosta de nada que prenda o interesse e a devoo dele da forma como a pintura
o fazia. Se voc a conhecesse, veria que tipo de pessoa ela ... Dissimulada e mentirosa...
- Talvez eu deva conhec-la - Miranda sugeriu.
- No! Nem pense em uma coisa dessas! - Rachel virou-se para Miranda com uma expresso de horror. - Tenho certeza de que ela faria algo para mago-la.  provvel
que fique com medo de perder Dev se ele se casar com voc. A menos que seu orgulho tenha se inflado a ponto de descartar a possibilidade de ele se apaixonar por
outra pessoa.
- Bem, no fim das contas, eu sou apenas uma herdeira americana - Miranda observou com um sorriso.
Rachel retribuiu com outro sorriso.
- S espero que ela se sinta assim. Do contrrio, se se sentir ameaada, bem, ela  capaz de qualquer coisa.
- No se preocupe. Acho que lady Vesey poder encontrar em mim uma oponente mais formidvel do que imagina. Isso se eu for me casar com seu irmo.
Rachel olhou para ela com uma ansiedade pouco contida.
- Voc vai? Casar-se com Dev, digo? Miranda deu de ombros.
- Tenho considerado a possibilidade.
- Oh, Miranda! - Os olhos de Rachel brilharam. - Considere direito, por favor. Quanto mais fico a seu lado, mais sinto que voc seria capaz de mudar a vida de Dev.
Foi por isso que insisti em que ele a pedisse em casamento. Achei que
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se ele tivesse uma esposa, algum por quem se apaixonasse, se devotasse, talvez fosse capaz de se libertar da influncia de Leona. Se pudesse ser afastado daquela
mulher diablica, sei que Dev seria diferente. Melhor. Pelo menos mais feliz. Ela no o faz feliz. Sei disso. Ela o mantm nervoso e inseguro.  parte de sua estratgia
para segur-lo. Mas voc... se ele se casasse com voc, bem, poderia mudar. Poderia perceber que a felicidade est a seu alcance. E  isso o que eu tanto quero para
ele.
- Sei disso.
- Devo parecer um tanto egosta a seus olhos. Mas acho que Dev poderia faz-la feliz tambm. Se tivesse um lar e uma famlia, seria um homem diferente.
- Pelo homem que , j  bastante charmoso - Miranda confessou.
Rachel riu.
- Ele  mesmo, no ?
- Mas voc no deve contar para ele o que eu disse.
- Oh, no - Rachel prometeu com um sorriso. - Eu no faria isso. Confie em mim. Mas estou extremamente feliz por voc ach-lo charmoso.
Devin voltou para o camarote de Leona carrancudo. Teve a impresso de que a srta. Upshaw estava rindo dele, e no gostara nada dessa sensao. Na verdade, no gostara
nada do modo como se sentira a noite toda. Para comear, no queria ter ido  pera. Estava de mau humor h vrios dias, desde que Miranda Upshaw afirmara, da maneira
mais displicente, que ele estava  venda, como um cavalo ou uma moblia. Desde ento, Devin passara o tempo todo dizendo
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a si mesmo que preferiria morrer a ter de se casar com aquela nova-rica americana - ou melhor, o tempo todo quando no estava pensando em como a sentira em seus
braos, os lbios dela indulgentes unidos aos seus, imaginando como teria sido avanar para o degrau seguinte, que consistia em tirar as roupas daquele corpo docemente
curvado e explorado cada delicioso centmetro.
No que gostasse daquela garota petulante nem que estivesse interessado nela - especialmente em no se casar com ela. Mas teria ficado satisfeito em t-la dominado,
acariciado e beijado at que ficasse ofegante por ele, implorando para que a possusse, o que ele, obviamente, faria, mas no at que a tivesse feito ansiar por
ele como nunca ansiara por nenhum outro homem. Toda vez que imaginava esse fim alternativo para aquela noite - em vez da realidade, ou seja, quando sara como um
trovo da casa da irm tomado por uma fria insana - ficava excitado, e era apenas ele quem acabava ansiando por ela. Isso apenas o fazia odiar ainda mais a americana.
Ele no gostava nem de pronunciar o nome dela. Miranda. Que presuno, como se ela fosse uma herona encantadora de Shakespeare, um papel para o qual ele no conseguia
imaginar ningum menos apropriado.
Por isso recebera com mau humor o bilhete de Leona dizendo que a visitasse esta noite. O tom peremptrio da correspondncia o irritara ainda mais. Quando Devin chegou
l, Leona exigiu que contasse todos os detalhes do progresso do noivado com a herdeira americana. Quando ele lhe relatou que no houvera qualquer noivado, e que
nunca haveria, ela deu um ataque e ficou amuada. Por fim, para agrad-la, concordou em acompanh-la  pera, mesmo sabendo que ela
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pretendia usar aquele tempo para exercer seus poderes de persuaso sobre ele novamente.
Fora bastante astucioso, pensou, ao chamar Stuart e outro amigo para acompanh-los, prometendo que haveria uma danarina que iria interess-los. Enquanto se congratulava
por sua astcia, percorreu com os olhos o teatro e o olhar parou em Miranda. Sentiu como se um carregamento de tijolos houvesse cado sobre sua cabea. Ficou paralisado
por um instante, atordoado, incapaz de desviar o olhar, amaldioando a m sorte pelo fato de ela estar ali enquanto ele estava com Leona. Ento pensou que no havia
razo para se sentir culpado por estar com Leona. No fim das contas, no estava noivo de Miranda, nem pretendia ficar. No tinha qualquer obrigao.
Ento avistou o homem sentado ao lado dela, e algo dentro dele o incomodou. Ser que a bruxa j teria passado para a prxima vtima? Ele virou-se e sentou, ignorando-a
acintosamente, mas sua mente no conseguiu se desligar. Por todo o primeiro ato, ficou pensando no homem e imaginando quem seria ele. Achava ser capaz de reconhecer
a maioria dos homens de sua idade. A menos,  claro, que se tratasse do filho de Cavendish, mas todos diziam que a razo pela qual ningum nunca vira o homem era
o fato de ele ser deficiente mental. Dev comeou a imaginar que talvez o homem no fosse um aristocrata, mas algum caador de fortunas esperto fingindo ser o lorde
Algum. Isso seria perfeito para aquela miservel!
No intervalo, a curiosidade o instigara a descobrir quem era o homem. Assim, pediu licena apressado, ignorando o olhar surpreso de Leona, e encaminhou-se para o
camarote da me. Rachel mostrara-se mais do que disposta a acompanh-lo ao camarote dos Upshaw, mas, quando chegaram l, ele sentiu-se um
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completo tolo. Assim que Miranda olhou para ele com aqueles olhos cinza penetrantes, teve a certeza de que ela achou que tinha vindo v-la. O que, a propsito, no
era verdade. Ou no exatamente. Ento, quando descobriu que o homem era apenas o assistente de Upshaw, sentiu um grande alvio, uma reao que era ainda mais tola
do que a anterior. Era quase como se ele tivesse sentido cime, percebeu, e isso,  claro, era completamente absurdo. No queria nada com Miranda Upshaw e no se
importava nem um pouco com quem ela se casaria.
Ele pareceu, com certeza, tolo e inarticulado. Ela, obviamente, permaneceu fria, sentada ali olhando para ele daquele modo divertido e superior. Isso o fez sair
de dentes trincados at o camarote de Leona.
Ento, assim que se sentou, Leona comeou:
- Ravenscar... - disse ela, sorrindo do seu jeito felino. - O sr. Wyndham me disse que aquele camarote no qual voc esteve  o da herdeira americana.  verdade?
- Sim. Rachel insistiu para que eu a acompanhasse.
- E aqui estava eu orgulhosa de voc. Achei que estava dando uma investida. - Leona pegou o binculo e usou-o para espiar o camarote em questo, da mesma forma que
o fizera a cada dez segundos desde que Wyndham disse que os Upshaw estavam l.
- No seja ridcula.
- Droga! No consigo v-la. Est sentada  sombra. Por que no chega um pouco para a frente? Raios. Agora as luzes esto se apagando.
Devin ficou aliviado, mas o incio do segundo ato da pera no deteve Leona. Ela chegou a cadeira mais para perto de Ravenscar e recostou-se nele, sussurrando por
trs do leque.
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- Sabe, voc deveria ter aproveitado a oportunidade, Dev. Por que outro motivo teria ido l?
- Shhh. A msica est comeando.
- Oh, tolice! Como se voc ou qualquer outro aqui dentro se importasse com a msica. As pessoas s vm  pera para serem vistas pelas outras. Todo o resto  bobagem.
A menos,  claro, que se faa algo interessante. - Ela sorriu no escuro e se mexeu de forma que sua perna roasse na de Devin.
Ele afastou a perna, impaciente.
- No, Leona.
- Por que est to mal-humorado? - perguntou ela, irritada. - Ser que  porque a herdeira lhe escapou? Mesmo que tenha escapado, voc sabe que pode reverter isso.
Use seu charme.
- Eu no a quero! - Ele se exaltou.
- Oh, Dev... Por mim? - Leona fez um biquinho.
- Se voc tivesse conhecido essa mulher, no seria to insistente - resmungou ele.
- Srio... voc est me dizendo que eu deveria sentir cimes dessa galinha dos ovos de ouro colonial? - Leona deu uma risada sonora e confiante. - Acho que posso
lidar com a competio. - Ela colocou a mo na coxa de Devin. Seus dedos comearam a subir pela perna dele. - No seria agradvel ter todo aquele dinheiro? - Sua
mo rastejante chegou ainda mais perto do colo dele.
- Pro inferno com tudo! - Devin levantou-se num salto e saiu do camarote, deixando os demais estarrecidos.
Miranda viu Ravenscar deixar abruptamente o camarote de lady Vesey. Intrigada, levantou-se e saiu furtivamente de seu
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camarote. Viu-o descendo as escadas ao final do corredor e seguiu-o em silncio. Assistiu quando ele empurrou uma das enormes portas do teatro e saiu para a rua.
Miranda no sabia ao certo o que a movia, mas foi at a porta e abriu-a. Algo dentro de si quis cham-lo, traz-lo de volta, mas conseguiu manter os lbios fechados,
contendo seu impulso.
Enquanto o observava, viu que Dev parou a alguns passos de uma jovem sentada nos ltimos degraus com duas cestas de flores, uma a cada lado. Ela era florista e estava
exercendo seu ofcio ao fim da pera, esperando influenciar alguns cavalheiros a comprarem ramalhetes para suas acompanhantes. Era jovem, no tinha mais do que dez
ou 12 anos, arriscaria Miranda, extremamente magra, os cabelos sem forma, escorridos pelas laterais do rosto, os tornozelos finos aparecendo por baixo do vestido.
Miranda sentiu um pouco de pena dela, como sempre sentia pelos floristas e vendedores de frutas.
Dev botou a mo no bolso e tirou algumas moedas. Miranda ficou imaginando, com uma pontada de cimes, se pretendia comprar um buqu de flores para levar para lady
Vesey. Mas ele apenas jogou as moedas na cesta da garota e continuou seu caminho. Miranda sorriu, contente por ter tido pena da menina.
Naquele momento, outro homem, bem-vestido e obviamente brio, veio descendo torto as escadas do teatro num rumo que cruzaria o de Dev. Ao aproximar-se da florista,
ele tropeou e bateu na cesta da garota, fazendo com que todas as flores cassem nos degraus. A menina chorou, consternada, com a perda do objeto do seu sustento.
O bbado no prestou ateno, e simplesmente passou pisoteando as flores esparramadas, destruindo a maioria delas.
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Miranda sentiu revolta ao ver a destruio das flores causada pelo homem, enquanto comeou a sair pela porta, prestes a gritar com ele. Mas ento viu Dev percorrer
os poucos passos que o separavam do homem e peg-lo pelo colarinho. Ele virou o homem, e, ainda que Miranda no conseguisse ouvir, viu-o dizer algo breve ao bbado,
gesticulando na direo dos ramalhetes amassados. O homem olhou para a baguna que criara e zombou.
Ravenscar desferiu um direto no estmago do outro, o que fez com que se dobrasse ao meio. Devin endireitou-o pelo colarinho e falou novamente. Desta vez o homem
botou a mo no bolso, tirou uma nota e entregou-a  menina. Dev balanou a cabea e soltou-o. O homem continuou seu caminho. A garota pegou a nota e enfiou-a rapidamente
no bolso, agradecendo a Ravenscar. Devin apenas sorriu para ela e continuou em frente.
Miranda ficou observando-o enquanto se afastava at perd-lo de vista, os olhos iluminados e um sorriso arqueando seus lbios. Ento virou-se e juntou-se novamente
 sua famlia no camarote.

Captulo 8

A irritao levou Dev a vrios quarteires de distncia do teatro antes mesmo que se desse conta de onde estava indo. Com certeza, no queria voltar para casa. Stuart
e um de seus amigos permaneceram na pera com Leona - Meu Deus, terei de pagar caro por t-la deixado sozinha -, e mesmo que estivessem disponveis, Dev no queria
v-los. Nem a hiptese de um de seus esconderijos usuais - tavernas, jogatinas, antros, bordis - o atraa. Ele simplesmente no estava com vontade de se divertir.
Queria... mas no sabia ao certo o qu. Libertar-se dos demnios que o assombravam, sups. O espectro da pobreza e da desgraa, a ameaa de um casamento sem amor
com uma mulher que o desprezava, a possibilidade de seguir esse caminho estril em sua vida para sempre...
Talvez tenha sido a tristeza de seus pensamentos que o fez mudar de direo e seguir para a residncia palacial do cunhado. Em pouco tempo alcanou o porto da manso,
que, com uma rea que mais parecia um parque cercado por um muro, ocupava uma enorme faixa da rea nobre de Londres.
H centenas de anos, esse muro e esse porto eram guardados pelos soldados do duque de Cleybourne. Agora, apenas um lacaio saa da pequena guarita de dentro do porto
e o examinava pelas barras de ferro.
- Oh! Meu senhor. Faz algum tempo que no o vejo por aqui. S um instante, senhor.
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O homem saiu agitado com um molho de chaves e abriu a fechadura, empurrando o largo porto para trs, o suficiente para que Dev passasse.
- Sua Excelncia ficar muito feliz em v-lo, meu senhor - disse o criado, prestativo. Os empregados de Richard gostavam muito dele e lhe eram leais. A me de Devin
detestava a intimidade com que a tratavam, mas Devin at que gostava. Era um tanto estranho que Richard, que possua um dos mais antigos e importantes ttulos daquelas
terras, fosse o nobre menos esnobe de que Devin tinha notcia.
O lacaio que lhe abriu a porta da frente tambm o conhecia e cumprimentou-o com mais alegria ainda, acompanhando-o imediatamente ao escritrio de Richard. Devin
encontrou o cunhado sentado ao lado da lareira, olhando para as chamas. Como no havia outra iluminao no cmodo, a luz do fogo iluminava o rosto de Richard de
uma maneira estranha, lanando sombras profundas em sua face, dando a ele uma aparncia ainda mais taciturna do que o normal.
Ao som dos passos de Devin, ele virou-se, dizendo, mal-humorado:
- O que diabos voc... - Parou quando viu Devin, e um sorriso brotou em seus lbios. - Dev! Entre, entre. - Ele ficou de p, gesticulando para o lacaio. - Acenda
alguns dos candeeiros, Harper.
- Sim, Excelncia - respondeu Harper feliz, encami-nhando-se para acender os candeeiros de parede, assim como a lamparina a leo na mesinha ao lado da poltrona do
duque.
Naquele momento, Devin compreendeu a razo da alegria do criado ao v-lo; obviamente, Richard estava mergulhado
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em uma de suas crises de melancolia aquela noite, e o lacaio esperava que a visita de Devin o tirasse daquele estado. Richard fora um homem que aproveitara a vida
- de uma maneira mais circunspecta que Devin, claro, mas ainda o tipo de homem que gostava de festas ou de uma noite percorrendo tavernas com os amigos. Entretanto,
desde a morte da esposa h quatro anos ele se tornara um recluso. Evitava a propriedade no campo, na qual ocorreu o acidente fatal, e passou a morar na manso ducal
de Londres. Mas, apesar de estar em uma cidade efervescente, quase no saa, nem via pessoa alguma, exceto pelas vezes em que algum amigo ou parente se aventurava
em ir v-lo. Muitas vezes, at se recusava a receber visitas, o que preocupava bastante seus criados.
Dev deu-se conta, com um pouco de culpa, que no visitava Richard havia vrias semanas. Lembrava-se agora de que Rachel dissera, com o cenho franzido, que Richard
parecia estar piorando, no melhorando, com o passar dos anos. Richard, como a maioria dos homens do crculo de Devin, no era do tipo que falava de seus pesares.
Conseqentemente, ele e Devin quase nunca traziam  tona o assunto da morte de Caroline, ainda que fossem os dois homens que mais a amaram na face da Terra.
Devin olhou involuntariamente para o quadro com o retrato da irm. Ele o pintara algumas semanas antes do casamento de Caroline com Richard. Ela encomendara a pintura
para dar de presente ao futuro marido. O quadro costumava ficar pendurado acima da lareira no salo principal da manso do casal no campo, mas Richard o trouxera
para c, onde ocupava uma parede do escritrio. Na pintura, Caroline estava sorrindo daquela forma sonhadora e quase sonolenta que
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lhe era caracterstica. Uma jovem no incio da vida adulta, esperando aproveit-la ao mximo. Ela usava o vestido elegante de cetim que ps no casamento e tinha
no pescoo o famoso conjunto de esmeraldas Cleybourne: um crculo de esmeraldas e diamantes que pendiam do pescoo, com uma enorme esmeralda como pingente; brincos
de esmeralda rodeados de diamantes; uma pulseira de esmeraldas encadeadas e at uma tiara de diamantes decorada com cinco esmeraldas primorosas. Parecia um exagero
tantas jias, algo que teria sobrepujado a jovem que as usasse, mas Caroline era alta, como a maioria dos Aincourt, e possua uma beleza vivaz. Aninhadas em seus
cabelos negros e acariciando sua pele extremamente branca, complementando o azul brilhante de seus olhos, as jias pareciam magnficas e apropriadas.
Devin capturou a felicidade da irm e at mesmo aquele toque de convencimento no sorriso e nos olhos a demonstrar que Caroline sabia que estava se engajando num
casamento esplndido com um homem que a amava mais do que a tudo na vida. A pele resplandecia na luz plida que a iluminava pela janela ao lado. Os olhos eram to
vivos que quase se podia esperar ouvir a risada jovial que lhe era peculiar.
- Este  o mais belo retrato que tenho dela - disse Richard, seguindo o olhar de Devin. - Por isso o mantenho aqui, onde posso v-lo mais. - Ele olhou para alm
do retrato, na direo de um outro menor, de uma menina, ao lado dele. - Eu s queria ter pedido a voc um de Alana. O artista no conseguiu lhe fazer justia...
ela ficava se mexendo o tempo todo, sabe.
Devin tambm olhou para o retrato da sobrinha. Ela devia ter uns quatro anos; no fora pintado muito antes do acidente.
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Richard tinha razo. O artista retratara as feies corretamente, mas o brilho que a criana animava no estava presente, tampouco o sorriso que iluminava qualquer
lugar em que ela entrasse. Devin a teria pintado ao ar livre, banhada pela luz do sol, rindo e brincando com um dos ces ou gatos. Mas,  poca, ele j havia abandonado
a pintura.
- Voc j pensou em retomar? - perguntou Richard.
- A pintura? - Devin olhou para ele, surpreso. - No. J passei dessa fase. Era s um hobby. Algo de que gostava quando era jovem.
- Srio? Aceita um vinho do Porto? - Richard virou-se para o corredor e levantou ligeiramente a voz. - Harper! Suponho que voc ainda esteja rondando a pelo corredor.
Traga-nos uma garrafa de vinho do Porto e dois copos.
Richard virou-se novamente para Devin e fez um gesto em direo a duas poltronas diante da lareira.
- Eu pensei que, s vezes, voc pudesse ter vontade de desenhar um rosto particularmente interessante, ou deparar com uma cena que o arrebataria e o faria sentir
vontade de pint-la.
Devin deu de ombros, os pensamentos fluindo, estranhamente, para o rosto de Miranda Upshaw - um maxilar forte demais e uma boca muito larga para serem considerados
belos, mas, com aqueles olhos cinza chamativos e uma feio to resoluta, era difcil no not-la. Seria difcil, se no impossvel, retratar aqueles olhos corretamente.
- Receio ter perdido o interesse - disse Devin, desconversando. - Com certeza, a habilidade tambm, a essa altura. Como papai costumava dizer, uma ocupao nada
apropriada para um cavalheiro.
- Ah, sim. Do modo como a bebida e o jogo o so.
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Devin lanou-lhe um olhar grave. Richard o estava observando, com um leve sorriso nos lbios, e Devin teve de rir.
- Voc me conhece. E, no, no creio que meu pai considerasse isso uma ocupao prpria de um cavalheiro tambm. A idia dele de vida correta era rezar de manh,
ao meio-dia e  noite, com um pouco de punio aos pecadores, e trs boas refeies entre elas. Papai era, se voc bem se lembra, um homem que gostava de comer,
razo pela qual raramente se dirigia ao Criador de joelhos. Ele precisava da ajuda de dois criados para levant-lo quando o fazia.
- Sim. Lembro-me bem do velho tirano. Certa vez ele me disse que eu era muito mundano para me casar com a filha dele, mas, felizmente, a doena do meu pai significou
que eu ascenderia logo ao ttulo, e isso pareceu compensar meus pecados.
- Estou certo de que compensou. E, mais ainda, seus cofres bem-abastecidos.
Naquele momento Harper voltou ao cmodo, carregando a bandeja com o vinho e os copos. Ele apoiou a bandeja na mesinha ao lado do duque e dirigiu-se para a porta.
- Ah, Harper... feche a porta quando sair, e pode ir dormir. No h necessidade de ficar de guarda a no corredor. Garanto que no planejo pr fim  minha existncia,
pelo menos no enquanto Ravenscar estiver aqui.
- Fico aliviado em ouvir isso, Excelncia - respondeu Harper, um pouco desgostoso. Fez uma reverncia ao sair do quarto, fechando a porta.
Devin olhou para Cleybourne, as sobrancelhas arqueadas.
- Eles esto achando que sua vida ter fim em breve? Richard fez uma careta e serviu o vinho.
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- Eles esto com o tempo sobrando e usam esse tempo para criar medos absurdos. Infelizmente, agora plantaram essa semente na cabea de sua irm. Rachel me visitou
trs vezes nas duas ltimas semanas, geralmente sem qualquer motivo. Suspeito que Baldock, o mordomo, decidiu confidenciar seus medos a ela.
Devin ficou em silncio por um instante, sorvendo um gole da bebida. Por fim, disse, a voz cuidadosamente indiferente:
- Voc est planejando uma morte iminente? Ir a um enterro iria atrapalhar meus planos, devo alert-lo.
Richard sorriu, desanimado.
- No. No lhe causarei esse transtorno.
- Bom.
Eles esvaziaram os copos, e Richard os encheu novamente. Ergueu o seu em direo a Devin.
- Quase esqueci... Parabns, Dev. Devemos brindar a seu casamento.
- Meu casa... - Devin o encarou, com o copo a meio caminho da boca. - Como diabos ficou sabendo disso? Ah, Rachel,  claro.
- Obviamente. Ela veio aqui na segunda-feira e me contou tudo sobre a estimvel srta. Upshaw.
- Bem, no haver casamento, ento voc pode guardar o brinde para outra ocasio.
- Verdade? Rachel soou to esperanosa.
- Ela est. Assim como minha me. Mas receio que ambas estejam fadadas ao desapontamento.
- Por qu? Parecia ser uma boa coisa para voc. Quero dizer, ela  americana, no vem de uma famlia tradicional e tudo mais, porm...
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- Sei disso. Na minha posio, no se pode dar ao luxo de querer escolher muito. O dinheiro se sobrepe a tudo.
- Na verdade, eu ia dizer que me pareceu que a srta. Upshaw daria excelente esposa.
- Humm. Se eu quisesse me casar com uma ranzinza.
- Minha nossa. Isso no se parece em nada com a descrio que Rachel fez da mulher.
- No  Rachel que ter de se casar com a leviana. A srta. Upshaw  fria, manipuladora e totalmente desprovida de sentimentos.
- Verdade? - Richard bebeu um gole, observando Devin com interesse atravs do copo. - Isso soa como se ela tivesse causado m impresso em voc.
- Ela me acusou de estar me vendendo pela maior oferta. Bem, no acusou assim, exatamente, porque no parecia ter problema algum com isso. Como se fosse natural
para um nobre ingls ir a leilo. "Vrios americanos esto comprando nobres para se casarem com suas filhas. Meus conterrneos so bastante fs de ttulos" - disse
ele, fazendo uma imitao grosseira de Miranda. - Foi quando lhe disse que esse britnico aqui no estava  venda. - Ele suspirou, olhando para baixo, para o copo,
entristecido. - Obviamente, isso  de enfurecer ainda mais porque eu estou  venda. Um ttulo, com um homem de brinde, por um preo suficiente para me fazer viver
do jeito que estou acostumado.
- E salvar Darkwater - acrescentou Richard. - E esta  uma questo importante. Sua propriedade est em mau estado, pelo que ouvi, e esse no  s um problema da
casa. H vrias pessoas dependendo de voc e de sua famlia. Receio que os americanos tm dificuldade em entender o conceito de dever para
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com a famlia e para com as pessoas que dependem da famlia h anos. H um compromisso feudal nisso que escapa a eles.
- No sou santo, Richard. Voc sabe disso. - Devin bebeu o restante da bebida e levantou-se para servir-se de outra dose. - Se me casasse com ela, seria porque no
consigo me imaginar preso por inadimplncia.
- Creio que tambm no conseguiria. Voc sabe, Dev, se precisar de algum dinheiro...
- Sei. Voc  um homem generoso. Mas atingi um estgio irremedivel. Uma ajuda temporria no ser suficiente. - Ele suspirou. - Tio Rupert me assegurou que a propriedade
secou. No est mais dando dinheiro. Na verdade, est perdendo dinheiro. E precisaria de investimentos macios para torn-la lucrativa para as prximas geraes.
A casa est ruindo e os jardins esto sufocados por ervas daninhas e mato alto.
- Ah. Assim fala o homem que s est preocupado com o estado de seu prprio bolso.
Devin fez uma careta.
- Eu no dou a mnima para Darkwater. Mas mame me atormenta com isso at no poder mais.
- Ento, por que no se casar com a garota? Voc vai ter seu dinheiro e lady Ravenscar vai parar de atorment-lo. No h outra opo com quem se casar, h?
- No. E voc no precisa me dizer que ningum de boa famlia se casaria comigo. Todos adoram me lembrar disso.
- Rachel me disse que a americana  atraente e charmosa.
- Atraente? Sim. Charmosa? No diria isso. Ela  imbecil, irritante e completamente impossvel.
Richard arqueou as sobrancelhas e tomou rapidamente um gole para encobrir o sorriso que lhe veio aos lbios.
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- De fato? Bem, obviamente, ela tornaria sua vida um inferno.
Devin deu de ombros.
- Eu posso mand-la para Darkwater.  isso o que eles me dizem para fazer.
- Eles quem?
- Leona, Stuart, at tio Rupert. Mas...
- Mas o qu? Vai contra sua conscincia pegar o dinheiro da moa e depois enclausur-la em Darkwater?
- Um pouco - admitiu Devin. - E eu teria de fazer isso, porque voc sabe que eu no poderia viver com a bruxa.
- Por que exatamente? O que ela faz?
Devin se mexeu, sentindo-se desconfortvel e, ento, explodiu:
- Diabos, no sei, Richard! Ela me faz sentir... ela olha para mim com desprezo. Diz coisas que ningum diria em companhia de uma pessoa educada. Ela  completamente
fria.
- Bem, voc no teria de ocupar a mesma cama que ela com tanta freqncia - Richard argumentou.
Devin ficou chateado e, ao mesmo tempo, involuntariamente excitado ao ouvir as palavras do cunhado.
- Ela no  fria nesse sentido. Na verdade,  bastante... - Ele sacudiu a cabea como se para apagar o pensamento. - Ela me confunde, me atormenta. Fico pensando
nela. Hoje a vi na pera, e ela me olhou de uma forma... como se me achasse engraado. Ela possui olhos que podem ver dentro de voc.  de enlouquecer. Tenho certeza
de que brigaramos constantemente. Brigamos todas as vezes em que estivemos perto um do outro. Ela me rejeitou, sabe. Eu a pedi em casamento, mas ela simplesmente
me olhou e disse, daquela maneira seca:
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"No." Ento, na vez seguinte, disse-me que via as vantagens de se casar com algum com o meu nome... havia Darkwater para recuperar, o ttulo, ainda que no se
importasse muito com isso, e, obviamente, o motivo mais importante: ela poderia apresentar a irm  sociedade londrina. Ah,  claro, ela tambm disse que eu no
poderia esperar nada melhor do que uma americana sem tradio, sendo o devasso, bbado e conquistador que sou. Richard engasgou com a bebida e comeou a tossir.
- Ela disse isso mesmo?
- Disse. Eu lhe falei, ela diz qualquer coisa que lhe vem  cabea. Sem dvida, provocaria uma sncope na minha me. - Ele sorriu. - Embora pudesse valer a pena
ver isso acontecer.
- Humm. Voc no deveria deixar essa moa escapar. Pense na confuso que ela poderia causar no Almack's.
Devin riu, e os dois ficaram em silncio por um instante, bebendo, absortos em seus prprios pensamentos.
- Sabe, Dev - disse Cleybourne, por fim -, o casamento no precisa ser uma coisa terrvel, mesmo em se tratando da srta. Upshaw.
- Voc espera que o casamento me torne um homem decente?  isso o que Rachel espera... ainda que tente expressar isso de um modo mais tcito, claro.
- No - respondeu Richard, serenamente. - Acho voc um homem decente, no importando o quanto voc tenta convencer as pessoas do contrrio. Mas voc poderia achar
a vida mais... interessante com uma esposa como a srta. Upshaw.
- Ento voc tambm acha que eu deveria me casar com ela?
- Acho que voc deveria fazer o que  melhor para voc.
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- Richard deu de ombros. - Obviamente, nessa situao, no creio que possa decidir alguma coisa, j que ela o rejeitou. Devin lanou-lhe um olhar de soslaio.
- Eu poderia mudar isso no momento em que quisesse. Richard deixou escapar uma risada curta.
- O pior  que  provvel que voc possa.
- Chega dessa conversa sombria - disse Devin, acabando com o lquido do copo. - Beba, e eu o desafiarei para um jogo de Ecarte.
- Ah, ento voc vai logo poder pagar suas dvidas, j que sem dvida vai me limpar. Passemos  sala de jogos. - Cleybourne ficou de p, pegou a garrafa e eles deixaram
o escritrio para se entregarem a uma longa noite de bebida e jogatina.
Para sua surpresa, Miranda encontrou a irm encolhida em uma poltrona, em sono profundo, quando voltou da pera aquela noite.
- O que voc est fazendo aqui a essa hora? - perguntou ela, jocosamente, tocando o ombro de Vernica para acord-la.
Vernica deu um pulo, assustada, e olhou para Miranda, piscando os olhos.
- Eu estava esperando voc. Queria saber tudo o que aconteceu na pera. - Ela se espreguiou, passando a mo na nuca. - Eu no fao nada divertido! Mame diz que
no posso ir  pera antes de ser apresentada  sociedade.
- Tenho certeza de que sua me sabe tudo sobre essas coisas, melhor do que eu.
- Mas tambm no consegui ir ao baile. Voc sabia que sequer vi o tal de Ravenscar? E voc no me contou nada sobre
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o baile. Ento decidi esperar por voc para saber das ltimas. S que acabei dormindo.
- Tudo bem - disse Miranda com um sorriso. - Voc far o trabalho da minha criada hoje, para no termos que acordar Rosie. E eu lhe contarei tudo sobre a pera.
- E sobre o baile.
- E sobre o baile.
Vernica levantou num salto para desabotoar o vestido da irm pelas costas. Miranda descreveu o teatro e a msica, os adornos cintilantes de jias e vestidos de
todas as mulheres que l estavam. Tambm fez o maior esforo para se lembrar dos detalhes do baile - os arranjos de flores, os vestidos, as luzes flamejantes de
todos os lugares, a msica que fora tocada. Vernica ouvia avidamente, os olhos faiscavam ao imaginar tudo o que Miranda descrevia.
- E o conde? - perguntou, quando Miranda fez uma pausa, parecendo ter terminado o relato. - No pare. Conte-me tudo sobre o conde de Ravenscar. Voc o viu hoje 
noite? Danou com ele no baile?
- Sim e sim.
- No pare! - Vernica gritou.
- O que voc quer saber? Ele  um homem razoavelmente bonito.
- Voc pode fazer melhor que isso.
- Est certo. Ele tem olhos verdes como vidro  luz do sol, os cabelos so negros como o carvo. H uma pequena cicatriz por aqui na face dele, perto dos olhos.
 alto e tem os ombros largos, alm de ser imoralmente bonito. No  nem um pouco o tipo de pessoa com quem jovens como voc deveriam estar sonhando.
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- Mas voc vai se casar com ele? - Vernica pressionou. Miranda fez uma pausa, olhando para o nada por um momento, depois de novo para a irm.
- Sabe... acho que eu at que poderia fazer isso.
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Captulo 9

- Senhor... senhor... - O som destas palavras repetidas suavemente acabaram acordando Devin.
Ele abriu um dos olhos e viu o mordomo, que parecia uma miragem, torcendo as mos e franzindo o cenho. Devin resmungou algo incompreensvel e sentou-se.
Ao sentar-se, percebeu duas coisas ao mesmo tempo: o corpo estava incrivelmente dolorido, em especial no pescoo; e a cabea latejava violentamente. J sabia a razo
para esta ltima sem ter de raciocinar muito. A cabea estava como sempre ficava quando consumia uma quantidade excessiva de lcool durante a noite - inchada e sensvel,
como se mil minsculos duendes estivessem martelando-a de dentro para fora.
Levou algum tempo para entender a razo daquela rigidez incomum. Estava sentado  mesa do escritrio, e no deitado na cama. Cara no sono  mesa, a cabea acomodada
em um dos braos da cadeira, resultando em um pescoo torto e em mo e brao dormentes, no conseguindo mex-los.
Piscou ao ver a luz e grunhiu, tentando se lembrar do que estivera fazendo no escritrio e por que cara no sono ali.
- Meu senhor - comeou o mordomo novamente, mas Devin levantou a mo advertindo-o.
- No.
O mordomo parou, mexendo-se nervosamente, olhando para o patro, depois para a porta, e de volta para Devin.
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- D-me um minuto para ter certeza de que estou vivo - continuou Devin. - Acho que posso estar em um dos crculos do purgatrio.
- Perdo, senhor? - O mordomo acrescentou uma expresso confusa  de ansiedade. Este no era o homem que fora o mordomo de Devin por vrios anos, o boa-praa que
recebera uma oferta de melhor salrio em outro lugar. Este homem trabalhava nos afazeres domsticos do conde h apenas dois meses, e achara o trabalho ao mesmo tempo
pouco exigente e inconstante. Ainda no decidira se a informalidade com que o patro o tratava valia a pena em relao a seus horrios estranhos e s pessoas pouco
respeitveis que entravam e saam.
- Esquea. Preciso de um copo d'gua. No, espere, caf. Talvez os dois.
- Sim, meu senhor. Mas, primeiro, h a questo da... Devin deixou escapar um grunhido. Estava recuperando a memria aos poucos. Lembrou-se da pera na noite passada
e de ter deixado Leona de mau humor e, depois, de ter ido  casa de Richard. Eles jogaram cartas, tomaram uma garrafa de vinho do Porto inteira e abriram outra antes
de ele, por fim, ir embora. Era muito cedo, recordava-se, quando tomara o caminho de casa, j que o cu mostrava sinais de claridade ao leste. Um homem sensato teria
ido direto para a cama quela altura, mas ele no. Carregara a segunda garrafa de vinho do Porto, que ainda continha algum lquido, levara-a para o escritrio e
continuara a beber.
E tambm decidira, arrependido ao lembrar, testar suas habilidades artsticas. As palavras de Richard incutiram nele o desejo de desenhar, de ver se ainda era capaz
de retratar um rosto no papel. Foi uma tentativa absolutamente intil, claro, mas
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a verdade  que sempre embarcava em atitudes absolutamente inteis quando estava sob os efeitos da bebida. Desenterrou papel e lpis e perdeu uma ou duas horas tentando
desenhar rostos - bem, um rosto em particular. No conseguira tirar o semblante da srta. Upshaw de sua mente, e tentara exorciz-la recriando-a. Fora particularmente
malsucedido, um fato que podia ser atestado pelo nmero de folhas de papel amassadas na lixeira e espalhadas em volta dela. Mesmo tendo tentado com empenho, no
fora capaz de capturar a aparncia exata da inteligncia penetrante e da espirituosidade inerente que marcavam o rosto de Miranda.
Em algum momento do processo, obviamente, acabara pegando no sono. Agora recostava-se na cadeira e fixava o olhar implacvel no mordomo.
- Eu disse caf. Esquea todo o resto.
- Mas  a senhorita, senhor... No sei o que fazer.
- A senhorita? - Devin afundou a cabea sensvel nas mos. - Que senhorita?
- A senhorita que est a fora, senhor. Ela insiste em v-lo e parece bastante determinada. Disse-lhe que o senhor no estava disponvel, mas ela recusou-se a acreditar
em mim, senhor. Eu... Eu no soube o que fazer.
- Mande-a embora.
- Eu o teria feito, senhor, mas ela... bem, eu reconheci as formas inconfundveis de madame Ferrier em seu vestido e pelia, senhor, e o jeito de falar, os modos,
bem... - Ele baixou a voz, quase como se fosse contar um segredo. - Ela parece ser uma dama.
- Voc  um idiota.
- No, ele no  - disse uma voz atravs da porta.
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Tanto Devin quanto o mordomo viraram rpido para olhar para a porta, um movimento que fez com que o estmago de Devin sacudisse perigosamente.
- Srta. Upshaw! - exclamou o mordomo, surpreso. Devin grunhiu e deixou a cabea afundar nas mos.
- Eu j deveria saber.
- Perdo - disse Miranda, dirigindo-se ao mordomo e no a Devin. - Mas eu estava me sentindo entediada de ficar plantada ali no corredor, e, francamente, tive medo
de que voc no tivesse coragem de acordar lorde Ravenscar. Achei que poderia precisar da minha ajuda.
- Meu Deus - grunhiu Devin -, serei atormentado por voc em todos os lugares, at na minha prpria casa?
- Virou a noite, hein? - disse Miranda, entrando ainda mais no cmodo. Virou-se para o mordomo: - Ele precisa de caf, suponho, sr... qual o seu nome?
- Simmons, senhorita. S Simmons.
- Tudo bem, Simmons. Traga um bule de caf o mais rpido que puder. E acho que tambm lhe faria bem se preparasse um copo do meu remdio. Funciona que  uma maravilha.
O sr. Hoskins, representante comercial de papai na regio noroeste, confiava cegamente nele. Pobre homem. Ele era dado a beber, e sempre que chegvamos l, o encontrvamos
de ressaca. Foram a solido e a neve, sabe, que o levaram a beber. Sempre preparava um copo do remdio, o que o fazia melhorar em poucos minutos. Primeiro voc pega
um ovo cru, depois adiciona uma pitada de pimenta-do-reino moda, uma...
Devin deixou escapar um gemido lamuriento.
- No, por favor, imploro, sem mais descries. Estou certo
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de que o cozinheiro iria embora se fosse obrigado a fazer tal preparado. Simmons, faa o caf. Eu atendo a srta. Upshaw.
Devin levantou-se, usando a escrivaninha como apoio, e encarou Miranda. Ajeitou o cabelo para trs e desenrolou as mangas da camisa, s ento percebendo que estava
sem o palet e o colete. Ele os jogara em uma das poltronas mais cedo naquela manh. A gravata estava com o restante, deixando-o em um estado completamente desgrenhado
e imprprio - camisa para fora, o boto de cima aberto - para estar recebendo visita, quanto mais uma visita feminina.
- Srta. Upshaw, sinto dizer-lhe, mas isto  extremamente inapropriado - ele comeou. - No sei como vocs fazem na Amrica, mas em Londres uma dama no entra na
casa de um solteiro sem estar acompanhada, a menos que seja paren... - A voz dele esmoreceu quando seus olhos pousaram na pilha de papis amassados ao lado da lixeira.
s pressas, chutou alguns deles para baixo da escrivaninha.
- Tambm no seria apropriado nos Estados Unidos, lorde Ravenscar. - Miranda assegurou-lhe, o olhar seguindo o dele na direo das bolas de papel dentro e em volta
da lixeira. O olhar nervoso e quase culpado no rosto do homem a intrigou. Miranda ficou tentando imaginar o que haveria naqueles papis. - No entanto, havia algo
que precisava falar com voc, e no vi sentido em ficar sentada esperando que aparecesse em minha casa de novo, ou que o encontrasse na pera, no teatro ou em alguma
festa.
- Voc poderia ter enviado um bilhete solicitando que eu a visitasse.
- E voc teria ido? - Miranda arqueou uma sobrancelha em descrdito. - De qualquer modo, odeio esperar. Gosto de
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tomar as rdeas do meu prprio destino, e no coloc-lo nas mos de outros. Por isso, decidi visit-lo. Suspeito que seja um pouco cedo para voc, j que so apenas
meio-dia e meia, mas quis encontr-lo antes que sasse.
- Sasse? Para onde?
- No sei. Para qualquer lugar. Sair para fazer algo fora, digo. Srio, meu senhor, tem certeza de que no quer que eu v at a cozinha e prepare aquele remdio?
Voc parece estar tendo dificuldade em manter um dilogo.
Devin a observava irritado.
Miranda encarava-o de volta, sem modificar sua expresso agradvel. O homem estava em frangalhos, pensou. Era quase o suficiente para faz-la mudar de idia. Mas
Miranda no era do tipo que mudava de idia assim to facilmente. Tendo tomado uma deciso, como a que tomara esta manh depois de uma noite quase sem dormir pensando
a respeito, no costumava question-la. Estava confiante e pronta para ir em frente. Foi por isso que decidiu ir diretamente at a casa do conde e dar o primeiro
passo.
Ela sabia o que queria, e por qu. O nico problema agora era iniciar o assunto. Mas Miranda estava confiante de que seria capaz de persuadir Ravenscar.
- Srta. Upshaw, permita que eu seja to direto quanto parece gostar de ser.
- Por favor, seja.
- O que est fazendo aqui?
-  muito simples. Vim dizer-lhe que decidi aceitar a proposta. Vou me casar com voc.
Devin ficou calado, simplesmente olhando para ela. Ocorreu-lhe que talvez seus ouvidos estivessem lhe pregando peas.
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No fim das contas, ingerira uma grande quantidade de bebida alcolica na noite anterior.
- O que disse?
- Disse que mudei de idia a respeito do casamento. Aceito sua proposta.
- Voc no pode fazer isso - ele protestou. - J lhe disse, no me casaria com voc nem para me salvar da priso por inadimplncia.
- Voc me pediu em casamento.
- E voc recusou o meu pedido.
- Uma mulher tem a prerrogativa de mudar de idia - Miranda argumentou. - Alm disso, no se pode retirar o pedido. Seria um ato de extrema falta de cavalheirismo.
- No, no, no - disse Devin, dando a volta na escrivaninha e aproximando-se dela. - Um pedido, uma chance.  isso. Voc recusa e o pedido perde o valor.
O mordomo adentrou o cmodo exatamente naquela hora e quase saiu ao ver a aparncia feroz no rosto do patro. Mas Miranda parou-o com um olhar e um gesto.
- Ah, o caf. Coloque-o na mesa, Simmons. Quer que eu sirva?
- No! - Devin encarou o mordomo com raiva. - Coloque a bandeja na mesa ao lado do sof, Simmons. Eu servirei.
- Sim, meu senhor. - Simmons fez como Devin o instruiu e bateu em retirada, conseguindo com muita habilidade deixar uma fresta na porta ao fech-la.
Miranda seguiu-o at a porta e fechou-a direito. Devin virou-se para a mesa e serviu-se de uma xcara de caf quente. Miranda aproveitou a oportunidade para andar
silenciosamente at a escrivaninha e alcanar, puxando com o p,
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uma das bolas de papel que Devin se esforara tanto para esconder. Enquanto ele ainda estava de costas, ela abaixou-se rapidamente e pegou a bola, enfiando-a no
bolso. Quando ele se virou, ela o estava olhando placidamente, com as mos cruzadas.
- Posso oferecer-lhe uma xcara de caf, srta. Upshaw?
- No, obrigada. Tenho certeza de que precisa mais dela do que eu.
Devin tomou um gole do caf e aguardou um instante. Como seu estmago no se rebelasse, tomou outro gole. Quando havia bebido o contedo de uma xcara inteira, achou
que talvez estivesse pronto para lidar com Miranda.
- Agora.., - Devin tentou esboar um sorriso agradvel, apesar da cabea ainda latejante. - Srta. Upshaw. No tenho certeza do que a levou a essa reviravolta, mas,
se pensar um pouco, vai perceber que  completamente improvvel de funcionar. Ns nunca nos demos bem. No conseguimos ficar cinco minutos no mesmo ambiente sem
iniciarmos algum tipo de discusso. No poderamos nos casar.
- Voc deve conhecer algum casal que vive um tipo muito diferente de casamento para pensar que se dar bem  uma exigncia da vida conjugal.
- Voc me despreza!
- Agora isso foi um pouco radical. Nunca disse que o desprezava - afirmou Miranda, cuidadosamente. - Eu o acho arrogante e um tanto antiptico, admito, mas no 
pr-requisito do casamento gostar sinceramente do cnjuge. Tenho certeza de que seus sentimentos em relao a mim so os mesmos que os meus em relao a voc.
- Se este  o caso, ento  provvel que um de ns v estar
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morto antes do fim da lua-de-mel - comentou Devin, secamente. Miranda abriu um sorriso lnguido.
- Asseguro-lhe, meu senhor, que no tenho tendncias homicidas. E tambm sou bastante capaz de cuidar de mim mesma.
- Isto  absurdo. - Devin colocou de lado a xcara de caf vazia.
- No. Asseguro-lhe de que no . Foi muito bem pensado. Passei a noite anterior inteira considerando a hiptese. E digo-lhe que raramente chego a concluses erradas.
- E por falar em arrogncia... - murmurou Devin. Ele se apoiou na beirada da escrivaninha, esticando as longas pernas  sua frente e cruzando os braos no peito,
e encarou Miranda com um olhar paciente, ainda que um tanto inflamado. - Est bem. Deixe-me ouvir essas consideraes bem pensadas.
- Como lhe disse naquela noite - continuou Miranda -, comecei a perceber as vantagens do tipo de casamento arranjado que me props. No foi o que planejei para minha
vida, por isso demorei a me acostumar com a idia. Para voc, as opes so bvias, no importando o quanto gosta ou no delas. Vi seus relatrios financeiros, sabe,
e est bastante claro que voc est  beira da runa.
- Viu meus relatrios financeiros? - perguntou ele, espantado.
- Seu tio foi gentil o suficiente para envi-los para ns.
- Que considerao da parte dele.
- , tambm achei. De qualquer forma, se espera sobreviver, e se quer salvar as propriedades de sua famlia, precisa se casar por dinheiro. E logo. Sou sua melhor
oportunidade. At
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mesmo uma maria-ningum das colnias  melhor que passar seus dias na priso.
- No serei preso.
- Oh, no, tem razo. Voc tem uma irm e uma me das quais pode sugar algo. - Miranda ignorou o olhar furioso de Ravenscar. - Ainda assim, no acho que elas possam
lhe dar o estilo de vida ao qual est acostumado, apenas com o dinheiro que ganham para gastar com roupas. Voc acha?
- H outras opes.
- Quais? Apostar? Ou talvez pretenda receber alguma comisso por conduzir desavisados s casas de jogos. No, acho que o casamento  a nica forma de ganhar a quantia
de que vai precisar. E voc acabou com todas as suas opes aqui na Inglaterra. Um cavalheiro abastado no tem interesse em fazer parte de um escndalo. No  verdade?
H quaisquer outras herdeiras dentre as quais escolher?
- Voc sabe que no h.
- Diria que isso me torna no apenas sua melhor esperana, mas a nica.
- Voc tem um jeito to sutil de se expressar.
- Achei que apreciaria uma conversa direta. Ns estamos, afinal, discutindo os detalhes de um arranjo de negcios. No  verdade? Papai e eu vamos aplicar um bocado
de dinheiro em voc. Uma quantia no muito grande, sinto dizer, por causa de sua conhecida propenso a, bem, gastar dinheiro com muita facilidade. Pagaremos suas
enormes dvidas e,  claro, voc tambm receber uma mesada mensal generosa. Pagarei as despesas das casas, papai e eu cuidaremos da restaurao de Darkwater. Sei
que a propriedade est em mau estado, tambm, e vou, obviamente, encarregar-me de coloc-la
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de volta em bom estado. No ficarei surpresa se comear a dar lucro em pouco tempo. Sou muito boa nesse tipo de coisa, sabe?
- Srta. Upshaw. - Devin ficou de p, os olhos semicerrados. - Enquanto est fazendo planos para meu futuro, devo lembrar-lhe de que voc no ter controle sobre
nada disso depois que nos casarmos. Aps o casamento, todo seu dinheiro ser meu. Voc nem mesmo ter direito  propriedade. Serei eu quem decidir a respeito de
mesadas e somas de dinheiro. Voc, minha cara, ficar sob meu poder. - Ele chegou mais perto, projetando-se sobre ela com o rosto carrancudo. - Os maridos mandam
na Inglaterra, e voc far o que eu digo. Pensou nisso quando fazia seus planos? Eu poderia tranc-la em Darkwater e voltar para Londres e me divertir gastando seu
dinheiro.
Os olhos dele eram ferozes, a postura, ameaadora, mas Miranda no se intimidou.
- Lorde Ravenscar, devo dizer-lhe que, certa vez, quando estava com papai comprando peles numa regio selvagem, estive frente a frente com um enorme urso. Sua tentativa
de intimidao  fraca em comparao a isso. - Ela desviou um passo e se afastou. - No importa o que pense - disse ela, calmamente, virando-se para encar-lo a
alguns passos de distncia -, no sou idiota. Nem meu pai o . Primeiramente, o grosso da fortuna da famlia pertence a meu pai. Ele pagar pelo que lhe convier
e como lhe convier. Pagar suas dvidas e restaurar Darkwater. Posso assegurar-lhe de que far exatamente o que quiser nesse sentido. Voc parece ter a noo errnea
de que os americanos so burros. Ou talvez seja o jeito amigvel dele que o engane. Mas, acredite, voc nunca tirar
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um centavo de meu pai alm do que ele quiser dar-lhe. Com relao  minha fortuna pessoal, se acha que eu abriria mo do dinheiro que trabalhei para acumular nos
ltimos dez anos s pelo prazer de me casar com voc, est muito enganado. Antes de me casar, o dinheiro ser colocado em um fundo administrado por meu pai, por
meu advogado e por Hiram Baldwin. Como pode imaginar, eles investiro como eu ordenar e distribuiro o dinheiro como eu mandar. Se voc for tolo a ponto de tentar
me trancar em algum lugar, ou sortudo a ponto de consegui-lo, creio que se ver rapidamente sem recursos financeiros.
Os olhos de Ravenscar faiscaram e seu corpo se enrijeceu de fria.
- Voc acha que pode me controlar dessa forma? Que pode me fazer danar conforme sua msica s porque tem dinheiro?
Devin cruzou o espao que os separava em duas passadas rpidas. Segurou os braos dela, com os olhos em chamas. Chegou to perto que Miranda pde sentir o calor
do corpo dele. Sua respirao arranhava a garganta. Sua intensidade e fria eram quase uma fora tangvel.
- Eu no me submeto a ningum, muito menos a voc. Um arrepio percorreu o corpo de Miranda. Normalmente, era ela quem intimidava os homens; havia algo excitante
em encarar um que no a temia. Ela o enfrentou, olho no olho, com o corpo teso.
- Voc acha que est segura porque pode criar fundos? - continuou ele. - Porque seu pai e todos os homens que conhece correm para fazer o que diz? No sou um deles.
Talvez ningum tenha se dignado a mencionar que, em meio a todas
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as minhas falhas, h algumas coisas para as quais tenho talento. Sou um exmio atirador, srta. Upshaw. Miranda lanou-lhe um olhar de igual para igual.
- Est me ameaando, lorde Ravenscar? Talvez um dia possamos competir. Quando acompanhei meu pai em expedies comerciais, fomos a alguns dos lugares mais ermos
do continente norte-americano. Lugares em que no havia lei e nos quais jamais houve lei. Aprendi a usar armas com pouca idade. Na verdade, fui ensinada por um dos
melhores caadores do pas.
Devin ficou olhando para ela e, ento, de repente, comeou a rir. Baixou os braos e afastou-se, dizendo:
- Aposto que foi, srta. Upshaw. Qualquer coisa diferente disso no seria caracterstico de sua pessoa. A seguir me dir que tambm  mestre na arte da briga de punhos.
- No. Isso eu no fao. Sempre fiquei em desvantagem por causa de meu tamanho e de minha fora. No entanto, aprendi com os caadores a usar facas para cortar peles
e retir-las, e a matar tambm. - Olhou para ele com um semblante brando.
- Touch! - Ele balanou a cabea. - Voc , sem dvida, a mulher mais incomum que j conheci.
- Vou tomar isso como um elogio - disse Miranda, rapidamente. Sua respirao ainda estava um pouco irregular. Irritava-a o fato de ele afet-la tanto, mas no deixaria
que ele percebesse isso. - Acho que talvez voc tenha entendido mal. A verdade  que no desejo control-lo. Meu nico limite  o seu gasto do meu dinheiro, e voc
achar esse limite nada oneroso. No foro as pessoas a fazerem o que quero. Normalmente, consigo isso argumentando.
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Ele riu.
- Ainda assim, consegue tudo do seu jeito.
- Quase sempre - admitiu Miranda. - Entretanto, no insisto, e certamente no em um casamento. Mas gosto to pouco de ser controlada por outra pessoa quanto voc,
por isso tomei medidas preventivas. S isso.
- Entendo. - Devin anuiu com a cabea.
- Isso o ofende?
-  claro. - Um brilho de humor reluziu nos olhos dele.
- Na verdade, j que as afrontas acabaram, acho que me sinto... aliviado. Sou, como voc pode imaginar, um terror com dinheiro. Veja minha atual condio.
- Isso  compreensvel. Voc  um artista. Devin deixou escapar um som de escrnio.
- Nada disso. No, receio ser apenas um cavalheiro dado aos prazeres da vida. No sou bom em nada alm do que em alguns interesses "cavalheirescos". Equitao, caa,
carteado.
- Oh, mas h lugares em que essas coisas lhe seriam teis - observou Miranda. - Ento, meu senhor Ravenscar, deseja rescindir a oferta? Ou vai aceitar esse "contrato"
de casamento?
Ele achou graa ao pensar no que Leona acharia quando descobrisse como sua herdeira era de fato.
- Sem qualquer dominao de um sobre o outro, certo? - disse ele, pensativo.
- Correto.
- Acho que conseguiria viver com isso. - Seria, pensou consigo, a nica coisa sensata a fazer. Sua relutncia era motivada por nada mais que um orgulho grande demais
para as atuais circunstncias. Ele tinha de se casar, e, por mais irritante que a srta. Upshaw fosse, bem, como Richard observou, pelo
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menos a vida ao lado dela no seria montona. E fazer um herdeiro com ela seria tudo menos uma tarefa onerosa.
- Bom. Odiaria ter de me engajar em outra procura por um marido apropriado - disse Miranda.
- Isso no ser necessrio - respondeu Devin brevemente, um pouco surpreso ao perceber como o desagradava a idia de ver Miranda se casando com outra pessoa. - Minha
proposta est de p. Quer se casar comigo, srta. Upshaw?
- Sim, meu senhor, quero - respondeu Miranda de pronto, e ento continuou: - Acho que devemos nos casar logo, no acha? No h muito sentido em esperarmos. Precisamos
comear a saldar as dvidas e a restaurar a propriedade. Creio ser prefervel um noivado breve.
- Est bem. - Ele se sentiu um pouco aturdido pelo jeito direto e comercial dela. Um noivado deveria envolver algo mais... alguma comemorao, um beijo, pelo menos...
Ele se aproximou, mas Miranda virou-se com destreza e afastou-se, dizendo:
- Agora, vamos aos detalhes... Pensei num casamento distante de Londres, voc concorda? Sem dvida j haver bastante rumores assim, sem darmos a eles vrias semanas
para confabular.
Devin voltou  posio anterior, na escrivaninha, e observou-a pensativo. Ser que ela antecipou o beijo e evitou-o habilmente, ou ser que no percebeu o que estava
prestes a fazer?
- Voc sabe, srta. Upshaw - ele comeou -, eu me pergunto. Isso tudo  muito bom para mim. As vantagens de me casar com voc so bvias. Mas por que quer se casar
comigo? Considerando o fato, afinal, de me achar arrogante e... qual era o outro defeito? Antiptico?
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-  mais a idia de um casamento arranjado que me atrai - explicou Miranda, calmamente, sentando numa poltrona de frente para ele. - No incio, no gostei da idia,
como sabe. Mas, depois, quando comecei a pensar no assunto, pude ver a sensatez de me casar no por amor ou paixo, mas por razes prticas. Como mencionei naquela
noite, gostaria de restaurar sua propriedade. A casa e os jardins. Gosto de lidar com propriedades. No h nada to divertido quanto pegar um pedao de terra e torn-lo
rentvel.
- De fato? - Ele parecia desconfiado. Miranda riu.
- Isso me atrai. Eu gostaria de dar a Darkwater sua antiga forma e beleza. E gostaria de ver o que pode ser feito para transformar a propriedade, moderniz-la, o
que quer que seja necessrio fazer para lev-la a produzir de novo.
- Estranhos motivos para um casamento. Suponho que poderia simplesmente comprar uma casa antiga e restaur-la.
- Ah, mas a no seria minha casa. Eu no teria qualquer conexo real, pessoal com ela. Isso a torna muito mais especial. Alm disso, h o atrativo de sua posio
social. Minha madrasta adoraria ver Vernica fazer seu debut aqui em Londres. Seria bom poder fazer isso por ela. Vernica vai gostar disso.
- Ento voc est se casando comigo para apresentar sua irm  sociedade em alguns anos, fazendo assim sua madrasta feliz, e para restaurar Darkwater.
- Em parte. Mas, como lhe disse antes, essas coisas no eram suficientes para me fazer querer casar com voc. Depois pensei melhor e percebi quo libertador era
todo esse arranjo.
- Libertador? - Ele pareceu intrigado.
- Sim. Veja, eu tenho sido assediada por caadores de fortunas,
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tanto aqui quanto no meu pas. Nunca sei se um homem gosta de mim de verdade ou se s quer botar as mos no meu dinheiro. Com um casamento arranjado, no h dvidas.
Sei que voc no gosta de mim... Na verdade, acho que j conclumos que voc me acha estranha e inoportuna. Isso  mais fcil do que ouvir declaraes de amor e
ficar me perguntando constantemente se so falsas. Prefiro negociar s claras.
- Prefere que seja sem amor?
- Prefiro saber onde piso. Odeio mentiras. Odeio pessoas que tentam me enganar, me ludibriar. Uma emoo honesta  sempre melhor que uma decepo, creio, mesmo se
a emoo em questo no for a mais agradvel. Pelo menos sei como lidar com isso, como agir. E no me sinto uma tola depois de descobrir a verdade. Alm disso, no
tenho a inteno de viver sem amor.  s que, em tais circunstncias, o amor, se conseguir encontr-lo, vir de fora do casamento.
- O que foi que disse?
- Disse que o amor vem separado do matrimnio quando se trata de um casamento arranjado, e isso  muito mais fcil, no acha? Ao pensar a respeito, vi que o modo
europeu  muito mais prtico. Ns nos casamos por razes prticas, e ento, no dia-a-dia, seguimos caminhos separados. Voc faz o que quiser, vive como quiser, e
eu tambm. A no teremos nada dos cimes e dos sentimentos mesquinhos que podem contaminar um casamento por amor. Voc ter suas amantes e eu terei os meus. Voc
vai...
- O qu?! - Devin saltou de sua posio tranqila, relaxada, tornando-se carrancudo. - Como assim, voc ter amantes?
- Exatamente como disse. Algum problema? Estava falando do tipo de casamento arranjado no qual estamos entrando.
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No era isso o que havia planejado? Que se casaria comigo, mas manteria uma amante para o seu deleite? Ou para amar?
- Bem, sim - retrucou ele, e depois parou, ao perceber como aquela afirmao havia soado.
Miranda arqueou uma sobrancelha.
- Voc espera que eu me comporte de maneira diferente do que espera se comportar?
- Bem, sim - admitiu ele, parecendo um pouco desconfortvel. - Isso  uma coisa para um homem, mas para uma mulher...
- Sim?
- Bem, mulheres no saem por a tendo casos fora do casamento.
- No? Mas, pelo que ouvi, lady Vesey  casada.
- Leona? Leona no tem nada a ver com isso.
- Pelo que entendi, ela  sua amante.
- O qu? - Ele pareceu estupefato. - Como voc.., Onde ouviu isso?
- De lady Westhampton.
- Rachel? - Ele ficou boquiaberto. - Minha irm? O que a fez dizer a voc...
- Oh, ela no me contou espontaneamente. Eu perguntei. Quando o vi junto a lady Vesey, suspeitei ser esse o caso, ento perguntei a sua irm. Ela no conseguiu negar.
- No vejo por que no! - retorquiu Devin. - Rachel deveria saber como agir em situaes delicadas.
As sobrancelhas de Miranda se arquearam novamente.
- Isso significa que eu no sei como agir?
- No. No quando sai por a fazendo esse tipo de pergunta s pessoas. Em especial  prpria irm de um cavalheiro.
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Deus do cu, voc no deveria falar sobre essas coisas comigo, quanto mais com Rachel.
- Por que no?
- Isso simplesmente no se faz.
- Ora! - Miranda fez um gesto de desdm com a mo frente a objeo dele. - Que bobagem. Achei que devamos ter abertura e ser honestos um com o outro. Parceiros
de negcios, por assim dizer. Certamente estamos acima de fingir que o que todos sabem ser verdade no .
- Essa no  a questo - resmungou Devin.
- Ento, qual  a questo? - perguntou Miranda, calmamente.
- Voc no pode sair por a tendo casos! No vou admitir que o nome Aincourt seja manchado. - Devin enfureceu-se. - Lady Ravenscar no tem casos amorosos. O nome
de minha esposa no passar de boca em boca nos ambientes de fofoca de Londres.
- Mas eu seria discreta - assegurou-lhe Miranda. - No faria nada que prejudicasse o nome Aincourt, o qual voc tem preservado to cuidadosamente por todos esses
anos.
- Tudo bem, pode zombar se quiser. Admito que no tenho sido um modelo de conduta. Tenho sujado o nome e a reputao de minha famlia. Mas  diferente!
- Porque  voc?
- Porque sou homem - disse, com os dentes trincados. - Essa  uma questo completamente diferente para uma mulher.
- Por qu?
- Por qu? Como voc pode perguntar isso? Todos sabem.
- Sabem o qu?
- Que as mulheres so... que elas...
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- So mais moralistas que os homens? Seguem padres mais elevados?
Ele pressionou os lbios por um instante, sentindo-se frustrado, e, por fim, explodiu.
- Ningum se importa se um homem tem um ou dois filhos bastardos, mas a infidelidade de uma mulher pe em risco a sucesso.
- A sucesso? - Miranda riu. - Voc soa como se estivesse falando do reinado.
- Voc sabe do que estou falando. Eu nunca teria certeza se um herdeiro seria meu herdeiro de verdade se...
- Eu disse que seria totalmente discreta. E tomaria precaues tambm. Voc no teria com o que se preocupar.
- Eu teria com o que me preocupar sim, se tivesse de desafiar homens para duelos para defender sua honra!
- Bobagem. No haveria qualquer motivo para desafiar ningum. No consigo entender por que voc est fazendo tanto alarde a esse respeito. Quer dizer, no  que
voc goste de mim.
- Certamente que no.
- Ento, por que deveria se importar com o que fao? Sei que voc  um homem muito justo para esperar que eu viva diferente de voc e lady Vesey.
- Voc poderia parar de mencionar o nome dela nessa conversa?
Miranda deu de ombros e continuou insistindo.
- E com certeza voc no espera que continuemos celiba-trios depois de nos casarmos.
- Celibatrios! Deus, no. De onde tirou essa idia?
- Bem, quero dizer, em um casamento como o nosso, onde no h amor conjugal, nenhuma afeio verdadeira, se
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no procurssemos prazer em outro lugar, teramos de ser celibatrios. E sei que voc no pretende fazer isso.
- Claro que no pretendo. No pretendi nada ainda. No tenho a mais vaga idia de como voc chegou a qualquer uma dessas coisas que est dizendo. - Devin passou
os dedos nos cabelos, desarrumando-os ainda mais, e olhou para ela descomposto.
- Sem dvida, voc precisa de algum tempo para pensar nisso - disse-lhe Miranda, delicadamente.
- Vou precisar mais do que de tempo. Voc est dizendo que eu e voc no vamos... que ns no vamos...
- Dividir o leito matrimonial? - Miranda ajudou. -  isso mesmo. Esta  parte da atrao por este tipo de casamento. Ns no temos de consum-lo. Se voc tivesse
de fingir me amar e me cortejar, ento teria de ir at o fim, e isso seria algo muito difcil de se fazer quando no se ama o outro, eu diria. Mas, dessa forma,
quando se entra nisso honestamente, sem todas as armadilhas e mentiras, quando  simplesmente um acordo de negcios, puro e simples, nenhum de ns ter de fingir
que quer consumar o casamento. Estou certa de que essa idia o atrai to pouco quanto a mim.
Ele olhou para ela, atordoado, e murmurou, por fim.
- Sim, obviamente.
- Pronto. Esta foi uma das razes pelas quais percebi que esse acordo era excelente. Teremos camas separadas e levaremos vidas separadas.
- Mas... mas e os herdeiros? - Devin se animou. - Afinal de contas, este  um dos meus principais deveres como conde de Ravenscar, garantir que o ttulo tenha um
herdeiro.
- Bem, depois de um tempo, suponho, se isso  to importante, teremos de lidar com essa questo ento - disse Miranda,
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pensando no assunto. - Faremos algum tipo de combinao. Mas isso  algo para depois. No h motivo para nos preocuparmos agora.
- Claro que no. - Devin deu a volta na escrivaninha e afundou na cadeira. Sentia-se como se tivesse atravessado um redemoinho de vento. No, era mais a sensao
de ter sido passado para trs por um trapaceiro, mas de uma maneira to hbil que no saberia dizer exatamente quando e como isso havia ocorrido.
- Bom, ento est tudo acertado - disse Miranda rapidamente, ficando de p. - Meu pai ficar maravilhado, assim como sua me, tenho certeza. Devemos iniciar os procedimentos.
Ver que sero indolores e rpidos. Agora talvez deva se deitar com uma compressa de lavanda na testa. Parece-me um pouco indisposto.
Miranda saiu do cmodo, deixando Devin para trs com uma aparncia estupefata. Saiu da casa e desceu os degraus em direo  carruagem que a aguardava. S depois
que se acomodou no assento de pelcia foi que permitiu que um sorriso se abrisse em seu rosto.
Ela contara uma quantidade enorme de mentiras l, pensou, mas esse pensamento no parecia faz-la sentir o menor remorso. Na noite anterior, enquanto ficara acordada,
elucu-brando, chegou a uma importante concluso: contra toda razo e lgica, Devin Aincourt era o homem que queria. Uma vez estando certa disso, todo o resto encaixou-se
naturalmente. Miranda no costumava desconfiar de seus instintos. Ela se casaria com ele, e no tinha a menor inteno em dividi-lo com lady Vesey ou qualquer outra.
Sabia que ele a queria; sentiu isso em seus beijos, em seu abrao. Tambm tinha certeza
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de que ele se casaria com ela. Alm disso, dependeria dela fazer com que a amasse.
E foi para esse fim que passara o restante da noite planejando sua estratgia. At agora, tudo acontecera exatamente de acordo com o plano. Deixou Devin confuso,
ligeiramente enciumado e completamente frustrado. Foi, pensou, um bom comeo. O prximo passo seria lev-lo o mais rpido possvel para Darkwater, para o casamento,
longe de Londres e das garras de lady Vesey. Sabia que podia confiar em seu pai e na vida lady Ravenscar para fazer isso ocorrer o mais breve possvel.
Botando a mo no bolso, pegou o pedao amassado de papel que Devin se preocupou tanto em esconder debaixo da mesa quando ela entrou. O tempo todo em que estiveram
conversando ficou curiosa para saber o que era. Agora tirou-o do bolso e abriu-o, desamassando cuidadosamente a pgina enrugada. Era um desenho de seu rosto, pela
metade, mas facilmente reconhecvel.
Olhou para ele por alguns momentos. Devin dormira  mesa do escritrio na noite passada porque ficara tentando desenhar seu rosto. Miranda se lembrou da pilha de
papis amassados que ele chutara para debaixo da mesa. A lixeira tambm estava cheia deles. Sorriu com satisfao e inclinou a cabea para trs, apoiando-a na almofada.
Tudo estava indo ainda melhor do que o planejado.
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Captulo 10

O pai de Miranda ficou, como era de se esperar, satisfeito com o anncio da filha de que decidira se casar com o conde de Ravenscar. Vernica tambm achou a notcia
tremendamente empolgante. A madrasta de Miranda, entretanto, pareceu menos feliz. Ainda que Elizabeth desejasse toda a felicidade para a enteada, como era de bom-tom,
seu rosto ficou marcado por um leve franzir de cenho. Ela pegou a mo de Miranda, olhou em seus olhos e perguntou seriamente:
- Voc tem certeza de que  isso o que deseja fazer? Joseph pode encontrar outra casa, outro aristocrata, tenho certeza.
- No. Decidi que  esse aristocrata que eu quero - respondeu Miranda, com um sorrisinho secreto. - No se preocupe comigo, Elizabeth.  muito gentil de sua parte
estar preocupada com minha felicidade, mas, de verdade, estou bastante certa de que  isso o que quero fazer. Voc j me viu vacilar?
- No - respondeu Elizabeth, honestamente. - Voc  sempre muito confiante. Mas s vezes... bem, o conde de Ravenscar  muito mais... sofisticado que voc. Ele 
mais velho e tem levado uma vida devassa. Estou com muito medo de ele a ter ludibriado e de que voc esteja acreditando que ele  um homem diferente do que realmente
. Estou com medo que voc se magoe.
Miranda sorriu para a mulher mais velha com afeio e se aproximou para dar-lhe um abrao.
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- Querida Elizabeth... Acho que tenho uma percepo bastante clara de como  o conde de Ravenscar. No entrarei nesse casamento s cegas. Nem estou fazendo isso
para o bem de papai.  isso o que quero. Acredite em mim e no se preocupe.
A madrasta aquiesceu, ainda parecendo um pouco perturbada.
Como imaginara, Joseph entrou imediatamente em ao, indo at seu advogado em Londres e marcando uma reunio com o advogado de Devin. Miranda deixou os detalhes
do negcio com o pai, porque estava bastante ocupada com a mirade de tarefas associadas ao casamento, mesmo sendo uma cerimnia familiar, como determinara que fosse.
A mais importante delas era fazer um vestido de noiva e preparar o enxoval em to pouco tempo. Era essencial que estivesse absolutamente fabulosa no casamento e
nos primeiros dias de casada. Mesmo j tendo comprado vrios vestidos novos ao chegar em Londres - e tendo antes visitado os melhores costureiros de Paris -, no
possua nada de estilo adequado e adorvel para cada momento do dia por duas ou trs semanas.
Rachel ficou mais do que feliz em ajud-la nessa tarefa, da mesma forma que Vernica e sua madrasta, que deixou de lado suas reservas em relao ao casamento em
nome da diverso em escolher roupas novas e lindas. Havia tambm os vestidos que deveriam ser feitos para cada uma delas para o evento. Passaram horas no ateli
de madame Ferrier, debruadas nas ilustraes de modelos em seus livros e debatendo sobre tecidos e cores. Madame Ferrier ficou to excitada com a oportunidade de
criar tantos vestidos para uma cliente que pagava bem e pontualmente que em vrios momentos seu sotaque
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francs se transformava em um sotaque puramente britnico. Uma vez escolhidos os vestidos, madame Ferrier pde ocupar-se atazanando as costureiras para que os aprontassem
no prazo. Agora tinham de encontrar todos os acessrios necessrios- bolsas, xales, fitas, sapatos, chapus, sombrinhas... a lista parecia interminvel.
Dois dias aps Miranda ter dito a Devin que pretendia se casar com ele, lady Ravenscar deu uma festa para anunciar o noivado. Tratava-se, por fora das circunstncias,
de uma celebrao ntima; por um lado, porque no tinha tempo de preparar uma festa grande e, por outro, porque esperava que um evento com as pessoas mais prximas
ajudaria a conter a boataria. Seria impossvel esperar que a sociedade no comentasse sobre o casamento,  claro, mas queria limitar esses comentrios a um mnimo.
Ento a festa foi pequena, elegante e extremamente entediante. Miranda, espremida entre lady Ravenscar e seu filho, que parecia estar ainda mais entediado do que
ela, sorria de maneira educada e cumprimentava as pessoas a quem lady Ravenscar a apresentava, desejando estar em outro lugar. Quando os convidados pararam de chegar
e lady Ravenscar permitiu que sassem da fila de cumprimentos, Miranda teve uma idia.
Virando-se para Devin, cobriu a boca com o leque e sussurrou:
- Voc acha que algum daria falta de ns se sassemos? Devin lanou-lhe um olhar, as sobrancelhas arqueando-se na primeira expresso de interesse que vira durante
toda a noite.
- Eles vo achar que morremos de tdio, imagino. Por qu? Voc tem algo em mente?
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-J ouvi muito a respeito de Vauxhall Gardens desde que cheguei aqui - Miranda comeou, colocando a mo no brao de Devin. Eles comearam a se afastar dos convidados.
- Dizem que no se pode deixar de ir, mas que uma dama no pode ir desacompanhada.
- Por Deus, no - concordou Devin. -  aceitvel, obviamente, se a dama estiver acompanhada de um parente ou, digamos, de um noivo.
- Foi o que pensei. - Miranda olhou para Devin, sorrindo com os olhos.
Devin lanou um olhar para trs, para o salo. Ningum parecia estar prestando a menor ateno neles. A maioria dos amigos de lady Ravenscar estava agrupada  sua
volta.
Devin escapou com Miranda para fora do salo e percorreram o corredor at a porta da rua. Um lacaio impassvel, j bastante acostumado ao comportamento tpico do
filho de lady Ravenscar, abriu a porta para eles. Rindo como crianas que burlavam aula, Devin e Miranda desceram correndo os degraus at a rua, onde Devin chamou
uma charrete que passava.
- Voc tem de ter uma capa e uma mscara - disse-lhe Devin, mas essas necessidades foram facilmente satisfeitas com uma parada na casa dele antes de continuarem
em direo a Vauxhall.
Vauxhall Gardens era tudo o que Miranda ouvira a seu respeito - espalhafatoso, animado e colorido. Camarotes ladeando o largo corredor, cheio de freqentadores,
a maioria mascarada, assim como eles. Mulheres de um tipo que Miranda deduziu serem tudo, menos virtuosas, passavam por ali, sendo cortejadas pelos jovens nos camarotes
e retribuindo seus
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chamados com risadinhas, piscadas e acenos. Miranda viu mais de uma dessas moas ser atrada para um camarote e ser beijada descaradamente.
Miranda assistia a tudo aquilo fascinada. Casais escapavam para outros corredores mais escuros e menos movimentados para propsitos que Miranda no tinha dificuldade
em imaginar. Vauxhall Gardens era claramente cheio de encontros secretos.
Devin procurou um camarote do qual pudessem assistir ao desfile e aos fogos de artifcio da meia-noite. Miranda lhe fez perguntas sobre as pessoas que viam e sobre
as coisas que estavam fazendo, a maioria das quais o fez rir pela desfaatez.
Ele virou-se e olhou para ela num determinado momento, dizendo:
- Voc me surpreende, srta. Upshaw.
- Por favor, me chame de Miranda. Parece o mais apropriado, j que vamos nos casar, no acha?
- Est certo, Miranda. Voc me surpreendeu esta noite.
- Por qu? Porque quis sair da festa de noivado? Ele anuiu com a cabea.
- Pensei que era exatamente por esse tipo de coisa que voc estava se casando comigo.
Miranda riu.
- Nem de longe. Posso encontrar sozinha um nmero infinito de ocasies sociais entediantes em Nova York. J lhe disse, o que me interessa  a liberdade que o casamento
oferece.
Ele olhou para ela ponderando, e ento inclinou-se e beijou-a.
- E quanto a isso? Faz parte da sua idia de casamento? Miranda conseguiu dar um sorriso jovial, determinada a no deixar que ele percebesse que o beijo havia arrepiado
todo seu corpo.
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- Por qu? Deveria? - argumentou ela, e ficou de p. - Gostaria de dar outro passeio. Vamos?
-  claro. - Ele se levantou, no falando nada sobre a forma rpida com que ela interrompera aquela cena romntica.
Percorreram mais uma vez o amplo corredor por entre os camarotes. Dessa vez, ao chegarem ao fim e ao estarem prestes a virar e andar para o outro lado, um homem
surgiu da escurido e veio na direo deles. No estava mascarado. Miranda viu claramente seu rosto sob a luz vinda do corredor. Mas foi o que ele carregava na mo
enquanto avanava na direo deles que a fez tomar um susto - uma pequena faca que reluziu  luz das lanternas.
Devin viu a faca ao mesmo tempo que ela, e desviou-se do homem, puxando Miranda para trs. A faca cortou o tecido da capa de Devin sem atingi-lo. Devin soltou a
mo de Miranda e avanou para o homem, segurando-lhe o pulso. Mas o camarada girou o corpo e fugiu.
Devin comeou a persegui-lo, mas ento olhou para trs, para Miranda, e parou, o rosto um modelo de frustrao. Miranda sabia que ele queria seguir o patife para
puni-lo, mas no poderia deix-la sozinha em um lugar como aquele.
- Acho que  hora de voltarmos - disse Devin, sobriamente, ao pegar a mo dela e conduzi-la para fora de Vauxhall.
- Esse tipo de coisa acontece sempre com voc? - perguntou Miranda, com calma, enquanto entravam na charre-te que Devin chamara.
Ele olhou para ela, e deixou escapar um riso, balanando a cabea.
- Qualquer outra mulher que conheo estaria histrica agora.
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- Voc quer que eu fique histrica? - perguntou Miranda, educadamente. - Acho que poderia ficar.
- No. Assim  muito melhor, acredite.
- Voc no respondeu  minha pergunta - Miranda observou. - Voc tem o hbito de ser atacado por ladres?
- Nem sempre. Talvez tenha algo a ver com voc. Miranda olhou para ele com um qu de ironia.
- Voc no vai se livrar assim to facilmente. Acha que era um de seus credores? Ns poderamos dizer ao papai que pague a esse primeiro.
Devin caiu na gargalhada ao ouvir suas observaes ponderadas.
- Teria sido mais til se ele houvesse nos dito a quem representava. Desse jeito, no tenho como saber.
- Ento suponho que seja bom mesmo voc estar indo para Darkwater em alguns dias.
- Sim. - Ele olhou para ela. - Voc acha que consegue se manter longe de encrencas enquanto eu estiver fora?
- Meu caro senhor, acredito que sim, j que aparentemente  voc quem me bota em tais situaes.
Os Aincourt foram para Darkwater dois dias depois. Rachel e sua me tinham de se certificar de que a casa fosse colocada na melhor ordem possvel para o casamento,
e uma sugesto velada feita a Rachel garantiu que Devin as acompanhasse. Isso era parte do plano de Miranda para afast-lo o mais que podia de Londres e de Leona.
A propriedade da famlia em Derbyshire se encaixava como uma luva s suas necessidades. Alm disso, Devin era dispersivo demais. Precisava de toda sua vivacidade
ao lidar com ele, o que era difcil quando tinha tantas coisas a fazer. Do jeito que estava, pensando
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nele constantemente quando devia estar concentrada em outras coisas, j acarretara problemas suficientes.
As duas semanas em que ela e sua famlia permaneceram em Londres, depois que os Aincourt partiram, passaram rapidamente. Alm das provas dos vestidos para o casamento,
que tomavam bastante seu tempo, e das numerosas expedies em busca de acessrios nas lojas, havia tambm suas rotineiras atividades de negcios - cartas a serem
escritas, contabilidade a ser revisada. Ainda que Hiram fizesse grande parte do trabalho, havia coisas que requeriam sua ateno pessoal, j que o pai estava quase
sempre ocupado em reunies com os advogados tratando do acordo nupcial. Miranda tambm tinha de coordenar a tarefa de fazer as malas da famlia inteira para a viagem
at Darkwater e comprar os presentes de casamento para o futuro marido, tanto os presentes formais, e de alguma forma impessoais como era de praxe, quanto o mais
pessoal que tinha em mente.
Dois dias antes de partirem para Darkwater, Miranda estava sentada  mesa no escritrio, repassando a lista final de itens das malas com o mordomo, quando um dos
lacaios entrou e entregou-lhe um carto em uma pequena bandeja, dizendo que havia um cavalheiro ali que gostaria de v-la.
- Quem  ele? - perguntou Miranda, franzindo o cenho ao olhar para o carto. - Elizabeth ou papai no podem cuidar dele?
- No, senhorita. O sr. Upshaw est fora, e a sra. Upshaw est l em cima, dormindo. Est se sentindo mal hoje. - O jovem fez uma pausa, e depois acrescentou: -
Ele disse que  importante. Avisei que a senhorita estava ocupada, mas ele respondeu que esperaria a tarde toda se fosse preciso. Parece determinado.
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- Oh, droga. Tudo bem. Leve-o at a sala de visitas.
Ela percorreu o corredor at a sala de jantar formal, desenrolando as mangas e abotoando os punhos. Mal entrara no cmodo quando o lacaio apareceu novamente, com
o homem atrs dele.
- Sr. Caulfield - ele anunciou, e saiu do cmodo, deixando Miranda sozinha com o estranho.
Os dois ficaram em silncio por um momento, analisando-se mutuamente. O visitante era um homem de idade, de cabelos brancos e mos trmulas. Estava bem vestido,
em um estilo antiquado, e se portava com aprumo, o chapu e uma bengala de ponteira dourada na mo. Os olhos eram azuis e tinham um brilho penetrante que deixaram
Miranda um tanto desconfortvel.
- Srta. Upshaw - comeou ele, com a voz surpreendentemente firme para sua idade. - Vim aqui para alert-la.
- Alertar-me? A respeito de qu? Perdo, sr. Caulfield, mas nem sequer o conheo.
- Voc no me conhece - concordou ele, avanando na direo dela. -  muito atrevimento de minha parte aparecer assim em sua porta, sei, mas precisava alert-la.
No podia deixar que se casasse com aquele demnio.
- O que o senhor disse?
- Lorde Ravenscar. Soube que iria se casar com ele. As notcias correm e chegam at Brighton, em especial quando se trata do conde de Ravenscar. No podia deixar
que fizesse isso. No podia deixar outra jovem inocente ser sacrificada.
- Sr. Caulfield - a voz de Miranda era ausente de sentimentos -, agradeo sua preocupao, mas no posso ficar aqui parada permitindo que difame meu futuro marido.
Acho que seria melhor se o senhor fosse embora agora.
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- No at dizer o que vim para dizer! - ele explodiu, e seus intensos olhos azuis ficaram com uma aparncia ainda mais feroz. Ele bateu a bengala com fora no cho
para enfatizar. - O homem  um assassino!
Miranda ficou olhando para ele. Sentiu os joelhos fraquejarem de repente e sentou-se  cadeira mais prxima. Por um instante, parecia no encontrar flego para falar.
- A-r! Vejo que agora obtive sua ateno, como deveria - disse o velho homem com um toque de satisfao.
- Perdo. - Miranda encontrou novamente a voz, uma indignao crescente dando-lhe foras. - Esta  uma sria acusao contra lorde Ravenscar. Est afirmando que
ele matou algum?
O velho homem fez um ar de escrnio.
- Oh, ele no sujou as mos, no. No fez nada que as autoridades pudessem punir. Mas o importante  que matou minha neta, assassinou-a como se a tivesse jogado
no mar com as prprias mos.
- Sr. Caulfield - disse Miranda rispidamente, ficando de p -, eu no ficarei aqui sentada permitindo que fale de meu noivo dessa maneira. O senhor diz que ele 
um assassino, mas que no matou algum de fato. Do que exatamente o senhor est falando? De que o est acusando?
- Ele a seduziu, foi isso o que fez! E ela no suportou a vergonha. Atirou-se no mar. Por causa dele! - Os olhos de Caulfield brilharam de raiva, e ele balanou
a cabea. - Eu fui confrontar o covarde, mas ele nem mesmo me recebeu.
Miranda foi acometida de pena.
- Sr. Caulfield, sinto muito por sua perda. Mas me parece que sua neta se matou. - Ela ficou se perguntando o quanto
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da histria do velho seria verdade e o quanto ele teria elaborado em sua mente para mitigar seu prprio luto e culpa. Ela sabia que se o velho tinha mesmo ido confrontar
Devin, foi pena, e no covardia, o que fez Devin recusar-se a receb-lo.
- Por causa dele! Ele a levou a isso. Ela era uma boa menina at conhec-lo. Ele a deixou desamparada.
Miranda no sabia o que dizer. Mal podia compreender como algum, ao deparar com uma crise, poderia escolher escapar do problema com a morte, deixando as pessoas
que a amam sofrendo como este homem estava. Instintivamente, no podia acreditar que Devin havia seduzido uma jovem virtuosa e se recusado a casar-se com ela ao
engravid-la - porque, lendo nas entrelinhas da histria de Caulfield, isso seria o motivo para algum se matar. At mesmo uma menina tola no escolheria a morte
simplesmente por ter cometido um erro to humano, a menos que sua vergonha fosse estar sendo exposta ao av e ao mundo. Ela sabia que, como dissera Rachel, l no
fundo Devin era um homem leal e honrado, apesar de sua rebeldia aparente. No era o tipo de homem que viraria as costas para uma mulher que carregasse seu filho
no ventre, quanto mais uma jovem que, at conhec-lo, era pura. Nem, francamente, Devin parecia ser o tipo que saa por a seduzindo jovens virtuosas. Pelo que diziam,
passara seu tempo com mulheres sofisticadas e astutas, como Leona Vesey, no com jovens damas acanhadas.
S podia imaginar que a neta do sr. Caulfield no era a dama virtuosa que ele acreditava ser. Entretanto, no podia dizer isso ao homem, assim como no podia dizer
que duvidava que a jovem teria se matado se acreditasse que o av era um homem gentil e clemente.
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- E agora, minha jovem - continuou o velho, com o dedo em riste, sacudindo-o na direo de Miranda em sinal de advertncia -, ele est atrs de voc. Porque  uma
herdeira. Ele quer botar as mos no seu dinheiro. E o que voc acha que vai acontecer depois que conseguir isso? Hein? Ele no precisar mais de voc. Voc ter
sorte se ele simplesmente deix-la e voltar para suas moas fceis em Londres. Porque ele pode decidir que no quer agentar o tdio de se ter uma esposa!
Uma raiva feroz dominou Miranda.
-  o bastante, sr. Caulfield. Tentei ser respeitosa porque o senhor est obviamente transtornado por sua perda. Mas isso j foi longe demais. Lorde Ravenscar no
tem planos mortais para mim. Estou certa disso. E o senhor no tem o direito de vir aqui e tentar me assustar com seu desvario.
- Estou tentando ajud-la! - gritou ele, batendo com a bengala no cho mais uma vez, o rosto tornando-se assustadoramente vermelho.
-No. O senhor est tentando ferir Ravenscar. H uma diferena. Agora, por favor,  melhor ir embora antes que passe mal. O senhor est muito exaltado.
Ela andou at a corda da sineta e puxou-a rispidamente, solicitando um criado. Por trs dela, Caulfield comeou a bradar quase incompreensivelmente seu dio por
Ravenscar e avisos temerosos do que poderia acontecer se se casasse com ele.
O lacaio que trouxera Caulfield para dentro logo apareceu  porta. Seus olhos arregalaram-se quando viu o velho colrico.
- Por favor, leve o sr. Caulfield at a porta - instruiu-lhe Miranda, asperamente.
- Claro, senhorita. Sinto muito, senhorita, no o teria deixado entrar se tivesse percebido...
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- No se preocupe. Voc no tinha como saber. Aliviado, o criado pegou o velho pelo brao e conduziu-o com firmeza para fora do cmodo. Miranda seguiu-os at o hall
de entrada para se certificar tanto de que o velho raivoso fora embora quanto de que o lacaio no o trataria mal. Ficou olhando enquanto ele botava o homem para
fora e fechava a porta. Miranda virou-se para voltar para o escritrio, embora estivesse com pouca vontade de continuar com a lista de itens das malas. O velho a
havia aborrecido. Estava certa de que o que dissera no podia ser verdade, mas tambm no conseguia ignorar, dada a reputao de Devin, e o turbilho de emoes
deixou-a um pouco indisposta.
Olhou para cima e deparou com a viso da madrasta em p no corrimo do alto da escadaria, os olhos esbugalhados e a pele plida.
- Quem era aquele? - perguntou Elizabeth com um tom de voz apavorado.
- Um senhor que estava, bem, transtornado. Mas ele j se foi. No h nada com o que se preocupar. - Miranda subiu as escadas na direo dela.
- Mas por que ele estava aqui? O que disse? - questionou Elizabeth, aproximando-se de Miranda e segurando-lhe o brao com fora. - Ele parecia bastante irritado.
Miranda afagou o brao da madrasta, acalmando-a. No podia dizer a Elizabeth o que o velho contara sobre Devin: ela j estava com muitas dvidas a respeito do casamento
de Miranda. As acusaes do sr. Caulfield, sem dvida, a levariam a um frenesi de preocupaes.
- No foi nada, srio. Acho que talvez ele seja um pouco desequilibrado. No consegui mesmo entender sobre o que
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estava falando. Mas no h com o que se preocupar. Posso assegurar-lhe que os criados no o deixaro entrar novamente. - Ela sorriu. - Agora, preciso do seu conselho.
Eles entregaram hoje o restante dos vestidos de madame Ferrier, e no tenho certeza se a fita que compramos combina mesmo com o vestido verde de cambraia.
- O verde? Oh, no, eles so tons bastante complementares, minha querida. Mostre-me. - Elizabeth pareceu aliviada, quase satisfeita por ter sido distrada, e as
duas caminharam pelo corredor na direo do quarto de Miranda.
Foi uma viagem de trs dias de Londres a Darkwater, porque viajavam com uma carroa de bagagem alm da calea onde iam. Elizabeth tinha a tendncia de enjoar no
caminho, o que significou que pararam com freqncia e andaram a uma velocidade menor para evitar sacolej-la. Joseph passou a maior parte do tempo cavalgando ao
lado da carruagem. Como havia comprado outro cavalo, Vernica ou Miranda sempre se juntavam a ele, o que tornava o percurso mais tolervel. Mesmo assim, a viagem
era longa demais para os nervos impacientes de Miranda. J havia quase duas semanas que vira Devin pela ltima vez, por isso estava vida por v-lo novamente. Entretanto,
este era um sentimento que no podia revelar; uma frase que escapasse de um membro de sua famlia para Devin sobre essa avidez, seus planos iriam por gua abaixo.
Ento precisava conter os sentimentos e fingir uma calma e um relaxamento que no sentia, um fingimento que s fazia com que ficasse mais frustrada.
Foi um grande alvio quando a calea rangeu pela estradinha que levava a Darkwater. Miranda inclinou-se para tentar
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ver a grande e antiga manso pela janela. Eles fizeram uma curva e ali estava a casa, em cima de uma pequena elevao, a maioria das rvores em frente tendo sido
cortadas h muitos anos para apresent-la em toda sua glria.
Miranda suspirou quando a viu. O pai parou o cavalo e simplesmente ficou sentado ali, olhando para a casa. O sol poente lanava raios dourados nas paredes de mrmore,
dando  pedra um clido tom de mel e cintilando nas pequenas vidraas em losango nas janelas emolduradas. Era uma casa de uma simetria harmoniosa, apesar do tamanho,
construda em formato de E, uma concepo popular durante os anos do reinado da rainha Elizabeth, ornamentada com parapeitos, janelas projetadas e chamins elaboradas.
Era adorvel, pensou Miranda, apaixonando-se de imediato. quela distncia e sob a luz agradvel os problemas da casa no eram to bvios. Simplesmente parecia antiga
e magnfica.
- Voc j viu alguma casa igual a essa, Miranda? -Joseph apareceu na janela da calea, o rosto repleto de admirao e prazer. - No  magnfica?
- Sem dvida, papai.  linda. - Ela percebeu, com um qu de orgulho e prazer que no esperara sentir, que esta linda casa antiga era agora seu lar. O interesse um
tanto indiferente que sentira em recuperar o lugar se transformara em nsia.
Vernica, que tambm estava cavalgando ao lado da carruagem, chegou perto deles.
-  um castelo! Ns vamos morar aqui de verdade? Mame, olhe!
Elizabeth, que estava sentada ao lado de Miranda, empurrou a cortina do outro lado da carruagem e olhou para fora. Arregalou os olhos, e sua face ficou at rosada.
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- Oh, meu Deus. - Ela tomou flego. - Nunca imaginei...
- Ela no  magnfica? - continuou Vernica, animada.
- No parece o lar de um rei? Elizabeth anuiu com a cabea.
- Sim, parece.
- Mal posso esperar para ver meu quarto - continuou Vernica. - Miranda, posso escolher meu quarto?
- Sim, acho que sim... mas voc deve ficar pelo menos esta noite onde lady Ravenscar a colocou, por educao. Depois disso, no vejo por que no poderia escolher
o quarto que preferir.
- Quero janelas viradas para este lado. Quero ver todos os que se aproximarem pela estrada. Dessa forma, quando der festas, e antes de eu ter idade para comparecer
a elas, poderei observar todos chegando da minha janela. Voc vai dar muitos e muitos bailes? Na casa deve haver um salo de bailes, no acha?
- Estou certa de que h. Entretanto, no sei quantas pessoas h por aqui para comparecer a "muitos e muitos bailes" - respondeu Miranda, sorrindo complacente para
a irm.
- Vou poder participar de algumas festas aqui, no vou? Mame contou que quando ela vivia no campo, as meninas podiam comparecer a pequenas festas de vez em quando,
mesmo antes de serem apresentadas  sociedade.
- No vejo por que no - concordou Miranda. - Tenho certeza de que sua me  muito mais entendida nesses assuntos do que eu. - Como fora Elizabeth a anfitri das
festas de seu pai quando Miranda tinha 15 anos, no se podia dizer que vivera de acordo com as regras sociais mais apropriadas.
Vernica ficou para trs e apareceu do outro lado da calea, perto da me, para insistir nesse assunto que era de seu
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interesse. Miranda foi deixada com seus pensamentos, olhando para a casa enquanto se dirigiam para a porta. Sua mente passou da casa para o futuro marido. Ele estivera
em sua mente durante toda a viagem desde Londres. Agora que estava prestes a v-lo de novo, uma alegria quase incontrolvel surgia dentro dela. Daria tudo para saber
se ele havia pensado nela tambm - e se ficara esperando por ela nesses ltimos dias, tentando adivinhar impacientemente quando chegaria. No podia esperar tanto,
disse a si mesma; tinha de ir com calma. Mas no conseguia evitar que seu corao alimentasse esperanas.
A calea deles estacionou na frente da casa, enquanto um lacaio apressava-se em abrir a porta e em ajud-los a descer. Assim que Miranda desceu e pisou no cho,
olhou para a esquerda. Um cavalo e um cavalheiro deslizaram por uma sebe e avanaram at eles. O corao de Miranda acelerou ao reconhecer a silhueta de Devin, com
seus ombros largos. Ele diminuiu o passo, ladeando o jardim da frente, e parou a alguns metros deles.
- Miranda! - Ele desceu do cavalo com agilidade, atirando as rdeas para o lacaio. - Quero dizer, srta. Upshaw.
Ele andou em direo a eles, os olhos em Miranda. A pulsao dela era to forte que latejava em seus ouvidos, fazendo com que quase no pudesse ouvir mais nada.
Ali, sob a luz do sol, com o vigor do esforo fsico, os olhos verdes acesos, era ainda mais bonito do que se lembrava. O que a fez sentir uma fraqueza nas pernas.
- Lorde Ravenscar - respondeu ela, feliz pela voz ter sado inalterada. Com certeza, sua cavalgada desenfreada para receb-los era um bom sinal.
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- Vi sua carruagem se aproximando e tentei alcan-los. - Ele parou  frente dela e olhou-a por um longo instante. Assim de perto, na clara luz do dia, podia ver
que os olhos verdes tinham uma aurola dourada em volta da pupila, como os raios de sol, e ela achou este detalhe cativante. Tirando as luvas de montaria, ele se
aproximou. Miranda conseguiu reunir foras suficientes para estender a mo. Ele pegou-a e levou-a aos lbios, dando-lhe um beijo na parte de trs da mo. - Bem-vinda
a Darkwater. Estvamos tentando imaginar quando viriam. Mame esperava que chegassem ontem. Rachel estava preocupada que no chegaria a tempo para o casamento.
- E voc?
Ele deu um sorriso encantador.
- Sabia que voc chegaria exatamente quando houvesse de chegar, nem com tanta antecedncia, nem to atrasada, j que  a responsvel pela organizao de tudo.
Miranda riu. Ele continuou a segurar sua mo por mais tempo do que o recomendado, mas ela no queria que a soltasse.
- Sua f em mim  tocante, meu senhor.
-  conhecimento, srta. Upshaw, no apenas f. - Com um aperto final na mo, ele soltou-a e virou-se para o restante do grupo. - Sra. Upshaw. Sr. Upshaw. Bem-vindos
a Darkwater. - Seus olhos foram para Vernica, que ainda estava sentada em seu cavalo. - E quem  essa adorvel senhorita?
- Sou Vernica - respondeu ela, com irreverncia. - Sou quem voc nunca v porque sou muito jovem.
- Muito bonita - corrigiu ele com um sorriso, dando um passo  frente para ajud-la a descer do cavalo. - Seus pais sem dvida esto com medo que algum a arrebate
cedo demais.
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Vernica deu uma risadinha. Miranda sabia que Ravenscar conseguira um lugar permanente na lista de favoritos de Vernica ao prestar ateno nela, como poucos adultos
o faziam. E, Miranda tinha de admitir, aquilo tambm elevara sua estima por ele. Ficara com medo de ele bancar o aristocrata arrogante perante sua famlia, como
o fizera diante dela, e estava particularmente ansiosa a respeito dos sentimentos suscetveis e sensveis de Vernica. Mas Ravenscar a tratara com o tom certo de
lisonja e cordialidade.
- Estou surpreso em v-la cavalgando em vez de estar na calea - disse a Vernica.
- Oh, eu amo cavalgar - disse Vernica, entusiasmada.
- E aqui fora  lindo demais para ficar confinada dentro de uma calea abafada.
- Voc est certa em relao a isso - concordou Ravenscar.
- Se gosta de cavalgar, vai ficar muito contente aqui. H muito espao e, mesmo sob o risco de soar arrogante... - ele lanou um olhar irnico para Miranda -, nossos
estbulos so um dos melhores do pas, garanto-lhe.
- Oh! Posso ver os cavalos? - perguntou Vernica, animada.
-  claro. Vou lev-la em um tour particular amanh.
Os cavalarios se aproximaram para cuidar dos cavalos, e o lacaio estava esperando para abrir a porta, o que fez Devin conduzir o grupo para dentro de casa. Eles
entraram e encontraram uma fila altiva de criados, todos de uniforme engomado, enfileirados no hall de entrada.
Devin inclinou-se para sussurrar no ouvido de Miranda.
- vidos para conhecer a nova madame. Esto se perguntando quo rgida como supervisora voc deve ser. No quis adiantar-lhes que voc  uma tirana.
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Miranda olhou para ele, indignada.
- Eu no sou... - Parou, ao ver o brilho nos olhos dele. - Sou muito gentil com os criados - sussurrou ela de volta, com retido. -  com os que ocupam posies
superiores que costumo ser rigorosa.
- Estou tremendo de medo. - Seu sorriso desmentia qualquer verdade em suas palavras.
Ele virou-se para o primeiro homem da fila.
- Cummings. Srta. Upshaw, deixe-me apresent-la  criadagem. Este  Cummings, nosso estimado mordomo. E a sra. Watkins, a governanta.
Ele prosseguiu pela fila de criados, apresentando cada um deles. Miranda ficou surpresa e impressionada por Devin saber os nomes de todos,  exceo dos mais novos
e recm-contratados do grupo. Miranda esperava que um homem como ele no conhecesse ningum abaixo do mordomo e da governanta, sobretudo por ter ido to pouco a
Darkwater nos ltimos anos. Comentou o fato ao se afastarem dos criados, depois de ele ter apresentado o restante da famlia.
- Quer dizer que me acha arrogante demais para saber os nomes das pessoas com as quais cresci? Voc tem uma opinio estranha a meu respeito, srta. Upshaw.
- Estou feliz em perceber que esta opinio est errada. Ele deu de ombros.
-Temo que meu relacionamento com os criados nunca tenha sido considerado uma qualidade. Papai sempre achou que fosse mais uma das manifestaes de meu carter essencialmente
baixo. Eu passei mais tempo com o chefe dos cavalarios e com o encarregado dos jogos e seus filhos na infncia do que com os filhos e filhas opressivamente maantes
da aristocracia local.
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- Isso parece razovel.
- No para papai.
A me e a irm de Devin aguardavam por eles na solene sala de visitas, um cmodo amplo e decorado no estilo branco e dourado do sculo anterior. Era uma sala elegante.
Foi preciso um segundo olhar para reparar que os pesados drapeados azuis e os estofados de veludo tambm azul de cadeiras e sofs estavam ficando rotos, assim como
o tapete persa sob seus ps estava quase completamente gasto em alguns pontos.
Os ocupantes da sala ficaram de p assim que Miranda e seus familiares adentraram. Rachel aproximou-se para cumprimentar Miranda calorosamente, e ela, assim como
o irmo, deu uma ateno especial a Vernica. Lady Ravenscar foi formal mas educada, da mesma forma como o fora todas as vezes em que Miranda esteve a seu lado,
e s deu uma ateno limitada a Elizabeth e a Vernica. Miranda no pde deixar de sentir que a mulher estava fazendo um esforo enorme para trat-los bem porque
iriam resgat-la da pobreza, mais do que por qualquer apreciao verdadeira. Duvidou que fosse sentir-se prxima de Lady Ravenscar algum dia.
Havia uma terceira pessoa na sala, um homem alto, esbelto, com cabelos loiros e olhos acinzentados, bonito de um jeito bastante sutil. Ele abriu um sorriso e deu
um passo  frente quando Devin disse:
- Srta. Upshaw, permita-me apresent-la a meu cunhado, lorde Westhampton.
- Como vai? - perguntou Miranda, intrigada. Este era o marido de Rachel, com quem mantinha um casamento formal, distante.
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-Muito bem, obrigado.  um prazer conhec-la, srta. Upshaw.
- E sorriu para ela, amavelmente. - Lady Westhampton fala muito bem de voc.
- Obrigada.
-Vocs devem estar querendo se recompor depois de sua longa viagem, talvez descansar antes da ceia - disse lady Ravenscar.
- Rachel, por que voc no mostra os quartos para os Upshaw.
-  claro.
- Eu acompanharei a srta. Upshaw - disse Devin, casualmente, para sua irm, oferecendo o brao a Miranda.
Rachel conduziu os outros para fora da sala e pela escadaria at os quartos que lhes foram designados. Devin e Miranda vieram por ltimo. Era difcil apreender todos
os detalhes da magnfica casa, ainda mais com a distrao que a presena de Devin lhe causava, estando to perto. Era difcil manter a atitude fria e casual que
queria.
No alto da escadaria, Rachel virou-se para a direita para levar Vernica e os demais para seus quartos, mas Devin foi na direo oposta.
- Seu quarto  por aqui. J que o casamento acontecer em poucos dias, no havia sentido fazer voc trocar de quarto. - Ele parou na porta de um quarto espaoso.
- Este  o aposento da condessa.
Miranda olhou para dentro, confusa.
- Voc quer dizer, o quarto de sua me?
Ele sorriu para ela de um modo que fez com que sua pulsao acelerasse.
- No, minha querida srta. Upshaw. Quero dizer que este  o quarto interligado ao meu.
Miranda pde sentir um rubor surgindo em sua face.
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- Oh. - Ela passou por Devin e entrou no quarto para disfarar sua reao.
Era um quarto grande, com duas janelas altas que davam para os jardins dos fundos. Havia uma saleta com sof e cadeira em um canto do quarto, e, mais adiante, nessa
mesma parede, uma lareira com consolo de mrmore. Entre os dois havia uma porta. O quarto era mobiliado com peas pesadas de mogno, a mais predominante de todas
era uma grande cama com dossel e cortinas verde-escuras de veludo. Uma enorme tapearia medieval desbotada pendia da parede. Era um quarto impressionante, formal,
digno de uma condessa e no qual Miranda podia bem imaginar lady Ravenscar tendo morado ali. No era do tipo que a atraa muito.
- Obviamente, imagino que voc v querer mudar algumas coisas - continuou Devin, entrando no quarto atrs dela e fechando a porta.
Miranda anuiu de leve com a cabea. Parecia estranho pensar que iria viver neste quarto daqui por diante, exceto quando viajassem para Londres ou para algum outro
lugar. Havia uma permanncia, uma gravidade nesse pensamento que quase a fez ficar sem flego. Ela lanou um olhar para Devin. Mal o conhecia, pensou. Moraria na
casa de um estranho, em uma terra estranha. Perguntou-se se todas as noivas sentiam essa pequena onda de pnico, ou se era por causa das circunstncias comerciais
de seu casamento.
Em parte para esconder essa repentina e incomum alterao nos nervos, Miranda passeou pelo quarto, olhando os armrios e as cmodas. Abriu a porta que ficava na
parede ao lado da lareira. Adiante havia um outro quarto, ainda maior do que esse, e obviamente ocupado por um homem.
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- Meus aposentos - disse Devin, aproximando-se por trs. Miranda deu um pulo, surpresa, e fechou a porta rapidamente.
-  claro.
Teria sado dali na hora, mas Devin estava parado  sua frente. Ele botou a mo na porta, bloqueando essa direo, e se inclinou mais para perto dela.
- Tenho pensado nessas duas ltimas semanas. Tive bastante tempo para isso, sabe. E parece absurdo que esse casamento seja um embuste.
- No  um embuste, meu senhor. Eu o considero algo bastante real. Ele s no ... romntico.
- Tambm no h razo para isso - respondeu ele. - Sinto-me atrado por voc. E voc no pode negar que se sente atrada por mim. Senti o desejo em voc. Ento,
por que negar o que ambos sentimos?
Aproximou o rosto. Miranda teve dificuldade de respirar... ou at mesmo de pensar de forma coerente. Seus lbios tocaram os dela suavemente, provocando um formigamento
delicioso em Miranda.
- Ns temos uma porta interligada - murmurou ele. - Parece-me que poderamos fazer uso dela.
Por um instante, suas bocas ficaram prximas. Miranda pde sentir a respirao dele em seu rosto, o calor de seu corpo. Sua pele se arrepiou. Tudo em que conseguia
pensar, tudo o que queria, era o beijo dele.
Um instante antes de seus lbios se tocarem, ela afastou-se para o lado. Seu corao estava batendo to rpido e to forte que era um milagre Devin no ouvi-lo,
pensou, e suas mos estavam trmulas.
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- Acho que no, meu senhor. Seria tolice incluir emoes em nosso acordo. Tudo funcionar perfeitamente como est.
Ela deu um sorriso mecnico e, com uma das mos para trs, fechou o trinco da porta de ligao.
- Pronto. Este quarto ser suficiente.
202
Captulo 11

Devin entrou no escritrio e fechou a porta com um estrondo retumbante. Do outro lado do cmodo, Michael, lorde Westhampton, levantou os olhos do livro que estava
lendo e encarou Devin com uma expresso ligeiramente inquisidora.
- Dia ruim?
Devin fez uma careta.
- Oh, ol, Michael. No sabia que estava aqui. Pensei que todos j estivessem deitados.
Era quase meia-noite e a casa estava escura. Devin, deitado em seu quarto, no conseguira dormir pensando na porta fechada do quarto de Miranda e sara para dar
uma volta.
- S estou lendo um pouco antes de dormir - respondeu Michael. - Desculpe-me. No tive a inteno de invadir seu escritrio. Devo sair? Ou essa expresso em seu
rosto significa que prefere ter algum para ouvi-lo?
- Preferiria mudar minha vida - disse Devin, aborrecido. Andou at o gabinete de teca que havia entre as janelas e abriu a porta. - Usque? Tenho brandy, se preferir.
- Usque est bom - respondeu Michael. - E o que exatamente mudaria em sua vida?
- O ato de viv-la. No sei. Oh, Deus. - Ele serviu dois copos de cristal fino, estendeu um para o cunhado e ento bebeu metade do outro em um nico gole. E suspirou.
- Por que estou
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fazendo isso, me casando com aquela mulher? Devia estar fora de mim quando concordei.
- Tive a impresso de que voc no tinha escolha - assinalou Michael, calmamente. - Alm do mais, bem que gostei da sua futura esposa. Ela  um tanto... diferente.
Devin fez uma cara feia.
-  uma forma de se ver.
- As teorias dela a respeito de mulheres tendo acesso a estudo com certeza serviram como um assunto estimulante no jantar.
Um sorriso se abriu no rosto de Devin ao se lembrar do olhar no rosto da me durante a ceia, quando Miranda defendeu que as mulheres deviam ser aceitas nas universidades.
- Foi um jantar mais animado que o normal - admitiu ele. - Mas, veja bem, ela est aqui desde as quatro da tarde, nem mesmo a metade de um dia, e j causou a maior
agitao. Essa mulher  uma ameaa.
- Se est to convencido disso, talvez devesse reconsiderar.
- Reconsiderar! Voc est louco? O casamento  daqui a dois dias. Alm do mais, um cavalheiro no pode voltar atrs, voc sabe disso.
Michael arqueou as sobrancelhas.
- Sim, posso imaginar como isso prejudicaria sua reputao. Devin lanou-lhe um olhar crtico.
- Oh, raios, Michael, voc sabe que no posso. Eu preciso do dinheiro. Os Aincourt nunca se deram ao luxo de se casar por amor.
- Sim, eu sei - respondeu Michael, serenamente.
-  claro que voc sabe. Digo, voc e Rachel. Vocs tiveram o mesmo tipo de casamento arranjado. Mas  diferente.
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Vocs dois so racionais, civilizados. Podem viver em harmonia. Fazer o que quiserem, levar vidas separadas.
- Sim, ns conseguimos.
- Mas Miranda! Ela  uma criatura estranha. Tem idias esquisitas em relao a certas coisas.
Michael anuiu com a cabea, esperando. Devin tomou o restante do usque e botou o copo na mesa com um estrondo.
- Raios, ela quer um casamento platnico! Michael piscou.
- O que foi que disse?
-J ouviu uma coisa dessas? Ela diz que ns no nos amamos e que, por isso, devemos seguir caminhos separados, fazer o que quisermos.
Michael hesitou e ento disse:
- Eu pensaria que uma esposa obsequiosa o atrairia.
- Obsequiosa? Eu nunca conheci ningum menos obsequiosa que Miranda. Ela acha que devemos sair por a tendo casos com outras pessoas.
- Entendo. E voc  contra?
- A condessa de Ravenscar, tendo casos com deus-sabe-quem?  claro que sou contra.
- Ento  a favor de viverem um casamento de verdade, sendo fiis e...
Devin olhou fixamente para ele.
- No caoe de mim, Michael. Voc sabe que nunca tive a inteno de ser fiel a ela, Claro que quero fazer o que desejar, ter casos... eu s... bem, no esperava
que ela quisesse isso tambm. Ela  to atrevida e descarada quanto uma mulher da vida.
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- Srio? Ela me pareceu refinada. Um pouco loquaz, mas isso  revigorante. Nem um pouco grosseira.
-  claro que no  grosseira. Por Deus, Michael, por que voc pensaria isso?
- Bem... "atrevida e descarada" como uma mulher fcil - lembrou-lhe lorde Westhampton.
- Voc sabe o que eu quis dizer. - Devin levantou-se e serviu-se de outra dose. - Ela quer reformar a casa.  nisso que est interessada. Quer colocar a propriedade
em ordem. Por isso quer se casar comigo. Perguntei-lhe onde queria passar a lua-de-mel. Em Paris? Na Itlia? Voc sabe o que ela disse? "Oh, eu no fao questo
de uma lua-de-mel, meu senhor" - disse Devin com a voz em falsete. - "Quero comear logo os trabalhos na casa. Papai e eu j agendamos um arquiteto para vir olh-la."
Agora, isso soa como algo que qualquer mulher que voc conhece diria?
- No - Michael admitiu.
- Outras mulheres exigem lua-de-mel. Elas querem bebs, roupas, festas e algo do gnero. Ela quer consertar coisas. Isso no  natural.
Devin jogou-se pensativo em sua cadeira. Defronte a ele, lorde Westhampton escondia um sorriso.
- Ela trancou a porta de ligao - disse Devin, de repente.
- O que disse?
- Entre nossos quartos. Eu no estava acreditando nela de verdade. Achei que mudaria de idia. - Devin deu de ombros e bebeu um gole, mais devagar dessa vez. - Isso
 parte da idia dela de "vidas separadas". Disse que seria a soluo perfeita. Ns no teramos de fingir estarmos apaixonados. No teramos de nos dar ao trabalho
de consumar
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o casamento. Poderamos levar vidas completamente separadas.
- E no  isso o que voc quer?
- Bem, e quanto a herdeiros? No haver nenhum, certo?
- No. E sei o quanto um herdeiro  importante para voc. Devin olhou para ele, com desconfiana.
- Voc est me gozando?
- No. Bem, s um pouquinho. Eu no entendo, Dev. Se voc no gosta da mulher, na verdade parece exatamente o contrrio, ento por que se incomoda se ela no lhe
favorece na cama? Nunca o vi demonstrar preocupao com um herdeiro antes. Contanto que ela seja discreta...
- Mas ela nem se importa! Ela no carrega um fio de cime em todo o corpo - resmungou Devin. - Agora, pergunto-lhe, isso  normal?
Michael deu de ombros.
- Algumas mulheres no tm cime.
- Sim, quando no gostam. Michael desviou o olhar.
- Quer que ela goste de voc?
- Claro que no. - Devin fez uma careta. - Oh, diabos! Eu s no quero que ela me rejeite.
- Uma questo de orgulho. Entendo.
-  muito frustrante. Ela  a mulher mais obstinada que j conheci. E no  nem bonita.
- No - concordou Michael. Devin lanou-lhe um olhar afiado.
- Voc no a acha bonita?
Michael pressionou os lbios por um instante, limpou a garganta e disse:
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- Sim, acho-a bonita. Mas no uma beldade.
- Porm, h algo nos olhos dela. Voc reparou? Eles so acinzentados e... e penetrantes. s vezes, quando olha para mim/  como se pudesse ver dentro da minha alma.
- Desconcertante.
- Sim, mas...
- Mas o qu?
- Intrigantes, tambm, voc no acha? E os cabelos tm uma bela cor.
- Sim. Meio castanhos. Muito bonitos.
- J lhe falei que a conheci quando veio em meu socorro? Michael engasgou com a bebida e comeou a tossir. Depois de alguns minutos, a tosse cessou e ele perguntou,
com a voz meio fraca:
- O que voc disse?
- Trs homens me atacaram. Ela estava em sua carruagem e viu. Ento fez com que o cocheiro parasse e foi correndo me ajudar. Bateu num dos camaradas com um guarda-chuva.
- Curioso.
- Nunca conheci uma mulher como esta.
- No, devo acreditar que no.
- O problema  que ela... me atrai. - Dev olhou para o cunhado. - O lgico seria eu ficar aliviado em no ter de dormir com a mulher com quem me casei s por dinheiro.
Mas eu... no consigo parar de pensar nela. Durante essas duas semanas aqui, fiquei pensando nela. Digo,  compreensvel. Darkwater  extremamente entediante. Mas...
bem, o que quero dizer , por que ela? E parece que quanto mais sei que no preciso t-la, mais a quero. Isso faz sentido?
- Sinto dizer, mas faz.
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- No achei que fosse durar. No achei que ela fosse persistir nessa idia.
- At trancar a porta.
- Correto.
- Sem dvida voc achou que poderia jogar seu charme e conseguir o que queria.
- Bem, sim. Quero dizer, no  como se eu fosse um ogro. As mulheres gostam de mim.
- Ento estamos falando de orgulho ferido. Devin hesitou.
- Sim... suponho que sim. Digo, no poderia ser nada alm disso.
- Tenho certeza que no. - Michael tomou rapidamente um gole para esconder um. sorriso. - Sabe, Dev, acho que este ser um casamento muito interessante.
-  uma forma de descrev-lo. Infernal seria a descrio mais apropriada.
- Eu ia voltar para casa assim que a recepo terminasse - continuou Michael, pensativo. - Mas, sabe, acho que poderia ficar um pouco mais.
Lorde Westhampton era a nica pessoa presente na sala de jantar quando Miranda adentrou na manh seguinte. Ele olhou-a e sorriu.
- Srta. Upshaw. Ento gosta de acordar cedo?
- Um hbito lamentvel - disse Miranda, com um sorriso. - Receio no conseguir me livrar dele. Bom dia, lorde Westhampton.
Ele se levantou e deu a volta na mesa para puxar-lhe a cadeira.
- H comida no aparador. E um bule de ch. Devo chamar
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um criado para lhe trazer caf? Sei que muitos americanos o adoram.
- Sim, e eu sou um deles. Seria muito gentil de sua parte chamar o criado. - Miranda levantou-se e passou ao longo do elegante aparador, analisando os vrios pratos.
- Se eu comesse assim todas as manhs, logo andaria rolando como uma bola pelo corredor.
Ela pegou uma pequena quantidade de cada um dos pratos, sem tocar apenas no fgado, do qual no conseguia gostar. Levou o prato de volta para a mesa e sentou-se
logo que o lacaio entrou com uma travessa com torradas. Ele depositou-a ao lado de Miranda e voltou para pegar o bule de caf.
- Pode estar certa de que amanh o caf estar pronto e esperando por voc - disse-lhe Michael. - Cummings comanda um servio eficiente. Tenho certeza de que doeu
muito nele todos esses anos no ser capaz de dotar esta casa com uma equipe apropriada.
- Sim. Devo falar com ele depois. H tantas coisas a fazer... reparos na casa, nos jardins, na propriedade. - Miranda sorriu, parecendo no estar de forma alguma
intimidada com a tarefa que a aguardava.
- Ravenscar me disse que voc est muito interessada em recuperar a propriedade.
- Oh, sim. Papai tambm est, provavelmente mais do que eu.
- Se eu puder ser de qualquer ajuda a vocs, fique  vontade para pedir. Tive de fazer alguns reparos na minha casa no decorrer dos anos.
- Que gentil de sua parte. Mas, devo preveni-lo, se disser isso ao papai, ele alugar seu ouvido por horas.
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- Eu no me importaria.  raro conseguir achar qualquer pessoa interessada no assunto.
Eles conversaram por alguns minutos sobre os problemas de casas muito antigas. O lacaio reapareceu com um bule de caf para Miranda, e, depois que ele saiu, houve
um breve silncio.
Ento Michael disse:
- Sabe, srta. Upshaw... lorde Ravenscar , bem, ele no  exatamente o que parece ser.
- Mesmo? - Miranda olhou para o homem com candura.
- No, ele... bem, ele  uma pessoa muito melhor do que a maioria das pessoas pensa. Gosto muito dele e odiaria pensar que ele pudesse ser magoado.
Miranda olhou-o diretamente.
- Sabe, lorde Westhampton, qualquer pessoa que observasse nosso casamento, vendo ns dois, no se preocuparia com lorde Ravenscar sendo magoado.
- Sim, voc est certa, claro. Devin no , de forma alguma, ingnuo ou inocente. Mas tambm no  um patife. Ele tem um corao, o qual tenta ao mximo manter escondido,
e pode ser ferido. Por outro lado, com a mulher certa, ele poderia ser muito feliz.
- Bem, isso  bom, no ? Algumas pessoas, pelo que sei, no conseguem ser felizes, no importando as circunstncias. - Miranda apoiou o garfo no prato. - No tenho
certeza de onde quer chegar, lorde Westhampton. Se acha que no sou a mulher certa para lorde Ravenscar, ento sinto muito por se sentir assim, porque no  algo
que seja exatamente de sua conta. Por outro lado, se est tentando se certificar de que sou a mulher certa para ele, s posso dizer que no sei. Aprendi
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na vida que devemos esperar e ver o que acontece. No estou acostumada a virar as costas para algo s porque h riscos envolvidos. Suponho que haja uma terceira
coisa que est tentando dizer. Que devo mudar se espero fazer Devin feliz.  improvvel que isso acontea. Ele  o que , eu sou o que sou. Respondi a seus receios,
meu senhor? Michael sorriu.
- Sim, srta. Upshaw. Diria que respondeu a meus receios mais do que o suficiente. Sempre achei que seria preciso uma mulher muito especial para combinar com Devin.
Acho que talvez ele a tenha encontrado.
Miranda retribuiu o sorriso.
- Gostaria de pensar que sim.
Depois disso, passaram a falar de outras coisas. Miranda descobriu que lorde Westhampton era um homem muito inteligente e culto, com amplos conhecimentos em uma
grande variedade de assuntos. Ele possua uma inteligncia mor-daz e irnica, por vezes to sutil que ela demorava alguns instantes para perceber com exatido que
havia redirecionado um assunto.
Ele estava no meio de uma descrio de como havia atacado o cupim que comera a maior parte dos corrimes e balaustradas de sua casa quando olhou para cima e parou
de falar de repente. Algo se passou em seu rosto, muito rapidamente para que Miranda pudesse dizer o que era.
- Minha querida - disse ele, e ficou de p, os trejeitos um pouco duros e formais. - Bom dia. No quer se juntar a ns?
Miranda virou e viu Rachel parada na porta. Ela estava, pensou Miranda, especialmente bonita aquela manh. Usava um vestido simples, verde, que ressaltava a cor
de seus olhos,
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e havia um toque de rosa em sua face. Miranda no sabia ao certo se era o ar do campo que fazia bem a ela, se o motivo de sua boa aparncia era a felicidade por
causa do casamento do irmo, ou se haveria alguma outra razo.
- Ol - respondeu Rachel, o tom de voz igualmente formal. - Espero no estar atrapalhando vocs.
- No,  claro que no. Lorde Westhampton e eu estvamos apenas trocando idias sobre recuperao de casas antigas. Eu estava achando a conversa muito interessante,
mas ele, tenho certeza, adoraria ser resgatado - disse Miranda, com um tom alegre.
- Tenho certeza de que isso no  verdade. - Rachel sorriu para Miranda e ento olhou para o marido.
- Oh, no - protestou lorde Westhampton, e o sorriso que dera de forma relaxada e amigvel h alguns momentos agora parecia forado. - Lady Westhampton pode confirmar
que gosto muito de vrias coisas que outras pessoas consideram entediantes. Foi muito gentil de sua parte deixar-me tagarelar.
Parecia estranho, pensou Miranda, que duas pessoas to agradveis estivessem casadas - por vrios anos, pelo que entendeu - e ainda ficassem to pouco  vontade
uma diante da outra. Ela ficou se perguntando se Rachel contara a histria toda quando descrevera a condio distanciada de seu casamento.
Michael deu a volta para puxar a cadeira de Rachel e ento disse:
- Bem, devo deixar as damas a ss, para conversarem. Bom dia, srta. Upshaw. Rachel. - Ele fez uma pequena reverncia e saiu porta afora.
- Seu marido  muito simptico - disse Miranda. - Gostei de conversar com ele.
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Rachel sorriu timidamente para ela.
- Sim. Ele . Sempre se pode contar com Michael. - Ela se levantou de novo e foi servir-se, dizendo: - Voc dormiu bem a noite passada?
- Sim, obrigada. - Miranda respeitou a mudana de assunto.
- Gostaria de repassar os preparativos para o casamento? - perguntou Rachel. - Ou ns poderamos ir at a igreja, se voc quisesse v-la.
Nenhuma das sugestes em particular atraiu Miranda.
- Estou certa de que o que voc e sua me decidiram estar timo. - Rachel olhou para ela de um modo estranho, e Miranda continuou: - No que eu no esteja interessada.
 claro que adoraria repassar os preparativos. Talvez mais tarde. Acho que Devin planeja mostrar a casa para mim e papai esta manh.
- Esta manh? - Rachel pareceu surpresa.
- Sim. Creio que sim.
- Ora, ora. Voc j produziu efeitos positivos nele. Miranda riu.
- Na verdade, acho que  tdio. Ele me disse que decidiu seguir os horrios do campo porque no havia muita coisa a fazer.
- Bem, eu no o vi acordado e circulando antes do meio-dia desde que chegamos aqui.
Miranda considerou secretamente que era possvel que ele no aparecesse. Mas antes de Rachel terminar o caf-da-manh, Devin adentrou o cmodo. Os olhos dele pareciam
um pouco vidrados, era verdade, e ele disse com um tom de voz surpreso:
- Esse  o horrio que voc costuma acordar? - Mas ele estava l quando disse que estaria.
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- Na verdade, eu j estaria trabalhando a essa hora - respondeu Miranda, com uma risada. - Estou conversando com lorde e lady Westhampton h quase uma hora.
- Bom Deus! - Ele parecia espantado com a idia e foi servir-se de uma xcara de ch.
Depois do caf-da-manh e de duas ou trs xcaras de ch, Devin mostrava-se mais alerta e saram  procura do pai de Miranda. Rachel livrara-se da expedio de explorao
da antiga casa.
Miranda optou por conhecer o gerente da propriedade antes de comearem o tour. Por isso, a primeira parada foi no escritrio dele, que ficava do outro lado do jardim
lateral em frente  pequena casa de pedra na qual ele vivia.
- Lorde Ravenscar! - disse ele, parecendo surpreso, quando Devin bateu  porta e entrou.
- Ol, Strong. - Devin passou os olhos pelo escritrio.
- Se o senhor houvesse enviado um bilhete, eu teria ficado feliz em visit-lo na casa principal, meu senhor - continuou o gerente da propriedade nervosamente, apressando-se
e tirando arquivos de uma cadeira e arrastando outra mais para perto. Ele era um homem baixo, atarracado, calvo na parte de trs da cabea, de tal forma que parecia
que estava usando a tonsura de um monge.
- Srta. Upshaw desejou conhecer seu escritrio - explicou Devin. - Srta. Upshaw, este  o sr. Strong, o gerente da propriedade. Strong, esta  a futura lady Ravenscar,
srta. Upshaw.
- Como vai, senhorita?  um prazer conhec-la. - Strong disfarou rapidamente sua primeira expresso de surpresa e sorriu para ela, batendo o leno para tirar a
poeira do assento da cadeira com encosto.
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- Obrigada. - Miranda aproximou-se e cumprimentou-o com um aperto de mos. - E este  meu pai, Joseph Upshaw. - Ela se sentou na cadeira enquanto o pai apertava
a mo do homem.
Strong voltou para trs da mesa, lanando um olhar para Devin. Miranda suspeitou que ele no estivesse acostumado a lidar com condessas que cumprimentavam gerentes
de propriedades com apertos de mo.
- Parabns pelo casamento, meu senhor - disse ele. - Desejo que seja feliz, madame.
- Obrigada. Estou certa de que serei - disse Miranda, secamente. - Gostaria de falar com voc sobre a propriedade ainda esta tarde, depois que terminarmos o tour
pela casa. S para ter uma idia geral de quais so as reas problemticas e o que ser preciso fazer para que volte a ser rentvel. Depois do casamento, devo me
aprofundar mais no assunto,  claro.
Strong olhou para ela, confuso. Ele piscou. Por fim, disse:
- A senhorita quer... quer falar comigo, srta. Upshaw?
- Sim. - Miranda ficou se perguntando se o homem era um pouco limitado. Se fosse, no era de se estranhar que a propriedade tivesse decado nos ltimos anos. - Sobre
a situao das posses de lorde Ravenscar.
- Mas... mas... - gaguejou ele, olhando na direo de Devin em busca de ajuda.
- Eles vo consertar o lugar - explicou Devin. - Ningum lhe falou isso?
- Bem, sim, seu tio me escreveu. Quero dizer, eu entendi que haveria, humm... - Seus olhos se viraram para Miranda, e ele fez uma pausa, indeciso.
- Uma injeo de capital? - perguntou Miranda, educadamente.
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- Sim, haver. Mas primeiro temos de ver o que precisa ser feito, no temos?
- Eu... Eu... mas certamente sr. Dalrymple  a pessoa com quem tem de falar sobre isso. Digo, sendo ele o administrador e tudo mais,  quem cuidar do dinheiro.
Ele chegar esta tarde, certo?
Miranda lanou um olhar para Devin, que disse:
- Sim, ele chegar esta tarde. Mas, Strong, a verdade  que tio Rupert no ser mais a pessoa com quem voc vai lidar. Daqui por diante, ser a srta. Upshaw. Ou,
melhor, lady Ravenscar, num futuro prximo.
O gerente da propriedade ficou de queixo cado e encarou Miranda como se nela tivesse crescido de repente uma segunda cabea.
- Devemos comear devagar - assegurou Miranda ao homem, pensando que talvez tivesse de trazer Hiram Baldwin para ajudar Strong, pelo menos por um tempo. O homem
parecia que ia desmaiar. - Esta tarde s quero repassar algumas coisas genricas. No precisarei olhar nmeros ainda. Mas no sei nada sobre a propriedade. Que tipo
de terra , como est sendo utilizada, se est sendo aproveitada da melhor forma. Mais tarde poderemos entrar em detalhes. A ento precisarei de mapas e de registros
dos ltimos anos.  possvel que precisemos rever alguns anos mais para trs. E,  claro, vou querer andar pela propriedade e ver tudo em primeira mo.
- A propriedade inteira? - arregalou os olhos.
- Bem, no de uma s vez, claro - disse Miranda com o que esperava ter sido um tom de voz tranqilo. - Primeiramente, vamos olhar a casa e os jardins. Devin ir
mostr-los para ns agora.
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- Lorde Ravenscar? - Strong parecia to incrdulo quanto estivera ao ouvir que Miranda pretendia tocar a propriedade.
Miranda encobriu um sorriso quando Devin disse:
- Eu me lembro onde esto todas as coisas, sabe?
- Oh,  claro, meu senhor, eu no quis dizer... - Strong comeou a esfregar as mos ansiosamente. - Estou certo de que far um excelente trabalho.
Os trs se levantaram e saram do escritrio. Miranda suspeitou que, assim que a porta se fechou atrs deles, o sr. Strong correu para servir-se de uma bebida forte.
Virou-se para Devin, pensativa, e disse:
- O sr. Strong  um pouco lento? Ele parecia ter dificuldade em entender o que eu queria.
Devin abafou um riso.
- Creio que voc  um pouco... digamos assim, intimidadora... para o homem comum, Miranda. Ele no est acostumado a uma condessa entrando e dizendo que gostaria
de ver os livros contbeis. Tenho certeza de que ele ficar bem assim que se acostumar com voc. D a ele algum tempo para se recuperar do choque. Talvez ele fique
melhor aps falar com tio Rupert.
Primeiro, visitaram os arredores da casa. Exploraram os jardins negligenciados e examinaram o exterior da manso. Devin apontou para onde ficava o jardim de ervas
na lateral da cozinha, assim como para os jardins elegantes e formais no terrao atrs da casa. Flores ainda cresciam ali, as rosas dispostas em um emaranhado selvagem,
as vinhas da vereda alastravam-se e esparramavam-se pela entrada. Havia um qu de beleza descuidada e rstica nas flores do jardim, mas as cercas vivas no podadas
na parte baixa do terrao pareciam
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uma mata de arbustos selvagens, e os caminhos de cascalho eram lamacentos e esburacados.
- Somente o sr. Pettigrew e seu neto cuidam disso h alguns anos. No h como darem conta de tudo. J vi at o Cummings cuidando das rosas uma vez ou outra, tentando
retirar as ervas daninhas de modo que ainda pudesse colher rosas para os vasos - disse Devin. - Quando eu era garoto, lembro-me de que havia um labirinto ali naquele
lado do terrao. - Apontou na direo da rea que estava com grama alta agora. - Tinha de ser podado com cuidado e, no decorrer da ltima gerao, acabou completamente
encoberto. Ele tinha medo de que uma das crianas acabasse entrando ali e ficasse presa para sempre.
- Li que o paisagismo foi feito por Capability Brown - disse Joseph. -  verdade?
-  o que dizem. Os olmos e as faias que se alternam ao se aproximar do caminho foram plantados por ele. E ali... - Apontou na outra direo, depois do labirinto,
onde rvores invadiam os jardins. -... aquele j foi um pomar primoroso, pelo menos foi o que meu pai me disse. rvores frutferas ordenadas em fileiras, plantadas
pelo av dele.  lindo na primavera, um tapete espesso de flores brancas e rosas.
- Chamei um paisagista para vir aqui na semana que vem - disse Joseph, com satisfao. - Logo botaremos tudo em ordem. Voc no possui mais os projetos originais,
possui?
Devin deu de ombros.
- No sei. Suponho que devam estar na biblioteca ou em meu escritrio. Vou procur-los. - Virou-se e olhou para a casa, protegendo os olhos do sol com a mo na testa.
- A fachada est em bom estado, apenas algumas lascas e fendas aqui e
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ali, alguns entalhes de pedra que caram. O telhado precisa de muitos reparos, com certeza. A ala oeste est totalmente fechada por causa dos danos causados pela
gua. A maioria das chamins no funciona como deveria. H cupim na maior parte dos balastres e corrimos. Podre e ressequido. Podre e mido. H alguns pisos na
ala oeste que nem sei se so seguros. Olhou de Joseph para Miranda e de volta ao pai.
- Ainda interessado em restaurar o mausolu?
- Voc deve estar brincando. O apetite de papai s aumentou - disse Miranda, com uma risada. - Continue.
Entraram e andaram pela casa, para dar o que Miranda classificou como uma olhada rpida. O grande salo original do meio da ala fora transformado na entrada da casa,
cujo detalhe central era uma escadaria elegante que subia at o patamar, curvando-se dali em ambas as direes at o segundo andar. Os degraus eram de mrmore, assim
como o cho da entrada; os balastres, feitos de carvalho ingls. Miranda j havia reparado, ao descer pela manh, que o corrimo estava cheio de pequenos buracos,
indicando a presena de cupim.
- Pelo menos no h besouros-da-figueira aqui - disse Devin, quando comearam a passar ao lado da escada. - Ou pelo menos no temos ouvido o barulho deles. - O besouro
maior, que era ainda mais destrutivo do que o cupim, era conhecido pelo som de sapateado que fazia por dentro da madeira.
- Isso  bom.
- Aquelas so peas maravilhosas. - Devin apontou para a enorme tapearia desbotada que decorava a parede do salo, junto a enormes retratos pintados de ancestrais,
a maioria escurecida pelo tempo. - Mame tirou os melhores dos outros cmodos e trouxe-os para c, onde poderiam ser vistos primeiro.
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Em seguida, levou-os at as amplas cozinhas e aos corredores de pequenas despensas e alojamento dos empregados. Depois seguiu com eles para o salo de baile principal,
uma grande rea de piso de mrmore que ocupava a maior parte da asa central do trreo. Ento, subiram as escadas e comearam do alto, abrindo as janelas do sto
para olhar por sobre as telhas de ardsia do telhado, muitas das quais quebradas ou deslocadas. Observaram tambm o dano causado pela gua. Desceram, percorrendo
corredores, examinando todos os cmodos, de modo que quando chegaram ao segundo andar, onde ficavam os quartos principais, j havia passado da hora do almoo. Estavam
todos famintos, alm de empoeirados.
Entretanto, Joseph e Miranda queriam concluir o tour. Desta forma, Devin guiou-os pelo corredor, mostrando o que costumava chamar de sala matinal, toda forrada em
couro vinho-escuro cordovo com tachas de lato, agora desbotado e quebradio. A seguir, veio a sala de msica, e, do outro lado do corredor, havia o que ele intitulava
de pequeno salo de baile - um cmodo mais ou menos da metade do tamanho do salo de baile principal abaixo. Mais adiante ficava a biblioteca, um cmodo amplo e
lgubre.
Devin foi at as janelas e puxou para o lado as pesadas cortinas, revelando um conjunto de janelas altas que davam para o sul, permitindo a entrada de uma agradvel
claridade que revelou um cmodo com dois andares de altura, repleto de livros.
- Oh, meu Deus... - suspirou Miranda. - Que ambiente maravilhoso! - Duas mesas e algumas cadeiras estofadas estavam dispostas no meio do cmodo, assim como um grande
globo terrestre em um suporte. Outro suporte exibia uma Bblia enorme e muito antiga. Estantes embutidas de dois metros
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e meio de altura estendiam-se por toda a biblioteca. As fileiras duplas de janelas ocupavam um grande espao da parede lateral. Acima das estantes, em duas das outras
paredes, havia mais tapearias e retratos pintados. Na quarta parede, uma passarela de madeira com mais ou menos um metro de largura, a que se podia chegar por uma
escada de madeira. Essa parede tambm estava repleta de estantes.
Miranda percorreu todo o cmodo, admirando tudo, pensando em como decoraria o ambiente e o tornaria bonito e confortvel. Esse, sabia, seria um cmodo no qual passaria
bastante tempo.
- Adorei este lugar.
Ela subiu a escada de madeira at o mezanino da biblioteca, observando que o balastre tambm tinha os pequenos buracos que indicavam presena de cupim. Quando chegou
ao andar de cima, comeou a andar e a admirar os livros.
- Olhem! - gritou ela. - Aqui esto livros que falam sobre a casa. No consigo ler todos os ttulos. Ser que h um mapa dos jardins em algum deles? - Deu um passo
atrs para ter uma viso melhor das prateleiras mais altas. - Vou precisar de um banco.
Ficou na ponta dos ps, esticando-se para ver melhor. Ar-queou-se para trs a fim de se equilibrar segurando o corrimo. A balaustrada cedeu sob sua mo e Miranda,
perdendo o equilbrio, viu-se caindo irremediavelmente para trs, no vazio.
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Captulo 12

Miranda gritou, contorcendo-se e tentando segurar-se em algo enquanto caa. Com uma das mos, conseguiu segurar um dos corrimos estreitos, agarrando-se nele com
toda sua fora. Miranda pde ouvir o pai gritando seu nome e o som de passos rpidos, abaixo de onde ela estava. Sentia como se o brao estivesse prestes a ser arrancado
do ombro. Aos poucos os dedos escorregavam do corrimo. Tentava agarrar desesperadamente com a outra mo para se suspender, mas no encontrou nada alm de cho liso
de madeira. Foi ento que o corrimo partiu-se, fazendo-a despencar em direo ao solo.
Contudo, os segundos que passara pendurada no corrimo foram suficientes para que Devin conseguisse chegar abaixo dela e ampar-la quando caiu. Assim, em vez de
chocar-se com a madeira slida, bateu de encontro ao peito de Devin, o que o fez perder o equilbrio em conseqncia da fora da coliso. Ambos caram, um sobre
o outro, no cho. Por um instante ficaram ali deitados, perplexos. Os braos de Devin estavam fechados em torno de Miranda, to apertados que ela mal conseguia respirar.
E, no instante seguinte, percebeu que estava agarrada a ele de forma igualmente forte. Fechou os olhos e um tremor percorreu seu corpo. Por um momento, achou que
tinha morrido.
- Miranda! Voc est bem? Meu Deus, pensei que estivesse morta! - O pai, que correra para a escada para alcan-la, agora corria para onde os dois estavam deitados.
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- Eu... Eu estou bem - disse Miranda, com a voz abafada pela camisa de Devin.
Joseph abaixou-se e pegou-a pelo brao, ajudando-a a levantar-se, e Devin soltou-a. Miranda ficou de p, ajeitando o vestido com as mos. Queria debulhar-se em lgrimas,
percebeu, jogar-se nos braos de Devin e entregar-se a um choro convulsivo. Mas no era de seu feitio. Alm do mais, disse a si mesma, Devin acabara de salv-la;
no deveria retribuir transformando-se em uma mulher chorona, dependente.
Segurou as mos para disfarar o tremor e virou-se para Devin. Tentou sorrir para ele, mas no conseguiu.
- Obrigada. Voc salvou minha vida.
- No h de qu. Eu... Quase morri de susto.
- Eu tambm - confessou Miranda, agora mostrando um sorriso. - Deveria ter sido mais cuidadosa. Sei que o lugar est infestado de cupim.
Devin anuiu com a cabea e lanou um olhar para a parte vazia de onde havia cado o corrimo.
- No sabia que estava to ruim assim.
Olhou para o mezanino por um bom tempo e depois franziu o cenho.
- Creio que um descanso seria o melhor para voc, minha querida - disse Joseph, colocando o brao nos ombros da filha. - Venha comigo, eu a levarei a seu quarto.
- Mas eu deveria me encontrar com o sr. Strong depois - comeou a protestar Miranda.
- No se preocupe com Strong. Ele provavelmente vai gostar da oportunidade de se recuperar do choque que foi conhec-la - disse-lhe Devin, com um sorriso. - Vou
mandar um bilhete para ele dizendo que o ver mais tarde. Este lugar
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est entregue s traas por anos. No far diferena se voc levar um ou dois dias a mais para coloc-lo em ordem.
As pernas de Miranda comearam a tremer em conseqncia do susto. Ela teve medo de que um tremor se iniciasse pelo corpo todo se continuasse ali por mais tempo.
Por isso concordou com um gesto de cabea e deixou o pai gui-la para fora do cmodo.
Devin ficou onde estava por um instante, olhando para o vo da porta. Seu corao ainda estava batendo descontroladamente. Jamais iria esquecer a viso de Miranda
despencando do mezanino. Por um momento, parecia que o mundo havia parado.
Virou-se e subiu a escada, andando pelo mezanino at chegar no espao vazio por onde Miranda cara. Olhou para baixo, pela fenda na madeira, primeiro de um lado,
depois do outro. Os lados tinham o mesmo tamanho - cuidadosamente serrados quase por completo, apenas o final partido e serrilhado. Algum preparara uma armadilha,
e Miranda cara nela.
Miranda recusou-se a adiar o casamento por conta da queda. Naquela tarde, depois que algumas horas de sono acalmaram-lhe os nervos, sentiu-se um pouco constrangida
por causa da preocupao de todos, porm assegurou-lhes de que estava bem.
- Quem se machucou foi meu orgulho - disse ela, com um sorriso. - No h razo para no continuarmos com o casamento como planejamos. O pior que aconteceu comigo
foi uma pequena luxao no pulso.
Assim, na tarde seguinte, Devin e Miranda se casaram na igreja da vila. A cerimnia foi simples e breve, como Miranda
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solicitara, mas o ar da igreja estava tomado pelo aroma das diversas rosas brancas de cada lado do altar; a velha igreja estava aconchegante e banhada pela luz dourada
do sol de fim de tarde. Aquele foi um belo momento para Miranda, doce e profundo. As palavras que o vigrio pronunciou ressoaram dentro dela. Era isso o que queria.
Era assim que devia ser.
A mo de Devin estava quente e firme segurando a sua. Miranda olhou para ele. Tinha uma expresso neutra, o que a fez perguntar-se em que estaria pensando, se estava
feliz ou triste, ou assustado com a perspectiva de perder a liberdade. Imaginou se estaria pensando em Leona e desejando que fosse ela, em vez de Miranda, ali ao
lado. Resoluta, Miranda jurou para si mesma que um dia apagaria a imagem de Leona da mente de Devin.
Voltaram para Darkwater em uma carruagem aberta e, por todo o caminho, as pessoas da vila viravam-se para acenar, sorrir e gritar seus votos de felicidades e parabns.
Haveria naquela noite uma grande festa para todos no ptio lateral em Darkwater, enquanto os amigos dos Aincourt e toda a famlia se reuniriam para celebrar o casamento
no pequeno salo de baile.
Ela olhou para Devin, que olhou de volta e piscou.
- Tudo isso  um pouco medieval, voc no acha? Miranda riu.
- Voc leu meus pensamentos. Mas tenho certeza de que papai est se deleitando com isso.
- Satisfazer seu pai deve ser algo muito importante para voc.
- Eu o amo. Mas no faria absolutamente nada s para satisfaz-lo.
- Ainda assim se casou para agrad-lo.
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- Eu me casei para agradar-me. - As palavras escaparam antes mesmo que Miranda refletisse sobre elas.
- De fato? - Devin semicerrou os olhos. - Ento espero ser capaz de fazer isso acontecer.
- Fazer o que eu quero me agrada - explicou Miranda. - Percebi que a vida  muito mais fcil para uma mulher casada do que para uma solteira, mesmo tendo um pai
de idias avanadas como o meu. Uma mulher casada pode ir aonde quiser, sem precisar de ningum para acompanh-la, e ningum acha isso errado. No h restries
tolas a respeito do uso de branco, tons pastel e cores fortes. O mundo no reage com horror se ela est sozinha com um homem. E,  claro, h aqueles outros motivos
sobre os quais lhe falei no dia em que ficamos noivos.
- Eu me lembro. - Devin observou-a por um momento. - Voc  uma mulher estranha. A maioria das mulheres, quando cita o casamento, fala de amor.
- Muitas mulheres sentem a necessidade de tirar o mximo proveito de uma situao ruim - respondeu Miranda, secamente.
Devin surpreendeu-se rindo.
- Minha cara lady Ravenscar, voc  irremediavelmente impudente.
-  muito estranho ser chamada assim - disse Miranda, suavemente.
-  melhor se acostumar.
- Acho que sim.
Devin analisou a expresso pensativa de Miranda.
- J est arrependida?
- No. - Ela olhou-o e sorriu. - S estou pensando. Imagino como sero nossas vidas.
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- Fora do comum, diria.
- Voc deve estar certo.
Ao chegarem na casa, subiram para o pequeno salo de baile, onde um farto repasto fora servido em comemorao ao casamento. Familiares e amigos estavam l, incluindo
todas as pessoas da localidade consideradas de nvel social suficiente para comparecer ao casamento campestre do conde de Ravenscar. Miranda fora levada a crer que
um casamento na cidade, ou uma cerimnia planejada com meses de antecedncia, teria sido algo muito diferente. Convites teriam sido disputados, e muitos dos nobres
inferiores que estariam l hoje no fariam parte da elite. Miranda teve dificuldade em entender o certo e o errado de quem poderia ou no ser convidado, as regras
parecendo uma salada de consideraes sobre dinheiro, tradio familiar, proximidade e ligaes sociais. Miranda concordou quando lady Ravenscar tentou explicar-lhe
tudo isso e disse-lhe que poderia deixar tudo por conta dela.
Miranda e Devin fizeram a fila de cumprimentos na entrada da do salo de baile, ao lado da me de Devin, de tio Rupert, de Rachel e seu marido, alinhados em uma
ordem esotrica que todos pareciam compreender sem questionar. A famlia de Miranda ocupava o final da fila, obviamente. Miranda estava espremida entre Devin e a
me, um detalhe pelo qual estava grata, pois eliminava a necessidade de conversar com ele. Devin a apresentava a todos que compareciam - ou, quando no se lembrava
quem era, o que acontecia algumas vezes, sua me vinha sutilmente em seu socorro e apresentava-lhe o convidado.
Miranda estava dizendo algumas palavras ao mdico quando sentiu Devin retesar-se a seu lado. Quase ao mesmo tempo,
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do outro lado, o brao de lady Ravenscar moveu-se em um espasmo. Curiosa, Miranda olhou para os recm-chegados. Uma senhora estava em p ali, sorrindo para Devin,
e atrs dela havia a mulher com quem vira Devin na pera. A amante de Devin comparecera  recepo do casamento.
- Sra. Vesey - disse Devin, com uma voz tensa, inclinando-se ligeiramente para apertar a mo da senhora. - Que prazer rev-la. J faz algum tempo.
-  mesmo. No tenho sado muito ultimamente. Fiquei to feliz quando lady Vesey se ofereceu para me acompanhar. Voc conhece lady Vesey, no conhece? A esposa de
meu sobrinho?
- Sim. Conheo lady Vesey. - A voz de Devin era fria e controlada, mas Miranda pde sentir a intensa emoo que irradiava de seu corpo. Gostaria de poder saber exatamente
o que ele estava sentindo.
No tinha dvidas sobre o que a me dele estava sentindo. Lady Ravenscar estava to tensa quanto uma corda de violino. Miranda suspeitou de que ela teria gostado
de poder pular no pescoo de Leona e dar-lhe um tapa.
Leona, por sua vez, parecia rejubilar-se. Estava lindamente arrumada, com um vestido convencional de seda verde-claro, nada parecido com o vestido decotado que usara
na pera. Entretanto, caa-lhe to bem, favorecendo a cor dos olhos e dos cabelos, que chamava tanta ateno quanto o vestido de gala. Estava estonteante - cabelos,
olhos, pele -, e sua beleza era to deslumbrante de perto quanto o era a distncia. Miranda no pde deixar de sentir um frisson de incerteza ao olhar para o rosto
perfeitamente modelado dela. Como poderia querer competir com essa mulher pela afeio de Devin?
- Ravenscar e eu somos velhos amigos - disse Leona,
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no somos, meu senhor? Espero que no se incomode por eu ter me convidado para a comemorao. A tia de Vesey precisava de um acompanhante. Se no fosse por isso,
eu jamais teria imposto minha presena.
-  claro que no - disse a me de Devin, friamente. - Uma dama jamais faria uma coisa dessas. Ol, lady Vesey.
O olhar de Leona passou para lady Ravenscar, e, ao faz-lo, parou em Miranda. Seus olhos se arregalaram um pouco, e Miranda pensou ver a mulher retesar-se antes
de sorrir para ela. Miranda sentiu um rasgo maravilhoso de prazer ao pensar que sua aparncia havia desconcertado a mulher. Obviamente, lady Vesey esperara um tipo
diferente de mulher.
- Permita-me apresent-la  esposa de Devin - continuou lady Ravenscar. - Miranda, esta  lady Vesey. A propriedade de seu marido no fica muito longe daqui. Ns
os vemos muito pouco, no entanto. - Fez uma pausa antes de acrescentar. - Eles esto quase sempre em Londres.
Miranda ignorou seu instante de incerteza e estendeu a mo para a mulher.
-  um prazer conhec-la, lady Vesey. Estou adorando conhecer os amigos de lady Ravenscar. Se soubssemos que estava por aqui, teramos lhe enviado um convite.
Leona ofendeu-se um pouco  sugesto de que possua idade prxima  da me de Devin, mas no havia como refutar essa afirmao. Ento sorriu, atribuindo a observao
ao modo simplrio de Miranda, com certeza.
- Obrigada. Voc est to bem, minha querida. Lady Ravenscar deve ter gostado de abastecer-lhe com roupas.
Miranda sorriu entre dentes.
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- Voc faz uma imagem interessante de mim antes de conhecer lady Ravenscar.
- Sinto no ter tido tempo para acompanhar Miranda em suas expedies s compras - disse a me de Devin, continuando o duelo com Leona. - Felizmente, ela tem um
gosto maravilhoso para roupas e uma compreenso do que  e do que no  apropriado.
Miranda gostou de ver o leve rubor surgir na face de Leona. Lady Ravenscar dera um golpe certeiro com sua ltima afirmao. Demonstrando enorme ingenuidade, Miranda
continuou:
- Voc deve vir nos visitar, lady Vesey. Adoraria falar com voc de novo. Tenho certeza de que vou precisar de todos os conselhos possveis de damas como voc, que
esto casadas h alguns anos.
A mesma expresso instvel estampou o rosto de Leona, uma mistura de insulto e incerteza se Miranda sabia que a estava insultando ou se era simplesmente muito ignorante
para perceber o que dissera.
- Sim. Adoraria visit-los.
- No seria timo? - disse a velha sra. Vesey, e Miranda sorriu para ela com uma amabilidade sincera.
- Deve vir tambm, sra. Vesey.
-  claro, minha querida. Desejo que seja muito feliz, lady Ravenscar.
Leona acrescentou:
- Sim,  claro. Muito feliz. - Ela hesitou.
Miranda suspeitou de que Leona havia comeado a dizer seu nome como a tia dissera, mas as palavras ficaram presas na garganta. Imaginou que Leona viera porque queria
causar um rebolio, assim como dar uma olhada na noiva e lembrar
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a Devin quem ele realmente amava. Mas deduziu que lady Vesey no havia considerado a possibilidade de ter de cumprimentar e parabenizar a esposa de seu amante.
- Muito obrigada, lady Vesey - respondeu Miranda, tornando tudo mais difcil para ela.
- Lady Ravenscar. - As palavras saram rascantes de sua garganta, e ento Leona virou-se e seguiu a tia do marido ao longo da fila.
Tio Rupert falou pouco com Leona, dando-lhe apenas um olhar de espanto, enquanto Rachel dispensou  mulher um olhar glido. Lorde Westhampton foi protocolarmente
correto. Para diverso de Miranda, entretanto, seu pai cumprimentou lady Vesey com a mesma alegria incontida que demonstrara a noite toda. Conversou com a tia e
apertou a mo de Leona enquanto se dirigia a ela, falando do seu jeito amvel sobre sua filha, Ravenscar e Darkwater.
Devin lanou um olhar de soslaio para Miranda, analisando sua reao. Inclinou-se para chegar mais perto dela e sussurrou:
- Sinto muito. No tinha a menor idia...
- No. Tenho certeza de que voc no sabia. - Miranda respondeu placidamente e sorriu para ele, despreocupada. No tinha a menor inteno de dar vazo a seus cimes,
muito menos na frente de Devin.
No havia mais muitos convidados para cumprimentar depois disso. Quando a fila se desfez, Devin pegou Miranda pela mo e guiou-a at o salo. Todos os olhares voltaram-se
para eles, em expectativa, e os convidados chegaram para trs para abrir-lhes espao. Devin fez um gesto com a cabea para os msicos que estavam no fundo do salo,
quando ento comearam a tocar uma valsa. Ele virou-se para Miranda e ofereceu-lhe
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a mo, que ela aceitou, indo para os braos dele ao comearem os passos da dana.
Ela sentiu-se um pouco ostentosa, rodando pelo salo, s eles dois, mas aquela tambm era uma sensao maravilhosa, estar nos braos de Devin, sentindo a mo dele
em suas costas, acompanhando-o com tanta naturalidade quanto o ato de respirar. Pensou, com maliciosa onda de prazer, em Leona tendo de assistir  dana. Leona,
esperava, obteve algo diferente do que aguardara quando decidiu invadir a recepo do casamento naquela noite.
Enquanto todos observavam os recm-casados bailando graciosamente pelo salo, lady Ravenscar virou-se para a filha, puxou-a de lado e murmurou:
- Voc tinha alguma idia de que essa mulher estava planejando vir aqui hoje  noite?
- No! - Rachel pareceu assustada. -  claro que no. Eu teria dito aos criados para no a deixarem entrar. Eu nem mesmo sabia que ela estava em Vesey Park.
- Ento no devia estar aqui h muito tempo - respondeu a me de Rachel. - Ela em geral causa um grande alvoroo quando se digna a visitar a propriedade. Com certeza,
foi o que fez da primeira vez que veio. - Seus lbios apertaram-se, formando o mais prximo de uma careta que lady Ravenscar se permitia.
Rachel sabia que a me estava se referindo  primeira vez que Devin vira Leona, quando ele ainda era um jovem de 17 anos e se apaixonara com toda a intensidade e
urgncia de que s um adolescente  capaz.
- Bem, pelo menos a moa no sabe nada sobre ela - disse lady Ravenscar. - Eu comecei a dar um passa-fora naquela
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bruxa, mas sabia que isso causaria em Miranda a sensao de que havia algo errado com relao a lady Vesey. Aquilo foi um insulto a Miranda,  claro, mas enquanto
ela no souber que foi insultada, no lhe far mal.
Rachel, por sua vez, estava ciente de que Miranda sabia, sim, quem Leona era e da importncia que tinha na vida de Devin, de modo que assim que a dana terminou,
ela dirigiu-se a Miranda.
A noiva foi rodeada por convidados vidos por lhe desejar felicidades assim que ela e Devin saram do salo e ele fez o cumprimento formal, soltando sua mo e virando-a
para os convidados. Miranda, voltando ao normal com alguma dificuldade depois daquela dana romntica, controlou-se para no olhar Devin se retirando e conferir
se ele estava indo direto para a amante. Conversou com os estranhos o melhor que pde, aliviada quando Rachel apareceu e pegou-a pelo brao, sorrindo para os outros
e dizendo que devia roubar deles sua nova irm.
Rachel conduziu-a agilmente para fora do salo passando pelo corredor at um ambiente afastado, que tinha um assento abaixo da janela.
- Sinto muitssimo - disse a Miranda, assim que ficaram fora do alcance auditivo dos outros convidados. - No sabia que ela estava por essas redondezas. Nem sonhava
que Leona teria a audcia de vir aqui hoje  noite!
- Est tudo bem - tranqilizou-a Miranda, demonstrando uma calma maior do que a que sentia. - Creio que foi tudo bem at aqui. - Sorriu para a nova cunhada. - E
a dana foi divina. Estou muito feliz agora para me preocupar com lady Vesey.
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- Voc est? - perguntou Rachel, encantada. - Voc est feliz de verdade?
- Estou. Embora no to feliz quanto espero ficar no futuro.
- Voc gosta dele, no gosta? - disse Rachel, colocando a mo no brao de Miranda. - Voc no se casou com ele por causa disso tudo, casou? - Ela abanou a mo em
um movimento amplo.
Miranda riu alegremente.
- No. Tudo isso pode ser comprado. Um marido exige muito mais do que um pagamento. Eu no me ligaria a algum para o resto da vida por causa de uma casa, mesmo
sendo assim to espetacular.
- Eu sabia! - Rachel parecia radiante. - Tenho certeza de que voc far Devin feliz.
- No posso garantir isso - Miranda ponderou e depois acrescentou, com um sorriso: - Mas vou fazer o melhor que puder.
Seu marido estava atravessando a sala naquele momento, fazendo o possvel para parecer que conversava casualmente com os convidados, o tempo todo olhando em volta
 procura de Leona e planejando o jeito melhor e menos chamativo de separ-la dos outros e lev-la para fora dali. Por fim, avistou-a do outro lado do salo, de
p ao lado de uma das portas. Ela o estava observando. Quando seus olhares se cruzaram, fez um gesto com a cabea em direo  porta e saiu. Devin pediu desculpas
 prima do vigrio, que o havia parado para parabeniz-lo, e seguiu Leona.
Ele atravessou a multido e saiu pela mesma porta. No viu
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sinal de Leona, mas havia uma escadaria no final do corredor que levava ao jardim da parte de trs da casa. Ento ele seguiu seu palpite de que Leona teria ido por
ali. Desceu correndo os degraus e saiu pela porta dos fundos. Como era de esperar, ali estava Leona, aguardando-o com um sorriso sedutor, malicioso, no rosto.
- O que diabos voc pensa que est fazendo? - Devin explodiu, os olhos flamejando. Andou at ela e agarrou-a pelo pulso.
- Qual  o problema? - perguntou Leona, fazendo um bico. - Voc no est feliz em me ver?
- Este  o meu casamento! - Devin olhou em volta, e ento empurrou-a para trs de uma das cercas vivas crescidas que haviam se espalhado por todo o jardim. - Voc
enlouqueceu? O que est fazendo aqui?
- Oh, Dev, no fique com raiva de mim. - E sorriu, uma das mos acariciando o peito dele de forma a amans-lo. - S queria ver voc.
Como ele no reagiu a sua frase com um sorriso, mas continuou a encar-la de um jeito insensvel, Leona deu um passo atrs, arqueando uma das sobrancelhas, com um
brilho raivoso nos olhos.
- E de que outra forma eu poderia v-lo seno vindo aqui? - perguntou ela, mordaz. - Voc nem foi me visitar antes de partir. Voc me enviou um bilhete!
- Voc se recusou a me ver quando fui visit-la, se no se lembra - respondeu Devin. - Fui dispensado trs vezes por seu mordomo. Fiquei cansado.
- O que voc esperava depois de ter me abandonado na pera? - lembrou-lhe Leona. - E com Stuart e Geoffrey l
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para testemunhar isso! Foi humilhante. - Ela fez uma pausa e depois acrescentou: - Voc costumava ser mais persistente. Sabe que eu acabaria cedendo.
- Sim, bem, eu tinha de partir para Darkwater, por isso no tinha tempo para joguinhos. Foi por isso que lhe enviei um bilhete, dizendo o que estava fazendo. Nunca
imaginei que fosse aparecer aqui.
- O que mais eu poderia fazer? Queria ver sua noiva. Alm disso, achei que voc poderia gostar de um pouco de... diverso depois de duas semanas trancado em Darkwater.
Ento decidi descansar por alguns dias na propriedade de Vesey. Foi l que nos conhecemos, sabe. Lembra-se disso? - Ela se aproximou novamente dele, sorrindo de
uma maneira convidativa.
Para surpresa de Leona, Devin no amoleceu, nem sorriu de volta. Apenas disse:
- Claro que me lembro. Mas voc tem de perceber como... como foi errado vir aqui hoje. Voc est exibindo nosso relacionamento na frente de todo mundo.
- E desde quando voc e eu nos preocupamos com o que  certo e o que  errado? - Ficou na ponta dos ps e roou os lbios nos dele. - Vamos, Devin, no fique com
raiva. Ento eu dei a todos algo sobre o que falar. Ns sempre fizemos isso, no fizemos? E ns poderamos... amenizar seu tdio, se voc quiser. - Deslizou a mo
pelo peito dele na direo do cs da cala.
- Diabos, Leona! - Devin afastou-se para longe. - Voc est louca? Nossa casa est repleta de convidados. Qualquer um poderia vir aqui e nos encontrar. J  um insulto
para minha esposa voc estar aqui.
Leona semicerrou os olhos.
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- Nossa, nossa, como estamos repentinamente zelosos da esposa! Quando voc se tornou to provinciano?
- Por Deus, Leona, ela  lady Ravenscar agora. No posso permitir que seja insultada em minha prpria casa. O que esperava? Foi voc quem quis que eu me casasse
com ela, se bem se lembra.
- Eu no esperava que voc se tornasse de repente um marido dedicado! - atacou Leona. - No achei que fosse sair correndo para Darkwater, deixando-me sem saber quando
retornaria. Ou que ficaria daquele jeito, sorrindo como um tolo porque estava apresentando alguma colonazinha inspida como sua esposa. A idia era voc se casar
com ela e depois voltar para mim e para nossa vida em Londres.
- Eu sei. E  isso o que estou fazendo. Casei-me com ela, e depois de uma estada decente aqui voltarei para Londres. - Devin percebeu, ao pronunciar estas palavras,
que a idia de abandonar Miranda e voltar para Londres o deixara estranhamente desconfortvel.
- Estada decente? - repetiu Leona. - No posso acreditar no que estou ouvindo! Quando comeou a se preocupar com o que  decente e aceitvel? Quando passou a ser
idneo e respeitvel?
- Idneo? Respeitvel? - Devin teve de rir. - Leona, minha querida, acho que voc est sendo um pouco exagerada. Eu no queria me casar. Foi voc que insistiu nisso.
Mas, agora que me casei, tenho de continuar com isso. No poderia deix-la na igreja e ir correndo para Londres.
- Houve um tempo em que o faria - disse-lhe Leona. Devin ficou calado. Sabia que o que Leona disse era verdade. Anos atrs, at mesmo poucos meses atrs, ele ficaria
ansioso
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para escapar de Darkwater. Teria passado as duas ltimas semanas sonhando com Leona e em voltar para Londres. A verdade era que no pensara em nenhuma das duas coisas;
a maioria dos seus pensamentos ficara ocupada com a extremamente irritante srta. Upshaw.
- Voc me disse que odiava essa garota - Leona continuou.
- Ela  a mulher mais irritante que j conheci - respondeu ele, candidamente, mas suas palavras foram acompanhadas por um suavizar de expresso, um leve sorriso
se insinuando em seus lbios.
Leona franziu o cenho.
- Qual  o problema? No me diga que voc desenvolveu uma ternura por aquela mulher inspida!
Devin riu novamente.
- Inspida  a ltima palavra que se poderia usar para descrever Miranda. No seja ridcula. No desenvolvi ternura por ela. No conseguimos ficar no mesmo cmodo
por dois minutos sem discutir.
Ele achou melhor no mencionar o fato de que no conseguira dormir  noite porque no parava de pensar nela dormindo do outro lado de uma porta, ou de que descera
todas as manhs vido por outro encontro com Miranda. Leona nunca se preocupou com seu interesse por outras mulheres. Mas, por algum motivo, dessa vez achou que
ela no seria to compreensiva.
Sua risada acalmou Leona. Ela conhecia a intensidade do desejo de Devin; fora o objeto desse desejo por 14 anos. E no podia imagin-lo rindo de uma mulher que era
o objeto daquela luxria selvagem.
Leona deu uma de suas risadas guturais, inclinando a cabea para trs para olh-lo.
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- Bem, voc sabe onde me encontrar... a qualquer hora que se cansar de cortejar sua herdeira.
- Sim. Eu sei. Agora... voc poderia, por favor, pegar sua tia e voltar para Vesey Park?
Leona foi acometida por nova irritao. A noite sara completamente diferente do que planejara. A americana no era a garota acanhada e retrada que deduziu que
fosse. No era bonita, claro, do jeito que ela mesma o era - mas no parecia nada intimidada por Leona, mostrando-se  vontade em seu vestido elegante, em p ao
lado do esposo. E ento Devin a seguira at o lado de fora. Em vez de ansiar por ela e de exclamar o quanto estava feliz em v-la ali, o quanto a queria, ficara
enfurecido porque ela ousara vir  recepo do casamento e "insultara" sua odiosa esposa.
- Sim, eu irei - falou, irritada. - Se  dessa forma que voc vai agir, eu bem poderia voltar para Londres. Tenho certeza de que h vrios homens l que ficariam
felizes em me manter distrada enquanto voc est aproveitando os ares do interior!
Ela virou-se e saiu impetuosamente, satisfeita por ter fomentado um cime que faria com que Devin no demorasse nada para decidir visit-la em Vesey Park.
Leona teria sido tomada pelo dio se soubesse que o primeiro pensamento de Devin fora o desejo de que ela cumprisse a ameaa em vez de ficar l para tentar criar
problemas. Aps esperar alguns minutos, ele voltou para a casa e foi procurar por Miranda.
No sabia ao certo o que esperar do estado de esprito de Miranda ao retornar - mas, com certeza, no era a criatura risonha que encontrou conversando com Michael
e sua irm
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e que se virou para ele sem o menor ressentimento ou desconfiana, sorrindo e dizendo:
- Ah, a est voc, Devin. Fiquei imaginando onde teria se metido.
A ausncia de cime e de raiva parecia to surrealista que, por um instante, ele imaginou que talvez Miranda no soubesse nada sobre Leona. Mas depois lembrou-se
da meno a Leona feita por ela durante aquele bizarro pedido de casamento, o que o deixou ainda mais intrigado por sua falta de animosidade. A maioria das mulheres,
tinha certeza, estaria louca diante da idia de a amante do marido aparecer em seu casamento. Foi ento que percebeu que ela realmente no se importava se ele tinha
casos ou se tinha amante. Esse raciocnio o deixou amargurado.
Sabia que deveria estar feliz com isso. No poderia ter esperado um arranjo mais apropriado. O que sentia, no entanto, estava mais prximo do ressentimento do que
da felicidade.
Na verdade, Miranda ficou aliviada ao v-lo - tanto que isso sobrepujou qualquer irritao ou cime, tornando fcil ser agradvel e calma. Estivera procurando Devin
pelo salo de baile desde que ela e Rachel retornaram; e sua ausncia havia disparado uma preocupao e um temor dentro de si que no estava acostumada a sentir.
Ficara com medo de que ele houvesse escapado da festa com a amante, de que estivesse to possudo de desejo e de amor por Leona que desaparecera para algum esconderijo
com ela. O medo aumentou quando tambm no conseguiu ver Leona. Sabia que Rachel ficara preocupada com a mesma coisa pela ligeira opresso no olhar da cunhada e
pelo modo como observava o salo disfaradamente.
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Agora Devin estava ali. Miranda podia abrir os punhos e permitir que seus ombros relaxassem. Ela no seria uma noiva realizada esta noite, mas pelo menos no seria
uma noiva abandonada em pblico.
O sorriso de Rachel indicava o quo aliviada estava, tambm, por Devin ter reaparecido.
- Devin, voc apareceu na hora certa. No acha que chegou o momento de os recm-casados partirem?
-J? - Miranda pareceu um tanto surpresa. - Mas a festa ainda est to animada.
- Sim, mas a noiva e o noivo sempre partem muito antes do fim - disse Rachel, com firmeza.
- Oh! - Miranda suspeitou que Rachel estava fazendo o melhor que podia para afast-los da presena de lady Vesey. Queria se certificar de que Miranda no se deparasse
com a mulher uma segunda vez aquela noite.
Miranda suspeitava de que Leona, tendo alcanado seu objetivo, j havia ido embora. Tambm suspeitava de que a razo pela qual no conseguira localizar Devin era
porque ele estava se despedindo de Leona. Entretanto, preferia no pensar nisso. Ele no fora embora com ela, e isso era tudo o que Miranda precisava saber no momento.
No se importava em sair da festa, de qualquer modo. Manter uma aparncia animada e agradvel nos ltimos minutos fora um desafio. J estava pronta para fugir de
todos aqueles estranhos e se retirar para o conforto e para a segurana do seu quarto.
- Vamos, ento? - Devin virou-se para Miranda. - Podemos escapar sem ningum perceber e evitar todo o alvoroo.
- Isso parece timo - respondeu Miranda, honestamente.
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- Eu j escapuli daqui muitas vezes - assegurou-lhe Devin. -  fcil. Primeiro, temos de pegar um prato de comida.
- Tudo bem.
Conseguiram passar pela multido, sorrindo e acenando para todos os convidados, mas evitavam habilmente parar por completo. Na mesa do buf, encheram os pratos e
atravessaram mais uma vez o mar de gente.
-Aja como se estivesse procurando um espao vazio para sentar e comer - sussurrou Devin. - Agora estamos quase na porta. No olhe em volta nem aja como se estivesse
fazendo algo errado. Do contrrio, algum ir flagr-la. Ande como se estivssemos indo na direo daquelas cadeiras e agora... para a porta.
Miranda passou pela abertura da porta, com Devin logo atrs.
- A escadaria dos fundos  logo ali. - Ele fez um gesto para adiante. - Venha, faremos um piquenique. Estou morrendo de fome, e no consegui chegar perto da comida
a noite toda. E voc?
Miranda concordou com a cabea.
- Para onde iremos?
- Conheo um lugar. - Ele guiou-a escada acima e pelo corredor at um grande cmodo. Entregando seu prato a ela, acendeu uma lamparina no cmodo com um dos castiais
do corredor e a ps para dentro. Fez um gesto largo mostrando o quarto. - Mesas, cadeiras...
- O quarto das crianas!
- Admito que so um tanto pequenas, mas daremos um jeito. - Ele pegou os pratos e colocou-os na mesa, depois puxou uma das cadeirinhas com um gesto majestoso. -
Se minha dama quiser sentar-se.
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Miranda sorriu.
- Ficaria honrada, meu senhor.
Sentou-se, enquanto Devin ocupou o lugar em frente a ela, que abafou um risinho ao v-lo sentado com os joelhos quase no queixo. O conde fingiu contrariedade.
- Eu sou o senhor da manso, saiba a senhora. No se pode fazer troa de mim.
- Jamais faria uma coisa dessas - assegurou-lhe Miranda, solenemente. Pegando o garfo, comeou a comer com entusiasmo. Seu estmago estivera muito contrado para
que conseguisse comer mais cedo, e agora, percebeu, estava esfomeada.
Enquanto comiam, Devin distraiu-a com histrias sobre sua infncia, apontando para o armrio onde se escondera quando criana para abrir a porta de supeto e assustar
as irms, mas cara no sono e fora dado como perdido, com toda a criadagem procurando por ele.
- Apenas a primeira de muitas desventuras - disse-lhe com um sorriso cansado.
Conversaram e riram, sentados ali, incompativelmente com seus trajes finos de npcias, mas aquele parecia ser o jantar de casamento mais feliz que Miranda poderia
ter tido.
Mais tarde, foram at a antiga galeria de msicos medievais, um pequeno cmodo com uma tela que se projetava acima do salo de baile. Atravs da trelia, podiam
ver a festa e ouvir o som misturado da msica, dos risos e das conversas que subiam por ela.
- Rachel, Carol e eu costumvamos fugir para c depois que a bab dormia. Daqui assistamos s festas dos nossos pais - disse Devin. - Elas no eram to interessantes,
mas assim nos pareciam. Mais porque eram proibidas.
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- Isso sempre torna as coisas mais divertidas - concordou Miranda.
Ele pegou a mo dela, e aquilo pareceu a coisa mais natural do mundo, agradvel e terna, bem de acordo com o clima leve e alegre do "piquenique". Mas havia uma corrente
subliminar de excitao no toque, tambm, uma percepo da pele dele tocando a dela, seu calor, seu cheiro - este homem era quase um estranho para ela, e ainda assim
seu marido, tambm.
Percorreram o corredor at o quarto dela e Devin abriu a porta, chegando para o lado para deixar que ela entrasse. Ela virou-se para dizer boa noite, mas ele j
estava entrando pela porta tambm.
- O que... o que voc est fazendo?
Devin fechou a porta atrs dele, e seus olhos se fixaram nos dela.
- Hoje  nossa noite de npcias. - Ele deu um passo  frente e colocou as mos nos ombros dela. - E eu sou seu marido.
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Captulo 13

A respirao de Miranda ficou presa na garganta e ela foi incapaz de fazer qualquer coisa a no ser ficar olhando Devin enquanto ele se aproximava, botando as mos
em seus ombros e virando-a devagar.
- Sua criada no vir esta noite. Eu serei seu criado.
As mos dele comearam a abrir os botes que se estendiam pela parte de trs do vestido. Ao faz-lo, seus dedos roaram a pele de Miranda, provocando nela um tremor.
Miranda lutou para organizar seus pensamentos.
- No acho que isso seja necessrio. Se eu chamar a criada, tenho certeza de que vir.
- Muito provavelmente. Ainda assim...  muito mais fcil se eu o fizer.
Miranda pde sentir os dois lados do vestido se abrindo e descendo de suas costas, expondo a pele nua acima da combinao. Botou a mo nos seios para segurar o vestido.
Devin pressionou os lbios na pele nua, aveludada e quente das costas. Ela sentiu a fora da respirao dele na pele sensvel.
- Devin... - O nome dele saiu rouco, e Miranda parou para limpar a garganta. Endireitou-se e afastou-se do toque prazeroso da boca dele. - No. De verdade. Isso
 o bastante.
Devin deslizou as mos pelas costas de Miranda, empurrando o vestido pelo brao, e acariciou-lhe os ombros. Ela
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sentia como se todos os lugares em que ele tocava formigassem, ganhando vida.
- No  o bastante. - Contestou as palavras dela, inclinando-se para fazer um caminho de beijos da clavcula at o ombro. - E no ser o bastante at que eu a tenha.
Por inteiro.
- Isso  exatamente o que concordamos que no aconteceria - disse ela, tentando impor um tom de censura na voz, que saiu ofegante demais para seu gosto.
- No. Isso  o que voc concordou que no aconteceria. Nunca concordei com isso.
Ele passou as mos por dentro das laterais abertas do vestido, deslizando pelas costas at a barriga, nada separando a pele de Devin da dela, exceto a fina combinao.
Miranda suspirou ofegante. Ele fez um som baixo e passou o nariz pelo pescoo.
Um longo tremor percorreu o corpo de Miranda, que no conseguiu impedir um gemido.
- Isso  o certo. Voc pode sentir - murmurou ele, a respirao estimulantemente irregular na pele dela. -  assim que deve ser.
Devin subiu as mos para segurar os seios dela, pressionando-os e acariciando-os enquanto provocava com a boca o pescoo e a orelha. Um desejo arrebatou Miranda,
de uma maneira quase assustadora devido a sua intensidade. Assim ela percebeu que tudo o que queria era passar a noite na cama dele, ser apresentada s delcias
da paixo nas mos dele. Seria fcil se entregar, fcil experimentar o prazer.
Fcil, tambm, perder a nica coisa que mais queria.
- No. - Falou com a voz firme e afastou-se, virando o rosto para olh-lo. - No. Isso no faz parte do nosso acordo.
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Os olhos dele estavam cegos de paixo, a expresso carregada de desejo.
- Esquea nosso acordo. No temos de cumpri-lo. No importa.
- Importa, sim. Essa era a base do nosso casamento. No nos deixarmos envolver... ficarmos livres para perseguir nosso prprio...
Ele interrompeu estas palavras puxando-a para seus braos e beijando-a apaixonadamente. Miranda entregou-se a ele, o desejo tomando conta de seu corpo.
Devin parou o beijo e comeou a passar a boca pelo pescoo, beijando-o devagar e esquentando a pele sensvel.
- No h nada errado em ter paixo no casamento - murmurou ele persuasivamente, as pontas dos dedos roando de leve os braos dela para cima e para baixo. - Deixe-me
mostrar como pode ser bom. Deixe-me...
A persuaso em suas palavras e carcias trouxeram Miranda  conscincia de repente, e ela se afastou, retesando a coluna.
- No, senhor, acho que no. Voc  um sedutor experiente e isso est bvio. Mas no sou to fcil de ser persuadida. No estou interessada em um casamento que alie
intimidade e casos extraconjugais. No funcionaria, pelo menos no para mim. Creio que seja melhor manter as duas coisas em separado. Nosso casamento  um acordo
de negcios e devemos buscar prazer em outro lugar.
A expresso no rosto dele se fechou.
- Raios! No h motivo...
- H motivo sim - respondeu Miranda, asperamente. - Sua reao emocional em si j  motivo suficiente. Nosso casamento no tem espao para emoes.
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- Nem todos aqui so to frios e racionais como voc!
- No, receio que no - respondeu Miranda, como se ele a tivesse elogiado. - Mas tenho certeza de que quando voc se acalmar e pensar a respeito, vai perceber que
estou certa. Com a paixo vem o sentimento, e com o sentimento vem todo tipo de emoo misturada. Cime, mgoa, raiva. Bem, obviamente, no iria funcionar.  prefervel
ter isso com um amante do que com um marido.
Uma fagulha acendeu nos olhos de Devin, e ele agarrou os punhos de Miranda. Por um momento, ela pensou que ele iria ter um acesso de fria. Mas, ento, deu um passo
atrs, os dentes trincados, e disse:
-  claro. Se isso  o que deseja. Posso ver por que preferiria no sentir qualquer emoo por seu marido. Seria mais difcil fazer com que todos seguissem suas
ordens, no seria? De fato,  prefervel manter tudo na base dos negcios. Empregados no podem se dar ao luxo de reclamar muito.
- No  isso! - gritou Miranda.
- No?
-  claro que no. Esse tambm era o tipo de casamento que voc queria.
- Foi voc quem...
- Eu concordei com o tipo de casamento que voc props. Voc queria manter a amante. Queria ser independente. No queria ficar preso a uma esposa. Ou isso mudou
de uma hora para outra?
- No,  claro que no.
- Bem,  isso o que eu quero tambm - contra-argumentou Miranda. - S estou falando para nos atermos ao acordo que fizemos. Um casamento s no nome.
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- Isso no significa que no possamos aproveitar, ao mesmo tempo, certos aspectos do casamento - argumentou Devin. - Um casamento pode ser fonte de prazer e ainda
ser uma ligao livre.
Miranda olhou para ele, irritada.
- No para mim. Ou o casamento  real ou  uma farsa. O nosso pertence  ltima categoria. Se voc trouxer paixo para dentro dele, tudo muda. No conseguirei mais
ser objetiva. No estarei mais acima do cime e da dor. Quando eu gosto, gosto de um modo profundo. E no tenho a inteno de passar a vida imaginando onde voc
est e com quem est, enquanto fico em casa sentada, sentindo mgoas que s eu posso ver. Sendo assim, a nica soluo  no gostar de voc.
Devin ficou ali, olhando para ela, por algum tempo. E ento fez um cumprimento rpido com a cabea.
- Boa noite, Miranda. Virou-se e saiu porta afora.
Miranda passou uma noite interminvel e solitria. Mais de uma vez, desejou no ter rejeitado Devin; em determinado momento, at considerou a possibilidade de se
levantar e ir at a porta que ligava seus quartos para dizer-lhe que cometera um erro. Mas conseguiu ater-se a sua deciso. O que dissera a Devin era verdade - exceto
por no ter revelado o quanto j gostava dele. Havia mais do que estratgia na promessa de no consumar o casamento. Ela sabia que, ao faz-lo, ligaria seu corao
ao de Devin de uma forma to irrevogvel que no poderia mais viver sem ele.
Quando acordou na manh seguinte, recuperara a confiana e o otimismo de praxe, e desceu pronta para trabalhar. O
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paisagista chegaria aquela tarde, e o arquiteto viria no dia seguinte. Decidiu ento ir adiante com os trabalhos relacionados  propriedade. Enviou um bilhete para
o sr. Strong, pedindo que a encontrasse na biblioteca, onde decidira que seria seu escritrio. Seu pai estava l, e ela tambm convidou o tio de Devin, mais como
um ato de cortesia do que qualquer outra coisa. Devin gostava do tio, mas, devido ao estado da propriedade de Ravenscar, Miranda no pde evitar achar que nem Strong
nem tio Rupert foram muito habilidosos em sua administrao.
Para sua surpresa, Devin adentrou enquanto o grupo estava se acomodando em volta da mesa da biblioteca e sentou-se a seu lado.
Ele percebeu aquele olhar de surpresa e deu um sorrisinho.
- Eu estava entediado - explicou, em um aparte, ao sentar-se. - Era isso ou croch com mame e Rachel na sala de estar.
- Estou contente em v-lo aqui - respondeu Miranda. - Trata-se de sua propriedade, no fim das contas.
- Bom dia, meu garoto - disse tio Rupert, afavelmente. - Esta  a primeira vez que o vejo se oferecer para olhar suas finanas. - Ele piscou. - Deve ser por causa
do atrativo de uma mulher presente.
- Torna a reunio mais agradvel do que se tivesse de olhar s para voc e para o Strong - concordou Devin, calmamente. - Agora conte-nos, Miranda, o que planeja
fazer.
- No esperava que houvesse tantas pessoas presentes - confessou Miranda. - Ia apenas repassar os nmeros com o sr. Strong. Voc trouxe as informaes que eu requisitei?
- Eu... Eu fiz o que pude, madame.
- Tenho certeza, Ravenscar, que voc e o sr. Dalrymple
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tambm podero acrescentar informaes a meus questionamentos sobre a propriedade - ela continuou, olhando primeiro para Devin e depois para o tio.
- Ficarei feliz em ajud-la com tudo o que estiver a meu alcance, senhorita... desculpe-me, lady Ravenscar - respondeu o tio de Devin.
- Por favor, me chame de Miranda. Somos parentes agora.
- E voc deve me chamar de tio Rupert, como Devin o faz - respondeu ele, com um brilho nos olhos. - Mas, confesso, estou meio perdido. Exatamente o que estamos fazendo?
Strong veio a mim meio confuso, ontem, dizendo que voc ia tocar a propriedade. Disse-lhe que isso no fazia o menor sentido, mas...
- Oh, eu no vou acompanhar o dia-a-dia - assegurou-lhe Miranda. - Isso tomaria muito tempo, e tenho certeza de que o sr. Strong pode garantir que tudo correr na
mais perfeita ordem. S irei supervisionar,  claro.
Tio Rupert olhou para ela da mesma forma que o gerente o fizera no dia anterior.
- Voc vai supervisionar? - perguntou ele, cautelosamente, como se no houvesse ouvido direito. - Mas... mas voc  uma garota.
- Obrigada. Entretanto, tenho de admitir que sou um pouco mais velha do que uma garota.
- Miranda... posso assegurar-lhe de que seu dinheiro vai nos ajudar a colocar a propriedade em ordem. No h por que se preocupar. Voc deveria estar aproveitando
a vida. Afinal de contas, no  todo dia que se torna uma esposa. Sem dvida, h muitas coisas na casa s quais voc vai gostar de ser apresentada primeiro.
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-Oh, eu vou me reunir com a sra. Watkins e com Cummings, claro, mas eles parecem ter tudo sob controle. Quando se tem uma boa governanta e um bom mordomo, os afazeres
domsticos demandam pouco tempo e energia. Isso, com certeza, no vai me impedir de colocar a propriedade em ordem. No se preocupe comigo, tio Rupert. Estou acostumada
a trabalhar. Nunca administrei um negcio desse tipo antes, mas j tive bastante experincia com outros. Estou confiante de que serei capaz de adaptar-me aqui.
- Mas... - Rupert virou-se confuso para o sobrinho. - Devin... no compreendo. - Ele olhou de volta para Miranda. - Talvez voc no tenha entendido que eu sou o
administrador dos fundos da propriedade de Devin. Obviamente, ficarei feliz em tentar explicar tudo sobre ela a voc, mas...
- Bem, senhor, na verdade no  o administrador dos fundos - disse Miranda, to delicadamente quanto pde. - Sei que vem tocando a propriedade para Devin j h um
bom tempo, e tenho certeza de que ele lhe  muito grato por isso, mas o fato  que os fundos da propriedade dele terminaram h cinco anos. No existe mais um administrador.
Foi esse tipo de controle descuidado que Miranda receou ter levado a propriedade a sua derrocada final. Tio Rupert parecia ter boa vontade e boas intenes, mas
ainda no percebera muitas evidncias de sua sagacidade. Aquela era uma situao delicada porque Devin gostava muito do tio, mas Miranda no via como poderia permitir
que o homem permanecesse encarregado de um trabalho para o qual era totalmente inadequado.
- Suponho que, tecnicamente, isso seja verdade - Rupert admitiu.
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- Foi muito gentil de sua parte continuar nessa funo por tanto tempo - continuou Miranda. - Mas tenho certeza de que preferiria no ter de ficar com essa responsabilidade
e nem de ter esse trabalho. No  mesmo?
- Bem, sim,  claro, mas o dever me chamou, sabe. - Ele tossiu, contrariado.
- Se voc puder fazer a gentileza de me agraciar com sua experincia e seus conselhos, eu lhe seria bastante grata. Como disse, nunca lidei com esse tipo de negcio
em particular. A maior parte dos meus investimentos tinha relao com terra no-cultivada e terrenos urbanos. E, obviamente, houve o negcio do canal, no qual entrei
na Pensilvnia. - Mediante o olhar confuso dele, Miranda continuou: - Criar uma conexo entre os campos de carvo e seus mercados na Filadlfia e em Nova York. Um
negcio que vai revolucionar a indstria. Mas isso no  relevante.
- Ah... - Rupert parecia levemente atordoado. -  claro que ficarei feliz em lhe ser de alguma ajuda, minha querida. Na verdade, pensando bem, voc est certa. Ser
um alvio no ser mais responsvel pela propriedade. - Sua expresso ficou visivelmente relaxada mediante esse pensamento. - Foi bastante difcil v-la decair assim,
ano aps ano, e no ter os recursos para impedi-lo.
- Imagino que sim - disse Miranda, mostrando-se compreensiva. - Esta  uma propriedade enorme, no ?
- Quase 10 mil acres - acrescentou Strong. -  claro que muito disso est situado nos rochedos.  pedregoso e praticamente imprestvel.
- Os rochedos?
- Sim. Uma regio miservel - disse tio Rupert. -  o final
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dos montes Peninos. Acidentado e pedregoso. Intil para qualquer coisa, como disse Strong.
-  atraente - comentou Devin. - De um jeito estranhamente especial. Podemos ir at l a cavalo um dia desses para voc conhecer, se quiser.
- Sim, quero. - Miranda sorriu para ele. - Quero percorrer toda a propriedade. Quero ver exatamente com o que estou lidando. Conhecer seus arrendatrios.
- Tudo bem.
- Ser um prazer lev-la para uma volta, Miranda - disse tio Rupert. - Por que no vamos todos? Podemos ir pela margem do rio, no , Dev?  um local lindo. Podemos
fazer um piquenique.
- Claro - concordou Devin.
- Excelente. - Miranda deu um sorriso para o tio de Devin e ento virou-se para o gerente da propriedade. - Agora, sr. Strong, primeiro gostaria de ver os mapas
das terras. Preciso saber qual  a principal fonte de renda. Deduzo que seja relacionada  agricultura.
- Sim, madame. Os aluguis dos arrendatrios. Eles tm diminudo constantemente nos ltimos anos. Em conseqncia, as terras no tm produzido muitas colheitas.
- Entendo. Temos de ver o que podemos fazer para recuper-las. Sabe, o sr. Jefferson tem escrito muito sobre os mtodos modernos de cultivo que usou em Monticello.
Terei de encomend-los. E, com certeza, deve haver ingleses experimentando o mesmo tipo de tcnicas. Alm disso, gostaria de ver os livros de registro da contabilidade.
Trarei nosso assistente, Hiram Baldwin, para ajud-lo com isso. Precisaremos analisar vrios anos, imagino, para identificar os problemas. Deve ser o suficiente
para comear.
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- Sim, madame - concordou Strong, com desnimo na voz. Tio Rupert riu e virou-se para o sobrinho.
- Pois bem, Dev, sua esposa provoca vendavais.
- Sim. - Dev olhou para ela, e um sorriso brotou em seus lbios. - Pode-se dizer que sim.
Miranda adaptou-se  vida em Darkwater com uma facilidade que at a surpreendeu. Tanto o arquiteto quanto o paisagista chegaram, e participaram de reunies com ela
sobre a restaurao de Darkwater. Ficou feliz por Devin comparecer com freqncia s reunies e se envolver, em mais de uma ocasio, na discusso do que deveria
ser feito. Quando demonstrava surpresa com sua participao, ele respondia, daquela forma casual, que estava entediado. Mas Miranda podia garantir que o marido possua
mais interesse pela antiga casa do que se dispunha a demonstrar, e com certeza sabia mais sobre o assunto do que teria imaginado.
Ela tambm examinava as finanas da propriedade, embora tenha logo percebido que sua presena deixava o pobre sr. Strong to nervoso que tinha de pedir a Hiram Baldwin
para fazer grande parte das pesquisas e conversar mais tarde com ela sobre suas descobertas. Aparentemente, o problema consistia numa desgastante sucesso de colheitas
fracassadas e terra exaurida, em arrendatrios falidos e aluguis no pagos.
Mas, apesar de tantas reunies, Miranda tinha tempo disponvel para visitar Rachel, de quem estava gostando mais e mais a cada dia, e de andar ao acaso, explorando
as terras com Vernica. Devin as acompanhava em algumas ocasies, o que tornava as excurses mais divertidas. Era gentil com Vernica, provocando-a e fazendo-a rir.
Sempre aparecia
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com algo interessante para fazerem, mesmo quando deparavam com um dia chuvoso e triste que os prendia em casa o tempo todo.
No mencionou mais o acordo que fizeram para as noites, nem tentou seduzi-la de novo, um fato que a preocupava um pouco e que quase sempre a deixava se sentindo
inquieta e insatisfeita. Devin parecia ter aceitado sua deciso com muita facilidade, para seu gosto. s vezes, Miranda se perguntava se ele sentia pouco desejo
por ela a ponto de no se incomodar em se manter a distncia. E, sabendo que Leona estava a poucos quilmetros de distncia, em Vesey Park, Miranda tambm no podia
conter o medo de que Devin estivesse buscando saciar suas necessidades masculinas em outro lugar. Nenhuma das possibilidades era encorajadora.
Todavia, quando s vezes olhava para Devin - na sala de msica depois do jantar, durante uma caminhada  tarde, ou at mesmo sentada do outro lado da mesa  refeio
-, capturava certa expresso em seus olhos, o vislumbre de uma ardncia, um fogo velado que a excitava. Nesses momentos, o ar parecia ficar canalizado entre eles.
Miranda tinha ento certeza de que ele no estava indiferente a ela.
Teria se sentido melhor se soubesse que Devin, na verdade, alm de no estar indiferente, estava a cada dia que passava sendo mais consumido de desejo por ela. Primeiro
decidira acatar sua deciso. Queria lev-la para a cama, mas, no fim das contas, j tivera e teria quantas mulheres quisesse. No precisava desta em particular.
Ser rejeitado com tanta facilidade era um pouco irritante, mas sabia que ela estava certa - no estava interessado em nenhum tipo de casamento que fosse diferente
do que Miranda descreveu, ele sendo livre para
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fazer o que quisesse e para dormir com quem quer que fosse. Depois de um tempo, ele deixaria Darkwater e voltaria para Londres, para Leona e para sua vida normal.
Darkwater e seu casamento ainda no haviam comeado a entedi-lo de todo, mas sabia que isso aconteceria. E quando acontecesse, iria embora. Deitar-se com Miranda
seria divertido, mas no era importante, e a ltima coisa que queria era que ela se prendesse a ele e se transformasse em uma mulher chorosa e pegajosa que se chateava
a cada vez que partia.
No entanto, no tentara seduzi-la de novo. Mas descobrira, estranhamente, que ficar longe dela estava tornando-se mais difcil. Sua mente ocupava-se com pensamentos
a respeito dela. Ele queria v-la, estar com ela. Quando no estava por perto, pensava nela, e mais de uma vez pegou caneta e papel para tentar esboar seu rosto,
descobrindo com frustrao que no conseguia dar aos olhos dela o toque que o fascinava tanto.
De noite era pior. Ficava deitado na cama, acordado, pensando nela, com apenas uma porta a separ-los, e seus pensamentos iam se tornando mais e mais febris, at
que ele se levantava da cama e comeava a andar pelo quarto, muitas vezes terminando no escritrio, no andar de baixo, bebendo para esquec-la. Incomodava-o no
conseguir eliminar o desejo por ela e o fato de que, quanto mais tentava no pensar nela, mais o fazia.
Ele a procurava com freqncia, acompanhando-a em suas caminhadas, guiando-a pela vila ou indo s reunies com o arquiteto. Ele at se pegou, para seu horror, brincando
de mmica com ela e a meia-irm certa tarde, com Michael e Rachel. Devin sabia que se algum de seus companheiros habituais o
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visse engajado em tais ocupaes prosaicas e banais, riria at as lgrimas. Mas, de alguma forma, estando Miranda envolvida, nada parecia chato ou prosaico. Ela
sempre tinha um pensamento interessante ou um comentrio zombeteiro para abrilhantar a ocasio - e ainda havia o prazer de olhar para ela e lembrar-se da sensao
daquele corpo em seus braos. Devin tambm se lembrava do gosto daquela boca, da textura macia da pele, do cheiro doce que lembrava o de rosas - eram esses pensamentos
que o atormentavam  noite, impelindo-o a sair da cama e a buscar qualquer consolo que pudesse encontrar nos livros ou em garrafas de bebida.
O turbilho de emoes que o acometiam era exacerbado pela leve, mas persistente, sensao de culpa que o atormentava desde que pedira para Leona deixar a recepo
do casamento. Tivera de faz-lo,  claro; no poderia ter permitido que ela arruinasse o dia do casamento de Miranda. O que o incomodava era o fato de ter sentido
vontade de mand-la embora. Teve raiva dela, o que no era incomum; houve vezes em que ela o irritara alm do imaginvel, fazendo-o at mesmo se enfurecer com ela.
Mas antes havia um qu de lu-xria perpassando a situao, um desejo que batia em seu peito por Leona. De fato, a raiva quase sempre surgia por causa de um desejo
que ela havia frustrado de alguma forma, ou pelo cime que sentia quando a via com seu marido ou testemunhava seu flerte com outro homem. Qualquer que fosse a emoo
em torno dela, sempre havia paixo envolvida.
Mas, naquela noite, no a quisera. Mesmo quando ela agiu sedutoramente, permanecera frio. A raiva fora intensa e fria, no sentira qualquer desejo por Leona. S
sentira a necessidade de proteger Miranda do insulto que Leona representava.
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Pela primeira vez desde que conseguia se lembrar, colocou outra mulher  frente de Leona, e, mesmo Miranda sendo sua esposa, sentia-se culpado por isso. O que, obviamente,
no significava que no amasse Leona. Amara-a por muitos anos, no imaginava a possibilidade de deixar de am-la.
O que sentiu por Miranda foi uma obsesso momentnea, do tipo que se dissiparia to logo dormisse com ela. J sentira algo assim por outras mulheres, e sempre acontecia
dessa forma. Ele via uma mulher; ela o intrigava; ele a perseguia e a conquistava. E ento acabava. Isso nunca mudou o que sentia por Leona, nem mesmo modificou
o desejo que tinha por ela.
A diferena, o estranho nessa obsesso por Miranda, era no apenas o fato de ser mais profundo e mais intenso do que o que normalmente sentia, mas tambm porque
parecia de alguma forma encobrir seus sentimentos por Leona. Devin sabia que ela o esperava em Vesey Park, e tinha bastante tempo livre para faz-lo. Ningum o questionaria
sobre onde houvesse ido  tarde, muito menos Miranda, que parecia irritantemente despreocupada com o que ele fazia. E, mesmo assim, no foi. A idia passava por
sua mente de tempos em tempos, mas o que sentia quando isso acontecia era uma grande relutncia.
E esse detalhe o incomodava - e o incomodava tambm o fato de que, mesmo que ainda desejasse Miranda, evitara procur-la porque ela dissera que no queria que ele
o fizesse. Devin no era do tipo que se impunha a uma mulher, mas certamente nunca parara de tentar seduzir uma delas s porque parecia relutante. Porm, havia algo
nos olhos de Miranda na noite em que dissera que, quando gostava, gostava de um modo profundo. Naquele momento, Devin vislumbrou
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nela a possibilidade de amor e traio. Sabia que se a seduzisse e a fizesse am-lo, poderia mago-la profundamente. E, desde ento, mesmo que a paixo ainda queimasse
por dentro, decidiu no tentar despertar nela esse mesmo tipo de paixo.
Ele jamais ponderara dessa forma com qualquer outra mulher de que se podia lembrar. Mas, quando pensava em conquistar Miranda e em se satisfazer com ela, havia sempre
o pensamento do que aconteceria quando se cansasse dela e voltasse para Leona, como sabia que faria. Ento ele ficava rondando, pensou, como um tolo, desejando-a
e no a possuindo, e ainda assim sendo incapaz de desistir dela completamente. Havia momentos em que ele se perguntava se o casamento havia afetado sua inteligncia;
Devin, com certeza, no vinha sendo ele mesmo nos ltimos dias.
Primeiro, convencera-se de que a razo principal dessa tola obsesso por Miranda era tdio. No havia quase nada para se fazer em Darkwater, exceto ficar sentado
pensando. No era de estranhar que seus pensamentos se voltassem com freqncia para o desejo que Miranda despertava nele. Quanto mais pensava nela, mais intenso
esse desejo se tornava. Quando tentava desviar os pensamentos fazendo algo, esse algo quase sempre acabava envolvendo a presena dela, o que no ajudava muito a
apaziguar o desejo que o arrebatava.
Mais ou menos uma semana depois do casamento, a me convidou o vigrio, sua esposa e o mdico local para um jantar. Em Londres, a me teria achado tais companhias,
como a de um mdico e de um vigrio, escolhas bastante pobres, mas no campo tinha de se contentar com o que havia disponvel. Devin j estava de mau humor, e assistir
a Miranda passando
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a maior parte da tarde em uma conversa empolgada com o dr. Browning no ajudava a deix-lo mais feliz.
O dr. Browning era o filho do mdico que trabalhava na vila quando Devin era jovem. O velho dr. Browning tinha repassado ao filho sua clientela h alguns anos e
agora dedicava a maior parte do tempo cuidando de seu jardim de rosas. O dr. Browning, filho, tinha uns trinta e poucos anos e era bonito de um jeito limitado. Trajava-se
sem muita preocupao com a moda; Devin sabia que seu mordomo teria empalidecido diante do modo como a gravata do mdico estava arrumada. Ele era um homem grande,
e Devin deduziu que algumas mulheres achavam suas caractersticas fsicas - os cabelos loiros, os olhos azuis e o maxilar definido - atraentes. Miranda, certamente,
no parecia ver nada nele que a desagradasse.
O dr. Browning estava sentado ao lado dela na mesa de jantar, quando comearam a conversar ali. No final do jantar, estavam to envolvidos na conversa que a continuaram
na sala de estar, para onde se dirigiram todos aps a refeio.
Devin ficava tentando imaginar sobre o qu estariam conversando que poderia interessar tanto a Miranda. Ocorreu-lhe que talvez esse mdico fosse exatamente o tipo
de homem que Miranda acharia atraente, um homem que dedicara sua vida a algo, que era inteligente e culto, e que fizera algo de til com sua vida. O dr. Browning,
obviamente, tinha idias, idias novas, que ela achava fascinantes. E sua aparncia ficava acima da mdia. Nem mesmo o fato de ele ser apenas um mdico, embora ela
agora fosse uma condessa, deteria Miranda se gostasse dele. Como muitos norte-americanos, ela no parecia entender de verdade a diferena de classes.
No fim das contas, o mdico poderia ser exatamente o tipo
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de homem que Miranda escolheria para um dos casos que parecia to determinada a ter. Devin perguntou-se se ela estaria pensando o mesmo quela altura. Parecia-lhe
bastante injusto o fato de um mdico ser to jovem e to bonito. Os mdicos deveriam, pela ordem natural das coisas, ser velhos - bem, pelo menos de meia-idade.
Ele olhara com raiva para eles durante a maior parte da noite. Num dado momento, levantou-se abruptamente e saiu da sala.
Miranda viu Devin sair, e ficou se perguntando por que ele tinha partido to de repente sem sequer despedir-se. Estava ficando cansada da conversa com o dr. Browning-ou,
melhor, de ouvi-lo, j que era do tipo verborrgico - e tinha esperanas de que Devin pudesse animar o ambiente sugerindo um jogo de cartas ou algo que fosse mais
interessante do que a descrio do dr. Browning de suas consultas na vila. Ela cometera o erro de se engajar em uma conversa educada com ele durante o jantar, perguntando
sobre sua carreira, o que o animou a se aprofundar no assunto. Contou-lhe tudo sobre ter crescido admirando o pai, depois sobre seus estudos e agora sobre as muitas
doenas com as quais tinha contato na vila.
Foi um grande alvio quando a esposa do vigrio disse que eles tinham de deix-los, j que o religioso tinha de preparar um sermo, e o mdico, felizmente, percebeu
que tambm j permanecera por l tempo demais. Michael, que partiria na manh seguinte, decidiu que deveria se recolher cedo, e quase todos os outros concordaram
que deveriam fazer o mesmo - entediados, deduziu Miranda, a ponto de ficarem sonolentos.
Ela subiu para o quarto e deixou que a criada a ajudasse a trocar de roupa e a vestir a camisola. Comeou a se preparar
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para deitar-se, mas sabia que no conseguiria dormir assim to cedo. Ento colocou o robe, os chinelos e, pegando um lampio, desceu at a biblioteca. Ao andar em
direo ao cmodo, reparou que a porta do escritrio de Devin estava aberta, um feixe de luz iluminando o tapete do corredor. Curiosa, encaminhou-se para l em vez
de para a biblioteca.
Devin estava sentado  escrivaninha, uma garrafa de usque e um copo  sua frente. Havia tirado a casaca e a gravata; a camisa estava desabotoada no pescoo, as
mangas enroladas. Estava jogando dados displicentemente, primeiro com uma das mos, depois com a outra. Tomou um grande gole do copo enquanto Miranda o observava.
Ento transferiu os dados para a outra mo e os lanou.
- Droga - murmurou suavemente, olhando para a mo esquerda. - Voc  um caso perdido. J est 150 pontos atrs.
- Falando sozinho? - perguntou Miranda, delicadamente, entrando no cmodo.
Devin olhou para ela, assustado.
- Miranda! O que est fazendo aqui?
A viso dela parada ali arrebatou-o com uma luxria violenta e renovada. Ela estava vestindo um robe-de-chambre, a gola da camisola aparecendo por cima da lapela,
branca e suavemente feminina. Os cabelos estavam escovados e caam sobre os ombros, longos e sedosos, convidando-o ao toque. Ele a queria com tamanha intensidade
que no se lembrava de ter tido tanto desejo por outra mulher.
- Eu s desci para pegar um livro - respondeu Miranda. - Vi a luz acesa, e pensei em ver o que estava fazendo.
-Jogando dados, uma das mos contra a outra. A esquerda tem uma sorte assombrosa. - O modo como os olhos dele
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percorreram seu corpo fizeram com que Miranda se desse conta de que estava usando apenas um robe sobre a camisola muito fina, que a estilista em Londres fizera para
usar na lua-de-mel. - Voc est acordada at to tarde.
- Nem to tarde assim. Todos se retiraram cedo, depois que o vigrio e a esposa foram embora. O mdico tambm,  claro.
- Estou certo de que voc ficou relutante em ver o mdico ir embora - disse Devin, sarcasticamente, esvaziando o copo e pegando a garrafa para servir-se de outra
dose.
Miranda observou-o enquanto o fazia. Sua mo estava ligeiramente trmula.
- Voc esteve aqui, bebendo, durante todo esse tempo? - perguntou ela.
Devin deu de ombros.
- Mais ou menos.
- Por qu? Por que saiu da festa?
- Da festa?  assim que voc chama aquilo? Parecia-me to animado quanto um funeral. Obviamente, eu no fui convidado  conversa fascinante do bom doutor.
Miranda olhou para ele, surpresa.
- O que foi que disse?
- O mdico. No tive o prazer de conversar com ele a noite inteira, como voc teve.
- No se pode dizer que foi um prazer - Miranda comeou, pronta para compartilhar com ele o que realmente sentia, mas Devin a interrompeu.
- Com certeza, parecia muito prazeroso. - Ele olhou para Miranda, um brilho raivoso ardendo em seus olhos.-Voc estava interessada em cada palavra que ele dizia.
As sobrancelhas de Miranda arquearam, mas no falou nada
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que o contradissesse. Devin parecia estar com cime. Ela no achou a idia nada desagradvel.
- Ele estava me contando sobre seus pacientes - disse ela, dizendo a verdade com cuidado.
- Ento era isso? Achei que talvez voc estivesse combinando um encontro.
- O qu? Vamos, Dev, isso est indo longe demais.
- No acho que tenha ido longe o suficiente - disse Devin com uma voz sedosa e, por algum motivo, assustadora. Ele levantou-se devagar e inclinou-se para a frente
por cima da escrivaninha, apoiando-se nos punhos. - Diga-me, ele ser sua primeira aventura? Devo dizer que acharia o mdico local uma opo prxima demais de casa.
Voc no acha?
- Na verdade, no cheguei a pensar nisso - respondeu Miranda, sendo sincera.
-  desse tipo que voc gosta? - continuou ele, com a mesma voz calma, implacvel. Ele empurrou a cadeira para trs e saiu de trs da escrivaninha. - Um cidado
sbrio, diligente? Algum capaz de fascin-la com as histrias de suas boas aes?
- Ele realmente passa os dias em tarefas mais frutferas do que bebendo e jogando dados - retorquiu Miranda, com um toque de aspereza na voz. A proximidade dele
a deixou ligeiramente sem flego, mas no permitiria que ele percebesse isso.
Devin riu, sem humor.
- Ah, minha cara esposa. Ento voc o escolheu como primeira incurso fora do casamento. Bem, boa sorte. Aposto que  to enfadonho na cama como o  fora dela.
- Voc acha? Bem, suponho que terei de descobrir, certo?
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A mo de Devin voou e segurou o brao dela, cravando-se dolorosamente nele.
- No, voc no vai, senhora!
- O que foi que disse? Est me dizendo quem eu posso ou no posso ver?
- Estou dizendo que voc no vai para a cama com aquele homem estpido bem debaixo do meu nariz. - Os olhos dele flamejaram, em um verde iluminado por sua fria.
- No vai me fazer de bobo, madame. Voc pode achar que est no comando por causa de sua bolsa cheia de dinheiro, mas no vai fazer isso.
Miranda no pde evitar a excitao com o calor do sentimento nos olhos dele, ainda que pudesse se indignar com o tom autoritrio. No tinha qualquer inteno, 
claro, de fazer nada com o dr. Brovming, exceto fugir de sua conversa da prxima vez em que o visse, mas no ia deixar que Devin soubesse disso.
- Voc est mandando em mim?
- Estou, sim - respondeu Devin, chegando mais perto e passando a mo no pescoo dela. Sentiu a pele macia e sedosa na palma da mo, e a intensidade de seu desejo
o abalou. - No deixarei que ele a toque. Voc entendeu?
A respirao de Miranda estava irregular, os pensamentos dispersos. Toda sua percepo estava focada naquela parte do corpo na qual jazia a mo dele, queimando-a
com sua intensidade.
- Entendo que voc est quebrando nosso acordo.
- Pro inferno com nosso acordo! Voc acha, realmente, que eu permitiria que voc dormisse com outro homem? Voc acha que eu seria assim to baixo? To fraco?
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- O que devo fazer: ento? - perguntou Miranda, calmamente.
- Isso - respondeu ele, enquanto introduzia a mo furtivamente por baixo da gola do robe e sua boca tocava a dela.
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Captulo 14

Ele a beijava com voracidade. Sua mo causava um ardor na pele dela ao roar o alto dos seios. A gola do robe impedia seus progressos. Ento fechou a mo, segurando-o,
puxou-o para baixo e o tecido fino cedeu com o som de rasgado. Devin encaixou a mo no seio exposto pelo rasgo, gesto que arrancou um murmrio dos lbios dela. Ele
trocou a inclinao de sua boca na dela, pressionando os lbios ainda mais, a lngua explorando a boca de Miranda. Com uma suavidade contrria  maneira violenta
com que seus lbios a consumiam, acariciou-lhe o seio com os dedos, pressionando-o e alisando-o, encontrando o mamilo e provocando-o com a ponta dos dedos, at que
endureceu.
- Miranda... - Ele sussurrou seu nome quando seus lbios se separaram e percorreu com a boca o caminho da face at a orelha. - Deixe-me... por favor, posso mostrar-lhe
como pode ser bom. - Ele pegou o lbulo da orelha entre os dentes e o mordiscou, enviando pontadas de calor por todo o corpo de Miranda.
Sua boca moveu-se para baixo. Todo lugar em que tocava parecia incendiar-se. Miranda tremeu, soltando-se no brao dele, duro como o ferro, em suas costas.
- Dev...
Ao ouvir seu apelido da boca de Miranda, Devin sentiu um tremor de desejo pelo corpo. Havia um tom de intimidade ali,
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uma afeio, que nunca acreditou que Miranda sentia por ele. Desatou-lhe a faixa do robe e abriu-o, deslizando as mos por dentro dele, puxando Miranda para cima
e de encontro a seu corpo. Ela estava entregue, os mamilos tesos de desejo. Devin percorreu as costas e os quadris dela com as mos, apertando as ndegas com os
dedos e pressionando-a de encontro a seu membro intumescido.
O fogo lambeu em suas veias, fazendo com que o calor se irradiasse por eles. Miranda chegou os quadris para a frente, consciente apenas de uma necessidade profunda
e primitiva de faz-lo. A respirao dele fremiu. Ele mordiscou suavemente a juno entre o pescoo e o ombro de Miranda, provocando-a com a mordida e depois lambendo-a.
Devin envolveu-a com o brao, levantando-a e virando-se para carreg-la de volta para a escrivaninha. Instintivamente, Miranda enlaou as pernas na cintura dele.
Sentou-a na mesa, jogando no cho tudo o que havia ali em cima e apoiando as costas de Miranda nela. O corpo de Devin estava deliciosamente duro e pesado sobre o
seu, a marca de sua paixo queimando em seu abdmen. Ele ps as mos sob os seios dela, os polegares acariciando os mamilos. Dev olhou-a por um instante, apreendendo
o modo como seus olhos obscureciam com paixo e seu rosto tornava-se suave e doce quando suas mos a acariciavam.
Dev inclinou-se e beijou um dos mamilos, em seguida passou a lngua em torno dele, fazendo um crculo vagaroso, provocante. Miranda arqueou o corpo, gemendo. Aquilo
abalou seu controle quase a ponto de perd-lo. Ele parou por um instante, lutando contra a onda de desejo.
Olhando diretamente nos olhos dela, perguntou:
- No  isso o que voc quer? Isso no  o suficiente para voc?
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Naquele momento, era, Miranda sabia, mas ela conseguiu reunir o resto de seu autocontrole e disse:
-  o suficiente para voc?
Ele ficou tenso, os olhos ainda presos nela.
- O qu?
- Voc est dizendo que quer ser meu marido de fato?
- Sim.
- Ns dois inteiramente fiis um ao outro?
Ele quase disse sim, mas pensou em Leona. A expresso de seu rosto mudou subitamente. Miranda deixou escapar um suspiro.
- Ah. Entendo. Eu serei fiel. Voc no.
Ela sentou-se, ele deu um passo atrs, sem impedi-la, ainda que sentisse uma vontade quase incontrolvel de empurr-la de volta  mesa e possu-la ali mesmo. Miranda
puxou as laterais do robe e amarrou a faixa com firmeza.
- Acho que devemos nos ater a nosso acordo atual - disse ela, e saiu do cmodo, tomando cuidado para no ceder e sair correndo.
Na manh seguinte, tio Rupert desceu mais cedo do que o normal para o caf-da-manh e anunciou que era hora de levar Miranda ao tour que lhe prometera.
- Voc j est aqui h uma semana e no conheceu quase nada da propriedade, s a vila e algumas fazendas ao redor da casa. Ns poderamos cavalgar  margem do rio
- disse ele. - Um lindo lugar, no acha, Dev? Depois da nossa noite infrutfera de ontem, merecemos um agrado.
- Parece uma tima idia - disse Miranda. Teria preferido ficar e trabalhar em uma das mltiplas tarefas que devia
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realizar, mas sentia que precisava fazer um esforo extra no que dizia respeito ao tio de Devin, cujos sentimentos, suspeitava, tinham sido levemente feridos por
ter sido retirado da administrao da propriedade.
- O que voc me diz, Joseph? - continuou ele, virando-se para o sr. Upshaw. - E voc, Dev? E,  claro, qualquer pessoa que queira vir...
Michael e Elizabeth, que tambm estavam l, fizeram que no com a cabea, mas Joseph ficou ansioso por ir, e Devin foi quase to rpido quanto ele ao concordar.
- Direi ao cozinheiro que prepare uma cesta de piquenique para o almoo - continuou Rupert. - Podemos parar em Chasenford.  lindo l.
Eles combinaram de se encontrar um pouco antes das 11, horrio do qual saram do ptio dos estbulos em direo ao rio Dove. Muito do que Miranda vira da regio
consistia em vistas magnficas de pntanos ou montanhas onduladas, majestosas e verdes, e quase sem rvores. No estava preparada para a viso do rio quando percorreram
o caminho sinuoso at ele, que corria tortuosamente raso e vagaroso na base de altos penhascos brancos de calcrio. Estes se erguiam em uma superfcie abrupta, assombrosa,
com alguns buracos que Dev explicou serem as entradas para cavernas que se perdiam pela rocha porosa. O rio estreito era contornado com margens gramadas, pontuadas
por grandes pedaos de rocha calcria. lamos e freixos graciosos cresciam ao longo de sua borda, projetando sombras pela gua verde-escura. Era um lugar adorvel,
pacfico e sossegado, exceto por sua presena.
Como as margens eram estreitas, dividiram-se em pares para cavalgar ao longo dela. Dev foi  frente para conversar com
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o tio. Joseph seguia ao lado de Miranda, apontando com entusiasmo para todas as coisas bonitas que viam. E foram ficando gradualmente para trs.
Miranda estava observando Devin, sem prestar muita ateno no que o pai fazia. Joseph virou-se para olhar para cima, para o penhasco erguido acima deles, e uma expresso
de horror estampou-se de repente em seu rosto.
- Cuidado! - gritou ele, esporeando o cavalo  frente e se esticando para bater no flanco do cavalo da filha.
Miranda virou-se surpresa quando o cavalo pulou para a frente. Um instante depois, to prximo que pde at sentir o ar deslocado pela queda, um grande pedao de
calcrio colidiu contra o cho atrs dela. O barulho fez com que seu cavalo se assustasse e sasse em desabalada carreira, desequilibrando Miranda e fazendo-a cair
no cho, de costas, deixando-a sem ar.
Ficou deitada no solo, olhando para o cu, lutando para respirar, tentando assimilar o que acabara de acontecer. Ouviu gritos vindos de sua frente, depois o som
do tropel dos cavalos. Um instante depois, Devin surgiu sobre ela. Ajoelhou-se a seu lado, o rosto marcado pelo medo.
- Miranda! Meu Deus, o que aconteceu? Voc est bem? - Ele a suspendeu em seus braos, segurando-a de encontro ao trax. Miranda podia sentir o tremor do corpo dele.
Por fim, e felizmente, seus pulmes relaxaram e o ar voltou a circular. Ela fez que sim com a cabea, um tanto incerta, sussurrando:
- Acho que sim.
- Aquela pedra quase a matou. Se voc tivesse se demorado um segundo a mais...
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- Papai...?
- Ele est bem. Est apenas tentando controlar seu cavalo. Tio Rupert foi atrs da gua. - Ele passou a mo pelas costas de Miranda, para cima e para baixo. - Diabos!
Voc poderia ter morrido.
- Miranda! - Ela virou a cabea e viu o pai trotando pela margem na direo deles, conduzindo seu cavalo. - Voc est bem? Por Deus, quando olhei para cima e vi
aquela pedra despencando... - Ele ajoelhou-se tambm, sem a mesma agilidade, ao lado da filha.
- Voc salvou minha vida.
Os braos de Devin a apertaram ainda mais. Ela sentiu o beijo dele em seu cabelo. Miranda ainda estava tremendo, e agarrou-se a Devin.
Tio Rupert veio at eles conduzindo a gua de Miranda e desmontou rapidamente, aproximando-se do grupo.
- Ela est bem? - Seu olhar passou de Miranda para a grande pedra que agora jazia na margem achatada atrs deles, partida em dois pela fora da queda.
- Meu Deus! Foi aquilo que quase a atingiu? Que milagre voc no ter morrido! Esse  o problema com o calcrio. Ele quebra e cai. Mas isso s costuma acontecer depois
de muita chuva. Nunca teria imaginado... Peo desculpas. Sinto muito mesmo. Nunca deveria t-la trazido para este lado.
- Voc no tinha como saber - disse Joseph, rangendo ao levantar-se. - Graas a Deus, Elizabeth no estava conosco. Ela estaria histrica agora.
- Acho que estou perto disso - disse Miranda, ensaiando um sorriso,
Devin emitiu um som bruto.
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- Voc no reconheceria uma histeria se a visse. Meu corao est prestes a pular do peito e voc est to controlada.
- Bem, estou viva. Vejamos se consigo ficar de p, Devin levantou-se, colocando-a de p, o brao ainda em volta de seu corpo para dar-lhe firmeza. Sentia-se bem
daquela forma, pensou Miranda, e demorou-se um pouco mais do que o necessrio antes de se afastar e de bater a terra da roupa de montaria.
- Vamos voltar para casa agora - disse tio Rupert, comeando a montar.
- No por mim - protestou Miranda. - Estou bem, de verdade. O pior que aconteceu comigo foi ter sido lanada do cavalo, e isso j me aconteceu antes. No quebrei
nenhum osso. Perdi o flego por um momento, mas j estou respirando normalmente. No h motivo para encurtar nossa expedio por causa de um pequeno acidente.
- Um pequeno acidente! - exclamou tio Rupert, encarando-a com os olhos arregalados.
- J lhe disse, tio, ela no  como as outras mulheres - disse Devin, com um tom de voz risonho, - Miranda, no h necessidade de continuarmos. No  importante.
- Tambm no h motivo para voltarmos - argumentou Miranda. - Temos nosso almoo... a menos que o cavalo do cavalario tenha desembestado tambm.
- No, ele est aqui - disse Rupert, com um tom desanimado na voz. - A comida tambm.
- Bem, eu gostaria de terminar o tour. Acho muito improvvel que outra pedra caia sobre ns, no ?
- Bem, acho que sim.
- Bom. - Miranda tirou a terra da blusa. - Ento, vamos continuar.
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Continuaram at a curva do rio, um cenrio verdejante e idlico, onde sentaram-se para almoar. Tio Rupert e seu pai engajaram-se em uma discusso sobre as propriedades
do calcrio, uma das quais aparentemente era ser quebrvel. Miranda mal ouvia, contente de estar sentada, beliscando sua comida e deixando que os nervos se acalmassem.
O fato de Devin estar a seu lado ajudava.
- E pensar que eu achava Londres perigosa... - disse ela, delicadamente.
Devin virou-se e olhou para ela, os olhos semicerrados.
- O que quer dizer com isso?
- Bem, dois acidentes desde que me mudei para c. No consigo me lembrar de quando fui to exposta a acidentes antes.
- Entendo. - Ele balanou a cabea, analisando a expresso dela. - Qual seria o motivo disso, na sua opinio?
Miranda deu de ombros.
- No tenho certeza. Da primeira vez, tenho de admitir, no fui cuidadosa. Apoiei-me num corrimo de madeira apesar de saber que a maior parte da madeira da casa
fora comida pelos cupins. Esse foi um erro tolo e impulsivo. Mas hoje... no consigo imaginar como poderia ter evitado a queda de uma rocha. Voc acha que eu deveria
estar prestando mais ateno s coisas?
- Graas a Deus seu pai viu a pedra a tempo. No vejo como voc poderia t-la evitado, exceto permanecendo atenta a tudo. Calcrios se soltam e caem periodicamente.
 sempre prudente no ficar muito perto de suas bordas, acho.
- No acredito em sinais ou pressgios, ou de estar sob uma mar de azar, ou o que quer que se chame... mas isso  muito estranho.
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- Bem, o mais seguro  tomar todo o cuidado possvel - disse ele, com um sorriso relaxado. - S para o caso de haver alguma nuvem malvola pairando sobre ns. Olhe
sempre antes de dar um passo  frente. Darkwater  velha e est ruindo de vrias maneiras. E antes que seja restaurada,  provvel haver muitas oportunidades para
acidentes. Voc precisa ser cuidadosa. Se sair para cavalgar com Vernica ou sozinha, s v se eu for junto, ou seu pai, ou tio Rupert. Ou um cavalario, se no
houver ningum disponvel.
Ela olhou para Devin de um jeito estranho.
- Voc parece estar falando muito srio.
- Estou falando srio. Voc poderia ter morrido hoje. Prometa-me que vai tomar um cuidado extra.
Miranda sentiu-se muito bem ao pensar que Devin estava preocupado com ela.
- Tudo bem - concordou, sorrindo. - Prometo que serei cuidadosa.
Quando Miranda foi para a cama naquela noite, j se acalmara. Tivera medo de ser difcil pegar no sono ou de ter pesadelos como resultado do acidente, mas a verdade
 que adormeceu muito rpido e continuou dormindo tranqilamente at o meio da noite.
E ento, de repente, voltou  conscincia no escuro, os olhos se abrindo, o corao disparando. No sabia ao certo o que a acordara. Ficou deitada por um instante,
ouvindo e olhando em torno. Ento ouviu um grito e deduziu que fora algo assim que devia t-la acordado.
Um grito de homem veio de trs da porta que ligava seu quarto ao de Dev.
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- No!
Miranda saltou da cama, impelida pelo tom de urgncia e horror naquela voz. Atravessou o quarto correndo, sem nem mesmo parar para colocar o robe ou as sandlias,
e abriu a porta.
O quarto de Dev estava escuro, mas a luz da lua penetrava pelas cortinas o suficiente para que vislumbrasse os contornos de Dev na cama. Ele estava se mexendo, inquieto,
os lenis emaranhados nele. Miranda correu para seu lado. Ainda estava dormindo, mas obviamente no meio de um pesadelo. Ele gemia, o rosto contorcido e suando,
e estirou a mo de repente, fazendo-a pular.
Ela segurou a mo dele com as suas e disse:
- Devin, Devin, acorde!
Os olhos dele se abriram, e, por um instante, ele olhou para ela sem foc-la, o peito subindo e descendo em uma respirao arfante.
- Devin, sou eu, Miranda. Acorde. Voc est tendo um pesadelo.
Seus olhos mudaram e conseguiram se focar. Olhou para ela, e um longo tremor percorreu seu corpo.
- Miranda? O que voc...?
Ele sentou-se atordoado, apoiando as costas na enorme cabeceira. Miranda sentou-se na cama a seu lado, ainda segurando sua mo.
- Voc estava tendo um pesadelo. E me despertou.
- Oh. - Ele passou a mo no rosto. - Entendi. Desculpe-me.
- No precisa se desculpar. - Ela sorriu. - Todos ns temos pesadelos de vez em quando. Voc est bem?
Ele anuiu com a cabea.
- Sim. Eu... S estou um pouco desorientado.
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- Com o que estava sonhando? Devin deu de ombros.
- Tenho esse pesadelo com freqncia. ... - Ele passou a mo no cabelo e suspirou. - Estava sonhando com uma garota que matei.
Miranda encarou-o, assombrada.
- O que foi que disse?
- Bem, eu no a matei, literalmente. No peguei uma faca e transpassei seu corao, mas  como se o tivesse feito. Ela se matou por minha causa.
- Oh! - Miranda lembrou-se do senhor que praguejara contra Devin em sua casa em Londres e da triste histria que contara. Obviamente, ele no era o nico assombrado
pelo incidente. - O que aconteceu?
- Eu a seduzi - disse Devin, com desprezo na voz. - Eu estava em Brighton, fugindo de meus credores, acho. E conheci Constance. Achei que era uma mulher experiente.
Era amiga de Leona, mais velha do que a maioria das outras garotas. Eu deduzi... bem, nunca imaginei que fosse uma donzela. Era bonita, e eu a quis. Leona estava
brincando comigo naquela poca... me provocando e jogando a isca e depois fingindo desinteresse.
Fez uma pausa e olhou para Miranda, sentindo-se culpado.
- Peo-lhe desculpas. Esse no  o tipo de coisa que deveria estar dizendo a voc.
- Por que no? Sou sua esposa.
- No  uma conversa apropriada para uma dama.
- Ah, mas voc se esquece de que no sou uma dama de verdade. Por favor, continue. Quero ouvir o que aconteceu.
Ele fez que sim com a cabea e recomeou, desviando o olhar para outro lado.
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- Eu estava me sentindo frustrado, ela estava l e era atraente. E eu a desejava. Desisti de Leona. Pensei que nunca a teria de novo. Oh, diabos, meus motivos eram
ainda mais baixos... Eu esperava, no fundo, que se escolhesse outra mulher, isso faria com que Leona me notasse. Faria com que percebesse que estava perdendo sua
chance. Ento, cortejei Constance. Eu a seduzi. Achei... achei que ela entendia o jogo, que ela havia feito isso antes. At que se deitou comigo. Foi ento,  claro,
que percebi o erro que cometera. Eu deveria ter parado ali, mas no o fiz. - A boca dele se contorceu. - Era muito mais fcil ceder ao prazer. A Leona veio a mim.
Meu esquema funcionou, suponho. Ela me queria, e eu parei de ver Constance. Mais uma evidncia da minha fraqueza. Um homem honrado a teria pedido em casamento, por
ter tirado a virgindade de uma garota virtuosa. Mas eu, no. Tudo em que pensava, tudo o que via ou sentia, era Leona.
Miranda sentiu um aperto no corao ao ouvir o relato da paixo dele por Leona, mas deixou esse sentimento de lado. A dor de Devin era mais importante agora.
- Ento, certa manh, Leona levou-me uma carta. Ela fora visitar Constance, mas esta havia desaparecido. - Ele fez uma pausa, dando um suspiro trmulo, e seu olhar
encontrou o de Miranda, marcado pela angstia. - Ela dizia que estava grvida e que no conseguiria viver com essa vergonha. Escreveu que iria atirar-se no mar e
poupar a si e ao beb da vergonha de ter nascido fora do casamento.
- Oh, no! - Miranda apertou a mo dele. - Que horror. Ele anuiu com a cabea, uma expresso grave no rosto.
- Fui correndo at l como um louco, mas ela no estava, como Leona dissera. Eles a procuraram, mas nunca encontraram
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o corpo. S acharam o local nas pedras em que havia tirado o xale e os sapatos. Seu av ficou desolado. Quase enlouqueceu de pesar. Ele me culpou,  claro. Todos
me culparam. Leona foi a nica que ficou ao meu lado. No sei o que teria feito sem ela. Esse foi o escndalo que provocou a ruptura final com meu pai. Ele disse
que havia perdoado muitos dos meus pecados antes, mas no podia perdoar o fato de eu ter seduzido uma garota inocente e t-la levado  morte.
- Como ele pode t-lo culpado sozinho? - perguntou Miranda, levando a mo dele ao peito e aconchegando-a. - Voc no era a nica pessoa envolvida. Constance tambm
foi responsvel pelo que aconteceu.
- Por que ela no me procurou?-As palavras saram repletas da dor de tantos anos. - Eu no teria virado as costas para ela. Eu no a amava, mas teria cumprido meu
dever se soubesse que estava grvida. Teria me casado com ela. Juro que teria.
-  claro que teria - concordou Miranda, com firmeza. - Seu pai no o conhecia direito, ou saberia disso.
- Ele foi apenas mais um dos que acreditaram na minha culpa - disse Devin, arrasado. - As coisas que eu tinha feito, o tipo de homem que eu era... todos acharam
muito fcil acreditar que teria agido como um canalha. Obviamente, Constance no pensou nem por um instante que eu teria feito a coisa certa e mais honrada. - O
canto de sua boca arqueou-se numa tentativa de sorriso. - Agora voc sabe com que tipo de homem se casou.
- Eu j conhecia o tipo de homem com quem me casei - respondeu Miranda. - E isso no muda minha opinio. Voc cometeu erros... quem de ns no os comete? Mas voc
no  uma pessoa m.
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- No sei como suporta olhar para mim. s vezes, no consigo nem olhar para mim mesmo, no espelho.
Num impulso, Miranda se inclinou para a frente e pegou Devin em seus braos, encostando a cabea na dele e abraando-o.
- No h por que continuar se martirizando por isso. O que voc fez foi errado, sem dvida, mas voc no estava sozinho. No a forou. Constance era uma mulher feita,
mais velha do que a maioria das mulheres, voc disse. Sabia o que estava fazendo e o que poderia acontecer. Tambm poderia ter contado a voc. Nem lhe deu a chance
de fazer a coisa certa. Ela deveria ter ido at voc. No mnimo, devia isso ao beb. E ainda havia o av. Poderia ter ido at ele para buscar ajuda. Em vez disso,
decidiu matar a si e  criana. Isso no  uma atitude de uma mulher s. Voc no pode se culpar por ela ter agido como uma pessoa desequilibrada. Voc no merece
o fardo dessa culpa individualmente.
Devin deu-lhe um abrao apertado, enfiando o rosto no cabelo dela.
- Voc  uma mulher fora do comum, Miranda. Poucas saberiam perdoar assim.
- De que eu tenho de perdo-lo? - Miranda ponderou. - Isso no diz respeito a mim. Isso  entre voc e Deus, e acho que voc j se puniu mais do que deveria por
todos esses anos.
Eles ficaram sentados assim por um bom tempo, abraados, e Miranda pde sentir o corpo tenso dele relaxar conforme a dor se esvaa. Aos poucos, percebeu a intimidade
da posio em que estavam, naquele abrao apertado, sentados na cama dele. Estava s de camisola, uma barreira tnue entre o peito nu dele e sua prpria pele. Aquela
ternura entre eles comeou a mudar e esquentou. De repente, o que havia sido
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apenas consolo e solidariedade agora estava carregado de sexualidade.
Miranda soltou Devin e afastou-se rapidamente. Olhou para ele e viu, refletida em seus olhos, a mesma conscincia da situao. A face dela ruborizou. No tinha reparado
at aquele momento que Devin estava vestido com pouca roupa. Acima do lenol, seu peito estava nu. Miranda no estava acostumada a ver trax desnudos de homens,
e no pde evitar que seus olhos percorressem aquela pele morena e musculosa. Teve de fechar as mos para conseguir resistir ao forte desejo de estend-las e tocar
a estrutura ressaltada dos ombros e da clavcula, os msculos acentuados dos braos.
Ela limpou a garganta.
- Bem, arr... Devo voltar para a cama agora.
-Miranda... - Ele colocou a mo no brao dela. Passou o polegar pela pele, tentando encontrar as palavras certas. Com um suspiro, soltou-a e balanou a cabea. -
Nada no. Obrigado. Foi um ato muito bondoso de sua parte vir aqui para me ajudar.
- No foi nada. Boa noite.
Miranda saiu da cama e atravessou o quarto, passando pela porta que levava ao seu. Mas quando fechou a porta atrs de si, no a trancou.
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Captulo 15

Miranda e Devin estavam na biblioteca no dia seguinte, ela debruada em mapas antigos da propriedade e ele contemplando o caimento daquele vestido sobre os quadris
quando se esticava sobre a mesa, no momento em que um dos lacaios entrou.
- Minha senhora, um pacote chegou em seu nome. Um pacote grande, de Londres. A senhora disse que era para avis-la...
- Sim,  claro. - Miranda endireitou-se, os olhos brilharam e um sorriso largo brotou em sua boca. - Traga-o.
Ela virou-se para Devin, animada. Estavam sozinhos no cmodo, para variar. O pai e o paisagista estavam do lado de fora andando pelo jardim devastado, o arquiteto
estava no andar de cima fazendo suas anotaes e Hiram repassava os livros de registro da contabilidade com Strong no escritrio deste. Devin no pde controlar
um sorriso ao ver a alegria no rosto de Miranda; era contagiante. Mas no conseguia imaginar que tipo de pacote a teria deixado to excitada.
- O que ? Vestidos de Londres?
- No. Melhor que isso. Pelo menos, espero que sim. Espero que voc goste.  meu presente de casamento.
- Seu presente de casamento? Mas voc j me deu um. - Sua mo foi automaticamente para o alfinete de ouro com rubi em sua gravata, parte de um conjunto com abotoaduras
que lhe dera no dia do casamento.
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- Sim, mas isso foi diferente. Foi um presente formal. Um... sei l, algo que voc j esperava. Este  meu presente pessoal.
Intrigado, ele levantou-se quando o lacaio entrou, quase escondido pela enorme caixa que carregava. Com cuidado, o criado colocou-a no cho e saiu do cmodo, fechando
a porta. Devin olhou para Miranda.
- V em frente - disse ela. - Abra. Se no gostar, prometo que no vou chorar.  s um presente de... de possibilidade.
- Srio. - Ele cortou a fita que amarrava o pacote e abriu a caixa. Ficou parado, olhando para os objetos dentro dela. Virou-se para Miranda com uma expresso interrogativa,
e ento botou a mo dentro da caixa, puxando um cavalete. Indo mais fundo com a mo, tirou uma caixa de madeira contendo tubos de tinta e potes de vidro para botar
as tintas depois de misturadas, e ento uma paleta, uma caixa de pincis, blocos de papel, uma caixa de lpis de carvo, garrafas de terebintina e leo de linhaa,
at que, por fim, a mesa da biblioteca estava quase inteiramente coberta com materiais de pintura.
Devin ficou em p olhando para os itens na mesa. Passou os dedos em um tubo de tinta, tocou os plos macios de um pincel. Miranda esperou, observando-o, imaginando
o que estaria pensando.
- Voc no precisa us-los se no quiser - disse ela, por fim. - S achei... que voc devia sentir falta. Durante sua estada aqui, poderia querer pintar. Pelo menos
para passar o tempo.
Devin virou-se e olhou para Miranda, balanando a cabea, perplexo.
- Como soube? Quero dizer... J faz tempo que parei.
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- Vi seu trabalho na casa de sua irm - Miranda explicou. - Ela me contou que voc era um artista.
Ele fez uma careta.
- Eu lambuzava.
- No. Voc  muito talentoso. Vi suas pinturas. Sua utilizao da luz, das cores... - Seu tom de voz se modificou um pouco por causa da excitao. - No acreditei
quando as vi. Percebi, ento, que voc no era s aquilo que aparentava ser.
- Um perdulrio, voc quer dizer?
- Bem, para ser franca, sim. Devin sorriu, levemente.
- Sempre se pode contar com voc quando se trata de ser honesta.
Ele olhou novamente para as coisas em cima da mesa.
- No acredito... No sei se sou capaz de fazer isso de novo. J faz alguns anos. Perdi o interesse.
- Voc pode estar enferrujado, mas no creio que seu talento tenha morrido. Ainda est a. - Miranda fez uma pausa e depois continuou: - Rachel me mostrou o cmodo
na ala oeste, o que voc usava para pintar. J cuidei para que fosse limpo. Voc pode us-lo novamente.
- Ali h uma boa iluminao  tarde - concordou ele, despretensiosamente. Mesmo quando tentara fazer um esboo do rosto de Miranda, no considerara de verdade a
possibilidade de pintar seu retrato. Assumira que jamais pintaria de novo. Mas, agora, de repente, ficou tentado com a idia. Recordou o cheiro das tintas, a sensao
do toque dos pincis nos dedos, o modo como a luz entrava pelas janelas do cmodo. Pensou mais uma vez nos esboos do rosto de Miranda que fizera em segredo.
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- Por que voc comprou isso tudo? - perguntou. - Digo, por que se importa?
- Odeio ver um talento desperdiado, e acho que voc tem um talento enorme. E pensei que poderia... encontrar algo que perdeu.
Eles ficaram se entreolhando por um bom tempo. Por fim, ele disse:
- Se eu decidir pintar, voc posaria para mim? Miranda arregalou ligeiramente os olhos, surpresa. Mas disse apenas:
- Sim. Eu posaria.
- Ento talvez eu pinte.
Devin no achava que iria retomar a pintura. Perdera o hbito h muitos anos, como o pai esperara que fizesse. Aqueles utenslios foram um gesto gentil por parte
de Miranda e que o haviam sensibilizado muito, mas no tinha certeza se queria us-los.
No entanto, mais tarde naquele mesmo dia, pegou-se indo em direo ao cmodo que Miranda mencionara, o cmodo amplo, arejado e bem iluminado pelo sol que fora seu
estdio quando ainda morava naquela casa. Estava limpo, como mencionou Miranda, e todos os utenslios haviam sido carregados para l e arrumados em uma mesa velha
manchada de tinta. A moblia ali era mnima - alm da mesa, havia apenas uma cadeira, um banco e um sof desbotado.
Devin foi at a caixa e abriu-a novamente, tirando os tubos de tinta um por um e dispondo-os na mesa, acrescentando os pequenos vidros. Se fosse pintar, misturaria
as tintas com o leo de linhaa e as colocaria nos vidros. Ento pensou
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na mistura dos leos na paleta, nas cores que combinaria, em que tons usaria para obter a cor exata do cabelo de Miranda. Que combinao de branco e preto seria
necessria para atingir o cinza dos olhos dela... e como adicionar-lhes o toque de prata.
Quase sem pensar, abriu a tampa de um dos tubos e apertou um pouco de tinta para dentro de um dos vidros...
J haviam se passado quatro horas quando um dos criados finalmente o encontrou, de p no estdio, lampies acesos em volta dele, sem a casaca e com a camisa branca
manchada e borrada de tinta.
- Ah, meu senhor... lady Ravenscar enviou-me para encontr-lo - disse o lacaio, meio receoso, nunca tendo visto o elegante conde em tal estado antes. Ele o vira
um pouco embriagado,  claro, os botes nas casas erradas ou desabotoados, a gravata amassada e desarrumada. Mas como s trabalhava ali h cinco anos, nunca o vira
com uma mancha marrom na parte de trs da mo e outra de cor cinza na face. Nem com aquele olhar diferente e distante, do tipo que olha e no v.
- O qu? - O conde franziu o cenho. - Miranda?
- No, meu senhor. A viva lady Ravenscar.
- Ah. Por qu?
- J passou da hora do jantar, senhor. Os outros esto prontos para sentar  mesa.
- Ah. Diga-lhes que continuem. Traga meu jantar aqui em cima, em uma bandeja. E traga-me mais lampies. A luz est muito fraca aqui dentro.
O lacaio viu pouco sentido em argumentar que j era noite e que havia pouca probabilidade de se obter uma boa iluminao. Conclura h muito que a aristocracia era
toda louca,
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e essa ltima viso do conde de Ravenscar somente confirmou sua opinio.
Quando o lacaio repassou a informao para lady Ravenscar, ela congelou.
- No devemos esperar por ele. Pelo menos... - Virou-se para Miranda, dando-se conta de que ela era agora a dona da casa - isso  o que eu recomendaria, Miranda.
- Sim. Imagino que esteja certa. - Mas Miranda, ao contrrio da sogra, sorriu ao diz-lo, e o olhar que trocou com Rachel trazia um qu de prazer triunfante.
Devin pintou durante a maior parte da noite, indo para a cama exausto e descontente por suas habilidades estarem enferrujadas. Jamais recuperaria a destreza com
que pintava antes, pensou, embora soubesse que continuaria tentando.
Na manh seguinte, quando acordou, estava se sentindo menos desesperanado e, dando uma nova olhada no que fizera  luz do dia, pensou que, mesmo no sendo digno
de ser guardada, a pintura pelo menos no estava to horrvel quanto parecera na noite anterior.
Desceu para a biblioteca, onde encontrou Miranda em uma discusso sobre nmeros com Hiram Baldwin. Devin estava ficando mais e mais aflito com sua incapacidade de
reproduzir o rosto dela da forma exata. Foi ento que lhe lembrou de que ela prometera posar para ele. Miranda levantou-se, sorrindo, e acompanhou-o sem um murmrio
sequer de desacordo, deixando Hiram suspirar e voltar sozinho para o problema que o estava incomodando.
Durante o curso dos poucos dias que se seguiram, Devin ficou fechado em seu estdio a maior parte do dia. Miranda posava para ele duas horas por dia, uma de manh
e outra 
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tarde, o mximo que conseguiria ficar sentada, parada, disse-lhe. O restante do tempo ele praticava com esboos, cores, naturezas-mortas e paisagens - o que lhe
desse vontade. Estava tomado por uma nsia, no como as febres obsessivas que o acometiam com freqncia quando era mais jovem, mas ainda assim uma necessidade de
criar que afastou todas as outras coisas.
Como Miranda soube que essa necessidade ainda vivia nele? Nem ele mesmo sabia disso.
Se parasse para pensar, teria ficado um pouco surpreso ao perceber quo pouco sentia falta da agitao de Londres e dos propsitos aos quais se entregara por tantos
anos. Consumido pela excitao da pintura, pela necessidade de faz-lo, nem se lembrava mais das jogatinas ou das sadas  noite em busca de diverso. At mesmo
o consumo de bebidas foi reduzido com a diminuio do tdio. Surpreendeu-se ao descobrir os prazeres de acordar de manh sem sentir a cabea pesada e sem estar com
o raciocnio nebuloso. Quando queria diverso e animao, os pensamentos voltavam-se naturalmente para Miranda. H alguns meses, teria rido diante da idia de que
uma noite jogando cartas com a esposa e com a irm, ou at mesmo ficar sentado, apenas conversando com ela, seria mais interessante do que uma noite de libertinagem
e bebidas, mas essa era a realidade agora.
Algo que descobriu, no entanto, foi que o desejo sbito de pintar no diminuiu o desejo - que s aumentava - por Miranda. Ele nunca imaginara que seria possvel
ficar duplamente obcecado assim, mas, estranhamente, parecia que os dois desejos se alimentavam um do outro. Pintou o rosto e a silhueta de Miranda na tela, tentando
satisfazer essa necessidade
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que havia dentro dele, tentando desgastar o fascnio do rosto dela, mas, ao faz-lo, acabava olhando para ela - a imagem e a realidade - a maior parte de suas horas
de trabalho.  noite, por mais cansado que estivesse, no conseguia parar de pensar nela, que estava do outro lado da porta, macia e quente, esperando por ele.
Desde aquela noite na biblioteca Devin soube que Miranda deixaria que ele dormisse com ela. Ela no mostrara desinteresse, no fizera nenhuma declarao ponderada
de que era mais sbio seguir vidas separadas. Tudo o que pedira fora sua fidelidade. Se lhe desse isso, sabia que a teria.
Sabia que seria fcil dizer isso. No era como se no houvesse mentido milhares de vezes, como se no houvesse dito a incontveis mulheres que as amava, quando na
verdade mal gostava delas. Mas, de alguma forma, com Miranda, no conseguia mentir. No podia olhar naqueles olhos claros e penetrantes de um tom cinza e dizer algo
que sabia no ser verdade. No momento, tudo o que queria era ela. Mas no sabia se isso ia se manter assim. Uma vez tendo dormido com Miranda, poderia se cansar
dela, como acontecera com qualquer outra mulher que conheceu, exceto Leona.
E como poderia dizer-lhe que seria fiel, quando Leona o esperava? Leona era, no fim das contas, o amor de sua vida. Ele sentiu isso aos 18 anos, e continuou assim
por 14 anos. O estranho desinteresse que sentia por Leona agora era temporrio, tinha certeza. Era algo gerado por sua irritao com ela, por querer que se casasse
com outra, e aumentado por suas obsesses duplas por Miranda e por sua arte. Ele sofria com a culpa por esse desinteresse, no importando o quanto dissesse a si
mesmo que era temporrio. No poderia concordar honestamente
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em desistir dela para ter Miranda. Seria um insulto a Leona, mesmo que nunca soubesse disso. E seria um insulto a Miranda, tambm, dormir com ela motivado por lu-xria,
sabendo que no poderia lhe dar seu corao.
Miranda merecia muito mais que isso. Merecia algum melhor que ele. Ela havia de alguma forma devolvido a ele seu amor pela pintura. Ela o havia consolado, dado
foras a ele. Mesmo com todo o seu jeito estranho e irritante, conseguira conquistar sua afeio. Devin no podia se permitir ser nada menos que o homem que Miranda
pensava que ele era.
Achou particularmente incmodo que suas nobres intenes no fossem to fceis de ser mantidas. Era, na verdade, terrivelmente difcil deitar-se toda noite sabendo
que Miranda estava do outro lado da porta, e que s o seu recm-adquirido senso de honra o impedia de entregar-se aos prazeres do corpo dela. Seria apenas justo,
achava, que fosse de alguma forma mais suportvel abdicar do prazer tendo a conscincia de que estava fazendo a coisa certa.
Em vez disso, todas as noites ficava deitado, desperto, lembrando do gosto dos lbios de Miranda, da doce entrega de seu corpo em seus braos, seu tremor em resposta
s carcias em sua pele. Aquilo crescia, e ficava mais difcil dormir a cada suspiro que dava. Ele se imaginava despindo-a, beijando-a, acariciando-a - e era amaldioado
por uma imaginao sensualmente vvida de artista, de modo que cada pensamento era quase real, exceto pelo fato de no satisfaz-lo.
Durante o dia, ao olhar para ela, posando para seu retrato, os mesmos pensamentos o invadiam, pairando sobre seus dilogos incuos, tingindo sua arte com uma atmosfera
inegvel de sexualidade. Sua respirao se tornava mais pesada e
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rpida; sua pele ficava quente; seu pulso se acelerava. Ele a queria, mas sabia que no poderia se permitir t-la, e essa combinao o estava lentamente levando
 loucura.
A pior noite ocorreu em uma festa oferecida pelo magistrado local, um tipo asctico, magro, de nome Breakthorpe, cuja esposa era o contrrio dele, uma mulher alegre,
gorducha, falante. A festa foi restrita, incluindo mais uma vez o mdico, o vigrio e sua esposa, assim como a famlia Breakthorpe e todos os que estavam hospedados
em Darkwater. No entanto, depois do jantar, quando uma das filhas da anfitri comeou a tocar piano, a sra. Breakthorpe decidiu, depois de uma enorme insistncia
das filhas, permitir que danassem, enquanto Catherine, a mais jovem e serena das Breakthorpe, tocava o piano.
Devin no poderia ter imaginado que a noite acabaria sendo tudo, menos entediante. Em vez disso, passou a ltima hora da noite danando quase exclusivamente com
sua esposa, o que foi a mais pura expresso da combinao de paraso com inferno que jamais vivenciara. Sentia o aroma de rosas com que ela perfumara as tmporas
e o colo; olhava para baixo e via seus seios cremosos, balanando por cima do decote; segurava o corpo dela com os braos e sentia sua pele roando a dele. E sentia
o desejo pulsando, perigosamente.
Por causa da quantidade de pessoas em seu grupo, levaram duas carruagens. A madrasta de Miranda foi para casa mais cedo, queixando-se de dor de cabea, e Joseph
a acompanhou, mas isso fez com que o restante do grupo tivesse de se apertar na outra carruagem quando deixaram o solar. O resultado foi que Miranda acabou sentando
no colo do marido, a perfeita soluo na opinio de todos os outros. Devin, com
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certeza, no podia negar que tinha adorado o trajeto, mas ao final dele, depois de quase 40 minutos da vibrao ruidosa da carruagem, do constante roar das ndegas
de Miranda em seu corpo, do toque e do cheiro dela to prximos, Devin estava enlouquecido e desesperado para satisfazer tal desejo.
Ele sofria. Sua mente s conseguia se fixar nas imagens de Miranda nua e se contorcendo em sua cama. Seus dedos ansiavam em deslizar por aquela pele desnuda. Devin
olhou pela janela, para a noite escura, preso em seu inferno de prazeres particular enquanto as vozes dos outros o rodeavam, ininteligivelmente.
Depois que chegaram em casa, ele foi direto para o estdio, onde tomou duas doses de brandy de um s gole. Aquilo no pareceu ajudar muito, ento subiu as escadas,
cruzando no caminho com a criada de Miranda. Isso significava que Miranda fora despida e estava s de camisola, os cabelos soltos, caindo em suas costas.
Devin recordou a noite em que ela fora a seu quarto, quando tivera o pesadelo; os cabelos estavam soltos, encostando nos ombros, nos seios e nas costas, luxuriantes
e cheios. Ficou excitado s de lembrar. Perguntou-se se a criada teria escovado os cabelos dela tambm, ou se Miranda estaria, naquele exato momento, sentada  penteadeira,
escovando-os em mechas sedosas e longas, lustrosas,  fraca luz das velas. Ele engoliu um gemido baixo ao pensar nisso. Era difcil demais agentar.
Devin foi at o quarto, ainda que sua mo estivesse ansiosa para bater na porta do quarto de Miranda. Tirou a casaca, entregando-a a seu valete, e ento dispensou-o,
dizendo que faria o resto sozinho. No achava que poderia suportar nem
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mais um instante na companhia de outra pessoa. Arrancando a gravata de uma forma que, sabia, faria seu valete tremer, lanou-a sobre o encosto de uma cadeira. Tirou
as abotoaduras e arregaou as mangas, e ento desabotoou a camisa, esperando assim aliviar o calor sufocante. No foi o suficiente.
Andou at a janela e abriu um pouco o postigo, deixando entrar o ar frio da noite. O ar passou por seu rosto e por seu peito, esfriando a pele, embora no conseguisse
abrandar o fogo que queimava por dentro. No estava, pensou, disposto a passar por aquela prova de fogo. Era um hedonista, por Deus, no um monge! No sabia o quanto
mais poderia conviver com aquilo.
Ficou ali, em p, por um bom tempo, olhando para a noite, e ento finalmente virou-se com um suspiro e foi para a cama vazia.
Miranda acordou, os olhos pesados, e chamou a criada. A noite anterior, pensou, tinha sido a ltima gota. No tinha certeza de quanto mais agentaria esse tipo de
casamento. Esperara provocar, espicaar e tentar Devin para quer-la tanto que ficaria disposto a ser um marido de verdade. Mas, de alguma forma, acabara sendo vtima
da prpria armadilha.
A paixo crescia dentro dela desde o dia do casamento, transformando todos os seus planos cuidadosos em uma grande confuso. A cada dia desejava Devin mais e mais.
Ainda assim, ele permanecia afastado, nem mesmo tentando beij-la. Miranda tinha at mesmo atingido o ponto vergonhoso em que se roara "por acidente" nele na esperana
de que isso o faria tomar uma atitude. Mas ele continuara insuportavelmente estico.
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A noite anterior fora a pior de todas... danar com ele a noite inteira, voltar para casa em seu colo, sentir os msculos fortes e os ossos de encontro a seu flanco,
o desejo dele pulsando embaixo dela. Ficara abalada at a alma. Enquanto a criada a despia, tudo em que conseguia pensar era na mo de Devin em seu corpo, os lbios
pressionando os dela. Ela escovara os cabelos o tempo todo alerta para os passos de Devin no corredor, esperando e torcendo para que ele abrisse a porta que separava
seus quartos e entrasse. Miranda j no trancava a porta de ligao h muito, muito tempo.
Mas ele no entrara em seu quarto. Nunca o fazia, e isso a estava desorientando. Estava comeando a pensar que ela  quem teria de ceder. Pensou em ir at ele e
dizer-lhe que no exigia mais fidelidade, que estava disposta a dividi-lo com Leona e com quem quer que fosse, contanto que fizesse amor com ela. Mas todo o seu
ser se retraa diante de tal idia, claro. No estava disposta a dividi-lo. No entanto, se nunca fosse conhecer a doura de fazer amor com ele de outra forma, tinha
medo de ter de aceitar o acordo, no importando como se sentisse a respeito.
De manh, ao descer para o caf-da-manh, no havia ningum l. Ela acordara alm do horrio habitual, depois da dificuldade que teve em dormir na noite anterior.
A maioria dos outros j devia ter feito o desjejum. Miranda tomou um caf-da-manh rpido e solitrio, serviu-se de uma xcara de caf e saiu com ela para o terrao.
Bebeu-o, olhando para os jardins  sua frente.
O paisagista j havia feito um grande progresso no jardim, podando as cercas vivas e eliminando as ervas daninhas, derrubando e tirando arbustos e plantas que haviam
crescido desordenadamente
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 Ainda no era uma paisagem maravilhosa, porque estava muito pobre, e muitas vezes os arbustos haviam sido cortados em meros galhos. Mas os caminhos estavam sendo
restaurados e dispostos novamente de acordo com os projetos originais. Logo iriam comear a replantar em todos os lugares que pudessem. Algumas das plantas e flores
teriam de esperar pelo outono, obviamente, ou at mesmo pela prxima primavera, para serem plantadas.
Com muitas das cercas vivas maiores arrancadas ou podadas, era possvel ver muito mais alm agora, quase por toda a extenso at o pomar ainda descuidado. Em algum
momento, ele tambm seria domesticado, mas devolver a todos os jardins suas formas originais era uma tarefa que levaria anos para ser cumprida.
Enquanto estava ali, um vislumbre de movimento na base do jardim capturou sua viso. Uma mulher havia pisado fora do emaranhado de rvores que era o pomar, e Miranda
percebeu, surpresa, que era sua madrasta. No era comum Elizabeth caminhar pelo terreno, particularmente no limite do jardim. Mais estranho ainda, um homem saiu
do meio das rvores por detrs dela. Miranda ficou parada olhando, com um primeiro pensamento assustador de que Elizabeth estaria tendo um encontro clandestino com
um amante.
Mas logo percebeu, entretanto, que no se tratava de dois amantes conversando, mas de uma pessoa de um nvel mais elevado falando com uma de um nvel social mais
baixo. O homem fez que sim com a cabea depois de Elizabeth lhe dizer algo, olhando para baixo mais vezes do que diretamente para ela. Estava vestido com roupas
simples e de servio, as roupas de um trabalhador. Miranda relaxou, repreendendo-se por ter considerado tal hiptese a respeito de sua madrasta.
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Elizabeth era perdidamente apaixonada por Joseph, assim como ele o era. Miranda teve certeza de que a razo pela qual essa idia surgira em sua mente era porque
estava muito ocupada nos ltimos dias com pensamentos sexuais.
Enquanto Miranda continuava a olhar, Elizabeth anuiu com a cabea para o homem e comeou a andar de volta na direo do terrao. O homem ficou parado ali por mais
um instante, vendo Elizabeth retornar, o que permitiu Miranda ver claramente seu rosto. Era comum, de alguma forma familiar, mas no conseguiu lembrar quem era.
Ento ele se virou e foi embora, encolhendo-se pelo meio das rvores e sumindo de vista.
Miranda sentou-se no corrimo e terminou o caf. Mais ou menos na hora em que pousou a xcara no pires, Elizabeth chegou perto o suficiente para ver Miranda sentada
ali. Ela parou e acenou, continuando pelo novo caminho de cascalho at os degraus do terrao.
- Ol, minha querida - disse, aproximando-se e beijando Miranda na face. - O que est fazendo aqui fora?
- Bebendo uma ltima xcara de caf e observando as mudanas no jardim.
- Sim, est bastante diferente - concordou Elizabeth, virando-se para olhar para ele tambm. - Um tanto rido agora, receio.
- Mas vai ficar bem melhor em pouco tempo. O sr. Kitchens assegurou-me disso.
- Realmente espero que sim.
- Quem era aquele homem?
- O qu? - Elizabeth virou-se para ela. - Que homem?
- Aquele com quem voc falava l no pomar. Ele me pareceu familiar.
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- Oh!  porque ele  um dos jardineiros. No sei seu nome. Estava perguntando a ele sobre as rvores frutferas. No sabia ao certo de que tipo eram. Tinha expectativas
de que houvesse cerejas ali, e fiquei me perguntando quando estariam maduras. Sinto muita falta da torta de cereja de Hannah, voc no sente?
- Sim, sinto. - Miranda sorriu. - E o que ele disse?
- Perdo?
- H cerejas ali? E quando ficaro maduras? - retrucou Miranda. Ela estava comeando a ficar preocupada com a madrasta.
Elizabeth estava agindo estranhamente desde que tinham vindo para Darkwater. Ficava no quarto, queixando-se de dores de cabea e de estmago, alm de vrios outros
tipos de sintomas, com muito mais freqncia do que no passado. Estava sempre debilitada de alguma forma, mas nunca tanto assim. Gostava muito de comer e raramente
perdia uma refeio, mas, nas ltimas semanas, comera seu jantar no quarto com a mesma freqncia que na mesa de jantar. Miranda mais de uma vez a encontrara sentada
no quarto, ou em algum outro lugar, absorta, olhando fixamente para o cho ou para o vazio, com o cenho franzido. Toda essa histria do jardineiro tambm era estranha.
No combinava com ela vagar pelo jardim e procurar um dos jardineiros para perguntar-lhe sobre cerejas. De fato, ela amava torta de cereja, mas no era muito dada
a exerccios. Teria sido mais simples, e teria envolvido muito menos caminhadas, se houvesse enviado um dos lacaios para fazer a pergunta, ou simplesmente mandado
um bilhete para o cozinheiro solicitando uma torta de cereja.
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- Oh - disse Elizabeth. - Sim, h cerejas, e j esto maduras.
- Bom. Direi ao cozinheiro para fazer torta de cereja uma noite dessas esta semana.
Elizabeth sorriu.
- Voc  um doce. - Num impulso, deu um passo  frente e abraou Miranda fortemente. - Eu j lhe disse o quanto a amo? Voc  como uma filha para mim.
Miranda abraou-a com intensidade.
- Sim, j me disse isso algumas vezes, e eu agradeo. Amo voc do fundo do corao, tambm. No entanto,  muito jovem para ter uma filha da minha idade. Vejo voc
como uma irm mais velha.
Elizabeth sorriu.
- Est bem. Serei uma irm mais velha muito querida. Elas se deram os braos e caminharam para dentro da casa.
- Vou para a biblioteca. Quer vir comigo? - perguntou Miranda.
A expresso de horror no rosto de Elizabeth foi tal que fez Miranda rir.
- Oh, no, eu no posso. Eu, ah...
- No tem importncia, voc no precisa inventar uma desculpa. Sei que no  muito f de ler. Est tudo bem. Vejo voc na hora do almoo.
- Miranda... - Elizabeth olhou para ela, arqueando as sobrancelhas. Parecia estar querendo dizer algo, mas acabou sorrindo e afagou o brao dela. - No  nada. V
em frente.
Ela virou-se e saiu andando.
Miranda ficou observando-a caminhar, intrigada, e ento deu de ombros e foi para a biblioteca.
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Strong estava esperando por ela, parecendo vagamente desconfortvel, como costumava ficar quando Miranda estava por perto. Em geral, deixava Hiram cuidar da maior
parte das coisas que envolviam Strong, porque parecia incapaz de lidar com uma mulher na hora de discutir detalhes de negcios. Ele no ficava com a lngua presa
quando estava com Hiram, o que era uma sorte, j que muitas de suas anotaes precisavam ser completadas verbalmente, sendo elas, no mximo, esboos.
- Pelas conversas que tive com ele - disse Hiram -, acho que o homem conhece seu trabalho. O problema  que no  muito bom na escrita.
Essa observao pareceu um problema, pela tica de Miranda, em se tratando de um gerente de uma propriedade to grande. Perguntara certa vez ao tio de Dev que qualificaes
o sr. Strong possua para o trabalho, e ele olhara para ela, confuso, e dissera apenas:
- O pai dele era o gerente da propriedade antes dele - como se isso fosse o suficiente.
Como Devin estava com eles na hora e no disse nada, s concordando com um gesto de cabea, ela deduziu que para a aristocracia britnica esta era uma razo aparentemente
adequada para algum exercer uma funo. Miranda suspeitava que, assim que comeasse a tentar reverter a situao da propriedade, teria de substituir o homem. Se
levasse em considerao a reao de Rupert e Dev, talvez tivesse que deix-lo como gerente e inventar um novo ttulo para dar a algum que supervisionasse Strong.
Compreendendo a reao do homem, pensou, talvez ele intusse a opinio dela a seu respeito e isso motivava aquele desconforto quando estava por perto.
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- Ol, sr. Strong - disse Miranda, colocando no rosto o sorriso mais cativante e tranqilizante que podia. - O sr. Baldwin tem alguns assuntos de meu pai para resolver
hoje, ento achei que voc poderia me tirar algumas dvidas.
- Sim, lady Ravenscar.
- Bom. Eu estava olhando outro dia para um mapa topogrfico da rea. - Ela pegou um mapa enrolado e abriu-o em cima da mesa, fixando os quatro cantos com livros.
- Essa  a rea da propriedade.
- Sim. A montanha Apworth e as terras em torno. - Ele anuiu com a cabea.
- Como  exatamente esse local? Ele pareceu confuso.
- Bem, l h rochas, senhorita... quero dizer, minha senhora.  montanhosa e pedregosa. No me parece ser boa para nada.
- Ela  parte dos rochedos, que por sua vez so o final dos montes Peninos.
- Correto.
- Essa rea tem sido usada para qu?
- Usada? Para nada, minha senhora. Ou melhor, as pessoas vo l para v-la.  um tanto majestosa, de certa forma, mas no  boa para nada de que eu tenha notcia.
- Sabe, costuma-se encontrar depsitos minerais nesse tipo de terreno.
- O que foi que a senhora disse?
- Carvo, minrio de ferro, at mesmo minerais preciosos. Algum j tentou fazer minerao l?
- No, minha senhora, no que eu saiba. - Ele olhou para ela, incerto.
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-  algo que quero pesquisar. Seria timo se fssemos capazes de adicionar algo aos rendimentos dos arrendatrios.
- Sim, minha senhora.
Miranda suspirou diante da passividade do homem.
- Est bem, vamos olhar os livros de registro da contabilidade. Dei uma olhada no relatrio que Hiram preparou para mim, e definitivamente estou comeando a ver
um padro. Veja esse lugar chamado Bigby...
As duas horas seguintes passaram devagar. A criada veio por volta do fim desse perodo, trazendo a xcara de chocolate quente que costumava ser a recompensa de Miranda
aps algumas horas de trabalho. Ela tomou um gole e chegou  concluso de que, mesmo sendo delicioso, no era nem de longe uma compensao pela conversa com o sr.
Strong.
Devin chegou nessa hora, propiciando uma pausa bem-vinda. Parecia cansado, com olheiras, e ela ficou se perguntando se ele teria passado a noite anterior to insone
quanto ela. Iria at as runas da abadia para pintar, disse-lhe, e ficaria por l pelo restante do dia, voltando para casa depois da hora do ch. Miranda concordou,
pensando que adoraria ir com Devin, mas ele no a convidou.
Ficou se perguntando se a frustrao sexual crescente entre os dois iria destruir a aproximao que vinham desenvolvendo nas ltimas semanas. Recordou os pensamentos
que tivera mais cedo naquela manh: de que no deveria exigir fidelidade antes de dormir com ele. At mesmo um casamento pela metade como esse seria melhor do que
Devin passar a odiar t-la por perto.
Ele saiu, e ela voltou  contabilidade, tomando um gole do chocolate quente.
Houve uma batida hesitante na porta da biblioteca. Um instante
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depois, Elizabeth entrou de esguelha. Olhou de Miranda para o sr. Strong enquanto cruzava e descruzava as mos. Miranda ficou de p, preocupada.
- Elizabeth? Voc no est se sentindo bem? - Andou at a madrasta rapidamente e segurou seu brao. - Aqui, sente-se. Sr. Strong, o senhor poderia fazer a gentileza
de servir um copo d'gua para minha madrasta?
O sr. Strong levantou-se rpido para ir at o aparador, onde estavam uma jarra e copos. Ele serviu gua em um copo e apressou-se a entreg-lo  sra. Upshaw, sua
testa franzida em preocupao.
- A senhora est se sentindo bem, madame? - perguntou.
- Sim, sim, estou bem. Tanta preocupao por nada. De verdade. Oh, isso  chocolate quente? Talvez um gole disso.
- Sim,  claro. - Miranda entregou a xcara para a madrasta, e Elizabeth deu um gole.
Ela colocou a xcara de volta no pires e deu um sorriso forado para Miranda.
- Sinto muito. No queria interromper. S achei que poderamos conversar um pouco. Posso voltar outra hora.
- No.  claro que podemos conversar agora. - Esse era exatamente o tipo de comportamento estranho que Elizabeth passara a exibir. As duas haviam estado juntas menos
de uma hora antes, e naquele momento Elizabeth indicara que no tinha interesse em conversar. Agora aqui estava ela, com ares de quem iria morrer se no falasse
com a enteada.
Miranda virou-se para o sr. Strong.
- Por que no volta ao trabalho, sr. Strong? Preciso conversar por um instante com minha madrasta.
-  muita gentileza sua, querida - disse-lhe Elizabeth, enquanto o sr. Strong a cumprimentava e recolhia os livros debaixo
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do brao, saindo do cmodo. - Mas no precisava. Eu poderia ter voltado numa outra hora.
- Est tudo bem - assegurou-lhe Miranda. - Voc poupou o sr. Strong de mais uma hora de sofrimento, isso  tudo. Considere-se o anjo da guarda dele.
- Pobre homem. Ele parece estar sempre to... estressado.
- Eu sei. Ele acha que eu sou um ogro. Estou descobrindo que as pessoas na Inglaterra no confiam no que  novo.
- Sim, sem dvida - concordou Elizabeth, meio distrada. Passou os olhos pelo cmodo, olhando para cima, para a plataforma, e desviou rapidamente o olhar.
- Ento - disse Miranda -, o que a levou a vir me ver? Sei que no gosta da biblioteca.
- Bem, no posso evitar pensar, todas as vezes que entro aqui, em voc caindo. - Elizabeth acenou em direo  plataforma, onde um novo e robusto corrimo fora instalado.
-  to pavoroso.
- Nada de ruim aconteceu.
- Talvez, mas mesmo assim... pensar no que poderia ter acontecido! Sinto calafrios no corpo. - Ela tremeu ao tomar outro gole da xcara.
- Sei. Mas voc no deve se preocupar. Nada acontecer de novo, garanto-lhe. Isso s acontece uma vez na vida.
- Talvez.  s que... no gosto muito daqui, Miranda. Joseph est to feliz com as restauraes, mas, bem, voc no acha um pouco entediante? Sem festas, bailes,
peras ou teatros.
- Sim.  um pouco rural - concordou Miranda. - Sinto muito por voc estar entediada. Papai e eu estamos ocupados trabalhando nas reformas. Eu no havia chegado a
pensar que voc teria to pouca coisa a fazer.
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- Est tudo bem. No  sobre isso que gostaria de falar-lhe. Eu estava em meu quarto, pensando. Miranda... - Ela pousou a xcara e chegou mais perto de Miranda,
colocando a mo no brao da enteada, olhando fixamente em seus olhos.
- Minha querida, voc est feliz?
- O qu? Sim,  claro. - Miranda sorriu para ela e afagou a mo que Elizabeth havia colocado em seu brao. - Por que no estaria?
- No sei. Estou preocupada. Voc parecia to... cansada e melanclica esta manh quando conversvamos.
- Eu parecia? - disse Miranda, surpresa. - Sinto muito. No percebi...
Elizabeth anuiu seriamente com a cabea.
- Isso me deixou preocupada. Subi para continuar aquele bordado que comecei outro dia, mas vi que no conseguia me concentrar. Fiquei pensando na sua expresso.
Ele... ele est fazendo voc infeliz?
- Devin? Oh, no, Elizabeth, de forma alguma. Voc no deve pensar isso. Estou muito satisfeita por ter me casado com Devin.
- Srio? - Elizabeth pareceu em dvida. - Receio ter sido um erro. E que Joseph a induziu a isso.
- Elizabeth, voc sabe que ningum me induz a nada. Casei-me com Ravenscar porque quis. E estou bastante feliz. S estou um pouco cansada por causa da festa de ontem
 noite.
- Sim. Confesso que tambm estou um pouco cansada. No danava tanto assim h muitos anos. Mas no pude dizer no para aquele jovem e agradvel mdico, e,  claro...
- ela sorriu como uma estudante confidenciando um segredo -,  sempre uma sensao mgica danar com seu pai.
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Miranda, que danara muitas vezes com o pai, interpretou como uma indicao representativa do amor de Elizabeth o fato de achar que danar com ele era algo mgico.
Elizabeth tomou mais um gole do chocolate. Ela havia tirado um leno do bolso da saia, e estava mexendo com ele por entre os dedos, torcendo, puxando e embolando
o leno. O olhar de Miranda foi atrado para o pobre pedao de pano to maltratado.
- H algo mais, no h? No foi s isso o que a trouxe at aqui.
- Bem... oh, querida. No sei como dizer isso.
- Diga simplesmente.
- Sei que voc dir que estou sendo tola.
- No direi. Prometo.
- Bem, eu... eu... eu estou muito preocupada! - Falou finalmente, e Miranda percebeu espantada que os olhos da madrasta estavam cheios de lgrimas.
- Elizabeth, por favor... - Miranda inclinou-se e pousou a mo nas da madrasta, para aquiet-las. - Voc est em apuros?
- No! - Elizabeth riu, um pouco estridente. - No sou eu que estou em apuros.  voc!
- Eu? O que voc quer dizer com isso? Estou muito bem, posso garantir-lhe.
- No. Voc no est. Miranda, eu acho... - Ela levantou as mos e agarrou as da enteada, apertando-as como se fossem um salva-vidas. Encarou Miranda, o olhar cheio
de dor e de um medo penetrante. - Miranda, ele est tentando mat-la!
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Captulo 16

Miranda olhou para a madrasta, confusa.
- O qu? Quem? Do que voc est falando?
- Do seu marido. Lorde Ravenscar.
Miranda ficou boquiaberta. Ser que Elizabeth perdera completamente o juzo?
- Dev? - Ela finalmente desengasgou.
- Sim. Dev. Miranda, pense! - O brilho nos olhos de Elizabeth eram um pouco enervantes. Involuntariamente, Miranda recordou o senhor perturbado que fora  casa deles
em Londres, praguejando sobre Devin ter assassinado sua neta, e sentiu um calafrio.
- J houve vrios ataques contra sua vida desde que chegamos aqui - continuou Elizabeth seriamente.
- O qu? Elizabeth, do que est falando?
- Voc caiu da plataforma.
- Porque fui tola o suficiente para me apoiar em um corrimo corrodo por cupins. S isso.
- E o que me diz de quando saiu para cavalgar e aquele pedao de rocha quase matou voc e Joseph.
- Aquilo tambm foi um acidente - disse Miranda, em um tom apaziguador.
- Como pode dizer isso? - perguntou Elizabeth, agitada. Terminou de beber o chocolate quente, as mos tremendo tanto que a xcara tilintava no pires quando a colocou
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de volta. - Voc poderia ter morrido em ambas as vezes.
- Sim, mas no morri. E no h nada que indique que no foram simples acidentes.
- Dois "acidentes" seguidos! - O tom de voz de Elizabeth elevou-se em um ganido. - Voc no v? Ele est tentando machuc-la. Livrar-se de voc. O homem  mau!
- Elizabeth! - Miranda endireitou-se, a expresso no rosto ficando calma mas firme. - No posso permitir que fale dessa forma de meu marido.
- Ele cegou voc em relao s falhas dele. Sabia que faria isso. - Lgrimas escorriam dos olhos da madrasta.
- Elizabeth, por favor... - disse Miranda mais delicadamente, colocando a mo no brao da madrasta num gesto tranqilizador. Sabia que no deveria permitir que a
irritasse com seus comentrios sobre Devin. Era bvio que algo estava afetando a mente de Elizabeth, e Miranda disse a si mesma que deveria ser gentil com ela. -
Voc est se chateando por nada. Sei que Dev tem m reputao, mas ele no  assim.  um bom homem. Tenho certeza. Ele no tentaria me matar.
- Voc no sabe. Voc no o conhece!
- Nem voc - argumentou Miranda. - Alm disso, acho que o conheo muito mais do que voc imagina.
- Sabia que voc no iria me ouvir. - Elizabeth afundou o rosto nas mos.
-  claro que estou ouvindo voc - insistiu Miranda. - Entendo que est muito chateada, e sinto muito por isso. Mas no h nada a temer. De verdade. Esses dois acontecimentos
foram acidentes. Sei que  um pouco estranho dois acidentes ocorrerem assim, seguidos, mas essas coisas existem.
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Voc nunca reparou como se pode parecer suscetvel a acidentes durante vrios dias seguidos? Eu estou assim. O corrimo estava velho. Todos sabemos o quo infestadas
por cupins esto as madeiras em Darkwater. No h nada de estranho nelas se quebrarem com a presso. E rochas de calcrio se quebram e caem com freqncia. Todos
os que vivem ; aqui dizem isso. Nenhum desses acidentes foi incomum.
- Sim, ele  esperto. - Elizabeth suspirou, parecendo fatigada.
- Alm disso, Devin no poderia ter empurrado a pedra em cima de mim. Ele estava cavalgando conosco.
- Ele poderia ter comparsas no alto do penhasco para deslocar a pedra e empurr-la para baixo.
- Colocando-o em risco tambm?
- Ele estava cavalgando a seu lado? Miranda fez uma pausa, pensando.
- Bem, no, ele estava alguns metros  frente, conversando com o tio.
- V? - exclamou Elizabeth, triunfante. - Voc e Joseph foram quase mortos, enquanto Ravenscar estava livre do perigo.
- Elizabeth, por favor, no sei por que voc odeia tanto Devin. Voc mal o conhece. Talvez devesse descer para jantar mais vezes, sentar conosco depois da refeio.
Conversar com ele. Sei que veria que ele  uma pessoa muito melhor do que tudo que dizem por a.
- Oh, sei que ele  encantador. Esta no  a questo. - Elizabeth bocejou, cobrindo a boca por educao. - Sinto muito. De repente fiquei... muito cansada.
- Sim, sem dvida voc precisa descansar - concordou Miranda.
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- No. No at voc entender... - Suas palavras foram interrompidas por outro bocejo. - Oh, cus.
- Por favor, por que no sobe para o quarto e dorme? - sugeriu Miranda, vida por tirar a madrasta dali. - Estar muito melhor ao acordar. Ver que se preocupou
por uma bobagem.
- No, no vou. - Elizabeth passou a mo pelo rosto, parecendo confusa.
Miranda franziu o cenho, preocupada.
- Voc est se sentindo bem, Elizabeth? Est enjoada? Deixe-me chamar uma criada para ajud-la a ir para seu quarto.
- Oh, no, querida, no seja tola. No preciso de ajuda. Naquele momento um lacaio entrou no cmodo, tossiu baixinho para chamar a ateno delas, e anunciou:
- Lady Vesey e a sra. Vesey esto aqui para v-la.
- Lady Vesey? - Miranda olhou para o lacaio, surpresa.
- Leona! - exclamou Elizabeth. Ficou claro pela expresso em seu rosto, pensou Miranda, que algum contara para sua madrasta o que lady Vesey era para lorde Ravenscar.
O criado entrou com a pequena bandeja de prata na qual havia dois cartes de visita. Um para a tia solteirona e um para Leona. Um leve sorriso brotou nos lbios
de Miranda. Nunca se recusava a enfrentar um desafio.
- Ah, sim - disse ao criado. - Leve lady Vesey at a sala de visitas.
Quando o criado saiu do cmodo, Elizabeth virou-se para Miranda, os olhos esbugalhados.
- Minha querida, voc acha que deve receb-la? Soube por lady Ravenscar que ela , bem, no costuma ser aceita nos melhores crculos.
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- Sim, Elizabeth, sei disso. Entretanto, tenho interesse em falar com lady Vesey. Tenho certeza de que receb-la no ir manchar minha reputao. Voc quer vir?
- Acho que vou subir e deitar, como voc sugeriu - disse Elizabeth, rapidamente. - Odeio pensar no que lady Ravenscar dir a respeito disso...
- No se preocupe - Miranda assegurou-lhe. - No ser nada com que eu no possa lidar.
A madrasta levantou-se e comeou a andar em direo  porta, depois parou, olhando para trs, para Miranda.
- Querida... por favor, voc ter cuidado, no ter? Prometa-me?
- Sim,  claro que terei.
Elizabeth anuiu com a cabea, ainda parecendo estar insatisfeita, e saiu da biblioteca. Miranda ajeitou o vestido e saiu para o corredor, parando em frente ao espelho
que havia a alguns passos dali para verificar como estava seu cabelo. Sua face estava rosada e os olhos faiscavam por antecipao da cena que a aguardava, ento
tinha poucas dvidas sobre sua aparncia.
Continuou pelo corredor at chegar na solene sala de visitas. Entrou e encontrou Leona Vesey de p junto  tia de lorde Vesey no centro do cmodo, olhando para uma
lady Ravenscar rgida, exibindo uma expresso de desaprovao. Rachel, sentada ao lado da me, parecia mais em fria que em desaprovao.
Estava claro que a me de Devin havia questionado a presena de Leona ali, porque assim que Miranda chegou, Leona estava dizendo:
- Com a aprovao de lady Ravenscar. Da nova lady Ravenscar, digo.
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- Ol, lady Vesey - disse Miranda, alegremente, aproximando-se e pegando a mo da outra mulher para cumpriment-la.
Leona recuou um pouco ao tirar a mo da de Miranda.
- Lady Ravenscar.
Miranda virou-se para Rachel e para a sogra, e cumprimentou-as, alegremente.
- Fico muito feliz por terem recepcionado lady Vesey at minha chegada. Por favor, sente-se lady Vesey. Sra. Vesey. - Ela pegou o brao da mulher mais velha e guou-a
at a cadeira. -  to agradvel quando um vizinho vem nos visitar. Confesso que esperava que mais pessoas viessem, mas ento deduzi que ningum queria nos incomodar...
e  nossa vida de recm-casados, sabe. - Ela sorriu de forma reservada, satisfeita, fazendo o possvel para ruborizar um pouquinho.
Leona semicerrou os olhos.
- Sim.  claro. Estou muito feliz por vocs estarem se acomodando em Darkwater.
- Obrigada. Tem sido muito agradvel aqui. Obviamente, a felicidade de uma mulher depende de seu marido. No concorda, lady Vesey? Felizmente, Devin  o melhor marido
do mundo.
- De fato. - Leona sorriu, levemente. - Confesso - disse ela, com um tom de gracejo na voz - que nunca consegui imaginar Devin como um homem casado. Ele era sempre
to... como poderia dizer? Livre.
- Sim, e um homem to atraente - concordou Miranda, olhando para Leona com olhos inocentes e bem abertos. - Tenho certeza de que muitas mulheres ficaram desoladas
quando Devin passou a ser um homem casado.
- Sem dvida. - Leona olhou em volta. - Onde est ele,
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a propsito? Com certeza, o homem no saiu e deixou sua esposa sozinha, assim, to cedo.
Os olhos de Rachel flamejaram de raiva, mas ela conseguiu controlar seus nervos e se manteve em silncio.
- Ele saiu para pintar - disse Miranda.
- Pintando! - Leona arqueou as sobrancelhas e deixou escapar uma risadinha estridente. - Oh, Deus, ele est fazendo isso de novo? Achei que havia se cansado de se
lambuzar com tintas.
- Ele parece ter se desviado do caminho por alguns anos, mas est pintando freneticamente agora.
- Coitadinha de voc - disse Leona, de forma condescendente. - Deve ser horrvel seu marido ficar fora o tempo todo, pensando em sua prpria satisfao.
- Eu no me importo.
- De verdade? Que mente liberal voc tem, por no se importar. Eu realmente no consigo imaginar por que Devin retomou essa prtica. Suponho,  claro, que isso oferea
a ele uma fuga, ou algo assim. - Seu tom de voz era doce, mas o olhar que lanou para Miranda foi significativo.
- Obviamente, ento, voc no deve conhecer to bem Devin - disse Miranda, com um tom de voz to doce e um olhar to inocente que Rachel teve de cobrir a boca para
camuflar uma risadinha. - Ele  um excelente artista. No me surpreenderia se, um dia, ficasse famoso no mundo todo.
Leona lanou um olhar desconfiado para a anfitri, como se no conseguisse ter certeza se estava sendo provocada.
- Talvez voc queira ver alguns dos esboos dele - interveio Rachel. - Ele tem feito uma grande quantidade de esboos de Miranda.
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Leona trincou os dentes.
- Oh, no, eu no faria vocs sarem para ir busc-los.
- No h problema algum - assegurou-lhe Miranda, levantando-se de pronto. -Tenho certeza de que Devin no vai se importar se formos l em cima em seu estdio para
v-los.
Andou at Leona e colocou a mo sob o brao dela, fazendo-a levantar-se. Leona ficou de p um tanto hesitante, e Miranda deu-lhe o brao.
- Rachel? Lady Ravenscar?
Os olhos de lady Ravenscar brilharam, maldosamente.
- Ah, sim, eu realmente adoraria ver isso.
Leona no tinha como fugir agora, e as trs Aincourt a carregaram para o andar superior e percorreram o corredor at o estdio de Devin. Leona botou o p l dentro
e parou, abruptamente. Seus olhos se arregalaram ao percorrerem o cmodo. Um retrato pintado semi-acabado estava apoiado em um cavalete no centro do estdio. Dois
outros j terminados, um pequeno e um grande, estavam apoiados na parede. Uma meia dzia de esboos de Miranda em carvo estava espalhada pela mesa e dois esboos
dela em aquarela, apoiados no cho para secar.
Os olhos de Leona arregalaram-se ainda mais e seu rosto ficou um pouco mais plido, de tal forma que Miranda pensou que a mulher fosse desmaiar.
- Voc est bem, lady Vesey? - perguntou ela, solcita. Lady Ravenscar observava Leona atentamente, um leve sorriso nos lbios. Rachel sorriu sem disfarar.
- Sim. Estou bem. - Leona falou entre dentes, puxando o brao do de Miranda. - Dev tem estado bastante ocupado, no?
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- Sim. Ele redescobriu sua antiga paixo - disse Miranda, contente. - Tenho certeza de que se arrepende por ter chegado a desistir disso.
Leona sorriu para ela, irritada, e saiu do cmodo de sbito, deixando que as outras mulheres a seguissem. Rachel olhou para Miranda e sorriu.
Quando se juntaram novamente a lady Vesey, esta j havia recuperado sua atitude amena, embora Miranda, descendo as escadas a seu lado, pudesse sentir a tenso que
emanava dela.
- Ento agora Dev est em busca de outros objetos para pintar? - perguntou a Miranda.
- Sim, o restante do dia. S consigo posar durante uma ou duas horas por dia. Mais do que isso  cansativo.
Leona sorriu mostrando os dentes.
- Sem dvida. E onde ele est pintando hoje?
Lady Ravenscar, do outro lado, fez um barulho, mas Miranda ignorou-a. Olhando diretamente para Leona, com um brilho desafiador nos olhos, disse:
- Nas runas da abadia. L  um lugar muito pictrico.
- Sim.  claro.
Leona foi embora assim que retornaram para a sala de visitas, praticamente puxando a tia idosa de Vesey da cadeira e botando-a porta afora. Miranda teve certeza
de que ela se livraria da tia em tempo recorde e logo estaria cavalgando de Vesey Park at a abadia.
Um instante depois de Leona partir, Miranda pediu licena para ir ver a madrasta, e saiu do cmodo, cantarolando.
Lady Ravenscar olhou para a filha com um sorriso, o mais largo que seus lbios se permitiam esboar.
- Devo dizer, Rachel, que ir ver as pinturas de Devin foi
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uma sugesto esplndida. No tinha nem idia de que ele havia feito tantas pinturas de Miranda.
- Eu tinha. - Rachel sorriu, extremamente satisfeita.
- Muito esperto de sua parte. Eu s queria, no entanto, que Miranda no tivesse dito a ela onde Dev estava pintando hoje. Voc sabe que a bruxa com certeza ir at
l.
- De alguma forma - comentou Rachel, confiante -, suspeito que nossa Miranda sabia exatamente o que estava fazendo.
Miranda no estava to confiante quanto o demonstrara na frente de Leona. A verdade era que tinha dvidas sobre o que Devin faria se Leona aparecesse na abadia.
Sabia que tinha arriscado ao dizer a Leona onde Dev estava, mas precisava saber o que ele faria. Tinha de deixar acontecer, no importando as conseqncias.
Mas a visita de lady Vesey a animara. Miranda no sabia ao certo se Devin tinha ou no ido visitar Leona em Vesey Park desde o casamento, ainda que, pelo tempo que
passara pintando, no via como poderia ter administrado isso. Mas o fato de Leona ter vindo aqui, demonstrando estar  procura dele, indicava que no vira sua ex-amante
nenhuma vez. Tamanha falta de interesse era encorajadora, mesmo se se devesse mais a sua paixo pela arte do que a uma paixo por ela.
Miranda subiu at o quarto da madrasta para v-la, como disse s outras que faria. Encontrou uma criada saindo silenciosamente pela porta, assim que se aproximou.
- Oh! - A criada parou de repente quando viu Miranda e inclinou-se fazendo-lhe cortesia. - Minha senhora.
- A sra. Upshaw est dormindo? - perguntou Miranda.
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Sua madrasta no parecera estar bem quando se separaram mais cedo. Alm do mais, andava agindo muito estranhamente. Miranda estava um pouco preocupada com ela.
- Ainda no, madame. Agora deve estar quase pegando no sono. Estava passando muito mal quando subiu, madame. O caf-da-manh no ficou no estmago.
- Oh, Deus. - Miranda passou pela garota e entrou no quarto de Elizabeth.
Ela estava deitada na cama, o rosto exibindo um tom de cinza contra o branco total do travesseiro, os olhos fechados. Eles se abriram assim que Miranda chegou a
seu lado, e Elizabeth observou-a, grogue.
- Miranda...
- Soube que voc passou maus momentos aqui - disse Miranda, pegando a mo dela e apertando-a. A pele da madrasta estava fria.
- Sim, fiz uma enorme sujeira - murmurou Elizabeth, tropeando nas palavras. - Uma tolice. No estava me sentindo mal esta manh. Mas, de repente, assim que entrei
no quarto... - Ela tremeu.
- Talvez agora voc v se sentir melhor - disse-lhe Miranda, confiante. - Tenho certeza de que cochilar um pouquinho vai ajudar.
- Sim. Mal consigo manter os olhos abertos. Espero conseguir dormir. No creio que haja mais nada para pr para fora.
Miranda afagou a mo dela e sentou-se na lateral da cama. Elizabeth virou-se de lado, sorrindo fracamente, e cruzou os dedos nos de Miranda. Logo caiu no sono.
Miranda olhou para a madrasta com um leve franzir de cenho. Normalmente no se preocupava muito com as doenas
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de Elizabeth; estava sempre sofrendo com uma queixa ou outra, mas estas costumavam ser breves e no muito graves. Entretanto, hoje, Elizabeth parecia bem doente.
- Acho que vou ficar sentada aqui ao lado dela por um instante - disse Miranda  criada. - At que esteja se sentindo melhor.
Devin cavalgou at as runas da abadia primeiro e deixou l os blocos de desenho e as tintas. Ele voltaria depois e faria alguns esboos. De alguma forma, era importante
que o que dissera a Miranda no fosse totalmente mentira.
Odiava engan-la, omitir o importante fato de onde mais ele planejava ir hoje. Mas no podia dizer-lhe seu verdadeiro destino.
Cavalgou na direo oposta  da abadia, e em mais 45 minutos estava entrando na fileira dupla de limoeiros que levavam  entrada de Vesey Park. Sentiu um estranho
tremor percorrer-lhe o corpo ao olhar para a frente da casa. Fora l muitas vezes naquele vero quando tinha 18 anos, loucamente apaixonado pela nova esposa de lorde
Vesey e incapaz de se manter a distncia.
Apeou na porta da frente, e um cavalario veio pegar o cavalo. Um lacaio abriu a porta, cumprimentando-o, mas quando Devin perguntou por Leona, o lacaio surpreendeu-o
ao informar-lhe que sua senhoria no estava em casa. Leona no tinha, Devin sabia, amigos naquela regio; era considerada por demais aventureira pelas damas das
redondezas, comeando pela prpria me. O criado esclareceu sua dvida ao inform-lo do fato de que ela fora ver a tia de lorde Vesey.
Essa revelao deixou Devin surpreso. Sabia que Leona achava aquela senhora terrivelmente enfadonha. Era evidente
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que Leona fora  recepo do casamento com ela s porque era a nica maneira de conseguir entrar. Deve ter sido levada a visitar a sra. Vesey por puro tdio; Leona
no suportava viver no campo. Devin estava impressionado por ela permanecer ali esse tempo todo. Imaginava que tivesse partido para Londres logo aps o casamento.
Ento decidiu esperar por Leona, deduzindo que logo ficaria cansada da tia idosa e voltaria para casa. O lacaio acomodou-o na sala de visitas formal para que pudesse
aguard-la.
Como antecipara, ficou l apenas alguns minutos quando Leona adentrou, dando-lhe um sorriso cintilante e estendendo as mos para ele. Estava linda, com um vestido
verde que realava de forma admirvel sua tez dourada. O tecido colava em seus quadris e pernas, o decote redondo revelava o volume superior de seus seios fartos.
- Devin! At que enfim. Eu no o vejo mais. - Ela contraiu a boca fazendo um biquinho em provocao. - Poderia quase achar que voc no gosta mais de mim. - Ela
se aproximou dele, os lbios se curvando em um sorriso convidativo, os olhos brilhando, dourados.
Para seu espanto, Devin deu um passo atrs. Leona parou, arqueando uma sobrancelha, e disse, com irritao:
- Qual  o problema, Dev? Est com medo de mim?
- No,  claro que no. Leona... - Ele fez uma pausa. Era extremamente difcil dizer-lhe por que estava ali.
Leona no esperou que ele continuasse. Virou-se, dizendo com um tom de voz desdenhoso:
- A sua montona esposinha me disse que voc voltou a pintar. Francamente, Dev, achei que voc tinha desistido dessa brincadeira com as tintas.
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- Miranda? - perguntou ele, admirado e confuso ao ouvir essas palavras. - Voc falou com Miranda?
- Sim. Tia Vesey e eu fomos visit-la. Era l que eu estava at agora. Ela me disse que voc estava fora, pintando nas runas da abadia. - Leona lanou-lhe um olhar
irnico e repreendeu-o com humor. - J mentindo para a esposa?  claro que o entendo completamente. Voc deve estar desesperado para fugir da fedelha provinciana.
Meu Deus, pobre Dev... Est muito zangado comigo por persuadi-lo a se casar com ela?
Devin trincou os dentes e um brilho ardeu em seus olhos.
- No. No estou zangado com voc por isso. Pelo contrrio, Leona. Voc me fez um favor. Estou mais feliz agora do que estive em muitos anos.
Leona arregalou os olhos; e ento relaxou e deixou escapar uma risadinha.
- Ah, voc est brincando. Quase acreditei em voc. - Ela voltou para perto de Devin, colocando uma das mos em seu brao e olhando para o rosto dele de um modo
que nunca falhou em seduzi-lo. - Por que no tem me visitado? Eu teria aliviado seu tdio.
- Eu no estava entediado - respondeu ele, e deu novamente um passo atrs. - Eu no poderia visit-la, Leona. As coisas esto diferentes agora que estou casado.
Seria um insulto a Miranda se eu viesse at aqui para visitar minha amante.
- Ah, ela - disse Leona, desinteressadamente. - Qual  o problema se ela for insultada? Ela  uma maria-ningum vinda da Amrica.
- Ela no  uma maria-ningum. - Devin se irritou. - Ela  minha esposa. No posso permitir que fale dela assim.
Leona o encarou, silenciada pelo espanto.
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Devin suspirou.
- Sinto muito. Mas Miranda  minha esposa agora. - Como Leona continuasse a encar-lo, ele continuou, irritado: - Voc no imaginou como seria? Voc foi quem me
induziu a casar.
- Para obter o dinheiro do qual ns dois precisvamos desesperadamente! - Leona atacou-o de volta. - No para virar um matuto pedante. O que aconteceu com voc?
Ele deu de ombros.
- No sei, Leona. Eu s... eu mudei. - Ele fez uma pausa e ento disse: - Estou diferente agora. Minha vida  diferente. Voc e eu...
Leona ps a mo na boca dele, silenciando-o.
- Shhh. Voc no sabe o que est falando. Toda essa vida buclica afetou seu crebro.
Ela chegou ainda mais perto de Devin, o corpo roando o dele, a mo deslizando da boca para acariciar a face e o pescoo.
- Conheo voc, Dev - disse ela, com um tom de voz baixo e ntimo. - Conheo voc melhor que ningum. Voc no consegue me enganar. Voc ainda  o mesmo Devin, o
homem que eu amo.
Pegou uma das mos dele e guiou-a at o decote do vestido, segurando a mo dele no volume exposto de seus seios.
- Sei do que gosta... - continuou Leona, roucamente. - Por que no vamos l para cima, para que eu possa lembrar-lhe do que est perdendo?
Levantou a mo dele at sua boca, beijando as pontas dos dedos, prendendo a ponta do polegar entre os dentes.
Devin olhou para ela. Os olhos eram dourados, iluminados por um brilho sedutor; os lbios eram carnudos de uma forma
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que, com certeza, faria um homem querer beij-los. Os seios eram fartos. E ele estava, surpreendentemente, imvel. Pela primeira vez que podia se lembrar em quase
15 anos, no sentiu qualquer desejo por Leona. Apesar do que viera dizer-lhe, no antecipara isso.
- Leona, no. - Ele puxou a mo de volta e saiu de perto. - No posso fazer isso. Sou um homem casado agora.  diferente.
Ele se virou, o rosto e o tom de voz formais.
- Deixe-me dizer-lhe o que vim aqui para dizer. Eu mudei, Leona. No sei exatamente como ou por que, mas  verdade. No posso desfazer isso. No quero desfazer isso.
No posso ser do modo como costumava ser, do modo como era com voc. No posso fazer as coisas que fazia nem agir da mesma forma. No quero mais. No posso ser o
marido de Miranda e ter voc como amante. No seria justo com nenhuma das duas. - Ele fez uma pausa e disse as palavras que nunca pensou que iria proferir. - No
posso mais ver voc.
Leona empalideceu com o choque. Devin sentiu-se culpado ao observ-la. Amara-a por muitos anos, e era quase to inacreditvel para ele como para Leona que finalmente
tivesse deixado de am-la. Mas percebeu, olhando para ela, que j no a amava mais. Ele tomara a deciso, na noite anterior, de romper com Leona, mas pensava que
ainda a amava. Imaginara que seria mais difcil terminar o relacionamento, que se veria em um conflito maior. Esperara se sentir dividido ao se decidir por Miranda.
Mas tudo o que sentia neste momento era alvio. Leona parecia quase uma estranha para ele agora, um tanto exagerada com sua vestimenta e trejeitos provocativos,
suas lembranas dela e de seu amor por ela embaadas pela nvoa de lcool na qual passara a maior parte do tempo.
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Ocorreu-lhe, surpreendendo-o, o quo pouco tempo passara com Leona todos esses anos e o quo pouco realmente a conhecia. Seus momentos juntos foram sempre breves
e furtivos, tingidos pela excitao do proibido e anuviados pela quantidade de lcool que sorvera. No houvera momentos em que ficassem juntos conversando e rindo,
como os que vivenciara com Miranda nas ltimas semanas. Ele poderia dizer milhares de coisas sobre o passado de Miranda, mas, mesmo com todos esses anos em que estivera
enamorado de Leona, s sabia que ela no gostava das duas irms e que raramente as via.
- Sinto muito - disse ele. - Mas no posso mentir para voc. Voc no vai querer isso.
- Eu no quero isso! - A raiva contorceu a expresso de Leona, transformando as linhas delicadas e sensuais em traos duros, e ela fez um gesto impetuoso com o brao.
- Voc est me deixando por aquela... aquela., estpida, insossa, vadia americana?
- Ela no  uma vadia! - Devin ficou enfurecido.
- Como ousa? - Leona ganiu. - Eu sou Leona Vesey! Metade dos cavalheiros da sociedade inglesa me quer! Voc deveria se sentir honrado por eu t-lo deixado usufruir
da minha cama. No consigo acreditar... depois de todos esses anos que passei com voc! Eu poderia ter tido qualquer um, sabe, e escolhi voc. H uma lista de homens
que quiseram tomar seu lugar no decorrer dos anos. Tudo o que tenho a fazer  estalar os dedos e eles viro correndo.
- Tenho certeza de que isso  verdade - disse Devin, freando sua irritao. - Qualquer homem quereria voc.
- No seja condescendente comigo! - O lbio de Leona se apertou e as palavras jorraram de sua boca, como cido. -
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Voc  um tolo, Dev. No sei por que fico surpresa com isso. Os homens so sempre uns tolos. Voc encontrou um novo brinquedo. Ela requebrou os quadris e revirou
aqueles olhos, o tempo todo fingindo achar que suas pinturas idiotas so verdadeiras obras de arte. Agora voc pensa que ser um bom marido e ficar aqui em Derbyshire,
pintando e copulando com aquela americana parva. Arr! Em dois meses voc estar morrendo de tdio. Vai acordar certa manh e perceber o que fez. E vai me querer
de volta. No vai conseguir me tirar do seu sangue. Eu possuo voc, Dev. Eu o possuo desde que tinha 18 anos e era um sem-graa vindo do interior. Devin olhou para
ela, os olhos frios e insensveis.
- Voc nunca me possuiu, Leona. Eu a amava. H uma diferena.
- Oh, por favor. Voc teria feito qualquer coisa que eu pedisse, e sabe disso. Porque voc queria estar em minha cama.
- Isso  tudo o que voc pensa que era? Leona lanou-lhe um olhar expressivo.
- O nico motivo pelo qual se casou com ela, se bem se lembra, foi porque eu quis que o fizesse. Eu o provoquei e o instiguei de um jeito que voc teria feito qualquer
coisa que eu dissesse. Pense, Devin. Sua senhorazinha inspida no ser capaz de satisfaz-lo como eu sou. Voc vai sentir falta. Sabe que vai. E vai se arrepender.
Voc voltar para mim de joelhos. Mas sabe do que mais? Eu no estarei aqui. Voc ter perdido sua chance.
Devin olhou para ela, olho no olho.
- No, Leona. No voltarei.
Virou-se e saiu da casa. Montando em seu cavalo, seguiu de volta para Miranda.
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Captulo 17

Miranda no viu Devin quando ele voltou para casa aquela tarde. Ainda estava no quarto de Elizabeth, cuidando da madrasta. Para sua surpresa, era fim de tarde e
Elizabeth ainda no acordara, de modo que Miranda continuou ao lado da cama. Sua ansiedade aumentou quando anoiteceu e Elizabeth ainda dormia profundamente.
Vernica rendeu Miranda por algumas horas, mas, como s tinha 14 anos, era difcil ficar parada por muito tempo. Ento Miranda voltou para sua viglia. No entendia
por que Elizabeth ainda no acordara, mas isso no parecia ser um bom sinal. Convenceu-se de que o ato de vomitar a deixara exaurida.  bom dormir quando se est
passando mal; isso d ao corpo a chance de se recuperar. Mas ela no podia deixar de sentir que havia algo errado com o sono prolongado de Elizabeth.
Miranda chamou a criada para levar o jantar no quarto de Elizabeth. Mais tarde, para sua surpresa, houve uma batida na porta e ela se abriu. Era seu marido quem
carregava a bandeja contendo o jantar, no a criada.
- Devin! - exclamou Miranda com prazer, levantando-se e indo at ele. - O que est fazendo aqui?
- Quando me disseram que voc no desceria para jantar, decidi trazer a bandeja eu mesmo. No a vejo desde hoje de manh.
Ele colocou a bandeja em uma mesa baixa e olhou para a cama onde Elizabeth jazia, imvel.
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- A sra. Upshaw est passando muito mal?
- No tenho certeza. Acho que no. Estou preocupada por ela no ter acordado ainda. Pensei em ficar aqui at ela acordar. - Sorriu para Devin e estendeu as mos
para pegar a dele. - Mas sentirei falta de v-lo no jantar.
Ele sorriu e levou a mo dela aos lbios.
- Eu tambm.
Miranda ficou curiosa para saber se Leona o visitara na abadia, mas no poderia perguntar, assim, diretamente.
- Como foi seu trabalho hoje? - perguntou, esperando que isso o levasse a mencionar a visita de Leona.
- Foi bem, depois que comecei. - Devin comeou a dizer algo mais, e ento hesitou e olhou para a madrasta adormecida. Levou a mo dela aos lbios de novo e beijou-a,
dizendo: - No incomodarei vocs. S queria v-la. Falo com voc depois.
-  claro.
Ele saiu do quarto e Miranda suspirou, frustrada. Gostaria de saber o que ele esteve prestes a dizer. Gostaria de saber se vencera o desafio lanado a Leona, ou
se o perdera - e a Dev - no processo.
L pelas dez horas, a madrasta acordou, murmurando palavras incoerentes. Olhou em volta demonstrando estar confusa. Miranda levantou-se e foi para o lado dela.
- Elizabeth? Como est se sentindo? Elizabeth piscou, meio grogue.
- Eu... onde... por que est aqui? Oh, me lembro. Eu estava passando mal, no estava?
- Sim, e voc dormiu a tarde toda. Est se sentindo melhor agora?
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- No sei ao certo, - Elizabeth fechou os olhos de novo como se fosse muito difcil mant-los abertos. - Estou to cansada.
- Voc quer algo para comer? Uma sopa, talvez? Mas Elizabeth j estava dormindo de novo.
O fato de a madrasta ter acordado deixou Miranda mais tranqila. Ela no tinha perdido a conscincia de vez, como Miranda comeara a temer. Sem dvida, o enjo daquela
tarde a derrubara completamente. O sono era, acima de tudo, o melhor remdio.
Seu pai veio depois disso para saber do estado de sade da esposa. Elizabeth acordou ao som da voz dele e disse algumas palavras. Sentindo-se confiante agora que
a madrasta estava melhor, Miranda decidiu que no teria de dormir em um catre no quarto de Elizabeth aquela noite, como comeara a desconfiar que teria de fazer.
Seria o suficiente que uma das criadas ficasse l.
Ento, depois de chamar a criada e instru-la a acord-la se houvesse alguma mudana alarmante no estado geral de Elizabeth, Miranda foi para o prprio quarto. A
criada estava l e j trouxera uma banheira e a estava enchendo com gua morna, antecipando o desejo de Miranda. Ajudou-a a se despir e a entrar na banheira. Depois
de um longo banho de imerso, Miranda se sentia muito melhor, embora ainda estivesse preocupada com a questo de Leona ter ou no visitado a abadia aquela tarde.
Se Devin no falara nada a respeito, o que isso significava?
Vestiu a camisola pela cabea, escovou os cabelos e deitou-se na cama. J estava quase dormindo quando a porta do quarto de Devin se abriu.
Prendeu a respirao e ficou tensa. Devin parou na porta.
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Trazia uma vela que lanava uma luz tremeluzente em seu rosto. Seus olhos estavam escuros, a face assombreada. A camisa estava desabotoada, aberta e solta na frente.
Miranda observou, imvel, quando colocou a vela na mesa e atravessou o quarto em sua direo.
Parou ao lado da cama e ficou olhando para ela por um bom tempo. As cortinas da janela estavam abertas e a luz da lua iluminava o rosto dele.
Devin inclinou-se para baixo e botou a mo no colo dela. Sua carne estava quente e levemente arrepiada, e tremia um pouco com a batida de seu corao. Miranda no
precisou perguntar o que ele queria. Ela sabia.
Miranda respondeu sem palavras, alcanando-o e colocando a mo no punho dele, e ento deslizando-a para cima.
- Quero voc. - Sua voz era baixa e rouca. - No creio que jamais tenha desejado algum como a desejo.
A mo dele comeou uma jornada lenta e instigante para baixo, pelo trax dela, deslizando pelos seios at chegar na regio plana de seu abdmen. Miranda no falava,
mal respirava. Queria que ele continuasse. Naquele momento, no se importava mais com seus planos futuros relacionados a seu casamento, ou com o fato de ele se comprometer
com ela exclusivamente, ou com o que havia acontecido hoje na abadia. Agora, sabia, concordaria com quase tudo, contanto que significasse que ele passaria a noite
em sua cama. Esse era o futuro mais distante em que podia pensar.
Ele abriu a palma da mo no abdmen de Miranda, abarcando toda aquela dimenso com a mo. Depois deslizou-a para o quadril e para a perna, voltando para cima e cruzando
para o outro lado.
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- Eu quero um casamento de verdade - disse ele. - No quero que vivamos um acordo de "negcios" ou que levemos vidas separadas. E no vou dividir voc com nenhum
outro homem. Eu quero voc... e s voc. - Ele fez uma pausa, e ento acrescentou. - Rompi com Leona hoje.
Miranda deu um suspiro agudo.
- Devin...
- Voc vai me deixar tentar ser um marido de verdade? Sua mo escorregou de volta para a frente e Miranda no pde conter um gemido trmulo.
- Sim - foi tudo o que conseguiu proferir. - Sim... Eles se uniram com voracidade, arrancando as roupas e jogando-as de lado, as semanas de desejo contido repentinamente
liberado em uma torrente de paixo. A boca dele estava sedenta; a dela, no menos. Beijaram-se e acariciaram-se, os corpos vidos rolando pela enorme cama. Devin
no conseguia se saciar de Miranda - o gosto, a sensao, o cheiro dela. Ele ansiara por ela por semanas, e agora ela estava em seus braos, dcil, quente e to
vida por ele quanto estava por ela. Devin beijava-a sem parar, seus lbios passando pelo rosto, pelo pescoo e descendo at o trax, parando por fim naquele sublime
monte macio. Ele segurou o seio de Miranda com a mo e explorou o mamilo com a boca, provocando-o com a lngua, os lbios e os dentes, fazendo Miranda gemer e ar-quear
o corpo, cravando os dedos nos ombros dele.
Um calor tomou conta do abdmen de Miranda, o desejo mido entre as pernas. Ansiava por ele. As mos dela vasculhavam Dev, querendo sentir todas as suas texturas
- a ossatura slida das costelas, a curva tesa dos msculos das costas, a pele macia do abdmen que tremia quando os dedos dela o
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acariciavam, o plo grosso, crespo no trax que descia em uma linha fina at o abdmen, e depois para baixo... Cada parte dele era instigante, intrigante, e Miranda
seria capaz de continuar explorando-o por horas no fosse pela contnua contrao do n que urgia em sua virilha, a dor prazerosa entre suas pernas que ansiava ser
preenchida.
Murmurou o nome dele, que o sorveu com um beijo intenso. Enquanto a beijava, Dev deslizou a mo lentamente pelo corpo dela. Seus dedos iam do abdmen para a coxa,
depois voltavam, acariciando e provocando, chegando cada vez mais perto do centro fogoso de sua paixo, at que, finalmente, quando Miranda achou que no iria mais
agentar, a mo dele deslizou por entre suas pernas, encontrando seu centro quente e mido. Um gemido escapou de Miranda, e ela tremeu, espantada pelo prazer, maior
do que qualquer um que jamais sentira. Ainda assim, por outro lado, aquilo no era o suficiente. Os dedos dele abrandavam sua nsia ao mesmo tempo em que a aumentavam,
tanto amansando-a quanto estimulando-a, at que Miranda pensou que enlouqueceria com o prazer selvagem e quente que Devin criava nela.
Seus dedos separaram os lbios escorregadios de sua feminilidade, explorando e acariciando, deslizando para dentro dela e depois saindo. Ela movia os quadris de
encontro a ele, clamando pela consumao, mas ele continuou suas carcias erticas com uma lentido enlouquecedora. Uma sensao crescia dentro de Miranda, selvagem
e furiosa, um n que contraa e aumentava a cada carcia, levando-a quase aos soluos. Eis que ento algo explodiu dentro dela como uma fogueira. Miranda perdeu
o flego e arqueou os quadris para cima, os msculos se contraindo enquanto era tomada por um
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prazer que vinha em ondas. Por fim, desfaleceu, ofegante e saciada pelo prazer mais luxuriante que jamais sentira.
- Devin... - Seu nome era um sussurro em seus lbios. Olhou para ele com ar sonhador.
O desejo transpassou-o com aquela reao. Devin no podia mais esperar. Moveu-se por entre as pernas de Miranda e deslizou para dentro. Ela prendeu a respirao
diante dessa nova sensao. Pensara que no conseguiria sentir mais prazer depois da torrente que tomara conta dela h alguns instantes, mas descobriu agora que
era capaz de sentir muito mais. Ele a preenchia, produzindo a consumao e a saciedade que ela nem imaginava existir. Os dois estavam unidos, eram um s, e pela
primeira vez Miranda entendeu a unidade do amor. Ele lhe pertencia, e ela a ele.
Abraou Devin com as pernas e os braos, segurando-o firmemente enquanto ele comeava a se mover dentro dela. Sua respirao fremia quando ele entrava e saa, fazendo
crescer novamente aquele n de desejo. No podia acreditar que estava acontecendo de novo, s que, dessa vez, a sensao era ainda mais maravilhosa, porque ele estava
dentro dela enquanto sentia as ondas de prazer explodirem de novo. E, ao aproximar-se do pice de sua paixo, ele se juntou a ela, estremecendo e abafando seu grito
de paixo no pescoo de Miranda.
Eles ficaram agarrados, esquecidos do restante do mundo, lnguidos e realizados.
Devin despertou lentamente. Ele se sentia, pela primeira vez na vida, total e completamente em paz. Virou a cabea e olhou para a mulher que estava deitada a seu
lado. Miranda ainda estava dormindo, os clios negros fazendo sombra na
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face, a expresso inocente e vulnervel do sono, os cabelos um emaranhado vibrante sobre o travesseiro. Ela era bonita, pensou, e se perguntou como poderia ter pensado
que era algo menos que isso. A noite passada havia sido a primeira vez para ele, assim como para Miranda. Nunca sentira tanta sede e desejo, tanto prazer, tanta
satisfao e alegria. Mesmo todos os subterfgios sedutores de Leona nunca o fizeram explodir com felicidade, ao mesmo tempo em que alvio.
Tocou a face de Miranda com o dedo, descendo vagarosamente at o queixo. Ela acordou e olhou para ele meio sono-lenta, um sorriso brotando nos lbios.
- Bom dia - murmurou ela.
- Bom dia. - Ele se inclinou sobre ela e beijou delicadamente seus lbios. - Como se sente?
- Bem. - O sorriso de Miranda abriu-se ainda mais. - Melhor do que isso, na verdade. Estou me sentindo maravilhosa.
- Isso voc  mesmo - concordou ele e beijou-a de novo, mais demoradamente dessa vez.
O desejo tomou conta de Devin mais uma vez, sem aquela agudeza cortante que sentira nas ltimas semanas, mas de um jeito profundo e intenso. Ele gostou da sensao,
sabendo que agora seria satisfeita. Esta manh, j tendo saciado sua nsia mais premente, Devin poderia aproveitar o tempo, explorar e conhecer seus segredos femininos,
ensinar-lhe a opulncia de prazeres guardados dentro dela.
Pde sentir o sorriso de Miranda por baixo de seus lbios quando ela cruzou os braos por trs do pescoo dele e entregou-se ao prazer. Os dois se mexeram em um
ritmo vagaroso esta manh, dando e recebendo, aproveitando cada nuance
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de sua paixo. E, quando atingiram o pice do desejo, a exploso que os sacudiu foi ao mesmo tempo familiar e nova, to poderosa quanto a que haviam sentido na noite
anterior.
Era uma maneira adorvel, pensou Miranda depois, de comear o dia.
Depois disso ficaram deitados conversando por algum tempo. Falaram sobre assuntos sem importncia, mas era uma delcia deitar assim, repassando os momentos comuns
de suas vidas. Eles falaram sobre as pinturas das runas da abadia e das limitaes de Strong, o gerente da propriedade. Miranda observou que ainda havia muitas
coisas que precisava ver, como a parte da propriedade que ficava nos rochedos e algumas das fazendas agrcolas, isso sem mencionar partes da ala oeste destrudas
e os pores da casa.
- Os pores? - repetiu Devin, com um pequeno riso. - Por que voc iria querer v-los?
- Eu quero ver tudo - respondeu, simplesmente, Miranda. - Todas as partes da casa.
- Eles so enormes. Se estendem por baixo de quase toda a parte central de Darkwater. E so velhos. No tenho certeza se so seguros.
- H calabouos? Ele riu novamente.
- Falou a filha do seu pai. Pelo que sei, eram usados apenas para armazenar coisas. Grandes quantidades de coisas. Entretanto, h alguns cmodos pequenos trancados...
- Srio? - Miranda deitou-se de lado para olhar para ele, intrigada.
- Sim, srio. Mais cmodos de armazenagem, onde guardavam munies e bens de valor, sinto dizer.
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Miranda fez uma careta.
- Voc no tem qualquer senso de romantismo.
- E eu que achava que era terrivelmente romntico. - Ele sorriu, preguiosamente, passando o dedo pelo pescoo dela em direo ao trax.
Um pequeno frmito atravessou o corpo de Miranda.
- Bom, em alguns aspectos voc ... Ele a beijou, dando um fim  conversa.
S algum tempo depois desceram para o caf-da-manh. Todos os demais j haviam comido e seguido seus caminhos, de modo que os dois ficaram sozinhos. Foi quando j
estavam quase terminando que Miranda lembrou-se, culposa, de que a madrasta estava doente e que ainda no havia verificado seu estado de sade naquela manh.
Assim que Devin saiu para as runas da abadia, Miranda subiu as escadas at o quarto de Elizabeth. A criada estava obedientemente sentada ao lado da madrasta, da
mesma forma como Miranda a deixara na noite anterior. Elizabeth, por sua vez, estava desperta e sentada na cama com uma grande quantidade de travesseiros apoiados
em suas costas. Parecia estar bem melhor do que no dia anterior, embora a pele ainda estivesse plida, os lbios ressecados, e sob seus olhos houvesse grandes olheiras
escuras que contradiziam as longas horas de sono que dormira no dia anterior.
- Como se sente, Elizabeth? - perguntou Miranda, aproximando-se e fazendo um gesto com a cabea para liberar a criada.
- Miranda. Minha querida. Estou melhor, acho. - Elizabeth balanou a cabea. - Ainda um pouco zonza, no entanto.  muito estranho. No lembro de ter me sentido assim
antes. Ficava acordando toda hora durante a noite e pegando no sono
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novamente. No conseguia manter os olhos abertos por mais que alguns segundos. Meu estmago di... e minha cabea. - Ela suspirou.
- Bom, graas a Deus isso parece ter passado e voc est se recuperando - disse Miranda, animada.
Elizabeth estendeu as mos e pegou a de Miranda.
- A criada estava me dizendo que voc ficou sentada ao meu lado ontem o dia todo. Que nem mesmo desceu para comer. Voc  uma menina to adorvel.
- Eu estava preocupada com voc - respondeu Miranda, honestamente. - Voc dormiu demais.
Elizabeth franziu o cenho.
- Sim. Dormi.  estranho.
Miranda ficou l por mais alguns minutos, conversando, mas sentia que estava deixando Elizabeth cansada. Ento saiu para que a madrasta pudesse voltar a dormir,
indo para a biblioteca, para trabalhar.
Achou que ia ser difcil concentrar-se nos livros de contabilidade e nas explicaes nada claras do sr. Strong sobre o funcionamento da propriedade. Ento, aquela
tarde, Miranda foi aos estbulos, pediu que lhe fosse selado um cavalo e cavalgou at as runas da abadia. Ela e Devin haviam cavalgado at a abadia antes; este
era um dos seus lugares favoritos em toda a propriedade. Mas hoje tinha um atrativo especial.
Devin estava l, pintando, mas parou prontamente ao ver Miranda. Ela trouxera uma pequena cesta de piquenique com um almoo que o cozinheiro preparara a seu pedido.
Comeram sentados  sombra de uma das paredes ainda intactas.
A abadia era um lugar perturbador, rido e em runas, com paredes pela metade e cho de laje coberto por grama e ervas
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daninhas. Muitas das pedras nas paredes da construo tinham sido retiradas e transportadas para Darkwater para construir a manso Aincourt. Duas paredes da catedral
central - uma com a janela lindamente arquitetada, sem o vidro - permaneciam intactas, grandes e imponentes, com os arcos medievais de costume, mas as outras duas
paredes estavam reduzidas a escombros. Partes da abadia eram identificveis apenas por uma fila de pedras enterradas pela metade no cho, demarcando os formatos
dos cmodos. Em outros lugares havia escadas que levavam a um patamar superior inexistente, ou ento buracos vazios sem fundo no cho onde o piso cara pores abaixo.
E, ainda assim, possua uma beleza singular, pensou Miranda, ao mesmo tempo rgida e pacfica, derrotada mas tambm inconquistvel. Depois de todo esse tempo e de
tudo o que se havia feito com ela, a abadia ainda estava ali, anos e anos aps a morte dos homens que a destruram. Quando olhou para a pintura de Devin da abadia,
viu que ele fora capaz de capturar a eternidade do lugar, sua grandeza fantasmagrica. Ps a mo em cima da dele e a apertou, sorrindo para o marido.
Naquele momento, no achava que poderia haver mulher mais feliz no planeta.
Nos dias que se seguiram, nada aconteceu que a fizesse mudar de opinio. Miranda passou a maior parte do tempo com Devin. Estava negligenciando o trabalho, sabia,
mas no se importava. Seu pai era suficientemente capaz de lidar com todos os aspectos da restaurao da casa. Ele e Hiram poderiam lidar com quaisquer contratempos
que surgissem em relao
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aos negcios. No que se referia ao restante da propriedade de Devin, bem, isso poderia esperar mais alguns dias; j esperara por muitos anos. Prometeu a si mesma
que retomaria logo o trabalho, mas mexer na negligncia de tantos anos era uma tarefa melanclica demais para quem estava se sentindo daquele jeito, fervilhando
de alegria a cada minuto do dia.
Todos repararam a mudana de Devin e de Miranda. Seu pai sorriu secretamente, como se quisesse dizer que estivera certo todo o tempo. Certa noite, durante o jantar,
ele observou, jovialmente:
- Estou surpreso que vocs dois no tenham decidido viajar em lua-de-mel. Vo a Viena ou a algum lugar assim.
- Isso mesmo - concordou tio Rupert. - Ficar a ss por um tempo.  muito bom, diria. Sem desenhos enfadonhos, tambm.
Devin sorriu.
- Sugeri isso a Miranda. Mas ela preferiu ficar aqui e vasculhar a velha casa mofada.
- Isso no  verdade. Eu disse que adoraria ir, mas primeiro tenho de colocar a propriedade em ordem novamente. Papai pode cuidar da superviso da "velha casa mofada"
sendo restaurada. Mas ainda preciso me reunir com os arrendatrios e visitar as fazendas maiores.
Devin lanou-lhe um olhar carinhoso.
- Ento creio que nossa lua-de-mel ser uma viagem aos rochedos, ao que tudo indica. Miranda deseja conhecer nossas terras por l.
- Voc se refere  montanha Apworth? - perguntou lady Ravenscar, espantada. - Por que quereria ver aquilo, Miranda?
- Ela  bonita de um jeito todo particular, mame - argumentou Rachel.
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- Mas no h lugar para ficar - disse Rupert, unindo-se em coro com a irm.
- No  verdade, tio - disse Devin. -J fui at l muitas vezes. Bert Jones sempre fica feliz em me deixar ficar em sua casa, com sua famlia. Ele ficaria duplamente
feliz se eu levasse uma linda esposa comigo. Daqui at Apworth  uma cavalgada tranqila.
- Bert Jones? - As sobrancelhas de lady Ravenscar se ar-quearam ainda mais. - Voc vai alojar sua esposa em uma casinha de sap?
- Estou certa de que j fiquei em lugares piores, lady Ravenscar - disse-lhe Miranda, animada. - Mas  claro que poderamos tambm armar uma barraca. Devin me contou
que tem uma.
Lady Ravenscar pareceu que ia desmaiar.
- Minha querida... acampar...
- Seria um lugar maravilhoso para pintar - continuou Devin, empolgando-se com a idia.
- Francamente, Devin, voc no pode sair arrastando sua esposa pelo interior inspito s para pintar uma paisagem.
- Mas eu quero v-la - assegurou-lhe Miranda. - Estou interessada em todas as reas da propriedade.
Tio Rupert deu de ombros.
- Pessoalmente, acho que escolheria Viena para uma lua-de-mel, mas cada um sabe de si.
- Ns iremos a Viena tambm - garantiu-lhes Miranda. - E  Itlia. - A idia de uma viagem com vagar por Florena, Roma e Veneza com Devin a atraa muito. Ela olhou
para ele e seu corao se encheu de emoo. - Mas temos a vida inteira para isso.
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Devin saiu cedo na manh seguinte para o pequeno lago Darkwater. Acabara uma srie de esboos das runas da abadia um ou dois dias antes e decidira passar para o
lago negro que emprestara seu nome  casa. Miranda acordou tarde e desceu para a biblioteca. Precisava terminar algumas cartas para seu gerente em Nova York, e ento,
pensou, iria pedir ao sr. Strong que a levasse para conhecer algumas das fazendas arrendadas. Estivera lendo uma grande quantidade de informaes sobre mtodos aperfeioados
de cultivo e queria conhecer mais a terra para ter uma idia melhor do que teria de fazer.
Mas quando chegou  biblioteca, encontrou um bilhete na mesa, esperando por ela, que a fez tirar todos os pensamentos relacionados a Strong e s fazendas arrendadas
da mente. Seu nome estava rabiscado na parte de fora do bilhete. Miranda sorriu. Vira a assinatura de Devin poucas vezes, mas reconheceu imediatamente as letras
pontudas como sendo sua caligrafia caracterstica. Rompeu o lacre e leu o breve bilhete:
Minha amada,
Encontre-me na entrada do poro que h na parte de trs da casa,  uma hora da tarde. Tenho algo para mostrar-lhe.
Estava assinado apenas com um grande R. Abaixo da mensagem havia um mapa tosco mostrando a localizao da entrada do poro. Miranda leu o bilhete uma segunda vez,
intrigada. No conseguia imaginar o que Devin queria lhe mostrar ou por que teria escolhido um local to estranho. Ela nem mesmo reparara que havia uma entrada de
poro localizada ali. Alm disso, ele no estaria l hoje. Disse que iria para o lago Darkwater. Miranda ficou se perguntando se ele teria
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mudado de idia ou se o lago fora um pretexto para alguma surpresa que havia preparado. Um sorriso brotou em seus lbios em antecipao. O que quer que Dev tenha
planejado, tinha certeza de que seria muito mais divertido do que cavalgar pela propriedade com Strong.
Enviou uma mensagem ao homem dizendo que o encontraria no dia seguinte. Em seguida, sentou-se para trabalhar na correspondncia, querendo termin-la antes de seu
encontro com Devin. Foi difcil, porque sua mente ficava divagando para o encontro com o marido.
Ficou pensando no que iria vestir. Ser que teria de se trocar e pr um vestido velho, mais apropriado para uma visita aos pores sem dvida imundos? Ou deveria
deduzir que os pores eram meramente um artifcio e que ele tinha algum outro destino em mente e, com isso, deveria continuar com o que estava usando, que era um
dos vestidos preferidos de Devin?
Finalmente se decidiu pela opo mais vaidosa e no subiu para pr um vestido velho. Em vez disso,  uma da tarde, saiu pela porta dos fundos e caminhou, seguindo
as instrues do mapa, na direo oeste. A quase meio caminho do muro de trs da casa, Miranda viu a pequena porta embutida do poro, exatamente onde o mapa a mostrara.
Parecia estranho que no a houvesse visto antes. Ento reparou que a hera em volta da porta havia sido aparada recentemente. Percebeu que isso  o que deveria ter
escondido a porta at agora e que Devin a retirara especialmente para esta tarde.
Com um sorriso nos lbios, botou a mo na maaneta e empurrou a porta. Piscou os olhos, olhando para a funesta escurido interior, incapaz de distinguir qualquer
coisa dentro
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do poro por seus olhos estarem acostumados  luminosidade do sol do vero.
- Dev? - chamou, hesitante, dando um passo para dentro, ainda segurando a porta com o brao esticado. Ela espreitava a escurido. - Voc est a? No consigo ver
nada.
Naquele momento, a mo de algum emergiu e segurou seu brao, empurrando-a para dentro, na escurido. Ela tropeou, dando um grito de protesto por causa daquela
brutalidade. No instante seguinte, essa mo empurrou-a no meio das costas e Miranda caiu para a frente, em um espao vazio e escuro.
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Captulo 18

Devin s voltou do lago Darkwater quando a luz do dia comeou a diminuir. Tivera um dia longo e satisfatrio. Ao cavalgar para casa, antecipou com prazer o momento
de mostrar para Miranda os esboos preliminares que fizera do lugar. Quando chegou  casa, entregou o cavalo a um cavalario e foi direto para a biblioteca. Ela
estava vazia, exceto pela presena de Hiram, que trabalhava em uma pilha de papis.
- Voc sabe onde est Miranda? - perguntou a Hiram, que olhou para ele, sem entender. - Miranda - repetiu, depois de um instante, perguntando-se o que haveria de
errado com o homem. - Voc sabe onde ela est?
- Mas, eu... Bem, eu pensei que ela estava com voc.
- Comigo? No. Estive fora o dia todo no lago. Por que pensou que estava comigo?
- Eu... Bem, deduzi que era com voc. Ela terminou uma carta para seu banqueiro em Nova York, entregou-a a mim e disse que tinha um compromisso. Algo no jeito como
sorriu, eu, ah, pensei que significava que era com voc.
- No. - Devin olhou para ele. - Deve ter sido com o pai dela ou com o arquiteto.
O outro homem deu de ombros, mas havia uma expresso duvidosa em seu rosto.
- Suponho que sim, meu senhor. Ela no chegou a dizer. Devo ter interpretado erradamente.
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Devin virou-se e subiu as escadas. Verificou primeiro em seu quarto, mas ela no estava l. Alguma coisa na expresso estranha de Hiram disparara um alarme dentro
dele. O homem tivera certeza de que Miranda se referira a ele. Por qu? Porque agiu do modo como agia quando falava dele. Foi isso o que Hiram quis dizer. Que outro
homem a faria agir dessa forma? Com certeza, no o seu pai... ou qualquer outro em que Devin conseguia pensar naquela casa.
Sua mente voltou-se automaticamente para o jovem mdico da vila, e, por um instante, o cime tomou conta dele. Mas a razo preponderou. Devin sentia tanta confiana
em Miranda quanto ela sentia nele - provavelmente mais ainda. Se houvesse decidido arranjar um amante, teria dito isso a ele sem rodeios. Convenceu-se de que Hiram
deveria ter se confundido, mas no conseguiu domar o medo que brotava em seu peito. Tornara-se confiante nas ltimas semanas porque nada que incomodasse havia acontecido.
E, de qualquer forma, nunca imaginara que o perigo ameaava algum seno ele mesmo...
Deu voltas pelo quarto e saiu abruptamente. Primeiro, foi ao quarto dos Upshaw, no qual encontrou Joseph e a esposa.
- Miranda? - disse o pai, surpreso. - No, no a vejo desde a hora do almoo. Voc olhou na biblioteca?
- Ela j saiu de l h algum tempo.
- Onde est ela? - Elizabeth ergueu a voz, histericamente. - Aconteceu algo a ela?
Ele olhou para a mulher. Raramente via a madrasta de Miranda, que ficava sempre no quarto, mas, ao olhar para ela agora, uma sensao estranha tomou conta de Devin.
Logo depois essa sensao passou, to rpido quanto surgiu, e ele viu apenas uma mulher assustada na sua frente.
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- O que voc fez com ela? - continuou Elizabeth, sua voz quase um ganido.
- Elizabeth! Querida, o que est dizendo? -Joseph virou-se para a esposa com uma expresso horrorizada. Colocou as mos nos braos dela e virou-a, levando-a at
uma cadeira. - Por favor, tenho certeza de que no h nada com o que se preocupar. Miranda sabe tomar conta de si mesma. Sempre sai por a sozinha. Ela voltar antes
do jantar.
Joseph voltou at Devin, dizendo em voz baixa:
- Peo desculpas. Minha esposa no est se sentindo bem e se preocupa muito com as meninas. Ela tem estado muito ansiosa nas ltimas semanas. No sei exatamente
por qu. Vamos sair e ver se conseguimos encontrar essa menina.
Mas Elizabeth no seria deixada para trs. Insistiu em ir com eles procurar Miranda. Primeiro foram no quarto de Vernica, no qual descobriram que ela no vira a
meia-ir-m o dia todo. Devin foi de porta em porta por toda a casa, um medo crescendo a cada momento que passava e em que ele abria e fechava portas de cmodos vazios.
Algo acontecera a ela. Ele fora descuidado, inconseqente, e Miranda pagara o preo.
O grito de Miranda atravessou o ar quando foi arremessada para a frente na escurido total. Por um instante de cegueira e pnico teve certeza de que estava morta.
Ento bateu de encontro a uma parede dura e escorregou por ela, os ps tropeando nos degraus de pedra. Suas pernas prenderam-se por debaixo dela. Miranda caiu violentamente
de joelhos, batendo com o lado do corpo na parede mais uma
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vez. Parou, encolhida contra a parede, e ficou imvel por um bom tempo, estupefata.
Gradualmente, a dor em vrias partes do corpo sobreps-se ao choque que a havia dominado. A cabea doa, as pernas estavam cruzadas em uma posio insustentvel
por baixo dela; as palmas das mos ardiam, assim como o brao esquerdo. Ela se moveu cuidadosamente, levantando a mo para encost-la na parede que no podia ver
enquanto esticava primeiro uma perna, depois a outra. Miranda deu um suspiro de alvio quando seus ps acharam degraus de pedra, e no apenas ar, abaixo deles. Um
pouco mais confortvel, recostou-se na parede, cruzando os braos numa tentativa de parar a tremedeira que tomara conta de seu corpo.
Algum a atacara! Levou algum tempo para que chegasse a pensar nisso. Mas algum claramente a havia atrado para esta entrada de poro com um bilhete. Depois a puxara
para dentro e a empurrara escada abaixo. Essa pessoa deve ter achado, obviamente, que Miranda morreria na queda. E isso teria acontecido, se o empurro que deram
nela no a tivesse jogado para o lado, alm de para a frente, de modo que foi de encontro  parede ao lado dos degraus, em vez de direto para a frente e para baixo.
Miranda desejava poder parar de tremer. Estava frio e mido no poro, e isso, combinado ao calafrio de medo, a estava congelando. Enroscou-se de encontro  parede
no escuro, tentando pensar. Como aquilo acontecera? Mais do que isso, quem a queria morta?
Seus pensamentos voltaram-se automaticamente para os avisos que a madrasta dera no outro dia. Miranda no os levara em considerao, deduzindo que eram simplesmente
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fruto do tipo de ansiedade infundada da qual Elizabeth sofria com freqncia. Mas agora no tinha como deixar de pensar nisso, de trazer  memria e considerar o
que fora dito. O bilhete fora escrito por Dev, levando-a a este lugar propcio  morte. E quem mais se beneficiaria com sua morte? Bem, seu pai e Vernica, verdade
seja dita, mas Miranda acreditaria que eles seriam capazes de mat-la tanto quanto ela seria de voar. Dev, ainda que no herdasse toda sua fortuna, teria direito
a uma grande soma em testamento, o suficiente, como argumentara Elizabeth, para valer a pena se livrar dela - sobretudo se isso tambm significasse se livrar do
fardo de ter uma esposa.
Lgrimas correram dos olhos de Miranda, e ela deixou escapar um soluo engasgado. Seria possvel que Dev estivesse apenas representando um papel nas ltimas semanas,
fingindo ser feliz ao lado dela, fingindo ter rompido com Leona, tudo para que no parecesse suspeito quando ela fosse encontrada morta na base da escadaria do poro?
Miranda levou a mo trmula  boca,  beira de se render  histeria. Ficou quieta por um instante, cada fibra do seu corpo tensionada. No era Dev! Simplesmente
no poderia ter sido Devin!
Rangeu os dentes e controlou suas emoes. No iria sucumbir. Recusava-se a se entregar a esse momento passageiro de dvida e medo. Era forte demais para isso.
Rispidamente, afastou seu medo contido, No tinha sido Dev quem fizera aquilo com ela. Isso era ridculo. Sabia em seu corao, mesmo que sua mente houvesse entrado
em pnico por um instante. Conhecia Devin. Ele no mentira para ela. Nunca mentira para ela. Fora honesto desde o incio, quando
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lhe disse que no queria se casar com ela. No agira falsamente com ela nas ltimas semanas. Tinha certeza disso. Qualquer um poderia ter feito isso com ela, menos
ele.
Estava agindo como uma tola, sentada ali, tremendo e duvidando de Devin. Nem tentara ainda subir as escadas para ver se conseguia abrir a porta e sair.
Levantou-se com cuidado, ciente do fato de que do outro lado da escada poderia haver tambm um vazio indo at o fundo do poro. Mantendo ambas as mos na parede,
comeou a percorrer centmetro a centmetro seu caminho de volta para cima, tateando com o p antes de dar cada passo e deslizando parede acima. Estava totalmente
escuro, exceto pela pequena linha de luz que aparecia entre a parte de cima da porta e o portal, o suficiente para indicar onde estava a porta. Cada passo que dava
a fazia lembrar-se de suas dores. A manga do vestido estava em farrapos no lado esquerdo, onde Miranda raspara ao longo da parede spera de pedra. Tambm havia um
grande rasgo no lado esquerdo da saia. O antebrao estava esfolado e ardia intensamente, porque o arranhara na parede salvadora. Parecia que todos os seus msculos
e ossos doam da queda bruta. Miranda sabia com certeza que, no dia seguinte, estaria cheia de manchas pretas e roxas.
Por fim, alcanou a porta e procurou a maaneta. Tudo o que encontrou foi um aro de ferro. Enganchou a mo nele e puxou-o, mas, como imaginara, a porta no se moveu.
Quem a empurrara escada abaixo trancara a porta ao sair. Seria tolice no faz-lo, claro.
Recostou-se na porta de madeira macia, lutando contra outra onda de pnico. Quanto tempo levaria at que algum a
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encontrasse? No dissera a ningum onde estava indo, apenas disse a Hiram que tinha um compromisso. E passariam horas at que algum percebesse que ela estava desaparecida,
devido ao tamanho da manso. S poderiam comear a se preocupar  noite, quando no aparecesse para jantar. E a no teriam nem idia de onde procurar. Colocara
o bilhete no bolso; no havia esperanas de que algum o encontrasse e a seguisse at o poro. E quem suspeitaria que fora para l que havia ido?
O pnico crescia dentro de Miranda de novo. Comeou a bater na porta e chut-la, gritando a plenos pulmes. Depois de alguns minutos, deixou-se cair no cho, exausta.
Seus esforos mostraram-se inteis. A porta era muito velha, mas compacta, feita com grossas tbuas de madeira; os pores eram de pedra ainda mais espessa. Tinha
certeza de que todo o barulho que fez fora imediatamente absorvido. Inspirou algumas vezes para se acalmar e tentou no se entregar ao desespero.
Devin viria procurar por ela quando no a encontrasse em casa. No descansaria at que a casa e os arredores fossem inteiramente esquadrinhados. E havia uma casa
cheia de gente e de criados que poderiam procurar por ela. Acabaria sendo encontrada. Poderia levar algum tempo, e no era nada agradvel ficar sentada ali no poro
escuro e mido, mas podia agentar. Era apenas uma questo de tempo.
Nesse meio-tempo, decidiu, ela ocuparia sua mente tentando imaginar quem teria feito aquilo com ela.
O bilhete fora uma armadilha, era bvio. Parecia com a letra de Devin, mas ele trazia apenas umas poucas palavras. Miranda ainda no estava to familiarizada com
a caligrafia
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dele, tendo visto apenas alguns poucos casos. Era uma escrita caracterstica, provavelmente fcil de copiar, com suas letras grossas e pontudas. Algum lhe enviara
um bilhete falso e esperara que viesse correndo, contando com seu amor por Devin. Mas quem? E por qu?
Ningum ganharia mais com sua morte do que seu pai, Vernica e Devin, mas se recusava a acreditar que teria sido algum deles. Devia haver alguma outra explicao.
Embora no conseguisse pensar em nenhuma.
Recostou-se na porta, apoiando os cotovelos nos joelhos e enterrando o rosto nas mos. Dev viria salv-la, disse a si mesma. Ele viria.
Miranda no sabia dizer h quanto tempo estava sentada na escurido fria e mida. Parecia uma vida. Passou da determinao ao desespero, indo e voltando vrias vezes.
Pensou em sua vida, em sua famlia, em Dev. Lembrou-se de quando o conheceu e de todas as vezes em que estiveram juntos desde ento. Retrospectivamente, no parecia
muito tempo. E, ainda assim, ela o amava como nunca amara ningum mais. Soube disso instintivamente, pensou, desde a primeira vez em que o viu. Lembrou-se do repentino
frio na barriga quando olhou em seus olhos e da estranha sensao de j conhec-lo. Reconhera-o em algum outro nvel que lhe dizia que esse era o homem certo para
ela, o homem que amava.
Outras pessoas sem dvida lhe teriam dito que era loucura casar-se com ele como o fez, baseada apenas naquele instinto. Diriam que ela fora levada pela boa aparncia
e que era paixo, no amor, o que sentia. Mas Miranda sabia que no era verdade. Ela o amou, seno  primeira vista, pelo menos
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na noite da festa de Rachel, quando ele a deixara tonta com seus beijos e quando olhara suas pinturas e vira sua alma. Soube, naquele instante, que no havia ningum
melhor para ela. Tudo o que acontecera desde ento s fizera aumentar seu amor por ele.
Miranda s no estava to certa do amor do marido por ela. Ele a queria, sabia. E havia se comprometido com ela. Mas no chegou a dizer que a amava. Essa emoo,
receava, ainda era reservada a Leona.
Mas algum dia, pensou, ele perceberia que era a ela quem amava. Miranda apagaria a imagem de Leona da cabea de Devin e a substituiria pela sua. Contanto que conseguisse
sair daquele poro,  claro, lembrou-se, fatigada.
Estava recostada na porta quando ouviu um barulho. Levou um momento at se dar conta; ento empertigou-se, sentando-se ereta. O barulho estava abafado, mas com certeza
era o som de uma voz.
Miranda ficou de p rapidamente, retraindo-se pela dor no tornozelo. Comeou a bater na porta de novo, gritando. Fez uma pausa para recuperar o flego, e, ao faz-lo,
ouviu um chamado abafado do lado de fora da porta. Era Devin. Era seu nome que ele gritava.
Miranda gritou em resposta. Um segundo depois algo pesado bateu na porta. E bateu de novo, e de novo, mas a porta mal sacolejou. Fora construda para durar uma era.
Ouviu a voz de Devin mais uma vez, praguejando energicamente, e ela sorriu. Alguns minutos depois houve um rangido, metal contra metal, e ela percebeu que ele devia
ter girado uma chave na fechadura.
Miranda deu um passo para o lado bem a tempo antes de a porta se abrir com um solavanco. Por um instante, a silhueta
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de Devin ficou emoldurada na porta, enquanto enfiava a cabea para dentro, e logo estava no degrau com ela, abraando-a fortemente.
- Miranda - sussurrou ele em seus cabelos. - Miranda, graas a Deus. Graas a Deus. Achei que havia perdido voc para sempre.
-  minha culpa - disse Devin, andando de um lado para o outro em seu quarto.
Trs horas j haviam se passado. Miranda estava encoberta na cama larga e acolhedora de Devin, tendo tomado um banho e comido, j tratada com curativos feitos em
seus vrios cortes e arranhes. Devin insistiu que ela bebesse um brandy reconfortante, de modo que agora se sentia agradavelmente aquecida e levemente zonza ao
observ-lo andar de um modo agitado. Eles passaram algum tempo contando um para o outro o que havia ocorrido naquele meio-tempo, Miranda mencionando o bilhete e
o empurro escada abaixo e Devin explicando como uma das empregadas a vira por acaso andando atrs da casa perto da porta, o que fez com que economizassem horas
e horas de procura por ela - e reduzindo a espera de Miranda no frio e no escuro. Devin olhou o bilhete que estava no bolso de Miranda e declarou logo que era uma
falsificao, mas Miranda j havia deduzido isso. Infelizmente, no levava a nenhuma pista. Era s um pedao de papel, que poderia ser encontrado em qualquer lugar
da casa - ou mesmo em qualquer outra casa. No havia como dizer quem o escrevera, ou mesmo se a pessoa vivia na casa com eles - uma idia perturbadora - ou se era
um estranho completo que, de alguma forma, conseguira penetrar na casa.
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- Mas por que algum iria querer pr fim  minha vida?
- perguntou Miranda, sensatamente.
A resposta de Devin foi a afirmao sucinta de que a culpa era dele.
- O que voc quer dizer com isso? - perguntou Miranda.
- Como pode ser culpa sua?
- Eu sabia que havia algo errado - disse ele, sendo direto. - Eu deveria ter tomado mais cuidado. Deveria ter vigiado voc melhor. O problema  que achei que era
de mim que eles estavam atrs.
- Quem?
- No sei quem. Quem quer que tenha feito isso... e o corrimo na biblioteca... e a pedra no penhasco.
Miranda sentiu um calafrio.
- Ento voc acha que todas essas coisas foram planejadas tambm? - Durante suas horas longas e frias de espera, fora forada a concordar com a anlise da madrasta
sobre os "acidentes".
-  claro. Pedras caem de penhascos de calcrio. J as vi cadas antes. Mas quo provvel  que uma tenha resolvido cair exatamente quando voc estava cavalgando
debaixo dela. Especialmente logo depois de o corrimo na biblioteca ter sido serrado para que voc casse?
- Ele foi serrado? No era s madeira podre que quebrou?
- No. Aquela madeira  bastante slida. Eu estava certo disso, porque estive l na plataforma alguns dias antes, olhando a madeira, e sabia que no havia nenhum
cupim l. Foi por isso que subi para verificar o buraco depois que voc saiu. E descobri que ele havia sido serrado quase completamente dos dois lados.
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- Por que no disse nada? - perguntou Miranda. Por que no me contou?
- No queria assust-la. E no percebi que voc estava em perigo. Achei que tinha sido um acaso ter sido voc quem se apoiara no corrimo. Deduzi que o ataque era
direcionado a mim.
- Por qu?
- Por causa dos outros ataques. Aqueles em Londres. Na noite em que nos conhecemos e da outra vez em Vauxhall Gardens. Em ambas as vezes, vieram atrs de mim. Ento,
quando o corrimo foi sabotado, achei que queriam machucar a mim. Exatamente como quando a pedra caiu l de cima. Eu estava no mesmo grupo que voc, por isso deduzi
que haviam sido incompetentes e empurraram-na tarde demais para me atingir. Tentei tomar conta de voc porque estava com medo de que pudesse se machucar s por estar
a meu lado, como esteve naquelas duas vezes, mas no percebi que voc era o alvo. Ainda no tenho a mais vaga idia de quem vem fazendo isso ou por qu. Eu estava
errado? Estavam atrs de voc nas outras vezes? Ou era a mim que queriam machucar e depois decidiram que poderiam me atingir machucando voc?
- Mas quem quereria causar algum dano a voc? - perguntou Miranda.
Ele sorriu com pesar.
- Um nmero grande de pessoas, acho. Naquela primeira noite, achei que se tratava de um cobrador exaltado. Alguns rufies que algum a quem eu devia dinheiro enviara
para me assustar e me obrigar a pagar a dvida. Porm, o segundo homem pareceu muito mais determinado a me matar, e no sei como isso beneficiaria um cobrador. -
Ele fez uma pausa, olhando para Miranda. - O que foi? Qual  o problema?
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- Nada - respondeu Miranda. - Por que a pergunta?
- No sei. Voc ficou com uma expresso estranha por um momento.
- Oh. Bem, acho que  porque eu estava pensando no homem que nos atacou com uma faca.
Miranda esperava que sua voz houvesse sado normalmente. A verdade era que quando Devin mencionara o homem que sara do escuro para atac-los com uma faca, aquilo
a atingiu como um raio: o homem que os atacou naquela noite era o mesmo com quem vira sua madrasta falando h alguns dias no velho pomar!
Ela sentiu frio, como se todo o seu sangue houvesse sido drenado para fora do corpo. Teve de fazer fora para prestar ateno no que Devin estava dizendo.
- Mas eu ofendi muita gente no decorrer dos anos - continuava ele. - Poderia ser qualquer um deles. Eu no levava uma vida exemplar. Mas o que no consigo entender
 por que algum deles esperaria at agora para tentar acabar comigo. Por outro lado, se  atrs de voc que esto, por que aqueles homens me atacaram na primeira
noite? Voc no estava comigo. Eu nem a conhecia. Mais ainda, por que algum quereria mat-la?
Miranda no respondeu. A resposta, pensou, estava na sua frente. Se Miranda morresse, a propriedade iria para o pai e para a meia-irm. Elizabeth no herdaria nada
diretamente, mas estaria dando um presente e tanto para a filha. E sem Miranda, quando Joseph morresse, Elizabeth e a filha herdariam todo o dinheiro dele, no apenas
parte.
Mas no podia acreditar que a madrasta contratara algum para mat-la. Elizabeth era o mais prximo de uma me que Miranda havia conhecido. Ser que a madrasta estava
fingindo
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am-la por todos esses anos? Ser que desejava secretamente tir-la do caminho? Lembrou-se de como Elizabeth a abordara outro dia, precavendo-a contra Devin. Que
maneira melhor de desviar qualquer suspeita que pairasse sobre ela?
No podia acreditar nisso. Devia haver outra explicao. Elizabeth no podia ser m. Talvez o homem tivesse sido contratado por outra pessoa e estava l fingindo
ser um jardineiro para que pudesse estar perto de Miranda e achar uma oportunidade de mat-la. Nesse caso, Elizabeth s o conheceria mesmo como jardineiro. Ou ento...
Bem, ela no conseguia pensar em nenhuma outra possibilidade no momento, mas, com certeza, se se dedicasse, poderia chegar a algo. A me de Vernica no poderia
ser a suspeita. Seu pai no podia estar casado com uma assassina. Isso era totalmente absurdo.
Olhou de soslaio para Devin. Queria contar-lhe seus pensamentos, mas sabia que no podia. Ele assumiria de imediato que a madrasta estava tentando mat-la e faria
o que fosse preciso para impedi-la. Miranda no podia suportar a idia de ver Elizabeth sendo exposta como uma criminosa e enviada para a priso. Isso acabaria com
seu pai. A vergonha perseguiria Vernica pelo resto da vida. Sabia que teria de resolver a questo da culpa de Elizabeth sozinha.
- At que cheguemos a uma concluso, temos de fazer algo para proteg-la - dizia Devin, e Miranda concordou, distraidamente. - Voc tem de me prometer que no vai
sair de casa sozinha - continuou ele. - Pretendo estar a seu lado durante todos os momentos possveis, mas se eu no estiver aqui, voc no deve sair para cavalgar
sozinha, nem mesmo sair para caminhar no jardim. Entendido?
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Miranda anuiu com a cabea.
- Entendido. Devo esperar por voc aqui dentro como a mais vulnervel das fmeas.
- Preciso tir-la daqui. H muitos locais propcios para um ataque dentro e em torno de Darkwater. Obviamente, o homem no tem dificuldade alguma em entrar na casa.
Acho que devemos ir para a montanha Apworth logo que pudermos. No h qualquer chance de algum a atacar l sem que eu saiba.
- Mas como vamos poder descobrir quem  a pessoa responsvel pelos ataques se ficarmos presos l? - argumentou Miranda, sensatamente.
- Voc tem razo. - Ele observou-a, o rosto assumindo uma expresso pensativa. - Talvez... talvez possamos preparar uma armadilha para nosso agressor.
- Uma armadilha? - Miranda animou-se. A idia de tomar uma atitude que os levasse ao assassino a atraa muito mais do que a de se esconder passivamente. A menos,
 claro, que o assassino que pegassem na armadilha fosse Elizabeth...
- Sim. - Devin sorriu levemente, entusiasmando-se com a idia. - Se dissermos a todos que vamos partir para Apworth, para nos protegermos depois do seu infortnio
no poro, ento o assassino vai pensar que estamos l sozinhos, vulnerveis, desavisados, e poder vir atrs de ns. Tentar nos matar sem que haja testemunhas por
perto e fazer parecer como se fosse mais um daqueles acidentes. S que no estaremos sozinhos, nem desavisados, nem vulnerveis. Estaremos esperando por ele. Posso
combinar com o encarregado dos jogos e seu filho que nos encontrem l. Confio plenamente neles. Eles podem ficar secretamente de guarda. Quando o assassino chegar,
disparam a armadilha.
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- Est certo - concordou Miranda.
Ela s esperava que as coisas acontecessem de modo que pudessem pr em prtica o plano de Devin. Mas antes, amanh, pretendia ter uma conversinha com Elizabeth.
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Captulo 19

Para sua surpresa, Miranda encontrou a madrasta esperando por ela quando entrou na biblioteca na manh seguinte. Fez uma pausa na soleira da porta, rapidamente reorganizando
seus planos.
- Miranda! - Elizabeth ficou de p de pronto. Seu rosto estava plido e determinado. - Eu... eu queria falar com voc.
- Bom - respondeu Miranda. - Eu tambm queria. Olhando para a madrasta, era difcil acreditar em qualquer um daqueles pensamentos que passaram por sua cabea na
noite anterior. Ainda assim, no havia como fugir do fato de que Elizabeth estivera falando com o homem que os atacara.
- Sei que voc no vai gostar de ouvir isso, mas tenho de diz-lo - comeou Elizabeth, resoluta.
- Est bem. - Miranda andou at a mesa da biblioteca e sentou-se, os olhos fixos no rosto da madrasta.
Elizabeth engoliu em seco.
- Eu... eu espero que o dia de ontem a tenha feito pensar no que eu lhe disse outro dia. Sobre sua segurana.
- Sim. Me fez pensar bastante em minha segurana.
- Algum a fez ir at o poro, onde voc poderia ter quebrado o pescoo. Ou ter ficado machucada e sangrando por vrios dias... ou quem sabe por quanto tempo! -
A voz de Elizabeth falhou, e ela fez uma pausa, visivelmente lutando para controlar suas emoes.
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- Sim, eu sei. - Miranda impediu que a pena instintiva que sentia por Elizabeth viesse  tona e encarou-a friamente.
- Voc acredita em mim agora? V como Ravenscar ...
- O dia de ontem no me fez suspeitar de Devin - disse Miranda, categoricamente. - Alm do mais, foi ele quem liderou a busca por mim.
- Sem dvida, achou que voc j estava morta depois da queda, ou quase morta, e desviaria as suspeitas de si ao parecer que estava procurando desesperadamente por
voc, preocupado sobre onde estaria. - Elizabeth parou, e ento acrescentou: - E esse no foi o nico atentado ocorrido recentemente. Naquele dia, quando bebi seu
chocolate quente, lembra? Passei muito mal e fiquei sonolenta depois. Estava to grogue que mal conseguia abrir os olhos. Quase dormi enquanto subia as escadas at
meu quarto. Aquilo no era uma coisa normal. No sabia o que pensar. Mas ontem comecei a somar dois mais dois. Percebi que havia sido um outro atentado contra a
sua vida. Algum colocara algo em seu chocolate, mas o plano foi frustrado porque voc deu a xcara para mim.
Miranda sentiu um calafrio ao considerar as palavras da madrasta. Lembrou-se de como tentara acordar Elizabeth sem sucesso e de como se preocupara com o estado de
sade dela. No entanto, aquilo lhe dava um raio de esperana. Se a madrasta fora drogada, ento no poderia ser a pessoa responsvel por tentar mat-la. Ou talvez
Elizabeth estivera realmente doente e tirara proveito disso como forma de afastar de si a suspeita.
- Mas voc s dormiu - argumentou Miranda. - Quero dizer, voc passou mal, mas isso obviamente no a matou. Deve ter sido um sonfero... Se  que foi alguma coisa.
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- Talvez ele pretendesse fazer algo com voc estando nesse estado entorpecido. E, tambm, voc sabe como meu estmago  fraco. Se bem se lembra, vomitei quase tudo
o que bebi. Ento talvez no tenha ficado o suficiente no meu estmago para me matar. Voc, por outro lado, teria sido capaz de absorver toda a dose. Poderia ter
sido o bastante para mat-la.
- Elizabeth, Devin no tentou me matar. Sei disso.
- Por qu? - Elizabeth gritou com um tom de voz inflamado. - Porque lhe disse que no? No se deixe enganar por ele. Devin  um mentiroso. Um enganador!
Miranda encarou Elizabeth, estupefata, quando esta comeou a andar de um lado para o outro no cmodo, agitadamente. Com as mos na cintura, o rosto contorcido, ela
parecia estar lutando com algum tipo de demnio interior enquanto andava.
- Elizabeth, pare com isso - disse Miranda, asperamente, indo at ela, pegando-a pelo brao e virando a madrasta para que olhasse para ela. - Voc est contra Devin
desde o incio. Voc me diz que ele  mau, um mentiroso. Mas eu acho que  voc quem me deve explicaes.
- O qu? - Elizabeth afastou-se de Miranda o mximo que pde, olhando para ela, hesitante. - O que est dizendo?
- Eu vi voc, Elizabeth - disse Miranda, secamente. - Vi voc com aquele homem no pomar outro dia. No primeiro momento, no consegui saber de onde o conhecia. S
sabia que parecia familiar. Mas ontem  noite me lembrei de onde o havia visto antes. Era o homem que nos atacou em Londres. - Ela sacudiu o brao de Elizabeth.
- O que voc estava conversando com o homem que nos atacou?
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- No! - Elizabeth gritou em choque. - No a voc! No era para ele atacar voc!
Elizabeth percebeu, no momento em que acabou de pronunciar tais palavras, que se entregara. Parou abruptamente, o sangue se esvaindo de seu rosto.
Miranda soltou o brao da madrasta, olhando para ela como se nunca a houvesse visto antes.
- Ento voc o contratou? Voc o enviou?
- No era para ele assustar voc - disse Elizabeth, agitada. - Muito menos atac-la. Eu nunca a machucaria... voc tem de acreditar nisso. Era s a Devin.
- S a Devin? - repetiu Miranda. - Elizabeth! Por qu?
- Eu estava tentando impedir que se casasse com voc! Da primeira vez, ele tinha s de evitar que Ravenscar aparecesse no jantar. Eu sabia o quo encantador ele
era. Tinha medo de que, se o conhecesse, acabasse concordando em se casar com ele. Ento conheci Hastings. Ele disse que podia evitar que Ravenscar aparecesse na
casa da me dele aquela noite. Ento, da segunda vez, eu sabia que tinha de fazer algo mais. Hastings devia assustar Devin, dizer-lhe que tinha de se afastar de
voc seno morreria. Eu no queria machuc-lo. S queria impedir que se casasse com voc! - gritou Elizabeth. - Oh, Deus! - Ela colocou as mos nas tmporas, as
lgrimas escorrendo de seus olhos. - Eu fui to idiota. Transformei tudo numa grande confuso. Estava errada, to errada. Devia ter dito a voc antes, mas tive tanto
medo! No podia suportar que voc e Joseph soubessem a verdade. Mas isso quase provocou sua morte. E agora voc pensa que eu... que eu sou a pessoa que est querendo
mat-la.
- Ento voc est dizendo que contratou esse homem para....
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afastar Dev, mas que no foi ele quem me levou para o poro ontem?
- No! No,  claro que no! - Elizabeth levantou a cabea, deixando cair suas mos, e encarou a enteada, atentamente. Seus olhos estavam vermelhos e ardentes. Por
um instante Miranda sentiu um frmito de medo. - Eu lhe disse. Jamais a machucaria. Amo voc tanto quanto amo Vernica. Eu s estava tentando proteg-la de Ravenscar.
A razo pela qual Hastings est aqui em Darkwater  para proteg-la depois desses dois "acidentes". Ele tem observado voc... obviamente, no o suficiente, considerando
o que aconteceu ontem.
- Mas por qu? - perguntou Miranda, delicadamente, estendendo a mo para acalmar a madrasta. - Eu no entendo.
- No. Voc no entenderia. No poderia entender. Voc no tem idia de quem sou. Do que fiz. - A madrasta deu um suspiro longo e tremido e endireitou as costas.
Olhando diretamente nos olhos de Miranda, disse: - Tudo o que sabe sobre mim  mentira. Minha vida inteira  uma mentira. Eu no sou a viva de Roddy Blakington.
Na verdade, Roddy Blakingron nunca existiu. Eu no fui casada antes de conhecer seu pai. Vernica ... bastarda. E seu pai  Devin Aincourt.
Miranda sentiu como se tivesse perdido o cho. Sua cabea comeou a girar. No conseguiu pensar em nada coerente para dizer. Depois de um bom tempo, s conseguiu
dizer, fracamente:
- O qu?
Elizabeth deixou-se cair, sentando-se abruptamente em uma cadeira.
- Nunca quis que ningum soubesse - disse ela, suavemente. - Estou to envergonhada. Eu no era leviana... Juro
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que no era. Mas um dia conheci Dev e... jamais fui a mesma. Eu levava uma vida resguardada. Nunca havia conhecido algum to urbano e charmoso, to sagaz e... bonito.
Perdi o bom senso. Apaixonei-me perdidamente por ele e fui tola e li-cenciosa o suficiente para dormir com ele. Eu achei... achei que ele me amava da mesma forma
que eu o amava. No percebi que era apenas um joguete nas mos dele, uma aventura fugaz enquanto passava o vero em Brighton. Quando Devin soube que eu estava grvida,
descartou-me como um sapato velho. Ele se recusou a se casar comigo.
Miranda botou a mo na testa.
- Eu... eu no posso acreditar...
- Voc acha que estou mentindo? - perguntou Elizabeth, ferozmente. - Acha que eu revelaria algo sobre mim assim s por diverso? O homem  perverso!
- No,  claro que no acho que esteja mentindo - protestou Miranda. -  s que... deve haver alguma outra explicao. Isso  tudo...
- Constance! - A voz assustada de Dev veio da porta da biblioteca, e as duas mulheres viraram o rosto na direo dele.
- Dev! - Miranda no o ouvira entrar e se perguntou h quanto tempo ele estaria ali. Era bvio que ouvira pelo menos a ltima parte da conversa, pela sua expresso
de assombro.
- Sim - respondeu Elizabeth, levantando o queixo e olhando-o nos olhos. - Eu sou Constance. Tive medo que voc me reconhecesse. Tentei me manter fora de sua vista.
Miranda lembrou-se de quo freqentemente a madrasta se queixara de mal-estar em vez de descer para jantar; e em como costumava parecer sumir no espao quando Dev
estava por perto. Ela raramente olhava diretamente para ele. Nunca passou
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pela mente de Miranda que a madrasta estava agindo dessa forma porque o conhecia e tinha medo que ele a reconhecesse. Elizabeth continuou, com um tom amargurado
na voz:
- Mas est claro que eu no deveria ter me dado ao trabalho. Eu no era importante o suficiente para voc se lembrar.
- Mas... como pode... voc est morta! - ele desabafou, por fim.
Elizabeth levantou as sobrancelhas.
- Talvez fosse isso o que voc esperava.
- No! Por Deus. - Ele virou-se para Miranda. - Esta  a mulher de quem lhe falei. A garota que engravidei e que se matou, me deixando um bilhete suicida.
- O qu? - Elizabeth explodiu desdenhosamente. - Essa  a histria que voc contou para essa menina inocente?
- Foi o que aconteceu! Por que escreveu aquele bilhete para mim? Por que fugiu e fingiu que havia morrido? Por que no veio a mim e...
- S um minuto. - Miranda virou-se para a madrasta, cujos olhos estavam iluminados por uma chama ofensiva. - Voc conhecia aquele homem, Elizabeth? Aquele que foi
me visitar alguns dias antes de deixarmos Londres?
- Sim, claro que o conhecia. Ele era... - O tom voz de Elizabeth ficou irritadio. - Ele era meu av. Ele me criou depois que meus pais morreram, mas eu o envergonhei
perante o mundo. No deveria ter me surpreendido por ele no ter ido atrs de mim. Eu destru toda a confiana que possua em mim. Fui uma tola ao achar...
- Espere. Aquele homem veio me dizer para no confiar no conde de Ravenscar. E a razo que ele deu para isso foi porque Ravenscar havia seduzido sua neta e ela havia
se matado.
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- O qu? - Elizabeth piscou, confusa.
- Foi isso o que ele me disse. Ele tambm acredita que voc est morta.
- Voc deixou bilhetes, Elizabeth! - Devin aproximou-se dela. - Eu... Voc escreveu um bilhete para mim dizendo que eu havia arruinado sua vida e que voc me desprezava.
Disse que preferia morrer a viver com a vergonha de carregar um filho ilegtimo. Voc desapareceu. Eles procuraram seu corpo por vrios dias. E eu fiquei to...
to furioso por voc no ter nem mesmo vindo a mim e me contado sobre a criana. Voc acha honestamente que eu no teria me casado com voc?
- Do que est falando? - Elizabeth levantou-se e elevou a voz histericamente. - Voc me rejeitou! Voc negou ser o pai da criana. Disse que levaria testemunhas
contra mim para provar que eu fora promscua se tentasse for-lo a se casar comigo. Voc...
- Eu no fiz nada assim! Como pode dizer isso? Voc nunca me contou!
-  claro que contei!
- Quando? Onde? Eu estava sempre bbado, mas sei que no teria esquecido.
- Eu no lhe disse isso cara a cara. No tinha coragem. Tive medo, estava envergonhada. E voc tinha... tinha parado de vir me ver. Ento escrevi uma carta e entreguei-a
a Leona, para que fizesse chegar a voc.
- Leona? - O rosto de Devin ficou branco. - Voc deu a carta a Leona?
Elizabeth fez que sim com a cabea.
- Sim. Ela era minha amiga, assim como sua.
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- A nica carta que ela me entregou foi o bilhete que voc deixou dizendo que ia se jogar no mar para evitar a vergonha do que havia feito.
Houve um longo silncio. A boca de Elizabeth comeou a tremer, e ela se encolheu na cadeira.
- Meu Deus...
- Como voc soube que Dev rejeitou a voc e a seu filho? - perguntou Miranda categoricamente.
- Leona... - A voz de Elizabeth soou como um sussurro. - Ela era minha amiga. Foi to gentil comigo desde a hora em que chegou em Brighton. Era to deslumbrante
e sofisticada, e eu estava feliz por ter reparado em mim. Eu era uma simples menina do campo. No podia contar a meu av sobre a gravidez. No podia encarar Dev.
Ento, fui at ela e contei tudo. Ela disse que entregaria um bilhete a Dev se eu o escrevesse. E foi o que fiz. Na tarde seguinte, ela voltou e se sentou comigo
na sala de msica. Lembro que estava estudando piano. E ela me disse muito delicadamente que Dev lera meu bilhete, mas depois rasgara e jogara na lareira. Disse
que ele partiria para Londres e que eu no devia ir atrs dele. Ele disse que... as coisas que j falei, que negaria tudo e que me constrangeria se eu insistisse
no assunto. Fiquei arrasada.
- Claro que sim. - Miranda foi at a madrasta e ajoelhou-se ao lado dela, pegando suas mos. - Qualquer uma teria ficado.
- Eu no sabia o que fazer. Leona disse que minha nica sada era partir. Sugeriu que eu fosse para a Amrica ou para a ndia, ou para alguma outra colnia, onde
ningum saberia quem eu era. Ela me deu dinheiro porque era minha
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amiga e sentia pena de mim. E disse que em outro pas ningum me reconheceria. Eu poderia mudar de nome, poderia fingir ter ficado viva recentemente. Ningum saberia
a verdade. Foi to gentil! Ajudou-me a arrumar as malas e partir. At alugou a chalea para mim e enviou sua criada para me ajudar.
-  mais provvel que tenha feito isso para garantir que voc no mudasse de idia e decidisse voltar - corrigiu Miranda. - E para roubar um xale e deix-lo perto
do mar.
- Eu... suponho que sim. Meu Deus... - Lgrimas encheram-lhe os olhos e rolaram pelo rosto. - Mesmo depois de tanto tempo, isso di. Achei que era minha melhor amiga,
mas ela me traiu.
- Ela traiu todo mundo. - A voz de Miranda estava carregada de dio. - Seu av quase ficou louco de pesar. Esteve de luto por todos esses anos. Todos pensaram que
voc havia morrido. As pessoas culparam Devin por sua morte. Foi um escndalo terrvel. O pai de Dev o renegou. Leona destruiu trs vidas sem a menor considerao.
- Miranda ficou de p, os olhos acinzentados ficando duros. - E eu sei por qu. Ela queria Devin s para si. Como a cortejava, ela o instigava e dispensava, mas
sempre quis t-lo, tenho certeza disso. No entanto, quando voc contou a ela que estava grvida, Leona sabia que Devin faria a coisa certa e se casaria com voc.
Ela o perderia, mas claro que no queria que isso acontecesse. Seus planos iriam por gua abaixo. Ento Leona mentiu para voc. E mentiu para ele. Alis, mentiu
para todos.
Miranda virou na direo de Devin. Ele estava plido de emoo. Havia uma dor aturdida em seus olhos que partiu seu corao. Miranda pensou que se
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Leona estivesse ali naquele exato instante, ela teria apertado suas mos no pescoo daquela mulher sem corao.
- Vernica  minha filha? - perguntou Devin, os olhos passando de Miranda para Elizabeth.
Elizabeth anuiu com a cabea, enxugando as lgrimas que ainda escorriam por seu rosto.
- Sim. Ela... ela no faz idia. Sempre lhe disse que seu pai era Roddy Blakington. Um homem maravilhoso que eu inventei. Ela... eu... - Seus olhos encheram-se de
pnico. - Vocs no vo contar para ela, vo? - Ela olhou de Devin para Miranda, e de volta para Devin, as mos agarrando nervosamente a saia. - No sei como Vernica
reagiria a isso. Eu... ela poderia me odiar.
- Tenho certeza de que no a odiaria - comeou Miranda, apaziguadoramente.
- No direi a ela - acrescentou Devin, a voz embargada de emoo. - Manter segredo  o mnimo que posso fazer depois de toda a dor que lhe causei. Que causei a todo
mundo. Mas tambm cuidarei dela como um pai o faria, prometo-lhe. - Hesitou por um instante, e ento continuou: - Constance... Elizabeth, sinto muito. Sei que no
h palavras que possam compensar o sofrimento pelo qual voc passou. Por favor, acredite em mim, eu no sabia. Eu no teria... Sei que nunca fui um modelo de cavalheiro,
mas no teria agido to desonradamente.
Elizabeth anuiu com a cabea, a mo pressionando a boca, lgrimas rolando pelo rosto. Miranda olhou para ela, preocupada.
- Deixe-me lev-la at seu quarto, Elizabeth. Um bom descanso lhe far bem, no acha? Chamarei sua criada para colocar uma compressa de alfazema em sua testa.
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- Sim - disse Elizabeth. - Por favor. Eu... eu preciso ficar sozinha.
Miranda fez o que havia sugerido, pegando Elizabeth pelo brao e ajudando-a a levantar-se e a sair da biblioteca. Levou-a escada acima at o quarto e colocou-a na
cama, e em seguida chamou a criada.
- Eu fui uma tola - sussurrou Elizabeth. - Fui uma tola naquela poca e ainda sou uma tola agora.
- Voc no  tola. Simplesmente confiou na pessoa errada. Isso  tudo. Estou certa de que muitas mulheres teriam feito exatamente o que voc fez.
- No voc.
- Eu no teria tanta certeza assim. A maioria das pessoas no age com muita sabedoria quando se trata de amor.
- Voc no se casou por amor. Foi muito prtica a esse respeito.
Miranda sorriu.
- Voc acha que no?
- Est dizendo que o ama? Que o amava antes de se casar com ele?
Miranda fez que sim com a cabea e pegou a mo da madrasta.
- Ele  um bom homem, Elizabeth. Essas coisas que voc pensou a respeito dele todos esses anos eram falsas.
- Eu sei. Mas eu... eu o odiei por tanto tempo que vai demorar um pouco at que sinta algo diferente. Oh, Miranda! Voc vai me perdoar algum dia? Quase enlouqueci
de medo nas ltimas semanas. Tinha tanto medo que ele a magoasse, mas no podia nem pensar em contar a verdade. E enviei Hastings para acert-lo! Tenho agido como
uma tola, uma covarde e... Voc vai me perdoar?
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- Claro que vou. Sei que voc tem estado... bem, sei que no tem estado no seu juzo normal.
Naquele momento, a criada de Elizabeth entrou. Miranda deixou a madrasta sob os cuidados dela. Elizabeth no era a nica em estado de choque e precisando conversar
agora. O mundo de Devin parecia que havia virado de cabea para baixo.
Foi em direo s escadas para descer at a biblioteca, mas encontrou Devin sentado no ltimo degrau, esperando por ela.
- Miranda. - Ele levantou-se e virou o rosto para ela. Havia uma expresso sombria naquele rosto que partiu seu corao. Ela foi at ele e abraou-o pela cintura,
recostando-se em seu peito. Os braos dele a envolveram, dando-lhe um abrao apertado.
- Deus, Miranda! Que estpido eu fui! - despejou ele, ecoando as palavras de Elizabeth. - Todos esses anos... Leona mentiu para mim. Brincou comigo.
Os braos de Miranda o apertaram involuntariamente. A dor de Devin a magoava, e magoava ainda mais a dor dele originar-se de seu amor por Leona. Mas Miranda colocou
suas emoes de lado por um momento.
- Vamos para o meu quarto. - Pegou-o pela mo e levou-o pelo corredor at seu quarto. Devin sentou-se em uma cadeira com um suspiro, inclinando-se para a frente
e apoiando os cotovelos nos joelhos, as mos no queixo.
- Isso tudo aconteceu quando ela me deixou possu-la - disse ele, olhando para o nada em direo  parede, quando seus pensamentos se voltavam para aquela poca,
15 anos antes. - Eu j estava assediando Leona havia mais de um ano. Ela me provocava, oferecia mais e nunca dava.
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Quando fui a Brighton, ela me apresentou a Constance. Leona sabia que eu estava errado a respeito de Constance ser uma mulher experiente, mas no esclareceu o fato.
Acho que desejava ver o que aconteceria. Leona vinha ao meu apartamento tarde da noite e queria saber o que havia acontecido com Constance. Era um tipo de triunfo
para ela saber que o meu relato me deixava mais enlouquecido de desejo do que qualquer coisa que eu e Constance tnhamos feito.
Balanou a cabea de um lado para o outro e enterrou os dedos nos cabelos.
- Sinto muito. Eu no deveria estar contando essas coisas para voc.
- Voc pode me contar qualquer coisa - disse Miranda, calmamente, apesar da raiva ardente contra Leona que queimava dentro dela.
- Mas eu acho que quando Cons... quando Elizabeth contou a ela que estava grvida, Leona percebeu que a diverso e os joguinhos haviam acabado. Eu a repreendera
por no me contar que Constance era virgem, e ela deve ter suspeitado que eu iria me casar com Constance mesmo que a amasse. Ela no queria isso. Ento inventou
aquelas mentiras... convenceu Elizabeth a fugir para a Amrica, fazer o restante de ns acreditar que estava morta, de modo que no tentssemos encontr-la.
Ele fez uma pausa, e, quando falou novamente, sua voz estava spera.
- Acho que ela queria fazer com que eu me sentisse culpado pela morte de Constance. Sabia que se me afundasse cada vez mais na perverso, me ligaria ainda mais a
ela. Isso me faria
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ter mais afinidades com ela e menos com minha famlia e com outras pessoas que eu conhecia. Quanto mais me separasse do resto do mundo, mais ficaria preso a ela.
Isso faz sentido? Miranda fez que sim com a cabea.
- Sim. Ela no compreendia suas caractersticas positivas, e isso a assustava. Sabia que era a bondade que havia dentro de voc que o faria querer abandon-la.
- Leona arruinou a vida de Elizabeth sem pensar duas vezes. - Ele balanou a cabea. - Ficou assistindo ao meu sofrimento por causa da culpa. Ficou ao meu lado enquanto
meu pai e eu rompemos relaes por causa da morte de Elizabeth. Nunca mais falei com ele depois disso. Ele morreu me desprezando. E Leona nunca me disse uma palavra
sobre o que realmente aconteceu. - Ele olhou para Miranda, lgrimas brotando em seus olhos. - Como pode ter sido to cruel?
Miranda sentiu um n na garganta e s conseguiu sussurrar:
- No sei.
- Ela nunca me amou de verdade - continuou Devin.
- No acredito que Leona seja capaz de amar - concordou Miranda.
- No  de espantar que nunca tenha sentido cime. Seu corao nunca esteve ameaado. Tudo o que importava a ela era ter poder sobre mim. Ela at mesmo me pressionou
a me casar com voc. Ela no imaginou... - Devin parou abruptamente e olhou para Miranda. - Deus do cu...
- O qu? Qual  o problema?
-  claro.  ela quem...
- Quem o qu? Devin, do que voc est falando?
-  Leona quem est tentando matar voc.
- O qu? Por qu? O que ela ganharia com isso?
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- Tudo. Voc no v? Voc interferiu no poder dela sobre mim muito mais do que Constance jamais o fez. Eu disse a ela outro dia que no iria v-la novamente. Mesmo
antes disso, era fcil ela perceber que estava perdendo seu controle sobre mim. No estive com Leona desde que ficamos noivos. Ela me perdeu. - Devin fez uma cara
feia. - Mais importante para ela, sem dvida,  o fato de que perdeu a chance com o seu dinheiro.
- O qu?
- Eu lhe disse, ela queria que eu me casasse com voc. Pensava, assim como eu, que seu dinheiro ficaria sob meu controle. E sem dvida ainda pensa isso. No contei
a ela que seria diferente. A idia de Leona era que eu gastaria o seu dinheiro com ela e com as coisas que gostvamos de fazer. Ela me contou que Vesey estava restringindo
seus gastos. De modo que, sob sua tica, ela achara que perdera muito dinheiro. Se voc morresse, porm, ela achava que eu herdaria seu dinheiro. E com voc fora
do caminho, tenho certeza de que pensa que pode voltar a me enfeitiar. Sem dvida, foi ela quem preparou esses "acidentes" para voc.
- Voc acha mesmo?
- Quem mais? Faz sentido agora. - Devin ficou de p. Seus olhos brilhavam com uma luz irada. - Vou at l. Vou garantir que nada de mau acontecer com voc.
- Dev!
Mas ele j tinha se virado e saa do quarto a passos largos.
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Captulo 20

Devin cavalgou at Vesey Park, impelido por uma fria incontida. Apeou na frente da casa, entregando o cavalo para um cavalario, e foi bater na porta. Um lacaio
assustado abriu-a, e ento, rapidamente, deu um passo atrs quando Devin abriu passagem, adentrando.
- Onde est ela? - bramiu, e quando o lacaio comeou a gaguejar uma resposta, ele gritou. - Leona! Leona! Onde diabos voc est?
- Senhor! - O lacaio olhou para ele, boquiaberto. - Devo anunci-lo, se o senhor...
Devin nem se dignou a olhar para o homem e atravessou o hall de entrada at a escada, subindo-a de dois em dois degraus, rugindo o nome de Leona. O lacaio correu
atrs dele, contorcendo as mos e gritando "Senhor!", sem efeito.
Leona surgiu de uma porta no meio do corredor. Um sorriso brotou em seus lbios e ela caminhou at Devin, acenando para o lacaio.
- Est tudo bem, Portman. Eu receberei lorde Ravenscar. Esperou por Devin, os braos cruzados abaixo dos seios, um sorriso convencido estampado no rosto.
- Bem, bem, Devin, muito antes do que eu imaginava... Eu disse que voc voltaria correndo para mim, no disse? Agora, a pergunta : o quanto devo faz-lo rastejar
antes de aceit-lo de volta?
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- No se gabe. - Devin pegou-a pelo brao e arrastou-a at a sala de estar.
- O que voc... - Leona ganiu, em protesto. - Se acha que assim ir me reconquistar, saiba que est redondamente enganado!
- No estou nem um pouco interessado em reconquist-la. Vim aqui para dizer-lhe que sei dos seus truques. E juro que se fizer mal a um fio de cabelo de Miranda,
no descansarei enquanto no a encontrar e acabar com voc.
Leona ficou boquiaberta, a primeira impresso caindo por terra.
- O qu? Miranda? Como ousa!
- Ah, eu ouso! - disparou ele. - No pense que pode me manipular de novo. Conheo voc. Sei tudo o que voc fez. As mentiras que contou para mim. Os joguinhos que
arquitetou.
- O qu? No seja ridculo. No sei do que est falando. Devin abriu a boca para explicar tudo sobre Elizabeth, mas conteve-se. No ia dar a Leona qualquer arma
que pudesse usar contra Miranda ou contra qualquer pessoa ligada a ele. Teria adorado revelar o que pensava dela e o que ela fizera tanto a ele quanto a Elizabeth,
mas sabia que Leona no deveria saber quem era Elizabeth nem que Vernica era sua filha ilegtima. Ento engoliu sua ofensa e disse apenas:
- Ah, sim, acho que sabe sim. Voc me fez de tolo por muitos anos, Leona. E pode achar que eu nunca faria mal a voc por ter sido seu cachorrinho durante tanto tempo.
Mas no sou mais. Voc j viu o que eu fao com quem me trai. Sabe do que sou capaz.
- S sei que voc ficou completamente louco - atacou Leona, tentando soltar o brao da garra de Devin.
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- No, ainda no. Mas prometo que vou ficar louco se algo acontecer  minha esposa.
- Voc continua boquejando sobre ela! No sei do que est falando.
- Os acidentes que voc vem preparando para ela,  disso que estou falando. Conclu que  voc que estava por trs disso. Ento vim dizer que isso no a beneficiar
de forma alguma. Jamais voltarei para voc, no importa o que acontea com Miranda. S a idia de toc-la de novo me causa arrepios. E se algo acontecer a Miranda,
saberei que foi voc quem o causou e garantirei que pague por isso. Fisicamente, socialmente, de todas as formas possveis. Fui claro?
- Perfeitamente! - Leona espumou. - Agora solte-me. Eu odeio voc!
Ele a soltou de repente, e ela cambaleou um pouco para trs.
- A recproca  verdadeira - disse Devin, com amargor. - Lembre-se do que lhe disse. Deixe Miranda em paz.
- Eu no encostaria um dedo em sua preciosa esposa! - Leona gritou, a voz falhando de raiva. - Agora saia da minha casa.
- Com prazer. - Devin sabia que havia arrumado uma inimiga implacvel, mas tambm sabia que Leona era bastante interessada em sua autopreservao para no levar
a srio suas palavras.
Ele lanou-lhe um olhar demorado, tentando entender como achou, por tanto tempo, que a amava. Ento virou-se e saiu.
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Depois que Devin saiu, Miranda desceu para a biblioteca. Tinha sido um dia pesado, e ela estava contente em buscar o conforto de seu trabalho. Hiram no estava l,
mas no andar de cima com Joseph e o arquiteto, repassando os gastos com a renovao da casa. O sr. Strong, por sua vez, estava l, e Miranda recordou que dissera
para ele no dia anterior que a encontrasse uma hora mais cedo. Ele ficou de p de pronto quando ela entrou.
- Minha senhora.
- Oh, sinto muito, sr. Strong. Esqueci nosso compromisso.
- Est tudo bem, minha senhora - disse Strong com vivacidade, levantando-se. - Volto outra hora.
- No, vamos prosseguir - disse Miranda. - Preciso acabar antes de lorde Ravenscar e eu irmos para a montanha Apworth.
- Para a montanha Apworth, minha senhora? Tem certeza? Quero dizer, ainda est pensando em ir depois daquela, bem, provao de ontem?
-  claro. Por que no? Agora, onde estvamos? No ltimo grupo de livros?
- Sim, minha senhora. Mas, ah, eu estava pensando. Talvez possamos cavalgar at uma ou duas das fazendas arrendadas hoje. Voc disse que estava querendo conhec-las.
-  verdade. - Miranda considerou a idia. Era tentador pensar em cavalgar em vez de ficar trancafiada em casa. E agora que Devin conclura que Leona era a culpada
pelos acidentes, ela sups que no haveria problema em sair de casa. Suspirou. - No, melhor no. Preciso acabar logo com isso porque seno vou achar difcil aproveitar
nossa excurso.
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-  claro. - Ele j ia se sentar, quando parou. - Ah, espere. Deixei parte dos papis em meu escritrio. Se me der licena um minuto.
- Est bem. - Miranda sentou-se  mesa e puxou para si o livro-mestre quando ele saiu da sala.
Dez minutos depois Miranda estava absorta no exame das contas quando a porta se abriu novamente.
- Ah, a est voc - comeou ela, virando-se para olhar Strong. Para sua surpresa, era o tio de Devin quem entrava no cmodo. - Oh! Tio Rupert. Eu pensei que fosse
o gerente.
- No. Desculpe. - Ele sorriu. - Como est passando, minha querida? J se recuperou do susto de ontem?
- Ah, sim. - Ela sorriu. - Sou bastante resistente.
- Sim, sou testemunha disso. Eu ia sair para cavalgar e pensei em parar e ver se gostaria de ir comigo. At as runas da abadia, talvez?
- No, melhor no. Estou esperando o sr. Strong voltar. Temos de terminar com os livros da contabilidade hoje.
- Mas isso pode esperar - disse o homem idoso, num tom jovial. - Est um lindo dia para um passeio a cavalo.
- No. Sinto muito. No posso.
- Oh. Pena. - Tio Rupert botou a mo no casaco e, para assombro de Miranda, sacou uma pistola. Mirou nela. - Receio que terei de insistir, minha querida.
Miranda o encarou, sua mente repentinamente paralisada. Tio Rupert?
-  voc? - perguntou ela. -  voc quem...
Ela interrompeu sua fala, virando-se quando a porta se abriu e Strong entrou.
- Sr. Strong! - gritou, aliviada. - Ajude-me.
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Mas Strong apenas olhou para ela, nervoso, e depois para Rupert.
- As pessoas vero a arma - disse ele, agitado.
- O senhor no pode sair daqui com ela na mo.
- Voc est certo, Strong. - Tio Rupert aproximou-se de Miranda.
Miranda olhou para os dois, petrificada. Os dois estavam nisso juntos! De repente, a verdade a atingiu como um soco no estmago.
- A propriedade! - gritou ela. Era a nica coisa que ligava os dois homens. - Vocs vm enganando Devin a respeito da propriedade!
Tio Rupert suspirou.
- Este  o problema com voc, no v?  esperta demais para sua prpria felicidade.
Ele parou ao lado dela, e antes que Miranda se desse conta do que Rupert estava prestes a fazer, ele levantou a pistola e bateu forte com o cabo em sua cabea. Tudo
ficou escuro, e ela caiu no cho, inconsciente.
Estava completamente escuro quando Miranda voltou a si, e, por um instante, pensou aterrorizada estar de volta no terrvel poro. Mas ento percebeu que havia luz
passando por enormes fendas no telhado. E sabia que o poro no era assim.
Sua cabea estava estourando. Ela sentou-se cuidadosamente e olhou em volta. Havia um pouco mais de luz do que houvera ontem no poro, e ela podia ver que estava
sentada em um cho de terra batida, com paredes tambm de terra batida em todo o seu redor. A luz de cima vinha em quatro linhas
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no formato de um retngulo. Uma vaga silhueta de uma escada subia at o retngulo. Ela estava novamente no subsolo, pensou, dessa vez com um alapo em vez de uma
porta normal e paredes de terra batida, em vez de pedra. Sups que poderia se tratar de outra parte dos pores, ou talvez de alguma outra construo em Darkwater.
Ou poderia estar nas runas da abadia.
Esse pensamento tomou conta de sua mente, e quanto mais pensava, mais achava que a abadia era a resposta mais provvel. Eles no quereriam arriscar que fosse encontrada
de novo, como o fora no dia anterior. Sem dvida, acharam melhor afast-la da casa. Mas como conseguiram carreg-la, inconsciente, para fora sem que ningum notasse?
Ficou sentada por mais um tempo, recuperando as foras. Sabia que teria de tentar abrir o alapo, mas nesse exato instante se sentia mal e estava fraca para fazer
algo, por causa da coronhada que recebera de Rupert.
Suspirando, recostou-se na parede. Rupert a acusara de ser muito esperta. A verdade, pensou,  que no fora esperta o suficiente. Depois de semanas analisando os
livros e os assuntos relacionados aos negcios da propriedade, no percebera o fato de que Rupert e o gerente estavam roubando Devin. Sem dvida, eles tinham um
conjunto falso de livros que mostraram para ela. Deviam estar arrecadando mais dinheiro em arrendamentos do que mostravam nos livros e embolsando a diferena. A
propriedade no devia estar na situao terrvel que os dois apresentaram.
Lembrava-se agora de seu questionamento a respeito de uma das fazendas arrendadas e de como parecia mais prspera do que indicavam os nmeros. Por que no deduziu
o
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que isso significava? Fora tola demais ao acreditar na explicao de Strong.
O fato era que estava muito distrada para dar a ateno devida  propriedade. Havia a renovao da casa e dos jardins,  claro; essas coisas tomaram muito seu tempo.
Mas a maior distrao era Devin. Estivera muito ocupada tentando faz-lo se apaixonar por ela, para conseguir notar qualquer outro detalhe.
Infelizmente, parecia que ia ter de pagar com sua vida por essa desateno.
Lembrou-se do primeiro "acidente". Ele acontecera imediatamente depois de ter sido apresentada ao gerente da propriedade. Recordou a surpresa dele quando dissera
que passaria a cuidar dos negcios. Sem dvida, at aquele momento, ele e tio Rupert esperaram poder continuar com o mesmo esquema que praticavam na propriedade
de Devin h tanto tempo. Talvez tivessem at pensado que disporiam do dinheiro dela. Ao ouvir a verdade, Strong deve ter se apressado em preparar o primeiro "acidente",
sabendo que ela iria explorar a biblioteca naquela tarde.
Quando isso falhou, tio Rupert convidou-a para um passeio a cavalo pela trilha na qual uma rocha de calcrio poderia convenientemente partir sua cabea. Ento transcorreram
algumas semanas sem acidentes. Talvez, quando os livros da contabilidade passaram pela inspeo dela, tenham decidido que um assassinato no seria mais necessrio.
Mas, na ltima semana, eles j haviam tentado mat-la trs vezes: a droga no chocolate quente, que Elizabeth tomara, o poro e, agora, isso. Algo os assustara e
os levara a agir de novo. E se perguntava o que teria sido.
O mais importante agora, obviamente, era saber quando
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Devin voltaria para casa e quando organizaria outra busca por ela. Como ele se convencera de que Leona era a culpada, Miranda tinha dvidas se chegaria a se preocupar
com sua ausncia em casa. Tudo o que poderia fazer era esperar que ele se preocupasse. Mas, mesmo se comeasse a procur-la, como chegaria  concluso de que estava
na abadia?
No, pensou, no poderia se fiar no resgate de Devin. Tinha de fazer planos independentes. A primeira providncia seria achar uma arma que pudesse usar contra eles
quando voltassem - considerando que planejavam voltar e que no a tinham simplesmente jogado ali para morrer de sede e de fome. Miranda deixou de lado esse pensamento
desencorajador e comeou uma lenta explorao do seu crcere. Com uma das mos apalpando a parede de terra batida, ela andou, varrendo o cho a seu lado com um dos
ps, procurando sob uma iluminao quase inexistente algo que pudesse transformar em arma. Algumas vezes deparou com pedras pequenas, que guardou no bolso, mas depois
de rodar e cruzar todo o ambiente, aquilo era tudo o que possua.
Miranda sentou-se no primeiro degrau e examinou seus achados: trs pedras, duas um pouco maiores que cascalhos e uma do tamanho da palma de sua mo. Pensou por um
instante e tirou o leno do bolso do vestido. Estendendo-o em seu colo, disps as trs pedras no meio do leno e amarrou-o cuidadosamente, ficando com um saquinho
com as pedras apertadas dentro dele, e, portanto, maior e mais pesado do que se as usasse separadamente, com a vantagem de ter um n de tecido abaixo das pedras
pelo qual podia segurar e manejar a arma improvisada. Talvez no fosse a arma mais perigosa que poderia ter - ela desejava
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sinceramente ter decidido carregar uma pistola ou uma faca presa na perna -, mas era melhor do que ficar desarmada. Alm disso, teria o elemento-surpresa a seu favor.
Tio Rupert e Strong no esperariam que tivesse uma arma; ela, com certeza, no era o tipo de mulher com o qual estavam acostumados.
Miranda ouviu um som acima de sua cabea e permaneceu imvel, escutando. Houve o relinchar de um cavalo e depois o som distante de uma voz. Pensou em gritar - afinal,
poderia ser um estranho, ou at mesmo Devin procurando por ela. Mas o bom senso lhe disse que era ou Rupert ou Strong, ou ambos, vindo terminar o trabalho, e o melhor
que podia fazer a seu favor era parecer o mais fraca e indefesa possvel.
Portanto, apressou-se em voltar para a parede onde estivera quando recuperou a conscincia e estendeu-se no cho, escondendo a arma na mo fechada e enfiando-a no
bolso.
No alto da escada, o alapo abriu-se e caiu para trs com um barulho. Um momento depois, as pernas de um homem apareceram, e a seguir o restante de seu corpo. Era
Rupert, carregando uma lamparina que iluminava o pequeno cmodo mido. Descendo a escada por trs dele vinha Strong, aparentando estar bastante descontente.
- No sei por que no podemos simplesmente deix-la aqui - dizia Strong, sua voz quase um choramingo. - Ela morrer sem nossa ajuda.
- Sim, mas e se meu sobrinho pe na cabea que tem de procurar na abadia? - Rupert se irritou. - Isso parece exatamente o tipo de coisa que ele faria. Ns no podemos
arriscar que algum a encontre antes que tenha tido tempo de morrer.
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Ela poderia contar a todos sobre ns. Ns j discutimos isso, Strong.
- Sim, mas...
- Ande logo, homem - continuou Rupert, impaciente. Ele atingira agora a base da escada e direcionou a luz da lamparina para Miranda. - Bem. Posso ver que est desperta.
Ele no parecia feliz com isso. Miranda sups que teria sido muito mais fcil acabar com ela se no estivesse desperta e assistindo a tudo. Ela sentou-se, tentando
parecer mais zonza do que se sentia.
- Tio Rupert...
- Oh, no tente me enrolar ao se fazer de frgil agora - disse ele, com um tom de voz rabugento. - Se voc fosse como as outras mulheres, isso nunca teria acontecido.
No entendo por que tem de ser do jeito que . Sempre examinando e se intrometendo em tudo. Se tivesse deixado tudo de lado, no teria havido qualquer problema.
- Verdade - respondeu Miranda, secamente. - Voc teria continuado a roubar Devin sem que ele descobrisse. Sem dvida, esperava poder fazer o mesmo com minha fortuna.
- Bem, no  como se ele fosse reparar... ou se importar - argumentou Rupert, petulantemente. - Devin nunca teve a menor idia do que acontecia aqui.
- O que certamente tornava mais fcil defraud-lo - disse Miranda, sarcasticamente. - Mas, sabe, acho que voc foi longe demais dessa vez, Rupert. Devin vai acabar
notando que algo est errado quando sua esposa morrer em decorrncia de outro acidente misterioso. Ele vai comear a investigar que motivo algum teria para me matar.
Voc no acha que ele vai acabar descobrindo?
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- Bobagem. Ele ser o principal suspeito. Quem mais quereria matar a esposa rica que o marido? Tenho certeza de que  nele que o sr. Upshaw vai se concentrar.
A mo de Miranda apertou ainda mais as pedras.
- Ento voc no s est satisfeito em roubar seu sobrinho, como tambm pretende fazer com que ele seja mandado para a priso por assassinato?
Por trs de Rupert, Strong fez um barulho, ficando lvido. Rupert franziu o cenho.
- No.  claro que no. Com sorte, ningum suspeitar de nada. Isso no teria sido necessrio se voc no fosse uma mulher intrometida e cabea-dura. Tirando-me
do caminho. Assumindo o controle. Tendo de ir ver as fazendas arrendadas com seus prprios olhos. E ir at a montanha Apworth! Quem poderia imaginar que voc quereria
ir ver aquele lugar desgraado!
- A montanha Apworth. - Miranda encarou-o. - Quer dizer... que voc tem de me matar para impedir que eu veja a montanha Apworth?  isso?
-  claro - respondeu Rupert, impertinente. - Devin no sabe de nada sobre a negociao. At mesmo ele acabaria reparando nas minas.
- As minas? Meu Deus,  claro! Eu estava certa. H minrio l, no h? E vocs vinham fazendo minerao. E Devin nem sonha com isso.
- Oh, pare de resmungar - disse Rupert, irritado, inclinando-se para agarr-la pelo punho e levant-la. - Como se Devin merecesse qualquer coisa de l. Ele  um
perdulrio...
Miranda no ops resistncia ao puxo do velho em seu brao. Em vez disso, usou o puxo para se erguer, impulsionando-se
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 frente com toda fora, tirando a mo do bolso e lanando-a para cima. O saco de pedras acertou Rupert bem na cabea. Ele emitiu um som grotesco e foi ao cho,
caindo para trs devido  fora do movimento dela.
Miranda passou por ele e subiu as escadas, deparando com um Strong surpreso nos degraus sem corrimo. Ele cambaleou para trs e caiu na lateral da escada, aterrissando
com um estrondo no cho alguns centmetros abaixo. Miranda no ficou para ver o que acontecera a nenhum dos dois. Ela j transpusera a escada e chegara ao solo.
A forte luz do sol a cegou. Cambaleou para a frente, fazendo sombra com as mos nos olhos. Onde estavam os cavalos que ouvira? Escutou um barulho e virou-se. Dois
cavalos estavam parados logo atrs da pequena parede de pedra, com as amarras frouxamente presas a um arbusto. No entanto, devido  apario sbita de Miranda, eles
comearam a se mexer nervosamente. Quando ela deu meia-volta e se apressou em ir na direo deles, os cavalos partiram em retirada, soltando-se dos arreios mal amarrados.
Miranda correu atrs deles sem sucesso, condenando-se por ter se projetado com tanto mpeto na direo dos animais. Foi ento que ouviu um barulho atrs de si e
percebeu que tio Rupert deveria estar de p, e perseguindo-a.
Comeou a correr, pulando a pequena parede de pedra e dando a volta em uma outra um pouco mais alta. No demorou muito para que ficasse completamente perdida naquelas
runas. Parou, ofegante, e recostou-se em uma parede, atenta para os rudos produzidos por seu perseguidor. No ouviu nada, e olhou cuidadosamente por trs da parede.
Se ao menos conseguisse escapar da abadia e entrar na floresta, sabia que conseguiria despistar Rupert e Strong.
Entretanto, ao deslizar por um canto, ela ouviu um grito Virou-se e viu Strong a distncia, correndo em sua direo. Rupert no estava muito atrs. Miranda desatou
a correr. Estava no amplo quadrado aberto que certa vez fora o ptio da abadia. Adiante surgiu uma parede cada pela metade, e, depois desta, havia um campo extenso
e devastado que a separava dos esconderijos que a floresta proporcionava. Imaginou que fosse conseguir correr mais que tio Rupert, que era, no fim das contas, mais
idoso e que tambm fora golpeado na cabea. Strong, no entanto, era uma questo completamente diferente.
Transps a parede e correu a toda velocidade. Atrs de si podia ouvir Strong gritando. Foi quando ento, a distncia, avistou a silhueta de um cavaleiro se aproximando.
Uma onda de alegria tomou conta dela.
- Devin!-gritou, e correu para ele em vez de para a floresta. O cavalo arrancou para a frente, correndo em sua direo.
Miranda caiu de joelhos, tentando recuperar o flego. Sentiu o deslocamento de ar quando o cavalo passou por ela, e virou-se para ver Devin se lanar para fora do
ginete e cair direto em cima de Strong.
Depois disso, tudo acabou em uma questo de minutos. A fora da coliso dos dois homens fez Strong perder o ar. Devin completou com um soco no queixo do homem que
o fez perder os sentidos. Ele levantou e correu para o tio, que decidiu virar e correr na direo oposta. O que no deu em nada. Devin o alcanou logo, e ele, tambm,
foi para o cho, inconsciente.
Miranda conseguiu ficar de p enquanto Devin voltava correndo para ela, envolvendo-a com os braos.
- Voc est bem? - perguntou ele, abraando-a com tanta fora que ela mal conseguia respirar, e beijando-a em todas
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as partes do rosto. - Oh, meu Deus, Miranda! E pensar que quase a perdi! Diga-me que est tudo bem.
Rindo, sem flego, ela conseguiu responder afirmativamente.
- Sim. Estou bem. Graas a Deus voc chegou aqui a tempo. Mas como descobriu? Como chegou at aqui?
Abraou-a e afastou-a  distncia de um brao para verificar seu estado e certificar-se de que estava tudo bem. Logo depois, puxou-a para si novamente.
- Quando cheguei em casa e voc no estava, deduzi que havia algo errado. J conclura, enquanto cavalgava at em casa, que estava enganado a respeito de Leona,
digo, do fato de ela estar tentando matar voc. Ela pareceu totalmente perplexa quando a acusei disso. Leona  mestre na dissimulao, mas sei que aquela expresso
era verdadeira. No sabia mesmo sobre o que eu estava falando. Ento, interroguei os criados e um deles se lembrava de ter visto Strong e Rupert indo para a parte
de trs da casa com um tapete enrolado, que colocaram em uma carroa. Aquilo soou muito estranho; mais estranho ainda quando um cavalario me contou que voltaram
com a carroa e o tapete, e depois partiram de novo, montados em cavalos. Eu os segui. E, quando cheguei perto o suficiente, vi voc correndo. O que aconteceu?
Ele a segurou novamente  distncia de um brao e olhou-a.
- O que est acontecendo? Por que diabos tio Rupert e Strong estavam querendo matar voc?
- Bem,  uma longa histria.
Devin olhou para os dois corpos cados no cho.
- Est tudo bem. Acho que temos algum tempo at que esses dois retomem a conscincia. Conte-me.
Rpida e concisamente, Miranda relatou o que acontecera
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aquela manh depois que ele sara para Vesey Park para confrontar Leona. Devin ouviu a tudo estupefato.
- Mas por qu? - perguntou, quando Miranda acabou de contar como Rupert a ameaara com uma arma, a deixara inconsciente com um golpe na cabea e a levara para a
abadia. - Por que tio Rupert quereria machuc-la?
- Eles acharam que eu estava prestes a descobrir o segredo deles, embora eu tenha sido to estpida com relao a isso que fico me perguntando se teria mesmo descoberto
tudo. Em resumo, eles o estavam traindo, Dev. Creio que devem estar desviando dinheiro da propriedade h anos e fingindo que ela no era rentvel. O fato  que s
voc estava ficando sem recursos.
Ele a encarou.
- No acredito. A propriedade era prspera, no fim das contas?
- Acho que sim. Eu sabia que os registros estavam incompletos. Pensei que era devido s limitaes do sr. Strong... por ele ser um mau gerente. Na verdade, ele era
muito esperto. Talvez eu o tivesse pego se no estivesse to, bem, concentrada em voc, mas no sei ao certo. De qualquer modo, eles estavam com medo de que eu descobrisse
tudo. E no queriam que visitssemos a montanha Apworth.
- O qu?
- Foi algo que Rupert disse quando estava falando sobre por que tinha de me matar. Ele construiu minas em sua propriedade a respeito das quais voc no tem o menor
conhecimento.
- No consigo absorver tanta informao.
- Eu sei.  to bizarro. - Miranda tremeu. -  impressionante at onde as pessoas podem chegar por dinheiro. Rupert
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pretendia me matar. - Ela recostou-se no peito de Devin. - Mas ento, felizmente, voc apareceu e me salvou.
- Era o mnimo que eu podia fazer, meu amor - disse ele, suavemente, afastando-a e olhando-a nos olhos. - Afinal, voc me salvou.
Devin baixou o rosto para beij-la e, com um suspiro de felicidade, Miranda rendeu-se aos lbios dele.
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Eplogo

Miranda levantou-se e alongou o corpo. Empurrando a cadeira para trs, saiu do escritrio do gerente e trancou a porta. Atravessou o jardim e seguiu em direo 
casa principal. Estava tudo quieto em Darkwater agora que o dia estava terminando e os martelos e serrotes dos trabalhadores haviam cessado. A restaurao da casa
ia muito bem, mas Miranda tinha de admitir que ficaria feliz quando ela e Devin fossem em lua-de-mel para a Itlia e no tivesse mais de ouvir os barulhos dos trabalhadores
reconstruindo a casa. Os dois j teriam ido h algum tempo se ela no tivesse sentido necessidade de passar o ltimo ms certificando-se de que os assuntos relacionados
 propriedade estavam todos em ordem.
Mas agora estava tudo organizado, pensou, e pde desviar sua ateno para a arrumao das malas. Alm disso, Joseph e Elizabeth haviam voltado no dia anterior de
sua viagem  Esccia. Desta forma, o pai poderia se ocupar das restauraes agora, enquanto Miranda e Devin passavam os quatro meses seguintes viajando.
O tempo, sabia Miranda, curaria todas as feridas. Poderia e iria perdoar Elizabeth pelos ataques a Devin. Mas tudo havia sido muito menos estranho com Elizabeth
fora no ltimo ms. Seria mais fcil para todos, tambm, lidar uns com os outros aps mais alguns meses. Devin passara o ms conhecendo melhor
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a filha, ainda que, obviamente, no houvesse dado sequer uma dica para Vernica - e jamais o faria - de que ela fosse algo alm de sua cunhada mais jovem.
Rupert e Strong foram para a priso. Miranda sugeriu que os deixassem emigrar para uma das colnias para evitar escndalo na famlia, mas Devin insistiu em entreg-los
s autoridades.
- Eles tentaram mat-la - disse-lhe, os olhos claros e inflexveis como pedras. - Se no fossem para a priso, eu no poderia deix-los viver. - Miranda ento concordou
rapidamente que a priso era a soluo.
Subiu as escadas e percorreu o corredor at o estdio de Devin. Era l que costumava ser encontrado. Ele se virou ao ouvir o som dos passos da esposa e sorriu.
- Miranda. Venha ver. Terminei seu retrato.
Miranda sorriu e aproximou-se obedientemente para olhar. Era o quinto retrato que ele acabava e, de acordo com Devin, este era seu favorito. Ficaria pendurado, ele
decidira, no hall de entrada da casa. Na pintura, Miranda usava um vestido vermelho-sangue, destacado sobre sua pele alva. Assim como todas as pinturas de Devin,
esta era repleta de luzes e cores, o que fazia com que parecesse mais bonita do que realmente era, pensou Miranda. No entanto, nunca reclamava com Devin a respeito
de suas pinturas nesse sentido.
-  adorvel - disse-lhe Miranda, passando o brao na cintura dele.
- Ainda no consegui capturar aquela qualidade - disse ele, analisando a pintura.
- Que qualidade?
- A qualidade que  nica em voc. - Ele sorriu para ela. -  por isso que continuarei tentando.
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- As pessoas vo acabar se cansando de voc pintando meu rosto sem parar - provocou ela.
- Ah, mas veja bem, essa  a beleza nisso tudo. Eu no me importo. No tenho de vender minhas pinturas. Sou, no fim das contas, um homem rico. Voc mesma me disse
isso.
- De fato, voc  - concordou Miranda. - Creio que coloquei todos os assuntos da propriedade em ordem agora.
- Bom. O que significa que podemos partir para a Europa em breve.
- Voc quer ouvir o valor total de seus bens? - perguntou Miranda.
Devin sorriu para ela.
- Isso no ia significar muito para mim. Acho que devo deixar tudo nas suas hbeis mos.
- Foi esse tipo de atitude que o colocou em maus lenis, para comeo de conversa - brincou Miranda.
- Ah, mas a diferena  que posso confiar em voc.
- .
- Amo voc - disse ele, simplesmente, e inclinou-se para beij-la.
Miranda pegou sua mo e eles saram do estdio, percorrendo o corredor para se vestir para o jantar.
- Sabe, o lado irnico de tudo  que Strong era, na verdade, um bom gerente. Sua propriedade prosperava como no o fazia havia anos. As fazendas estavam produzindo
aluguel suficiente para voc viver bem. E ele fez um contrato com uma empresa de carvo para minerar suas terras, o que fez de voc um homem muito rico.
Eles chegaram ao quarto de Miranda e entraram. Miranda virou de costas para Devin e ele comeou a desabotoar seu vestido.
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- Voc j se deu conta de algo? - perguntou ela. - Voc tinha dinheiro suficiente. Nunca foi de fato necessrio que se casasse comigo.
- Ah, sim, foi sim - ele a contradisse, inclinando-se para dar um beijo na base de seu pescoo. - Foi muito necessrio... para minha felicidade. Eu poderia ter todo
o dinheiro do mundo mas, se no me casasse com voc, jamais teria conhecido o amor.
Miranda virou-se e olhou para ele, deixando o vestido deslizar por seus braos e cair no cho a seus ps.
- E voc o conhece agora?
- Ah, sim. - O sorriso dele era brando e promissor. - Tenho uma intimidade muito grande com o amor agora.
- Ento, por que no me mostra? - perguntou Miranda, elevando os braos pela frente da camisa dele e envolvendo-os no pescoo.
Devin puxou-a mais para perto, baixando os lbios nos dela.
- Ser um prazer.
Candace Camp
Trilogia dos Aincourt
LivroII - O castelo sombrio
Richard, o duque de Cleybourne, retorna para seu castelo no campo em profundo estado depressivo pelas mortes da esposa, Caroline Aincourt, e da filha do casal. Ele
planeja cometer suicdio, mas  interrompido pela chegada da jovem Gabriela, agora sua pupila, e da governanta da menina, a destemida e exuberante senhorita Jessica
Maitland.
A atrao entre Richard e Jessica torna-se cada vez mais forte, at que um assassinato dentro do castelo os une na busca pelo culpado.
Mais um livro da Trilogia dos Aincourt, uma famlia cercada pela fortuna e ameaada por uma maldio.
